Usuário:
 
  Senha:
 
 

Manoel Camaquã:
Hino Tradicionalista, de Barbosa Lessa

 

31/05/2006 02:13:42
HOMERO
............................................................................
O Homero era o mais novo de seis irmãos que moravam num fundo
de rincão. Guri duns vinte anos, desde cedo se acostumou a ouvir
as façanhas dos irmãos mais velhos: era lorota, briga, baile,
gauchada... E o Homerinho ficava encimesmado: "Um dia, ainda vou
fazer alguma cousa como esses meus irmãos!". O Homero tinha duas
particularidades: a primeira era uma vontade louca de conhecer a
cidade, um baile do povo, uma tasca; a segunda era que tinha um
medo que se pelava todo de polícia, porque um irmão tinha sido
lastimado, um outro morto e ainda outro tinha levado uns planchaços
de Brigadiano. E ele tinha, então, um medo que se pelava todo de
polícia... Minto! O Homero tinha três particularidades: medo de
polícia, uma vontade grande de conhecer uma tasca e uma ânsia louca
de comprar um revólver... - "Um dia ainda vou ter um revólver!",
dizia. Acontece que ele era changador. Quando aparecia serviço,
ele pegava. Às vezes, ficava em casa de companheiro da mãe, mulher
já bem velha, quando os irmãos mais velhos saíam. Um dia apareceu
um comparsa de esquila. Era mês de setembro, quando logo se iniciam
as tosas de ovelha. No segundo dia, um tosador cansou, e o Homero
estava lá. O chefe da comparsa perguntou ao patrão: - Não terá alguém
que pegue na tesoura? - Olha, tem o Homero. Quem sabe não dá? Tocaram
o Homero na tesoura. O homem se revelou um aço! E ficou de efetivo na
comparsa. Começou a ganhar dinheiro, o Homero. E sempre com aquele
troço na cabeça: - "Vou conhecer a tasca e vou comprar um revólver!".
Começou a ganhar dinheiro, ganhar dinheiro... E terminou a esquila.
Ele pegou o dinheiro, encilhou o cavalo e tocou pra cidade. - "É hoje!
Mas conheço a tasca ou compro o revólver antes? Se eu comprar o
revólver e for pra tasca, vai dar um baita bochincho! Vou fazer o
seguinte: vou na tasca primeiro e amanhã compro o revólver!". Assim
foi. Tomou um trago no bolicho e comeu salame com bolacha. O
bolicheiro tinha um revólver. Homero já deixou entabolado o negócio
e disse pro bolicheiro: - Cuida do meu cavalo com os arreios e da
minha faca. Amanhã, bem cedo, pego o revólver. E saiu, o Homero. Por
informação do irmão, ele sabia o rumo da tasca. Dali uns quinhentos
metros achou armado o moçorongo. Foi-se chegando, por longe, assim
como quem tropeia zorrilho: devagarinho e bem por longe.... Fez a
volta no salão, devagarinho... Daí há pouco veio uma moça: - Vamos
dançar, Baixinho? - É! Se for preciso, bamo... E saiu dançando, como
quem dança de meio-luto: bem abaixadinho, pelo cantos. Dança daqui,
dança dali, sentou. Uma Brahma... Ali pela sexta Brahma o Homero era
dono do salão. - É comigo mesmo, hoje! Quando o sol levantou pegou o
Homero saindo da tasca, numa baita ressaca e sem um tostão no bolso.
- "E agora? O que é que eu vou fazê!". Chegou no bolicho. O bolicheiro
deu um mate gordo pra ele. O Homero foi perguntando: - Quanto tu me dá
pela faca? - Dou cinqüenta pila, disse o bolicheiro. Cinqüenta era o
que custava uma passagem da cidade à estação do Homero. E ainda tinha
de caminhar duas léguas a pé. - Então tá. Tu me dá cinqüenta pela faca
e eu te dou meu cavalo encilhado pelo revólver. O xiru olhou o cavalo;
sabia que era bom. Viu os arreios: mais ou menos... - Tá feito o
negócio! Homero pegou o revóver. Era o que mais queria! E o baixinho
saiu meio ladeado, com aquele baita trinta-e-oito na cintura. Comprou
uma passagem de segunda e entrou no vagão. Logo que entrou, sentou pra
direita. E assim ficou, no meio daquele mundo de gente, sozinho no
banco. Dali a pouco sai o trem. E ele com aquele revólver... - "Tomara
que esse trem chegue duma vez na minha estação", pensou o Homero.
Lá na ponta do vagão abriram a porta. E ele viu, assim por cima do
banco, que levantou um quepe. O índio velho que vinha diz: - Revistas!
Aí o Homero se apertou! O xiru velho chegava num banco, noutro e
vinha vindo... - "Ai, ai, ai... tô liquidado!", pensava o Homero.
Esse xiru, na verdade, vendia bilhetes de loteria e revistas, umas
até do Exército da Salvação. E vinha: - Trinta-e-dois e trinta-e-oito!
Pra hoje! E o do Homero era trinta-e-oito! A la pucha, chê! E ele
pensava: - " Tô arrebentado!". E o vivente vinha num banco, chegava
noutro: - O Policial! O Detetive! Salva Tua Alma! - "Tô roubado!",
pensava o Homero. Um gaúcho comprou todo o mil novecentos e trinta e
dois que o vendedor tinha. E o bilheteiro: - Trinta-e-dois já foi!
Agora, o trinta-e-oito! - "Aaaaai... agora não escapo!", pensou o
coitado do Homero. - O Policial! E o vendedor de bilhetes chegou bem
perto do Homero e sampou, forte: - Trinta-e-oito! E o baixinho Homero,
já não aguentando mais aquela aflição braba, soltou, já aliviado:
- Tá, seu guarda! Pega essa porquera logo, que desde que eu comprei
essa desgraça foi só pra me incomodá!!!
............................................................................
  Autor: Nei Machado
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Nei Machado, inscrito pelo Pólo Cultural de Vacaria-RS, narrou este causo intitulado Homero, no Concurso de Causos do I Encontro Gaúcho de Literatura Oral, realizado na cidade de São Gabriel-RS, entre os dias 8 e 10 de fevereiro de 1982, junto às comemora ções da Semana do Carreteiro. Fonte: Campos, Sonia Siqueira - Coordenadora. Rodada de Causos, Porto Alegre, IGTF, 1988, p. 93.

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
16/09/2013 11:41:08 brenda - canoas / RS - Brasil
É muito bom esse conto gaúcho. Eu achei superinteressante s2
Sítio: 3266
Untitled Document