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Baitaca:
A evolução me entristece, de Baitaca

 

15/12/2008 08:57:59
O OLHO DA MORTE DA VISTA ALEGRE
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Lá pras bandas da Vista Alegre, no município de Santana, nasceu e se criou o Cezário, um gaúcho bonachão e muito tarimbado na lida de campo. E o índio velho desde piá que ouvia dizer que guaipeca não mete o focinho em briga de cachorro grande. Mas vai daí que o vivente, mesmo na sua simplicidade de campeiro, sempre teve o tino de saber que essa é uma verdade que não é tão verdadeira assim. Às vezes um peão tem que tomar partido no estranhamento dos outros, seu! E tanto isso é verdade que o próprio Cezário, certa feita, precisou quebrar o tal ditado! Só precisou, porque não conseguiu meter o seu focinho de cusco na rusga de dois cachorrões. O causo se deu mais ou menos, assim, deste jeito. Numa noite o peão encontrou o Doutor Lindorf – populamente conhecido como Dotor Dorfinho - oitavado no balcão, golpeando uns tragos de canha com toda a peonada que freqüentava o bolicho do Seu Juvêncio. O médico, recém-formado e há pouco chegado de volta à Vista Alegre, há tempos que tinha ido estudar para doutor, a mando do pai, o Coronel Orzino, proprietário da Estância do Olho D’Água.  Mas vai daí que o Cezário, depois de trançar charla com o pessoal do bolicho, começou a se dar conta do porquê de um morador tão ilustre, como o filho do maior fazendeiro da Vista Alegre, estar ali no meio daquela indiada toda, bebendo como se fosse também um peão, um pobre, um trabalhador das lidas brutas do campo. Descobriu, então, que o Coronel pretendia tornar o filho político. E, para isso, este teria de começar conquistando a confiança dos mais humildes, porque a dos outros há muito que já estava na mão do velho Orzino. Mas, bueno! Corinto era o peão das confiança do Coronel, tanto que até tinha, de graça, criação nos campos do velho. Mas vai daí que um dia o xiru, a serviço do patrão, foi buscar um gado na invernada do fundo. E ao repontar uma rês desgarrada, acabou se embretando numa galharia de um mato, o que lhe custou uma das vistas vazada. Mas Corinto, peão guapo e destorcido, não se achicou para esse atrapalho. Vendeu uns bichos e foi para a capital, voltando de lá com um olho novinho em folha, de vidro. Vai daí que numa noite, lá no bolicho do Seu Juvêncio, o peão se passou um pouco nos tragos, por causa de um cambicho, e acabou desmaiando de repente, com um tal de coma alcoólico dos diabos. O índio caiu no chão mais branco do que lambari de cacimba. A peonada alvorotou-se toda e o Dotor Dorfinho, mais do que depressa, saltou e já foi procurando medir a pulsação do dormente. Mas que nada, não encontrou nem sinal dela. Então tirou do bolso uma lanterninha e focou bem no grão do olho, de vidro, do vivente Corinto. E, esquecendo de olhar no outro olho, anunciou com firmeza o seu diagnóstico. Pra quê, seu! Quando o Dotor falou que o peão tinha era batido as botas, foi um Deus nos acuda no bolicho. A indiada, tudo já meio com a água acima do toso, começou logo a lamentar. Um disse: - Mas bá, nem dá pra acreditá que o nosso parceiro de trago se foi, assim, num sofrenaço! Um outro: - Ô vida, se não fosse a morte! Logo agora que eu já tava pra fechar negócio e vender uns terneiros de sobreano pra o morto! Um terceiro: - Que judiaria, seu!Que lástima, che! Um homem tão bom morrer assim, de repente! E tão novo! E para um quarto, já à meia-guampa, após outro gole de canha: - Antess eele do que eeuuu! Atrapalhando os lamentos da xiruzada o recém-formado Dotor Dorfinho falou a todos, exercendo a sua autoridade de Doutor das Medicinas e quase cacique político da região: - Saiam todos! Saiam, que eu vou lavrar o atestado de óbito e depois pedir ao coveiro que prepare o morto para o velório. O dono do bolicho, o Seu Juvêncio, que era homem paciencioso uma barbaridade, até com os borrachos que às vezes o atormentavam, já meio nervoso com tudo aquilo acontecendo dentro do seu estabelecimento comercial disse, em tom de enfrentamento: - Que esperança, seu moço! É melhor mandar avisar antes o Coronel Orzino, que é o patrão do morto, pra que ele fique sabendo do acontecido e, então, tome as providências! O Dotor-moço retrucou que não. E o bolicheiro encasquetou que sim. E o tempo ficou meio feio para os dois. Cesário, no meio daquela polvadeira toda, ainda tentou falar para o Dotor do tal olho postiço do falecido, mas foi energicamente repreendido por um dos presentes, eleitor antigo do pai do moço, que com rispidez esbravejou: - Tu já não ouviste o homem? O Coronel Dorfinho sabe o que faz! Vamos todos sair! Vamo! E empurrou Cezário pra fora do bolicho. O índio, porém, fez que foi, mas não foi. E ficou. E esperou um pouco. E voltou. E chegou na porta. E viu acontecer aquela desgraçera toda. Nunca mais o coitado pode esquecer o que viu, naquela infeliz noite do dia 13 de agosto, na antiga Vista Alegre, hoje um distrito chamado Olho da Morte. Tudo se deu quando o Cezário chegou na porta do bolicho e viu o médico escrevendo algo em uma prancheta; ao seu lado, o Corinto deitado no chão. Mas, em um segundo, o morto levantou o dorso, de sôco, e ficou sentado. E no mesmo tempo gritou, com voz forte e rouca, como era mesmo a sua voz: - Salta mais um trago aí, Tio Juvêncio! Barbaridade, chê! Até periga a verdade! O Dotor Dorfinho, que se encontrava entretido com o seu primeiro atestado de óbito lavrado na Vista Alegre, ao ouvir o tal berro foi dar um salto pra o ar, fazer voar longe a prancheta, e pranchear-se duro no chão, ao lado do morto-vivo. O benzedeiro Vô Tonho foi chamado. Chegou, assuntô, matutô e sentenciô: - O Dotô bateu com as coalheira! Era isso! Tinha batido com a alcatra na terra ingrata! Tinha morrido, de verdade. O coveiro, que já estava meio abichornado, novamente se enfezou, pois agora o enterro era de luxo; ia ser mais demorado, mas renderia muito mais! Afinal, não era todo o dia que alguém batia com a cola na cerca naquelas paragens. E Vô Tonho voltou a ser novamente procurado pelos moradores da Vista Alegre, para todo o tipo de consulta. O coitado do Cezário sonhou com aquela desgraçera por toda a vida, suando em bicas e gritando no meio da noite: - Dotor, é vidro, o olho! - O olho, é vidro, dotor! - É vidro, dotor, o olho! E o peão Corinto, este, após a morte do Coronel Orzino, se tornou o Capataz da Estância do Olho D’água e, agora, o homem das confiança da Viúva Reolinda, a mais nova e vistosa fazendeira do lugar. Mas dizem que na hora do mate o olho de vidro do Corinto até chorava, e que a causa era a morte do finado Dotor Dorfinho. Depois de uns mates o Capataz se parava acabrunhado, com a cuia entre as mãos, mais desanimado que baile sem cordeona, e balbuciava, quase que só para ele ouvir: - Que Deus o tenha e guarde! Mas, em seguida, guapeava, gritando: - O diabo fez a panela, mas não fez a tampa, chê! – Oiga-le-tê porquera, seu! Iuuuuhaaaa!!! E saltava, de novo, para a vida de qüera gaúcho e campeiro daquelas coxilhas verdejantes do seu Rio Grande do Sul!

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  Autor: José Itajaú Oleques Teixeira
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
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