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Vilson Schmitt:
Tradicionalismo Moderno

 

09/01/2009 22:26:01
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: I - NA RAINHA DA FRONTEIRA!
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

Foto: www.wcams.com.br

 

Introdução

 

Pois não vê que hoje cedo eu cismei que tinha escutado a voz de uma das gurias me chamando: – Amanhã é domingo... – gritou uma delas, – É dia de ir para casa! Ontem, pela mesma hora, passaram uns gaúchos conversando animados. E quando fui dar fé de quem eram, um deles me gritou:

– Costela gorda, tatu crioulo e canha com butiá; não acredito que não venhas!

Outro talvez até ache estranho, mas venho esperando por isso há muito tempo. E tanto é assim que já tenho minhas coisas todas arrumadas, para quando chegar a hora de partir; vá que pensem que eu desisti e desistam também de mim. Pode ter sido só uma impressão, mas em todo caso, amanhã, logo depois do mate, encilho meu rosilho e vou até lá conferir.

Para o caso de eu não voltar, deixo estas páginas, que venho escrevendo desde há muito, para que saibam como as coisas de fato se passaram neste canto do Rio Grande, um rincão esquecido por Deus; lugar de homens que souberam honrar seus nomes, e outros que nem mereciam ter tido um. Essa é a história desse torrão, aonde vim parar meio que por acaso, e que depois dos acontecidos ganhou o nome pelo qual é conhecido até hoje...

 

I – NA RAINHA DA FRONTEIRA

 

 

Quando o finado padre Edson, que Deus o tenha, resolveu me despachar para a Estância Santa Helena, na região da Campanha Gaúcha, achei de bom tamanho promover o homem a santo. E não era pra menos. Guri criado sem pai nem mãe, me vi crescendo agarrado à batina do padre velho, debaixo de muita missa, latim, livros e, de vez em quando, palmatória. Não que o homem santo fosse daqueles ruins, que davam na gurizada só por gosto, mas porque eu dava trabalho mesmo.

Naquela época eu andava pela volta dos quinze anos, e, em menos de um mês fui pego três vezes pelo próprio padre, me refestelando com umas gurias, no confessionário. Vai daí que o homem velho resolveu que não podia mais facilitar e confiou o resto da minha criação ao Dr. Manuel Lins Dias, também conhecido por Maneco fresco. Mas a escolha do juiz, como meu tutor, não se deu por acaso; a igreja ficava em um bairro de ricos, e como eu andasse já em idade de arrastar a asa pras gurias, o padre vinha me cuidando com o olho miúdo há muito tempo, fazendo de conta que não via minhas aventuras. Não que ele não aceitasse meus namoricos na sacristia. O sacerdote era conhecedor da alma humana e sabia que aquilo fazia parte da minha natureza; o que ele cuidava mesmo era que eu não passasse do ponto e nem me metesse com filha de algum colaborador das obras da igreja. E foi mais ou menos por aí que tudo começou...

Para quem não conheceu nem nunca ouviu falar, o Dr. Maneco, além de juiz de direito, era também estancieiro forte, dono de umas noventa quadras de campo na região da Campanha, mais ou menos por ali onde Bagé faz divisa com Dom Pedrito, na direção de quem vai de Bagé para Lavras do Sul.

Corria uma conversa na paróquia – nem preciso dizer que era coisa das carolas – que o Dr. Maneco não se interessava mais por mulher, vindo daí o apelido. Mas isso é coisa que eu já explico: o caso foi que quando nasceu sua filha, a finada dona Erminda se enredou das tripas e acabou morrendo, coisa muito comum naqueles tempos; não me refiro a morrer, mas a se enredar das tripas. Aliás, o que também se passou comigo, quer dizer, com a minha finada mãe! Desde então, lá se iam quase quinze anos de vida sem outra companhia feminina que não fosse a própria filha. E por essa razão, o apelido. Bueno, a verdade é que o Dr. Maneco quando casou já andava em ponto bem maduro. E depois da morte da esposa decidiu se aposentar, pois o dito cismou que não ia chegar ao tempo de ver os netos e, por conta disso, queria se dedicar exclusivamente à criação da guria.

Linda uma barbaridade, Heleninha se criou faceira e vistosa como convém a filho de rico, sem que nunca lhe faltasse nada, fosse em porte ou educação. O juiz sempre fez questão de alardear que sua filha não seria apenas uma mulher prendada para os assuntos de lar, como convinha a uma mulher daquele tempo, mas que seria uma mulher de cultura capaz de ser desposada por homem de igual linhagem, fosse embaixador, príncipe ou doutor. Quis o destino que até aquela idade não aparecesse nenhum que se interessasse por ela. E por falta de alguém mais apropriado Helena, sem ter muitas opções, acabou sendo a última com quem eu tive meus encontros, em pleno confessionário.

Perguntar não perguntei - e mesmo se tivesse perguntado não adiantaria grande coisa, já que o padre velho tinha por costume nunca me dar satisfações dos seus atos -, mas tenho certeza de que esse foi o motivo de eu ter sido confiado ao juiz. Uma espécie de castigo premiado!

O Dr. Maneco, depois de receber uma visita “aconselhadora” do padre, resolveu que era hora de providenciar um bom administrador para sua estância. Temia ele que talvez o noivo que ele queria custasse um pouco para aparecer - noivo da filha, não dele. E garantir o futuro de suas terras seria o mesmo que garantir um bom futuro para a filha.

Sabia o padre Edson das coisas do rebanho dos homens. E como eu já andasse em tempo de decidirem se me castravam ou me soltavam a campo, depois daquela conversa com o juiz ficou acertado que eu merecia uma chance de provar meus talentos a serviço do estancieiro. Já era mesmo a hora para decidir o meu destino, pois do jeito que eu ia minha sina seria ficar redomão e andar sem cabresto pela paróquia, um desgosto que o padre velho não merecia. Para o Dr. Maneco fresco (que me perdoem a alcunha, mas não fui eu que inventei), a sugestão do padre vinha bem a contento; criado por padre, vivenciado nas virtudes cristãs e principalmente calejado de palmatória, fui aceito como alguém em que se poderia confiar para o futuro.

Tudo ajustado entre o juiz dos homens e o de Deus fiz minha primeira comunhão, apadrinhado pelo Dr. Manuel Lins. Agora já não podia referir-me a ele pelo apelido, pois que era meu padrinho - e de quebra ganhei uma meia-irmã. Pelo menos era assim que eles queriam que eu pensasse. Acontece que relógio de guri não marca nunca a hora certa, e eu achei que eram favas contadas considerar a “meia-irmã”, também, como “meia-estância e meia-esposa”.

Mas deixa que meu anjo da guarda, de quem o padre tantas vezes me falava, pelo jeito não se dava lá muito bem comigo, e por alguma razão não quis me avisar do que estava por vir; de modo que fui levado pelo destino feito cachorro de pobre, igual àqueles que são arrastados, já quase enforcados com um cordão no pescoço, e que não tem vontade própria e nem escolhem para aonde vão feder.

Passados uns quinze dias me despacharam de vez para Bagé, solito com Deus, de mala e cuia, além de uma carta de recomendação do meu padrinho, que era para ser entregue ao capataz, um tal de seu Ernesto. Como miséria pouca é bobagem, e todo mundo sabe disso, o trem partiu com duas horas de atraso, o que acabou me deixando sem mais lágrimas para chorar; me apartei de vez por todas do padre, com um sorriso bobo nos beiços, e dali ganhei o mundo. A bem da verdade, se eu soubesse que nunca mais veria aquele que me criou como um filho, na certa teria chorado muito mais, afinal o padre santo merecia um bom berreiro de agradecimento.

 

                                                

                    

 

Não pensem vocês que uma viagem de trem de Porto Alegre para Bagé era uma coisa que se passava assim, como pular de uma linha pra outra. Se não lhes conto o martírio é porque ainda sinto dor nas cadeiras só de lembrar, o que sempre me fez pensar que aquela seria uma boa forma de o padre aplicar suas penitências aos pecadores da paróquia. Ao menos comigo funcionou bem uma coisa por demais; quando cheguei lá me sentia leve como se nunca tivesse cometido um pecadinho... Aliás, que tempo pra arrependimentos não faltou. O trem saiu com duas horas de atraso e chegou lá com mais de cinco! Menos mal que o padre era calejado nessas coisas, e já prevendo algum atraso providenciou rapadura, pão, queijo e salame suficiente para alimentar todo o vagão onde eu estava.

 

 

É claro que como todo guri esganado e morto de fome eu não convidei ninguém pra repartir comigo aquele festim, nem mesmo a freirinha, magricela e amarelada, que me olhava com lágrimas nos olhos. Decerto ela não tinha coragem de pedir, o que me fez pensar que ela só lacrimejava porque tinha vergonha de babar. O resultado do meu olho grande foi que em pouco mais de uma hora eu já tinha comido quase tudo o que o padre previu para um dia inteiro, e isso me valeu algumas horas divididas entre vomitar e me contorcer de dor na barriga. Depois daquela viagem ficava enjoado só de ver trilho de trem. Ainda lembro que da última vez que olhei para a freirinha ela estava com um sorrisinho satisfeito nos lábios; há quem diga que não, mas ninguém me tira da cabeça que aquele desarranjo que eu teria mais tarde – além de outros que eu teria depois - foi praga dela!

 

 

Aconteceu que por conta desse pequeno atraso o tal Ernesto, que esperava por mim, achou por bem se abancar num bolicho e tomar uns tragos de canha, para ajudar a passar o tempo; e sem nenhum esforço mamou um litro inteiro, bem faceiro. O problema era que o tal homem não era lá muito dado a gentilezas e, segundo comentou meio que por cima, o próprio juiz, quando bebia - só muito raramente, disse ele - era ainda menos gentil.

Mal desembarquei e ele de pronto me achou. Não sei se vocês já viram um daqueles relógios antigos, que se usava nas paredes, e que tinham uma ponta que ficava balançando de um lado para o outro. Pois foi desse jeito que ele se parou na minha frente! Vai daí que ele perguntou se eu era quem ele achava que eu era. E eu respondi que era. Mas quando eu perguntei se ele era quem eu pensava que era, ele me respondeu que não tinha que me dar satisfações, de modo que eu concluí que só podia ser ele.

Eu já tinha visto muito homem de cara feia, mas isso não queria dizer que o sujeito fosse ruim. Afinal, ninguém tem culpa de nascer feio; e muitas vezes uma cara feia esconde um grande coração, o que não era o caso dele. Tratei de lhe entregar a carta do meu padrinho, que era para ele ficar logo sabendo com quem estava tratando, e desse jeito amansar o homem. Para mal dos pecados descobri logo que ele não se dava bem com a escrita. Fiquei, então, me perguntando por que razão meu padrinho tinha mandado uma carta para alguém que não sabia ler! Mas o bicho era mais tinhoso do que eu supunha; e num esforço barbaresco conseguiu ficar reto, iniciando em seguida a leitura:

– A... Eme com i: mi. Ge com o: go. A-mi-go: amigo! - concluiu ele com ar de felicidade.

– O senhor não quer que eu leia? - perguntei com um sorriso sem maldade, o que ele decerto interpretou como uma ofensa.

– Tu por acaso me achas “inguinorante”? Deixa no más que eu já termino. – retrucou soltando-me uma baforada, que tinha puxado com vontade de um cigarro fedorento, que me deixou mal uns quantos dias. Cinco minutos depois deu a carta por lida, mesmo sem ter entendido coisa com coisa.

– Bâmo, guri... – disse, como se falasse com um cachorro.

– Bâmo, que já é tarde e eu quero dormir nos meus pelegos.

Sem mais o que dizer saiu, apressado, me dando as costas sem nem mesmo me perguntar se eu precisava de ajuda com as minhas tralhas. Como eu também não tinha a intenção de ficar morando ali na estação, dei de mão nos meus pertences e sai a trotezito de atrás dele, feito um potrilho atrás da mãe. Vai por aqui, vira dali, mais uma volta e outra dobra, até que ele enfim parou e ficou se balançando, feito passarinho no arame. Depois de ter certeza de que estava no lugar certo, dirigiu-se a um palanque, aonde um lote de cavalos atados esperava com paciência.

 

Foto: Ricardo Carneiro da Fontoura

 

Quando vi os bichos senti na barriga que alguma coisa não estava de acordo. Não custa lembrar que eu era guri de sacristia e nunca tinha sentado os fundilhos num animal daquele, até porque passava mais tempo de joelhos do que sentado, normalmente pagando por algum pecadinho bobo, que muitas vezes eu nem sabia que tinha cometido.

Enquanto o seu Ernesto apertava os arreios do animal eu rezei, bem ligeirito, quinze Ave-marias e a mesma quantia de Pai-nossos, de modo a amansar a barriga, até que pelo menos eu tivesse deixado a vila e pudesse ganhar o mato. Por via das dúvidas mandei também um “Creio em Deus Pai,”, que reza nunca é demais. E eu tinha certeza de que iria precisar.

– Bâmo – falou, já bem montado e firme nos arreios. Depois completou, me apontando um dos animais:

– Aquele ali eu trouxe pra ti...

– Mas seu Ernesto, eu não sei montar! - tentei argumentar, mas ele me olhou com uma cara como se eu tivesse dito que um mais um são dois.

– Problema teu – falou, com um sorriso largo.

– Daqui até a estância têm doze léguas. E eu já vou indo! - dito isso, cutucou a barriga do animal e saiu à trote.

“E agora?” Pensei comigo: “montar eu não monto, mas isso não importa muito para alguém bem disposto como eu. E mesmo cansado não me custa andar um pouco. Será muito doze léguas? Quanto mede uma légua?”. De qualquer forma não adiantaria grande coisa ir à pé, visto que aquele cretino, por certo, não me esperaria. Além disso, pelo jeito, por ali todos andavam a cavalo. E, se outros faziam, por que eu não faria também?

“Não tem segredo”, pensava eu, ”é só segurar as rédeas bem firme e firmar as malas na mão. Depois, é só dar um pulo e pronto: tô montado”. E foi o que eu fiz! Mas deixa que ninguém nunca me disse que cavalo tem lá suas manias: lado de montar e de laçar, além de outras coisas. Ignorante dessas regras, me atirei de qualquer jeito por sobre o lombo do bicho. E a julgar pela reação dele, aquele não era o jeito certo. Pois não vê que quando firmei o pé no estribo e joguei o corpo para cima, o bicho achou por bem virar os quartos na minha direção, pensando até em, quem sabe, me ajudar. Vai daí que fizemos movimentos na direção contrária um do outro. E, como resultado, voei por cima dele quase sem nem tocar a barriga no lombo, passando direto, num vôo rasante feito ave de rapina.

Por aí começou a miséria. Minhas malas tinham se aberto e voou peça de roupa e fiambre de salame para todos os lados - que padre é exagerado nesses assuntos de comer, me fazendo carregar mais de um quilo. Além do quê, eu fui cair justo numa poça de lama, que era uma mistura de mijo de cavalo com terra da estrada. E quando me pus de pé já tinha um lote considerável de gaúchos, saídos não sei de onde, a me olharem curiosos.

Aquilo feriu meu orgulho, pra não dizer que eu morri de vergonha. E a única saída era me escafeder o mais rápido possível das vistas daquela gente. Levantei, fingindo que nada de mais tinha acontecido, bati o que pude daquela lama fedorenta e olhei de cara feia para o animal, que me cuidava com ar de espanto.

Resolvi que o melhor seria primeiro montar e depois pedir para algum cristão me alcançar as coisas, pois com as duas mãos livres não haveria jeito de aquele animal me botar no chão outra vez. A bem da verdade, é preciso deixar claro que o bicho era manso, e que selvagem de montaria era eu mesmo. E só para confirmar minhas palavras, o cavalo deixou que eu me servisse como quisesse. E eu quis primeiro firmar bem o pé no estribo, de modo a dar um bote certeiro, pois que as rédeas eu já trazia enroladas na mão; e se ele se fresqueasse e me derrubasse, eu traria a cabeça dele junto.

Apoiei a bota no estribo e coloquei o peso do corpo nele, para poder dar o impulso necessário. Mas, para minha infelicidade, tinha ficado grudado no salto do calçado um naco de lama, de modo que quando eu soltei o peso sobre o pé no estribo a bota escorregou para dentro, de maneira que meu pé saiu para o outro lado; e eu fiquei preso pela perna! Senhores! Lhes digo que naquela hora eu só não chorava porque não dava tempo, pois que o raio do cavalo começou a dar voltas em torno de mim – dezoito, se bem me lembro - e só o que eu podia fazer era gritar “para cavalo! Para, cavalinho! Alguém me ajude, por amor de Deus!”, além de outras coisas que eu não lembro de ter dito, mas que a gauchada que juntou em volta ficou repetindo, enquanto riam de mim.

Mas Deus é Pai, não é padrasto, assim diz o ditado. Quis a Providência que um daqueles homens que tinham se chegado para ver a lambança, não achando graça do meu estado, resolveu parar com aquilo; deu de mãos nas rédeas e sujeitou o cavalo com facilidade e a firmeza de quem faz do trato com esses animais o seu dia-a-dia.

– Pelo amor de Deus! Por que o senhor não segurou esse bicho antes? - disse eu, cheio de entono, enquanto ele soltava meu pé do estribo. Antes que ele respondesse, um amostrado gritou da porta do bolicho:

– Não estraga a farra, companheiro! Deixa que o guri se vire...

– Não tens vergonha de ver o guri nesse estado? Não faz muito ajudei teu guri mais velho, depois de levar uma tunda de três outros; e não me lembro de te ver achando graça do estado dele. Gostei da resposta. Em seguida respondeu a minha pergunta:

– Tive que esperar que antes tu terminasses o serviço... - respondeu ele, calmo, como se nada de mais tivesse acontecido. Foi então que eu me dei conta do que tinha se passado. Pois não vê que já na segunda volta minha barriga se entregou. E só o que eu não sujei de bosta foi o pé que tinha ficado preso. De resto, não sobrou nada.

Baixei a cabeça envergonhado, ao mesmo tempo em que me vinha à mente a imagem da freirinha esquálida, desejando que tudo aquilo acontecesse. Confesso que tive vontade de olhar em volta, pra ver se ela não tinha descido, também, naquela estação. E se assim fosse, eu já tinha me resolvido a ir até ela e, de joelhos, pedir perdão pela minha gula.

– Andastes bebendo, guri? Ou és louco, mesmo? - a voz do homem soou distante em meus ouvidos. Eu bem que tentei dizer alguma coisa, mas minha boca tinha secado tanto que eu achei que a língua tinha grudado no céu da boca.

– Bueno, primeiro tu vais te lavar e trocar essas roupas, que estás pior do que um zorrilho... Lá nos fundos tem um quarto de banho. Vou providenciar água. E enquanto isso, juntamos tuas coisas. Não precisas te preocupar.

– Não vai dar tempo, eu disse, sem me dar conta de que meu estado era o pior possível. – Se eu demorar, o seu Ernesto não vai me esperar. E eu não sei onde fica a estância. Se o cavalo não me ajuda, vou indo de pé, mesmo, e pelo caminho me limpo. Por enquanto, só posso lhe agradecer por ter me salvado desse animal infeliz. Um dia lhe pago o favor. 

Endireitei o corpo e me firmei na coragem, já que as pernas eu não sentia mais. Juntei o que pude e saí feito um louco, na direção onde eu tinha visto o capataz pela última vez. Depois de andar a esmo, por uma meia hora, fui me dando de conta da situação; não bastasse eu estar sujo, fedorento e apatetado, ainda me via só num lugar aonde eu não tinha a menor idéia de pra que lado seguir.

Mas eu nunca fui de desesperar; me agarrei com um lote de santo em oração e voltei à procura do homem que tinha me ajudado um pouco antes. Por sorte ele estava no mesmo lugar, conversando com um outro que eu lembro ter visto juntando umas coisas minhas, que tinham caído mais ao largo. Ainda de rédeas na mão ele me avistou de longe, como se estivesse mesmo à minha espera.

– Te perdestes, guri? Antes que eu respondesse qualquer coisa, ele seguiu falando: – Por acaso tu ías pra a Santa Helena?

– Sim senhor. O senhor sabe onde fica ou para aonde o seu Ernesto foi?

– O Ernesto? Cruzei por ele hoje cedo, ainda de vinda; depois, não vi mais.

– Então, como o senhor sabe que eu vou para lá?

– Porque cavalo tem marca; e a marca diz quem é o dono. Além disso, também tem o modo certo de se montar; e não é de qualquer lado, feito casa de china, em que se chega de qualquer jeito.

Não era hora de mostrar orgulho, até porque se meu orgulho não conseguiu se impor a um cavalo, o que diria com um homem.

– Pra lhe dizer a verdade, eu nunca montei num cavalo. Venho chegando de Porto Alegre e era para ter seguido com o capataz para a estância; mas não sei o que deu nele, que saiu feito louco, sem ter me esperado.

– Nisso se dá um jeito... - virou-se para o amigo, que quieto ao seu lado picava fumo para fazer um cigarro:

– O guri vai conosco até a Tapera, e de lá a gente despacha ele pro Mão-pelada. Pelo caminho ele nos conta os pecados. E terminou, dizendo-me: – O Ernesto velho não é pouca coisa; e tu pra ele é como cordeiro em campo de sorro...

– Não entendi o que o senhor quis me dizer.

– Não tem importância, tempo pra isso não vai te faltar. Procura pela volta e vê se não tá faltando nada das tuas coisas. Mas não precisa pressa, porque a gente não chega na estância antes de cair a noite; e o mais certo é que se faça pouso pelo caminho. (Continua...)

E-mail do Autor: andremoabgarcia@hotmail.com 

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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