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10/12/2007 22:23:11
O MATE DO ALEMÃO
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Foi lá por aquele tempo em que o Uruguai era banhado e o Imperador andava caçando pinto com boleadeira de sabugo, que chegaram ao Rio Grande os primeiros colonos. O parador grande era pelos costados de Porto Alegre, mas em pouco tempo a alemoada foi-se desgarrando, até dar no que se vê hoje: se esparramaram por tudo quanto foi rincão, se misturaram lindo com os nossos, e já existe muito guri tirante a índio - cabelo negro e liso - mas pintando no azul dos olhos o sangue das Orópias. Por sinal, o primeiro alemão que estourou por estes pagos foi um lombilheiro, alto como vôo de corvo, magro como solitária, arisco como galinha-d'água e sério como tamanco. E lombilheiro bueno, le digo! Saía cada pintura de apêro que só vendo!  Mas, se o homem tinha a idéia clara para fazer lombilhos, andava de mal com a inteligência no que tocava a falar a nossa língua. Oigale engrolação dos diabos! E bem que tinha interesse em aprender: perguntava isto, indagava o nome daquilo, forcejava por repetir certo, forcejava... forcejava... mas era o mesmo que querer tirar leite de vaca machorra. Pra o causo, o professor dele era um piasote, filho da viúva Fagundes. E le digo, não podia estar pior servido, pois se havia guri alarife neste mundo estava ali! Olho vivo e pata ligeira, sabia logo encontrar o lado de chegar, em tudo. Mas trabalhador, que era! Desde novito foi fazendo pela vida - a viúva, com a morte do Januarinho, ficara mais pobre do que rato de igreja - e no despontar o buço já ajudava lindo nas despesas da casa. Lá um belo dia deixou o pago, e quando voltou foi sempre distribuindo plata, arrendou uma boa extensão de campo, e trazia a mãe sempre retovada de vestido lindo. No fundo, era um sujeito bom como remédio... Mas - isto não! nunca deixou de ser trarbuzana!... Pra fechar um salseiro não estava com voltas! Nem pra levantar uma china na garupa, nos rancherios da Faxina, debulhando ferro com os retalhados que se sentiam picados! Saia cada berzabum que nem le conto!... Mas eu sei dizer é que terminou um homem rico e respeitado. Terminou sendo, o “coronel” Fagundes, tronco dessa Fagundada toda das bandas do Salso. Mas veja você que já estou me espichando que nem minhoca em terra lavrada. Voltemos ao causo do alemão... Como eu dizia o Neco - naquele tempo nem se pensava que ainda ia ser um dia o “coronel” Fagundes - era o ordenança do estranja. Logo que o lombilheiro chegou a esta vila já começou a se encher dos cobres - trabalhava mui bem! -, e o Neco tratou de ir se enfiando como pulga em costura. Foi prestando um servicinho aqui, outro ali, como quem não quer nada, e daí a uns dias o alemão lhe empregava de fiche. No começo era entregador de encomendas, limpador de casa e o mais; mas já depois de um mês era meio capataz do negócio: com ele é que a freguesia se entendia, pois o alemão não bispava nada em nossa fala. E o Neco se aproveitava disso, imagine, e muito se divertia à custa do patrão. Lhe pegava cada trote, na maciota, caborteiro, que só vendo!... Mas lá um belo dia se saiu mal com uma de suas brincadeiras; foi despedido, e por pouco que o alemão não lhe passou o relho. Por sinal que a cousa só veio a furo muito tempo depois do sucedido, quando o lombilheiro começou a entender bem a nossa língua, e descobriu que tudo não passara de artes do guri. Eu le conto... Notando que a gauchada e todo o pessoal da vila costumava tomar uma certa bebida por um canudinho de metal, numa cuia, o alemão ficou curioso e foi logo pedir explicações ao ordenança. - Ma-te! - respondeu o Neco, separando bem as sílabas pra o ruivo entender. - Ma-te ou chi-ma-rrão. Isto aqui é a cuia... isto a bomba... isto a erva... - O cuia, o pompa, o errfa... - repetia, interessado, o lombilheiro. E lá seguiam as explicações, arrastadas como muchacho e repetidas como sermões de padre. Pra finalizar, disse o moleque: - ... e quando a gente não quer mais, é só dizer “mais quente!”. Entendeu? - Iá! Iá! - Repita, então. - Mais quente... mais quente... mais quente... - Muito bem! - o guri mostrava os dentes, já gozando as conseqüências daquilo tudo, e rematava: - Está pronto, agora, pra experimentar um chimarrão! No domingo seguinte, o lemão foi visitar a um dos moradores da vila, o bolicheiro Souza, seu melhor freguês e revendedor prá peonada das estâncias vizinhas. Apresentações da mulher e filharada, embrulho de palavras, risadas sem que nem pra que, todos procurando resolver da melhor maneira possível aquele problema de “conversar” com o alemão. E lá ficou a família na sala, sem saber o que fazer. Foi quando, para descanso de todos, e especial alegria da visita, surgiu uma criada com o mate. Chegava o esperado momento do ruivo experimentar um amargo! Entusiasmado, o alemão levou a bomba aos lábios, foi chupando despacito, provando, tomando gosto e... gostou! Lá veio mais uma cuia, outra, mais outra, e quando o ruivo chegava pela décima resolveu parar. Atenciosamente, virou-se para a criada e falou: - Mais quente... A criada não esperou um instante: logo pegou da chaleira e retirou-se da sala. Mas eis que, pra espanto do alemão, daí a pouco voltava, alcançando-lhe novamente a cuia do amargo. “Deve ser um costume da terra tomar mate duas vezes” - pensou o alemão, na língua dele. E, sorridente, resolveu seguir o tal costume. Mas uns dois mates, e novamente ele se curvava, respeitoso, e agradecia: - Mais quente!... Foi um espanto geral. O dono da casa sorriu, sem jeito, e procurou contornar aquela situação embaraçosa mostrando ao visitante umas esporas prateadas que enfeitavam a sala, relíquia da família. E ficou sorrindo por fora... pois lá por dentro de roí de vontade de mandar o alemão tomar mate mais quente na terra dele. Enquanto isso, chaleira na mão, a empregada se retirava, estabanada, da varanda. “Veja só que alemão sem-vergonha! - pensava. - Vem tomar mate na casa dos outros, e achando sempre ruim, sempre frio, e mais quente e mais quente!... Espera, que eu te dou “Mais Quente!”. Passados minutos, retornava a chinoca, oferecendo um novo mate à visita. O alemão olhou a cuia, olhou a criada, olhou o dono da casa, tornou a olhar para a cuia, e, sem entender muito daquilo, resolveu tomar o último chimarrão. Mas, mal tocou os lábios na bomba, e já saltava do banco, urrando de dor, olhos saltando das órbitas. E gritando e chingando, numa falatéia que ninguém entendia, envolveu a empregada com um olhar transbordante de ódio: - Prassileirro purra! - gritou. - Mais quente! MA-IS QUENTE, oufiu? Enquanto o bolicheiro olhava espantado aquela cena, e a criada saía correndo da varanda, o alemão batia a porta da frente com estrondo. E lá se foi pela rua afora, gritando sempre. Nunca mais apareceu na casa do amigo... e nunca mais tomou um chimarrão...

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  Autor: Causo popular na Fronteira Uruguaia
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Fonte: www.riogrande.com.br

 
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