Usuário:
 
  Senha:
 
 

:

 

29/12/2007 21:01:28
UMA VEZ, UM CACHORRO!
............................................................................

O cachorro, segundo um adágio que os gregos já conheciam, é o melhor amigo do homem. Os gaúchos das Missões e Fronteira concordam. Mas explicam o porquê: é que cachorro não rouba china de rancho, se alimenta de restos e se contenta com um simples osso de fervido. Além do que, cuida da casa sem cobrar salário. Pois há um cachorro nesse causo. Grande, pêlo negro-manchado, os dengues do seu dono - um fazendeiro de meias posses com estância nos campos de areia de São Chico de Assis. O cachorro esse não era de caçar preás, como os guaipecas de sua raça; não pegava ratos (coisa para gatos...); comia ao pé do dono e tinha lá seu pedigree. Não se misturava com os demais da estância, só ia ao campo quando o dono o convidava com um jeito de assobiar que só ele conhecia. Mas bueno. Sucede que na estância essa chega uma tarde um moço bem apessoado, vestindo pilchas de bom pano. Montava um rosilho cabos negros e trazia um cavalo de escoteiro. Notava-se, logo, ser gente de viajar bastante. O dono da estância já o esperava. Chegara-lhe um recado, um dia antes. O tal moço, das bandas de Cruz Alta, estava a comprar bois gordos nas Missões. - Buenas, senhores! - saudou de cima do rosilho. - Boleie a perna e se chegue, amigo! O mate recém foi cevado. Apeou-se o forasteiro. Atou a montada pelo cabresto e dirigiu-se ao galpão de fogo. O estancieiro de São Chico adiantou-se. A seu lado, rente às bombachas, o cachorro. O moço entreparou. Deu um vistaço geral no ambiente, seus olhos de gavião mouro deram com o cachorro, que nesta altura já rosnava, mostrando o branco dos dentes. - Seu cachorro não tem cara de bons amigos, cidadão. Quem sabe o senhor o ata na corrente ou pede a um peão para prendê-lo? - Nem se preocupe, amigo. Vá chegando no mais que eu garanto que o Negro não lhe salta. É que ele é um pouco nervoso. O moço deu mais dois passos, o rebenque pendurado no pulso pelo tento do fiel. Aí o cachorro rosnou mais forte e arrepiou o pêlo do lombo. - Segure seu cachorro, meu amigo. Com bicho desse porte não se brinca. - Passe, passe no mais. O cachorro é ensinado. A um grito meu ele se entoca no galpão. Não tenha medo. - Prevenção não é medo, meu amigo. No dia que eu fugir de um cachorro mando cortar os meus bagos pra lingüiça. - O Negro... Não acabou o dono de terminar o que iria dizer e o cachorro saltou sobre o moço. Este, já prevenido, quebrou o corpo e, rápido como um bote de cruzeira, apanhou o cachorro por uma das pernas. Foi pegá-lo e baixar-lhe o rebenque, com tanta raiva e força que o Negro - o mimoso do patrão - mijava em arco e ganiçava como um desesperado. Um último rebencaço apanhou-o por entre as orelhas e, se é que cachorro desmaia, o Negro desmaiou. Caiu como um trapo junto às botas do serrano.  O dono do cachorro abespinhou-se. - Mas que barbaridade, seu! Surrar um cachorro deste jeito. Pode até ter matado o animalzinho! - Animalzinho, é? Com um metro de altura? Com essa boca de engolir mogango? - Bueno, eu mando passar salmoura no cachorro. Mas agora passe. Vamos tratar do negócio dos bois. Qual seu nome, mesmo? - Não interessa mais, cidadão. Nem quero saber o seu. Já montado, casaco aberto para mostrar os "ferros", arrematou: - Homem que não manda num cachorro não merece confiança de ninguém. Faça bom proveito dos seus bois. Deu rédeas ao rosilho e saiu assobiando, como cruzeira na cria!

............................................................................
  Autor: Aparício Silva Rillo
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Da obra Tradição Oral do RS, publicada por Aparício Silva Rillo

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
Untitled Document