Usuário:
 
  Senha:
 
 

Grupo Candeeiro:
Marcação

 

12/01/2008 12:45:44
RAFAEL PINTO BANDEIRA E O PINGO PRETO CABOS-BRANCOS!
............................................................................

Voltando-se e olhando para a várzea, lá embaixo, exclamou: - Olha o pingo preto cabos-brancos! Os dois olharam também e viram, destacado da tropilha que pastava, o lindo cavalo preto com as quatro patas brancas, objeto de admiração de Rafael desde o primeiro dia que espreitara a cavalhada do inimigo. Mesmo de longe, percebia-se se rum esplêndido animal, não só pela variedade do pêlo, mais pela estampa, a graça e a beleza dos movimentos. A tropilha ia lentamente se afastando do forte, os cavalos de cabeça baixa tosavam a grama alta. Os quatro pastoreadores pareciam conversar distraidamente. – Vamos arrebanhar aquela tropilha, Cabo Duro – disse Rafael de repente, com os olhos brilhantes.  – Querendo... – responde o outro, sem desfitar da cena lá embaixo. – Eiêiê!... Já tá o patrãozinho procurando fazê arte. Então pensa que é chegá, batê na boca e ir repontando a matungada? Não tá vendo os vigias lá no forte? Vão nos despejá chumbo na paleta. Isto é guerra, não é cavalhada! Ora já se viu! – Cala a boca, tição! Deixa de estar bracejando e berrando aí antes que nos descubram, condenado! Puxaram os cavalos para trás de uma grande moita de espinheiros e Rafael expôs o seu plano, que o cabo aprovou com um – Bueno! – Virgem Maria, isso vai dá uma lambança danada com esses belendengues! E eu que tou aqui pra lê cuidá! – comentou Gaudêncio, com as risadinhas de costume, pois viu que era inútil tentar dissuadir o moço. Montaram e começaram a descer o cerro, ocultos por ele e contornando-o na direção do forte, de modo a saírem entre este e a cavalhada que pastava na várzea. Ao chegar em baixo, atrás de um capão de vassouras vermelhas, Rafael recomendou, brincando: - Cuidado negro, não vai deixar te pisarem. E cutucando o rosilho com as esporas: - Vamos embora, seu Duro! Surgiram na várzea à meia rédea, enquanto Gaudêncio permanecia escondido no capão. Deitados sobre o pescoço dos cavalos, soltando gritos agudos que mais pareciam guinchos de enormes gaviões, era difícil saber o que pretendiam, cortando em diagonal o descampado, à igual distância do forte e da cavalhada. As sentinelas do alto da muralha de faxina e barro dispararam os mosquetes. Os quatro homens que cuidavam a tropilha a princípio ficaram espantados e depois três deles saíram no encalço de Rafael e do cabo tentando cortar-lhes a retirada. Aí o negro Gaudêncio cerrou perna no malacara e carregou direito sobre a tropilha. A umas quinze braças, levou a espingarda à cara e derrubou o homem que ficara. E aos gritos e relhaços foi repontando a tropilha, que disparou campo fora, de cola erguida, bem no rumo que o negro queria. Nesse meio tempo, Rafael e o Cabo Duro “sentaram” nas rédeas, obrigando os cavalos a dar resvaladas compridas no capim, e fizeram meia-volta para enfrentar os perseguidores. O da frente, distanciando dos outros por ter melhor montaria, era um indiático, com certeza correntino, com um lenço branco e encarnado atado na cabeça. Vinha quieto e ligeiro como uma flecha. Rafael ainda pode ver a ponta de lança em riste que relampejou ao sol e aqueles olhos pretos e frios que o miravam. Atirou o corpo para o lado até meia-barriga do cavalo, segurando-se nas crinas com a mão esquerda, e com a direita empurrou a espada, de baixo para cima. Quando o correntino passou por ele já ia morto, atravessado de lado a lado. Os outros dois tentaram escapar, dando de rédea, mas só um o conseguiu, porque o Cabo Duro alcançou o de trás com um tiro de garrucha. – Deixa, deixa, cabo velho! – gritou Rafael, vendo que ele queria perseguir o fugitivo. – Vamos, que o negro Gaudêncio já anda longe com a tropilha. E lançaram-se na direção do companheiro que, pala ao vento, reboleando sobre a cabeça o relho de açoitera, repontava, à disparada, os cavalos, rumo ao acampamento no outro extremo da várzea. Observando como ele guasqueava o malacara e lhe batia desesperadamente com as pernas na barriga, Rafael resmungou: - Negro relaxado! Garanto que esqueceu as esporas! Do forte surgiu um piquete, que vinha rachando, lanças erguidas, na esperança de retomar a cavalhada. Mas, era tarde. Em pouco Rafael e o cabo alcançaram Gaudêncio e viram, descendo uma das coxilhas onde terminava a várzea, um esquadrão amigo, que vinha atraído pelos tiros. Os do forte fizeram logo maia-volta. Ao tranquito, Rafael e os dois companheiros chegaram no acampamento repontando sessenta e tantos cavalos, entre os quais ia o pingo preto cabos-brancos. Dois dias depois, terminada a picada, deu-se o ataque, ao nascer do sol. 

............................................................................
  Autor: Conto de Darcy Azambuja
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Darcy Azambuja é um dos principais escritores regionalistas do Rio Grande do Sul. Professor da Faculdade de Direito e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade do Rio Grande do Sul e da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, ex-Secretário do Interior, Diretor de “A Federação”, e do “Jornal da Manhã”. No livro “Coxilha” há um conto intitulado Rafael Pinto Bandeira, que é um dos melhores do autor. Evoca a figura do grande Caudilho dos Pampas e, em certa passagem, como não podia deixar de ser, vem o elogio ao cavalo; o amor do gaúcho pelo Parceiro de Campo de Guerras do Gaúcho Sul-brasileiro. (LAYTANO, Dante de. Folclore do Rio Grande do Sul: levantamento dos costumes e tradições gaúchas. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1984, p. 125-127)

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
21/11/2008 10:50:59 Pedro Conceição Ocampos da Silva. Def.Público Aposentado - São Borja / RS - Brasil
Buenas! Tradicionalista desde menino, por volta de 1955, comecei a gostar dos trabalhos de Darci Azambuja. Parabéns pela publicação do conto "Rafael Pinto Bandeira e o pingo preto cabos brancos".
Sítio: *****
Untitled Document