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Os Filhos do Rio Grande:
Cheiro do Rio Grande,
de Darci Lopes

 

29/01/2008 13:14:10
DOMINGO PARADO
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Naquele domingo - tarde linda de primavera - o Chicuta não sabia o que fazer da vida.  As carreiras não haviam saído, porque o sub-delegado não dera licença, antes que chegasse o reforço da vila. "Um puIha! Com reforço e tudo a milicada fugia quando fechava o salseiro, e o subdelegado era o primeiro a meter as esporas no matungo... Uns pulhas!...”. Ir ao bolicho... “Fazer o que? Se não tinha dinheiro nem pra um trago de canha? Aquele maldito jogo de osso!... Nunca mais haveria de pisar numa cancha... Andava de mal com a sorte, e sempre o danado tinha de cair de culo. Cincoenta pilas numa sentada só, cuê-pucha!... Agora, até o fim do mês iria andar mais pelado do que barriga de cobra... Bom pra aprender!”. E o Chicuta cuspia forte, de raiva. O que fazer? E novamente as lamúrias tomavam conta do rapaz: “Oiga-le vida triste, a do peão de estância!... Não tinha mais pensar: quando o seu Morais cruzasse de volta, ele se tocava também, pra tropear. Tropeiro é que passa lindo: de pago em pago, dinheiro no bolso, chinaredo alvoroçado nas cidades... Mas peão de estância, ah-bom!” Maneado em pensamentos, de quando em vez alteando a voz em imprecações contra tudo, o Chicuta quase nem sentiu que montava a cavalo. Mas era sempre assim: quando faltava um passeio melhor, seguia pra o rancho do seu Basílio, ali nos Três Umbus; na falta de passeio melhor, sim, porque num domingo de primavera, cheio de sol, um índio se meter num rancho de velhos, é porque a cousa anda ruim, mesmo! Com tanta moça linda no vizindário!... Mas o Chicuta tinha por norte só falar com moça quando tivesse alguma “plata” na guaiaca. A vergonha que passara na vila, aquele dia, sem dinheiro pra pagar um refresco - vejam só, um refresco! - que a Ricota tomara!... Era de ressabiar... Por isso, nada melhor do que dar um dedo de prosa com o velho Basílio e a sia Francisca, mulher dele. Pelo menos, não passava aquele domingo tão solito... E lá chegou, ao rancho do velho veterano de 93. Na varanda ficou mateando, calado, enquanto o seu Basílio falava... falava... Mas o Chicuta quase nem lhe ouvia a voz: primeiro, porque aqueles causos todos, de tanto ouvir o velho repetir, ele já sabia de cor e salteado; e depois... aquela falta de dinheiro não lhe deixava com a mioleira em paz! Como é que um homem podia estar descansado, sabendo que ia passar uma ponchada de dias sem “plata” nem pra erva? Como é que ele iria ao baile na casa das Pereira? E a carreiras, adiadas para o domingo seguinte? Como é que ele agüentaria ouvir a voz dos arremates, sem um patacão na guaica?... Pedir dinheiro adiantado ao patrão, não pedia. Era até uma vergonha, pois não fazia dois dias que dera um rombo grande no ordenado. E quem sabe se pedisse alguns cobres emprestados? “Pra jogar osso, hein?” - perguntariam os companheiros, como sempre. Como se ele fosse um perdido pela taba! O que acontecia é que as poucas vezes que jogava se atolava até as aspas: depois que esquentava, não havia rédea que o sofrenasse. E lo babavam! Olhar grudado no campo que se estendia emoldurado pela porta do rancho, o Chicuta até se assustou quando o velho lhe bateu no ombro: - Dá licença, chê! O guri já vem vindo com as tambeiras, e eu vou ajudar a enchiqueirar os terneiros... Não é tanto a ajuda: é pra-mais impor respeito. Esses piás aproveitam o domingo pra correr a terneirada na mangueira, pialando aqui, derrubando ali, que não há lombo que aguente!... Não, não, muito obrigado! Não precisa ajudar... Fique, no mais... Eu volto, em seguida, pois a Francisca já está servindo um cafesito. Não se incomode e esteja a gosto... E o peão ficou solito, mais uma vez assaltado por mil pensamentos. Diacho! ainda por cima a sia Francisca, arrumando o café na cozinha, fazia, com as xícaras, um barulhinho igual ao das moedas pulando no fundo do bolso. Ah! quando o urubu anda de azar não há pau que o agüente! E o Chicuta pensava... pensava... pensava... De súbito, seus olhos se esgaçaram, espantados: encima do armário, ao lado de um retrato e à frente de uma capa de revista colada à parede, brilhava um par de estribos de prata. O mesmo par de estribos de sempre, que tantas vezes ele tivera nas mãos, enquanto o seu Basílio contava, com mais voltas que o rio Camaquã, como o recebera, presente do major Ataliba, em 93. Mas nunca aqueles estribos haviam brilhado um brilho tão lindo, tão esquisito, atraindo como boi-tatá! Estribos de prata... pura prata... Neste ponto, uma nuvem preteou os olhos do Chicuta... O que pensara, Santo Deus! “Se retirasse um só dos estribos, não dariam falta...”  Mas o que era aquilo? Roubar! Ele, Chicuta Meireles, homem incapaz de tocar nos pertences dos outros? Nunca, nunca!... Quando o velho Basílio voltou, encontrou a mulher discutindo com o Chicuta: Mas que é isso, meu filho? Tão cedo, assim? Que esperança! Tens de tomar um cafesinho com a gente... bolo frito recém feitinho, especialmente pra ti... Não podes fazer desfeita! Mas o moço não cedia. E gaguejando, nervoso, tornava, a explicar: - Me desculpe, dona Francisca, mas eu tenho de ir... Fiquei de aprontar umas cordas pra o patrão, ainda hoje, e quando dou minha palavra não há Deus nem diabo que me faça faltar ao prometido. Assim, fica pra outra vez... - Mas o café já está servido, Chicuta, é só um instantinho! - insistiu o seu Basílio. - Mas que bicho te mordeu, vivente? Não nos faça desfeita! - Não é desfeita, seu Basílio, mas eu tenho de voltar à estância. Me vou, que é tarde!... É uma pena! - suspirou dona Francisca, acompanhando o moço até o cavalo. – Mas, enfim, cada um sabe o tiro do seu pingo. Se não podes ficar... paciência! Há de te sobrar tempo noutro dia ... Aparece, pra gente prosear com mais calma. Nervoso, o peão achegou-se ao palanque, desenfiou o cabresto e se aprontou pra montar. Foi neste instante que a voz do velho Basílio estalou, como um rebencaço, em seus ouvidos: - Espere só um pouquito... Tome mais este mate... É pra o estribo... Chicuta voltou-se, olhos tomados de espanto. Sorridente, o dono da casa alcançava-lhe a cuia do chimarrão... - É pra o estribo - repetiu, sorrindo. Chicuta engoliu em seco. Espichou os lábios, mas não conseguiu sorrir. Havia um fogaréu percorrendo a galope a sua pele, de ponta a ponta. Não sabia o que fazer. Enfim, só havia um remédio: meteu a mão no bolso da bombacha e dele retirou o brilhante estribo de prata. - Ora, seu Basílio - gaguejou -, o senhor bem sabe que... que... eu peguei por brinquedo! Tocou a vez do velho Basílio abrir os olhos, espantado. E só voltou a si quando o estribo brilhava em suas mãos e o Chicuta, a galope, se sumia no canto do arvoredo... (O que o Chicuta não se deu conta foi que o mate que o velho Basílio lhe oferecia era o mate-do-estribo, aquele que o gaúcho toma antes de botar o pé no estribo, montar o cavalo e partir...)

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  Autor: Causo popular no Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina.
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: MATE DO ESTRIBO ou ESTRIVO é o último chimarrão tomado pelo vivente, antes de alçar a perna, montar o cavalo e ir-se embora. Por extensão, diz-se também do mate que se dá a quem já está de saída, a pé ou em qualquer condução. *Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Fonte: www.riogrande.com.br

 
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29/10/2011 17:56:50 Darci Éverton Dárgen - Porto Alegre, / RS - Brasil
Macanudo este CAUSO. Já vi situação real, bem parecida.
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30/03/2008 11:31:14 Hildemar - Contenda / PR - Brasil
Chicuta por certo não se lembrou dos versos de Jayme Caetano: "chupo mais um pra o estribo e campo afora me largo" e imaginou que seu Basílio reponsou o esconderijo do estribo. Gostei do causo.
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