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Os Monarcas:
Cisma de Ginete, de Angelino Rogério
e Odercio Acelar Hubner

 

10/11/2008 20:52:25
É DA LIDA
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Mais uma vez ele logrou o sol. Quando quis clarear, já tinha gasto algumas

léguas de estrada.

 

     O compromisso de comprar uns boizitos tirou da cama mais cedo que de

costume o peão. Só ele não, o cusco e o cavalo. Quem é da lida às vezes não se

dá conta de que os bichos também assumem-na com o dono. Só percebeu

quando o clarão do sol espichou a sombra do cusco, que tranqueava na sua

frente.

 

     Aos poucos tudo ia se acordando. O campo parecia ter lavado o rosto, há

bem pouco. Na estrada, os rastros da noite ainda estavam frescos. Por falar

em rastro, o cusco cravou o focinho no chão, acelerou o tranco, cruzou por

baixo do arame e coleando num ziguezague ganiçou numa macega e se

prendeu atrás de uma lebre. Ah! Ah! Bichito ligeiro...!

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     Chegou no passinho. A sanga fazia contraponto com o canto d'um sabiá,

faceiro com as pitangas. O cavalo cheirou a água, lambeu, mascou o freio,

mas não quis beber. Subiu, troteando forte, o outro lado. O sol e a sombra

do mato bordavam o chão, parecendo o couro de uma jaguatirica.

 

     Com o passar dos moirões, num trote espichado, já estava quase chegando

na porteira, pra encontrar os companheiros. Num upa, chegou. A indiada ainda

não tinha boleado a perna. A cachorrada deles fez um alarido pro lado do recém

chegado. Buenas pra cá, buenas pra lá, cruzaram a porteira e seguiram. Num

relance, o peão se deu conta de que o cusco dele não estava no meio dos outros.

 

     Diacho! Se perder não se perderia; era acostumado passar por ali. Cobra de

manhã cedo, era difícil, mas...!?

 

     O dia passou. O negócio foi feito. Voltou pra casa, desencilhou, atirou uma

água no cavalo, mas sempre com sentido no cusco. Olhou na volta, chamou,

chamou e nada.

 

     Passou uns dias abichornado. Não tinha muita graça pras coisas, afinal, era

apegado aos bichos.

 

     Mas tudo acabou bem, pois não é que o cusco estava aquerenciado na casa

d'um vizinho, de retoço com uma cadela, no primeiro cio! Safado!

 

     Quando apareceu em casa, veio festejar com a cara de quem tinha culpa de

alguma coisa, porém feliz.

 

     Bem diz o ditado: "o que não é parecido com o dono, é roubado".

 

     É da lida!

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  Autor: Conto de Deroci Freitas de Moraes
Causo enviado Por: Deroci Freitas de Moraes - Santa Maria / RS
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04/09/2010 20:56:43 Evaldo - Curitiba / PR - Brasil
Deroci , muito bom o conto!
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