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Paixão Côrtes:
Chico do Porrete

 

18/01/2009 08:27:02
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: II - NUMA ESTÂNCIA DO RIO GRANDE!
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

II - NUMA ESTÂNCIA DO RIO GRANDE!

 

Estância

Gravura de Joaquim Fonseca

 

Chamava-se João Vieira, o capataz da Estância da Tapera. Um homem alto e musculoso, e que apesar de já andar por volta dos cinquenta anos mal aparentava os quarenta. Sob sua mirada as setenta e cinco quadras de campo, que formavam a Tapera, e que por coincidência era lindeira com a Santa Helena.  

Lindeira, conforme eu descobri em seguida, era quase o mesmo que vizinha; significa que em algum ponto as estâncias faziam divisa. Aliás, uma das primeiras coisas que eu tive que aprender na lida daquele mundo novo foi justamente o linguajar. O fronteiro tem um modo de falar muito diferente das pessoas na capital; e foi preciso deixar de lado minha educação de sacristia para poder me entender com eles. Eu não tinha, na época, nenhuma noção das medidas de distância e tamanho,  por eles usadas. De modo que eu não fazia idéia do que eram setenta e cinco quadras. Mas eu tinha certeza que as estâncias naquela região eram enormes, porque a fama das fazendas da fronteira era conhecida por todos em Porto Alegre.

A Estância da Tapera era de propriedade do coronel Soares Neto, estancieiro de renome na região de Vacaria, que recebeu aquelas terras em herança e deixou que ficassem por conta, até que ele decidisse o que fazer delas. Acontece que a estância era tida como um desgosto pelo coronel, que só a mantinha porque não encontrava quem pagasse um preço justo. E a razão desse desgosto foi que, por conta de um mal entendido, o pai e um tio do coronel lutaram até a morte, naqueles campos. Disse o João Vieira que a história envolvia a traição de uma das esposas - o que agora não vem ao caso - e que o coronel, ainda guri, assistiu a tudo, sem poder impedir a tragédia; daí o desprezo por aqueles campos.

Alírio Jardim era o único peão da estância. E era, no dizer do capataz, uma flor de pessoa; que me perdoem o trocadilho, porque não fui eu que disse. Chegara na Tapera a coisa de uns sete anos, acompanhado da mulher e um filho. Aliás, que esse foi meu companheiro de andanças e lambanças, que deram o que falar. Mas isso se conta depois. Segundo eu soube, o pai do seu Alírio tinha sido proprietário de uma estância de bom tamanho, na região de Uruguaiana. Mas a família acabou perdendo tudo, porque o velho teve a infeliz idéia de apoiar o lado derrotado, numa das tantas revoluções que volta e meia encarnavam os campos da fronteira.

Até que seu Alírio chegasse por lá, o que não mudou a situação em grande coisa, o pobre João Vieira penou além do necessário. Setenta e cinco quadras de campo, bem povoadas por sinal, não é coisa que se deixe para o braço de um homem só. E ele sabia disso. Experiente que era tratou de juntar, nas invernadas mais próximas das casas, tudo o que pudesse manter em sua mirada. E o de resto, deixou por conta.

 

 

A verdade é que a chegada do seu Alírio resultou em algumas mudanças importantes. Se antes o rebanho, mesmo perto das casas, não tinha lá muitos cuidados, com a chegada de um companheiro para o serviço a qualidade daquilo que se podia cuidar melhorou muito. Além disso, o capataz agora comercializava o gado com mais freqüência, ao contrário de antes, que só vendia uma rês quando era preciso comprar alguma coisa que ele mesmo não pudesse fazer na estância.

 

                                             

                                                      

                

                                     Foto: www.bairrodoipiranga.com

 

Voltando àquela tarde, seguimos viagem na carroça velha e rangedeira até a boca da noite, quando resolveram fazer pouso. Quem faz a viagem de trem de Porto Alegre a Bagé acha que não pode haver um meio pior de se ir de um lugar ao outro. Pelo menos eu tinha pensado isso. Mas, em matéria de desconforto, nada se comparava ao carretão usado por eles. E olha que meus fundilhos nem eram assim tão bem cuidados, já que o padre velho volta e meia me largava os sapatos nele!

Assim que paramos me pus a caminhar em volta da carroça, na intenção de fazer com que o sangue voltasse a circular. E a julgar pelo modo como eles me olhavam, deviam achar que eu não era muito bom da cabeça. Não que eles tenham feito qualquer comentário. Mas eu me dei conta disso quando olhei pra eles e vi que estavam me olhando, cada um com seu cigarro caído no canto da boca, tentando entender o que eu estava fazendo.

- Se queres te aliviar, procuras uma moita bem longe... – ainda sugeriu o seu Alírio.

 

Foto: Ricardo Ceratti

 

Fogo aceso, com água da sanga cevaram o mate e seguiram com a prosa, enquanto o seu Alírio fazia um arroz com espinhaço de ovelha, que ainda hoje lembro o gosto! Sentado num pelego morrinhento, senti todo o cansaço do dia fazendo peso sobre os meus olhos. E não fosse pela gratidão que eu devia a eles teria dormido ali mesmo, sentado. O João Vieira era o servidor e me ofereceu o mate, conforme manda a educação. E eu, mesmo sem nunca ter tomado daquilo, me vi na obrigação de aceitar, pois se o caso era de mostrar boa educação isso eu tinha de sobra. Não vou lhes mentir, dizendo que tomei sem fazer careta e que era a melhor coisa que já tinha bebido desde o vinho da missa. Mas, também, não era tão ruim. O caso foi que ninguém me avisou que aquilo era quente. E na primeira chupada me caiu o couro da língua. O resultado foi que passei mais de hora feito galinha em sol de meio dia: de bico aberto, respirando só pela boca.

Conversaram por mais de hora sobre um monte de coisas, das quais eu nunca nem tinha ouvido falar, mas que pelo visto fazia parte do mundo deles; de modo que eu prestei muita atenção, feito coruja de estimação. Mas, na verdade, não entendia nada. E eles sabiam disso. Em todo caso, se mostraram muito satisfeitos com o meu interesse. Depois do jantar veio o silêncio, seguido pelo ritual de fazer um cigarro e mais dois ou três mates, com um raminho de carqueja, que era pra ajudar na digestão. Foi por essa hora que meus olhos se desdomaram e eu dormi sem nem mesmo dar boa noite, dando por acabado aquele dia sem fim.

 

 

Quando acordei, a primeira cena que vi foi o fogo, ainda aceso, e os dois homens mateando, na mesma posição em que estavam antes de eu dormir, o que me fez pensar que eu só tinha dado um cochilo. Mas a claridade, que se anunciava no horizonte, me trouxe de volta a noção das coisas. E uma das primeiras lembranças que ficou daquela noite foi que pouca coisa se compara a dormir a campo, sobre os pelegos, tendo um poncho por coberta. Para mim, que não conheci colo de mãe, aquele ninho tosco feito por homens rudes, no qual eu tinha dormido - sentado mesmo -, era o que mais se aproximava da idéia que eu tinha do calor materno. Eles nem sabiam quem eu era ou o que fazia por lá, mas assim mesmo arrumaram meu ninho e me deitaram como se eu fosse gente deles, o que me ensinou uma lição de companheirismo, que ainda hoje trago comigo.

- Bom dia! - fui dizendo, envergonhado por ter sido posto na cama como uma criança.

- Buenos! – responderam, ao mesmo tempo.

- Vai lá na sanga lavar essa cara e enxaguar a boca; já tá meio tarde, mas ainda dá tempo pra um mate. Tens que curtir o bico, guri! - disse o capataz.

 

Imagem: www.turismo.cacapava.net

 

Mal sentei de volta e, quando me dei de conta, já estava de cuia na mão. Madrugada fria, pois já era tempo de outono, me serviu o seu Alírio um chimarrão, que apesar de meio lavado, veio na temperatura certa, me aquecendo o corpo sem que eu fizesse careta. Tomei e agradeci:

- Muito obrigado.

Seu Alírio estranhou:

- Não queres mais? Toma outro, que é pra não ficar numa perna só.

- Tomo, sim senhor! Não sei se foi a minha língua que cozinhou ou se hoje a água não tá tão quente, mas que tá melhor do que ontem à noite isso eu garanto!

- Então não agradece - interrompeu o João Vieira. - Só se agradece o mate quando não se quer mais. E é bom que tu saibas que na campanha “quem quer mate, que madrugue”, diz o ditado. Não demora sai o sol, e numa hora dessas a gauchada já anda a campo, na lida com os bichos... Como tu és visita se faz as honras. Mas não te acostumas, porque na Santa Helena, numa hora dessas, nem chá de bosta de vaca o Ernesto te deixa tomar.

Num “sim senhor”, que me saiu meio engasgado, baixei a cabeça, envergonhado. Mas o capataz ainda não tinha terminado. E foi ali que eu descobri que o João Vieira tinha, também, sua dose de padre, embora ele não soubesse, pois que para passar um sermão era de mão cheia!

- Espera que tem mais, guri! Quem vive pelos pampas na tua idade, já é um homem. E homem que conversa sem olhar na cara do outro não merece confiança...

Na mesma hora levantei a cabeça e sustentei o olhar dele.

- Bueno, tchê! Agora ficou melhor - disse ele, com um sorriso franco. - Que tal o ninho?

- De primeira qualidade – respondi, sendo sincero.

- Quando a gente chegar na estância vou te emprestar um poncho. É velho, mas ainda tem muita serventia. E se eu bem conheço, no que depender do Mão-pelada tu dormes a campo sem nem um pelego por debaixo, que o bicho é cru uma barbaridade!

- Mão-pelada?

- É o Ernesto velho, o capataz que tu conhecestes no povo. Mas deixa que a gente te ajude, guri, e nos diz o que foi que fizestes de mal para o mundo, pra te mandarem estanciar na Santa Helena? Tu não me pareces ruim nem coisa que não preste, que de gente eu conheço um pouquinho. Acaso andastes te refestelando com china alheia?

Foi a minha vez de chorar as penas, de maneira que comecei ainda no mate e só fui terminar já chegando na Estância da Tapera, bem perto do meio dia. Perguntavam de lá e eu ia respondendo conforme a verdade, que mentir não era comigo e nem tinha porquê; de modo que quando acabaram as perguntas, eles ficaram entendendo menos do que no início da conversa. Cismaram porque cismaram que se eu não estava mentindo, então alguma coisa tinha ficado de fora. E eles não estavam muito errados; meus achegos com Helena continuariam a pertencer aos segredos do confessionário. Além do mais, aquilo tinha sido só um namorico de guri, nada que condenasse minha alma, como eles davam a entender. De repente, como de costume, fizeram silêncio. E viajamos como se ninguém se conhecesse.  Até que passado um tempo o capataz se saiu com essa: - Chê, tu já conhece mulher?

Me fiz de surdo. E ele entendeu a resposta.

- Entonces, se tu não te deitastes mesmo com a tal guria e nem andastes te bobeando com ela, a resposta só pode estar com o padre que te criou; porque padre sabe de tudo e decerto ficou sabendo de algum pecado do Dr. Manuel, que pra modo de agradar ao teu protetor se saiu com essa de afilhado-quase-genro-futuro-estancieiro e sei lá mais o quê...

            - Ou, então - interveio seu Alírio -,  foi só pra se prevenir do Nestinho!

- Mas, tchê, Alírio, onde raposa cuida do galinheiro o galo canta fino! Ninguém consegue se prevenir de gente daquela raça - observou o capataz, completando em seguida: - Mas até pode ser que seja. Ainda assim o guri é cordeiro em campo de sorro: não vinga!

E não vinguei, mesmo! Quer dizer, vinguei e não vinguei; mas deixa que o causo é grande, e depois de velho não se usa pressa. Falando do tal Nestinho, que segundo o seu Alírio exigia precaução, tomou as rédeas do assunto o capataz:

- O Nestinho é o filho do Mão-pelada. E ele, assim como tu, também é afilhado do Dr. Manuel. E não só vocês dois, mas um lote por aí a fora. E se tu não sabe eu te digo que ser afilhado de estancieiro é o mesmo que nada; ninguém se importa com isso, começando pelo próprio padrinho.

- Mas, tchê! E se o guri for mesmo o queridinho do velho e mandaram ele pra ficar de olho nas coisas? - sugeriu o seu Alírio. - O que dizia na carta?

- Não sei, me mandaram entregar e eu entreguei.

- Fizestes uma cagada! - observou o capataz, seguindo o raciocínio do amigo: - se Deus escreve mesmo em linhas tortas, então o jeito é a gente também se entortar um pouco, de quando em vez. – disse, sugerindo que eu deveria ter lido a carta. Depois completou, com mais um daqueles ditados campeiros que ele sempre usava, e que por sinal aprendi todos: - Tu tens que aprender, guri: boi lerdo bebe água suja!

Depois de fazer um cigarro, o capataz disse para seu Alírio:

- Pode ser que o amigo tenha razão. Afinal, o guri já anda por aqui, enquanto que o Nestinho ainda anda no colégio dos padres, na Santa Maria da Boca do Monte. E, se Deus quiser, que por lá se conserve. O caso foi que Deus não quis e correram com ele de lá. Mas isso foi mais adiante.

Vá lá que eu não fosse ainda doutor em valentia, mas nem por isso eu iria correr sem ver do quê. Por conta disso, resolvi ignorar os conselhos do capataz e do seu amigo, que queriam porque queriam que eu voltasse para a capital e dissesse por lá que não tinha me dado bem na campanha e tinha estranhado de tudo, coisas desse tipo. E bem que me avisaram que estanciar na Santa Helena era o mesmo que viver com um talho atravessado nos quartos. Mas, conforme eu já disse, fui criado nas virtudes cristãs e aprendi com o padre Edson que com o trato certo todo homem se ajeita. “A fé move montanhas”, repetia ele. E eu sempre confiei em suas palavras.

 

 

Tá certo que depois de um tempo me acompanhou um mango papada-de-touro, que muito me ajudou na conversão de um ou outro mais teimoso, mas que depois de uns mangaços pelo lombo acabavam mudando de idéia, sendo que me iniciei nesse ofício com o próprio Mão-pelada, que, aliás, foi dos poucos que nunca se converteram!

Chegamos na Tapera já de sol a pino e com a barriga encostando no espinhaço. E, como se adivinhasse que chegaríamos naquele estado, a mulher do seu Alírio nos esperava com uma bóia campeira daquelas de fazer aquerenciar um padre. E olha que dessas coisas eu entendia! Depois de desatrelada a carroça e tratados os animais, os homens cevaram o mate e me convidaram para chimarrear com eles, acompanhado de uns tragos de canha, pra modo de tirar a poeira. Agradeci o convite, dizendo que não era meu costume. E, para não renegar minhas origens paroquiais, me atraquei na comida feito leitão novo. Depois do almoço era de lei uma sesteada nos pelegos, de modo que só para não parecer ingrato me acomodei num canto e dormi um sono solto.

Acordei debaixo de grito e barulho de patas de cavalo. Cheguei a pensar que seria atropelado por alguma tropilha desembestada. Mas era apenas o filho do seu Alírio que se chegava no galpão, brigando com os cavalos que trazia para encilhar. Aquele, sim, é que era uma estampa de gaúcho! Botas cano alto, como é o costume na fronteira, bombachas bem largas e camisa no mesmo feitio. E, para completar, um chapelão de abas largas tapeado na testa, que de tão grande eu era capaz de jurar que faria sombra para ele e o cavalo, ao mesmo tempo! Assim que me viu de pé, estendeu a mão:

- Buenas - disse ele. - Miguel Jardim, seu criado. Sou filho do seu Alírio, que veio contigo na carroça. Não te assusta com esse bicho... – falou, referindo-se ao cavalo inquieto ao lado dele. - É cavalo de patrão: baldoso uma coisa!

- Como vai? - eu disse, apertando sua mão.

- Como lhe chamam? - indagou.

- Até agora só me chamaram de guri – respondi, mais à vontade. - Mas já me chamaram de coisa muito pior, quando eu morava na capital!

- Sim senhor... – disse, como se concordasse que eu devia mesmo ser chamado de coisa pior. - O pai saiu pro campo com o capataz e o seu João me mandou te ensinar umas coisas...; se o senhor não se ofender.

- De jeito nenhum. Mas não tem por que me chamar de senhor, se eu tenho mais ou menos a mesma idade que tu.

- A mãe sonhou que o patrão da Santa Helena ia chegar por aqui, e sonho da mãezinha não nega! - disse ele, justificando o tratamento formal.

- Que nada, amigo! Patrão só Deus! Eu não consigo ser patrão nem da minha barriga, quem dirá de outra pessoa!

- É... Mas é como diz o seu João, que tu tens jeito, isso tem! Mas não querendo te faltar com o respeito, eu concordo contigo: por enquanto, não mandas nem no teu rabo! – completou, dando as costas e explodindo em risadas, enquanto eu fiquei sem saber se ria ou me escondia envergonhado. Naquele momento travamos uma amizade enfrenada em lua boa, de modo a nunca ter desgosto, e que se conservou até o fim.

O nome era Miguel Jardim, mas se alguém chamasse por ele desse jeito era capaz até de não atender. Quando era ainda um piazito, os pais foram dar com os costados na Tapera e ele cresceu por lá sem a companhia de outros da mesma idade. Como não tinha outros com quem brincar, desde cedo se acostumou com as lidas de campo, ao lado dos homens. E gostava tanto daquilo, que fazia suas tarefas sempre de bom humor, assobiando para passar o tempo. Acontece que o infeliz assobiava mal uma coisa por demais. Mas, para que não perdesse o interesse pelas coisas que fazia com tanto gosto, ganhou do capataz o apelido de Sabiá. Desde então só era chamado pelo nome quando fazia alguma cagada grande ou quando a mãe estava de mau humor, o que, segundo eu aprendi com os anos, parecia ser um costume universal.

 

 

Depois de encilhados os animais saímos para o potreiro da frente, aonde o Sabiá foi me ensinando o que era mais básico entre a gauchada: montar. Qualquer um outro teria chorado. Mas, ao contrário disso, o Sabiá ria uma coisa de louco, ao dar as minhas primeiras notas: a) encilha de matungo: um - valendo de um a dez; b) montar: um - quatro tombos e um pé atravessado no estribo, minha sina! c) andar ao passo: cinco - minha melhor nota; d) andar à trote: um - mais três tombos e um chacoalhar de fazer pena aos ossos; d) andar à galope: zero - uma tentativa e um tombo que recomendava não ser uma boa idéia tentar outra vez! Depois desse tombo o Sabiá achou melhor que a gente mudasse o tema da aula e falasse de coisas mais tranqüilas. O caso foi que ele ficou com medo de ter que me juntar de pá, se eu caísse outra vez. Além do mais, ele tinha ordens para que eu ainda estivesse vivo quando o capataz voltasse do campo.

À noitinha, já de banho tomado, me fizeram de servidor e deixaram o mate por minha conta. Aliás, que eu não fiz feio, porque tinha passado boa parte da tarde treinando. O único problema disso foi que por conta dos exercícios tomei bem uns cinco litros de mate. E o que mijei, no decorrer da noite, não é bom nem lembrar! Enquanto eu servia o chimarrão o capataz aproveitou para fazer a sabatina: o que se faz e o que não se deve fazer; o que se diz e o que não se deve dizer, quando se briga e por que se deve brigar, além de outras coisas.

No fim das contas, acabei passando uma semana por lá. E, hoje, eu acredito que tudo aquilo teria sido de muita serventia, caso eu fosse para qualquer outro lugar que não fosse a Santa Helena. Mas conforme eu já disse, não ia correr sem antes ver a cara do bicho. E por mais que eu tivesse me apegado ao pessoal da Tapera, sentia que parte do meu destino estava mesmo na Santa Helena, fosse ele bom ou ruim.

Chegado o dia de partir, levantei ainda de madrugada. E já encontrei o capataz mateando solito, junto ao fogo de chão. E não foi por outra que desde aquele dia fiquei com a impressão de que ele não dormia nunca. O seu Alírio só chegaria mais tarde, porque tinha o costume de matear com a esposa, na cozinha da casa grande, onde um dia foi a casa da estância. Quando chegou por lá, o seu Alírio pediu para morar com a esposa, num quartinho reservado aos empregados da casa. E, depois, fez de tudo para convencer o João Vieira a deixar o galpão e ocupar um dos quartos da estância. Não houve jeito! O capataz dizia que desde que se entendia por gente nunca conheceu outra morada, e que aquele era o seu lugar!

 

Imagem: www.argentinatravels.com

 

Antes de sair o sol, depois de muito conversar ao pé do fogo, ouvimos o ecoar de patas de cavalos, nos fundos do galpão. Era o seu Alírio, reculutando a cavalhada. E não tardaria até que ele entrasse no galpão, com os animais embuçalados. Era, mesmo, chegada a hora de partir.

Ficou por conta do Sabiá a missão de me levar até a divisa das estâncias. Lembrou-me o capataz que o caminho de volta era o mesmo de ida, e que galpão de estância não tem tramela nem nunca falta mate nem churrasco para um amigo; e que ele esperava me ver em breve. Com essas palavras, nos despedimos. Amadrinhado pelo Sabiá, ganhei o mundo outra vez. Mas, já não me sentia mais tão órfão; e parti sabendo que ali ficava uma parte de mim.

 

 

Existia entre as duas estâncias uma sanga de águas limpas, cercada por uma mata que variava em tamanho, dependendo do lugar, e que escondia pequenos poços, onde era possível tomar um bom banho ou pescar alguma traíra velha. Essa sanga servia de divisa natural entre as estâncias, por toda a extensão do limite entre elas. E foi nesse costado de sanga, que vivi boa parte das minhas lambanças.

Apartei-me do meu companheiro, no passo da cruzeira: um trecho da sanga, onde a água corria mansa por sobre um fundo de seixos, e que era a cruzada natural para quem viesse montado, já que os outros pontos, embora parecessem seguros, tinham lá seus caprichos. Ainda mal acostumado à montaria, aproveitei a oportunidade para tomar água e esticar as pernas, sem falar no descanso que daria aos fundilhos, que já vinham dormentes. Tínhamos viajado, praticamente, toda a manhã. E segundo o Sabiá, eu ainda teria quase que toda a tarde pela frente até chegar nas casas da Santa Helena. Além de assobiar e cantar mal, o Sabiá ainda guardava outras manias. E uma delas era a de ser metido a pescador; no que ele se saía do mesmo modo que nas anteriores. Por conta disso, me confidenciou que volta e meia andava por aqueles lados, chuleando algum jundiá ou aporreando uma traíra, de modo que se eu quisesse, desde já ficava marcada uma pescaria sem data; bastava que eu quisesse e ele estaria por lá. Confesso que não tinha entendido o que ele tentava me dizer. Mas hoje eu sei o que é poder contar com um amigo, a qualquer tempo! (Continua...)

 

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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