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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

03/03/2008 21:57:08
JOTA VIEIRA
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Conheci na Vila de Lavras um gauchão destorcido. Foi a primeira vez que vi alguém vestindo chiripá. O Jota Vieira era solteirão. Na mocidade foi o tipo mais estourado que a vila conheceu. Filho de família riquíssima, botou tudo fora em extravagâncias das mais estranhas. Mulheres, cavalos e trago eram suas paixões. Filhos tinha muitos, fruto de suas aventuras. De uma feita, estávamos num baile na vila. Baile de tempo antigo era em casa de família. Eu e o Jota Vieira conversávamos. Da área da varanda, onde dançavam, olhávamos da janela os pares que passavam. Passou um par. O rapaz franzino, elegante. A moça de uns dezesseis anos, linda como uma flor do campo, daquelas pra ninguém botar defeito. O Jota Vieira tocou-me com o cotovelo e disse: - Aquela ali é crioula da minha marca... seu! Foi feita debaixo das verdes ramas. Entendi que a moça era filha dele. “Debaixo das verdes ramas”. Talvez alguma aventura embaixo do arvoredo. Assim era o Jota Vieira. Contaram estas dele. Sempre andava bem montado, pelas ruas da vila. Tomava uns tragos, ficava alegre. Um dia esbarrou o tordilho na porta duma loja. – Qual é o melhor perfume que vocês têm aí? – Temos este... é francês! – Quanto vale? – Cem mil réis. Um bom dinheiro na época! – Me dá dois vidros. Correu a guaiaca. Pagou. Foi lá fora, onde estava o cavalo, atado pelo cabresto na argola da calçada. Abriu um vidro. Derramou nas crinas do tordilho. Abriu o outro e sacudiu na cola do matungo. Montou e seguiu a trotezito para a casa da namorada. E assim foi botando fora a fortuna da família. De outra vez, entrou numa loja de fazendas e perguntou: - Qual é a melhor fazenda que vocês têm aí? O caixeiro trouxe uma peça de fina seda, o tecido da época. O Jota Vieira perguntou o preço, correu a guaiaca, sempre recheada e gorda como cobra que engoliu sapo. Pagou na tampa! Pegou a peça de seda, atou a ponta bem atada com um tento forte na cola do cavalo. Saiu a toda pelas ruas da vila, com aquele rabo de 30 metros de seda voando. E gritava: - Quem cortá é dono! Quem cortá é dono! E o povo todo correndo atrás, com facas, tesouras e canivetes, cortando o que podiam. Mas a grande foi esta: um domingo, na hora da missa, o Jota Vieira tomou uns tragos fortes. O pessoal todo na igreja. Estava cheia! Ele serrou as esporas no tordilho, que era um pingo de lei, “de brigá de canivete”, e entrou igreja adentro. O pessoal ficou todo pateta, sem entender. Foi até o altar, onde estava o padre, também meio espantado. Serrou as esporas e arrancou o cavalo pra diante. Bateu na tábua do pescoço do pingo e gritou: - Duzentos mil réis de missa pra este aqui, chê! Saiu a pau, com cavalo e tudo... 

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  Autor: Sejanes Dornelles
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: DORNELLES, Sejanes. Causos da Querência: literatura oral. Caxias do Sul: Editora da Universidade de Caxias do Sul, 1985; p. 94-95.

 
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07/07/2009 16:25:09 ricardo vieira - graqvatai / RS - Brasil
De a cavalo num animal destes qualquer um empobrece!
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