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Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

25/11/2007 13:52:35
O MATE DO JOÃO CARDOSO
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Quando o velho João Cardoso sentiu a mala dos anos posando na garupa, tratou de encurtar o trote e seguir, depois, ao tranquito. E lá um belo dia se dispôs a puxar das rédeas e apear. Já tinha trabalhado muito – piasote, ainda, ensilhara o petiço que o padrinho lhe dera e se tocara pelo mundo - e chegava o momento de soltar o matungo da vida na Invernada do Descanso. Mas para alguma cousa servira ter trabalhado como um mouro, anos a fio; primeiro de mensual nas estâncias, e depois tropeando, carreteando e até contrabandeando, pois ao quebrar a encruzilhada da existência tinha uma boa ponta de reses e algum boliviano escondido no fundo dos baús. Agora, era vender o gado, juntar a plata, comprar algumas braças de campo e arrendá-las, deitando o papo pra riba pra o resto da vida. E foi o que fez... Daí a um tempo levantava um rancho perto do Passo Maria-Gomes e vivia atirado como capataz de estância grande. Também, homem de lei o compadre Juvenço! No fim de cada mês, o João Cardoso dele recebia, certinho, o dinheiro do arrendamento. Não era lá muito, mas sempre sobrava alguma cousa para de vez em quando dar uma volta até a cidade. E assim o velho João Cardoso recebeu o prêmio das canseiras do tempo de moço. Pitando e olhando a fumaça a bailar, passava o dia à sombra do velho umbu beira-de-estrada, à frente do rancho de pau a pique. Não tinha mulher nem filhos. De seu, só um negrinho que pegara da ninhada da Sia Bernardina, e que desde os sete anos vivia com ele. E não fossem pensar que não casara por falta de colhera!... Muito rabo de saia encontrara, nos velhos tempos, se desmanchando pra cima dele. Quando se botava no estique, até que ficava um moço bem parecido; e as tropeadas e carreteadas sempre davam para embarrigar a guaiaca. Mas se criara solito; e solito se dera bem toda a vida. Pra quê, então, arriscar uma rodada ensilhando um pingo que, por lindo que fosse bem podia ser passarinheiro? Agora, já de bigode salino, o velho João Cardoso continuava solito. Bueno, lá muito não, pois ninguém como ele pra prender um amigo por horas e horas, ouvindo casos; e mais que ouvindo contando, porque daquele viajar sem fim pelos caminhos do Rio Grande ele trouxera, de recordação, uma ponchada de histórias lindaças. E companheiro com quem prosear nunca faltava. Principalmente ali, no Maria-Gomes, à beira da estrada, pertinho do Passo - cruzada de contrabandistas, pouso de carreteiros e caminho certo dos tropeiros levando gado prás charqueadas. Assim, era só abanar de longe, e tentear o andante com a sombra frondosa do umbu: - Apeie-se, amigo! - gritava ao desconhecido. - O sol está quente e nada melhor do que um mate pra dar uns sofrenaços na sede! À voz de mate o gaúcho sentia a garganta encolher como gato em peleia. A sede era bruta, e ainda havia muitas quadras de estrada a enrodilhar, debaixo daquele sol pesado como guaiaca de mascate. E o andante até ficava sorrindo pra ele mesmo, agradecendo aquele chimarrão caído do céu... Apeava, atava o zaino à sombra, batia o pó das bombachas e se achegava ao dono do rancho. - Se abanque, no más, que está em casa... A passeio? - indagava o João Cardoso, puxando prosa. - A passeio propriamente não. Estou voltando de Bagé, onde fui tratar da venda de uma lã. Como o negócio está prometendo, resolvi haraganear mais um dia, por conta, e vou rumbeando à casa do seu Xandico, no Serro Alegre, companheiro velho que há muito tempo eu não vejo... - E como é? Que tal está se parando o negócio da lã? - Buenacho! Veja que... E as notícias começavam a desfilar. Naquele tempo jornal era cousa muito rara na campanha, pouco se sabia do que ia acontecendo pelo mundo afora, e o único remédio pra se ficar a par das últimas notícias era convidar um andante, vindo das bandas do povo, que apeasse e descansasse um pouquinho. Isto era justamente o que o velho João Cardoso fazia sempre, oferecendo um mate em troca de novidades. Por sinal que o mate custava a aparecer: - Nenê! Ô, Nenê! - gritava o João Cardoso para o fundo da casa. - Traz um amargo aqui pra o compadre, que está com pressa! Os lábios do visitante ressequiam ainda mais e seu olhar se estendia, lamurioso, pra porta do rancho, esperando a toda hora que o tal Nenê aparecesse, com a cuia numa mão e a chaleira na outra. Enquanto isso, os casos iam desfilando: - E sobre a política, o que é que falam na cidade? O intendente não se agüenta muito, hein? Neste andar que vai indo é um-dois-três e já lhe pelam a coruja... Que lhe parece? E nada do mate chegar! Notando a inquietação da visita, o seu João Carlos tornava a gritar: - Ô, Nenê! Traz o mate duma vez, Cousa-Ruim! Anda!... Lá do fundo do rancho vinha a voz do negrinho:
 - Já vai, patrão! Mas nada de vir. E os casos prosseguiam: - Não ouviu falar nada daquilo que houve com a filha do major Fontoura?... Pois é... quem haverá de dizer! Uma morena macanuda... família tão distinta... Mas é isto mesmo: o diabo nunca escolhe cancha pra atar carreira. E... em que deu tudo aquilo? E enquanto a visita explicava, o dono da casa gritava mais uma vez: - Cadê esse mate, desgraçado? Onde é que te meteste, crioulo? O negrinho chegava, olhos branqueando no rosto retinto, e - cancheiro velho! - cochichava alguma cousa ao ouvido do patrão... - Mas deixa de ser sem-vergonha, crioulo! - explodia o João Cardoso. - Pois recém veio erva da venda. Está na mala-de-garupa, no meu quarto! E apura com esse mate!... Já meio desconfiado, o andante olhava o cavalo e se aprontava pra seguir viagem: - Bueno... o suor do zaino já secou e eu vou andando, que o tirão é grande... - Ih! que esperança, amigo velho!... Nenêeee! Anda duma vez, desgranido, que o compadre está com pressa! E a charla continuava, desta vez tocando ao dono da casa conversar, pois o visitante não tinha vontade de mais nada, a não ser dar dois beijos na bomba do chimarrão e seguir viagem. E a secura na garganta até parecia aumentar com aqueles gritos de mate e mais mate. Daí a um tempito, o visitante não agüentava mais: - Bueno, Seu João, eu sinto muito, mas vou indo. Bombeie o sol descambando pra o cerro. O senhor sabe que neste tempo a noite não espera muito pra chegar. Me vou! - Não, não, que esperança! O amigo não sai do meu rancho sem tomar um amargo, que é de erva recém chegada! Nenêeee! - Ora, não precisa se incomodar, Seu João. Fica pra outra vez... E já de pé no estribo, repetia: - Numa outra cruzada, com mais tempo, eu venho matear a-lo largo. Não se incomode... - Não é incômodo nenhum, ora!... E ainda está em tempo, compadre. Ô, crioulo! Anda com essa cuia!... Mas o andante já ia cruzando a porteira, a galopito. E, de mate nem o cheiro... O velho João Cardoso, porém, ficara a par de muita novidade. E conseguira, ao menos por aquele dia, abafar a solidão de seu rancho com uma boa ponchada de causos... O mate do João Cardoso! Promessa Jamais cumprida...

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  Autor: João Simões Lopes Neto
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Causo popular em todo o Rio Grande do Sul, publicado por João Simões Lopes Neto, na obra Contos Gauchescos e Lendas do Sul e extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Fonte: www.riogrande.com.br Obs.: Por isso o ditado: "Mais demorado que o mate do João Cardoso".

 
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17/09/2014 19:32:36 André - E.V / RS - Brasil
Muito criativo p/a época.
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06/05/2008 11:36:04 caroliana fernandes - rio de janeiro / RJ - Brasil
É uma história interessante, mas comprida de mas da conta...
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24/04/2008 13:55:22 davi - areia branca / SE - Brasil
Eu queria saber um pouco de vc, porque estou fazendo um trabalho sobre vc...
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