Usuário:
 
  Senha:
 
 

:

 

03/01/2008 14:59:55
O DUELO
............................................................................

              O tordilho batia cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

               Era sempre assim. O cavalo e ele sabiam de cor e salteado o caminho de volta aos pagos. Por vezes, parecia até que o matungo adivinhava seus pensamentos: O rumo do rancho, ao pé do cerro grande. O abraço da china velha, largo em saudade. O amor sem idade, no coração feliz. O alvoroço dos piás, catando caramelos nos bolsos fundos das suas bombachas. A festa dos cuscos das casas, lhe esperando na porteira.

                As lembranças batiam cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

                Finado Amarante, antes de se tornar finado, era tropeiro. Diz que dos mais afamados daquelas bandas, desde o arroio Ibirocai até a costa do Toropasso. Na verdade, era apenas mais um em terra de muitos e bons tropeiros. Sabia disso, mas gostava por demais da sua lida. Nunca extraviara um bicho sequer em anos e anos de idas e vindas tocando tropas por diante. A china velha, zelosa, volta e meia rezingava com ele dizendo que tinha mais cuidados com o gado do que com ele próprio. Mas, esse era o seu trabalho e isso era a sua vida. E nem sol de fogo ou chuva de pedra. Nem seca braba ou enchente grande. Nada detinha sua sina de entregar a tropa ao dono, gorda e sã de lombo. Pois, mais do que seu ofício, era sua obrigação!

                O orgulho batia cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

                Finado Amarante, antes de se tornar finado, acostumara-se à rotina das tropas. Ao ritual chucro das reses. Ao berro triste do gado. Nunca fizera outra coisa em seus cinqüenta e pico de anos. Mas, esse era o seu mundo e só assim era feliz. Tropa entregue no destino e mais uma missão cumprida. "No mas", era dar de rédeas ao tordilho e repisar o caminho de volta ao aconchego dos seus, qual ave voltando ao ninho. O rumo do rancho. O abraço da china. O alvoroço dos piás. A festa dos cuscos.

                A saudade batia cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

                Agora, mais uma vez, voltara a ser patrão do seu tempo. A chuvarada de ontem transformara-se em garoazita de molhar bobo. E bueno, ele e o tordilho já eram vaqueanos dessas cruzadas de varar enchente a nado. Os dois conheciam bem os segredos e mistérios dos arroios da querência. Artérias pulsantes da pampa, serpenteando pelos campos, matando sede de bicho e gente, cumprindo sua singela sina de levar vida aos rios.

                Finado Amarante, antes de se tornar finado, aprendera a respeitar os arroios para assim poder vencê-los. Sabia bem onde morava o perigo dos redemoinhos e seus abraços traiçoeiros. Os mapas das correntezas com seus atalhos profundos e seus caprichos fatais. Conhecia cada arroio da querência como a palma calejada da sua mão. Naquele mesmo dia, já bandeara o Carumbé e suas tantas armadilhas feitas de pedras e águas. Já cruzara o Pindaí - um fiapo d'água nas seca, mas um gigante na enchente - que sabe se fingir de manso para afogar um vivente.

                Só lhe faltava varar o velho arroio Toropasso. Com seu Passo do Lajeado estrebuchando de água. Despontando além do mato. Furioso, invadindo campos. Voraz, devorando cercas. Na força da correnteza a mesma força da tropa. O arroio era o tropeiro!

                 A enchente batia cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

                 Pensou em apear do pingo e esperar mais um pouco. Pitar um ou dois palheiros, até as águas se amansarem. Total, já estava tão perto e o rancho era logo ali.  Ah!  Mas a saudade foi mais forte do que o medo da enchente... Mal convidou o tordilho e já se meteram n'água, velhos parceiros que eram de varar arroio a nado e sair do outro sem nem molhar os pelegos!

                 A enchente batia cascos num trote largo que, às vezes, quase virava em galope...

                 Uns dizem que foi descuido. Outros, que foi coragem demais. E alguns até condenaram as águas do Toropasso onde o finado Amarante de saudade se afogou. Restou a cruz de madeira no Passo do Lajeado, meio escondida na sombra dos espinilhos e touceiras de unha-de-gato, lembrando o último duelo entre o arroio e o tropeiro, num fim de tarde de Agosto. 

                  E até hoje, somente a china velha com seu coração de viúva sabe, mais do que ninguém, que o arroio não teve culpa.

............................................................................
  Autor: Silvio Genro
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
05/06/2009 13:13:25 osvaldo barão - porto Alegre / RS - Brasil
Parabéns! Li o conto com carinho. Hoje vivo em Porto Alegre. Conheço aquela Região e outras do Rio Grande, pois já fui tropeiro, ginete e outras lidas; me criei em Uruguaiana. Um forte Quebra Costela!
Sítio: *****
Untitled Document