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Walther Morais:
No Arremate do Dia

 

21/12/2007 13:31:08
COMIDA DE MATE
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Um mascate nortista, cansado de tentar a sorte em seu Estado natal, resolveu rumar para o Rio Grande do Sul, onde as campanhas desertas ofereciam esperanças de melhor negócio. Quando transmitiu este seu plano aos amigos, eles apoiaram a idéia, mas não deixaram de fazer uma importante recomendação: - Mas muito cuidado, velho! Cuidado com os gaúchos, pois são gente de faca na bota, como dizem por lá. Andam armados até os dentes, e por dá cá esta palha estão furando barriga. Cuidado! Mas ele não se ia assustar por tão pouco! Haveria de saber lidar com os gaúchos!... Assim, arrumou as malas e se tocou para o Sul. No Rio Grande, o seu primeiro contato foi com a capital. Não encontrou bombachudo algum, nem sequer gente de fala grossa e modos de valentão. Tudo mentira a história dos gaúchos! Mas três dias depois, começava a trabalhar. Carregou-se de mil e uma bugigangas e seguiu para uma cidade do interior. Ali comprou dois burros, montou num e aproveitou o outro como cargueiro... e se tocou pela campanha adentro. Foi quando começou a conhecer a gauchada. Ia cruzando, pelo caminho, por cavaleiros imponentes, chapéu quebrado na testa, lenço esvoaçante, revólver brilhando na cintura. Nos ranchos a que chegava, o voto de boas-vindas era dado pela cachorrada enorme, ladrando furiosa e mordendo a cola do burro. E na primeira venda em que parou, ao pedir um cigarro a um dos muitos que ali se encontravam – desculpa pra iniciar conversa e depois entrar na oferta das mercadorias – chegou a empalidecer quando, ao mesmo tempo que lhe alcançava um todo de fumo, o homem puxou da guaiaca uma dois palmos que até parecia espada, e falou, numa voz de trovão: - Pique, no más! Tudo aquilo, acumulando-se, fez o mascate recordar a recomendação dos companheiros: - Muito cuidado com os gaúchos! Por dá cá esta palha estão matando gente... Mas o nortista ia se dando às mil maravilhas entre os sul-riograndenses. Naquela primeira semana que passara na campanha, ganhara mais dinheiro que num mês inteiro batendo no rancho dos sertanejos de sua terra. Os campeiros do Sul sempre tinham alguma prata na guaiaca, e davam um dente por um espelhinho com retrato de moça ou um tubo de brilhantina bem cheirosa. O gaúcho não é ruim não! – exclamava o mascate para si mesmo. Logo, porém, acrescentava: Mas seria muito melhor se não usasse aquele chapéu de aba larga e pistola na cinta... Aquelas pistolas e aquelas adagas é que lhe tiravam o sossego. Já estava há uma semana entre a gauchada, e não podia se queixar de nada. Mas – tinha certeza! – a primeira vez que se desacertasse com um malvado qualquer... nem era bom pensar! E eis que, para aumentar a tensão nervosa do mascate, rebentou por aqueles dias a revolução de 23. Era só gente gritando nos bolichos, era só notícias de peleias brabas, era só aqueles grupos de voluntários levantando polvadeira nas estradas rumo aos acampamentos revolucionários. E o mascate no meio daquilo tudo! Santo Deus! Uma tarde, cruzando os campos da Serra, o mascate se perdeu por um emaranhado de caminhos, e já nem sabia por onde andava quando – noite fechado – se encontrou á frente de um rancho. Havia luz lá dentro: sinal de gente. O melhor era pedir pouso por ali mesmo. E, cabresteando o cargueiro, chegou ao terreiro da casa. – Oh, de casa! Boa noite! No mesmo instante, apagou-se o lampião que aluminava o rancho e se fez silêncio completo. Novos gritos. Nada. E o homem já estava com a alma na boca, sem entender aquele mistério, quando alguém abriu uma das janelas e indagou quem se encontrava ali. O mascate explicou quem era e o que estava fazendo, perdido naqueles campos. Desceu novamente sobre o terreiro um silêncio de morte. Para cortá-lo, gemeu a porta do rancho, e desenhou-se no escuro o vulto de um homem trazendo á mão um revólver – aquilo brilhava até de noite! Calmamente, o homem aproximou-se do mascate, observou o burro, voltou-se depois para o cargueiro, bateu nas bolsas de couro e enfim, baixando a arma, falou: - Apeie e passe pra dentro, amigo! Que alívio! O mascate limpou o suor da testa e apeiou. O lampião fora novamente aceso, e ele pode ver quem eram os estranhos habitantes daquela solidão. Recostando a uma mesa, com a cara reluzente alumiada de perto pelo lampião – a luz vinda de baixo enchia o rosto de sombras – achava-se um negro de avantajada estatura. E, ali ao lado do mascate, o homem que o recebera, com espessa barba a cobrir-lhe boa parte do rosto. – Se abanque­ – ofereceu o barbudo, apontando o cepo. E logo continuava – Peço que me desculpe estes modos de tratar. Mas o senhor sabe: a revolução anda prendendo fogo nestes campos e muita gente se aproveita da balbúrdia. Nunca falta um desalmado, nessas ocasiões, pra fazer das suas. Por isso nos enchemos de mil cuidados. Eu e o Tuca – o crioulo esse – vivemos solitos neste fundo de invernada, cuidando o gado de seu Pedro Prestes, e temos de resguardar o nosso couro por conta própria. Dizer que até o Cuidado, o cusco, morreu traz-antontem, mordido de cruzeira!... Até isso pra nos deixar ainda mais desamparados! Porque, lê digo, o rancho mais perto daqui fica obra de légua e pico... Um fim de mundo! Nem sei como o senhor veio bater com os costados por aqui... Ainda meio desconfiado, o mascate explicou que viajava guiado apenas por informações. Não conhecia nada daquelas paragens, Pois era do Norte. – Bem me pareceu, pela voz, que era de pago estranho – interrompeu o campeiro. – Mas não faça cerimônia: está como se fosse em seu rancho! – Obrigado – o e mascate já se sentia mais dono de si. – Bem... mas me dêem licença, que eu vou descarregar o burro... – A vontade, companheiro! E pode botar a carga aqui mesmo. É bem resguardado do sereno... Agradecendo a gentileza – mas com a voz ainda meio arrastada – o mascate retirou-se da saleta e começou a descarregar o cargueiro. E já ia levando as bolsas para o rancho quando, por uma fresta da parede de barro, ouviu, num fim de conversa, o posteiro dizer ao negro: - Muita cousa deve trazer esse mascate... E quem sabe se não vamos sair lucrando com a pousada?... Vamos tratar bem o homem. Assim, enquanto eu puxo conversa, vá preparando as cousas: lhe dê bastante comida, e depois mate! À voz de matar, o mascate não teve dúvidas: largou suas bugigangas no chão, correu ao burro – graças a Deus não o desencilhara ainda! – e descascou-lhe o rebenque. Com o barulho do trote largo, corrêramos dois homens à porta do rancho. Mas o bater dos cascos já ia longe... E, até hoje, o posteiro do seu Pedro Prestes não sabe explicar porque o mascate saiu disparando de seu rancho e deixou, de presente, sem que nem pra quê, toda aquela carga de fazendas, brilhantinas cheirosas e espelhinhos com retrato de moça... Nem desconfiara aquele campeiro que o mascate nortista não sabia que também se chamava de mate aquela bebida quente que os gaúchos tomavam a toda hora e a todo instante: o chimarrão!

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  Autor: Causo registrado por Barbosa Lessa
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Fonte: sítio riogrande.com.br

 
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