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29/01/2009 20:56:17
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: III – A REBENQUE E ESPORA...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

III – A REBENQUE E ESPORA,

 NA ESTÂNCIA DA SANTA HELENA

 

Estância do Sobrado – Bagé-RS

Foto: www.bage.rs.gov.br 

 

Dizia o finado Pedro Laureano, que era conhecido por Pedro Torto, por causa do olhar enviezado, que em estância onde tem muito cachorro gato aprende a latir e rato se cria gordo. O pobre Pedro, além de vesgo, também rengueava de uma perna. Aliás, que de tão torto sentava de lado na patente; e cagando a campo sempre sujava um calcanhar. Hoje, ao contar esta história não pude deixar de lembrar dele. É bom que se diga que ele foi um dos que com muito peito e manotaço levantou e fez a fama da Estância da Tapera, honrando seu nome e seu lugar no rincão onde foi Posteiro, numa invernada dos fundos. E deixou cada história que só vendo... Como eu dizia, o Pedro velho tinha esse ditado como modo de exemplar o vivente da capacidade que a gente tem de se adaptar em lugares estranhos, ou mesmo quando a situação não é lá muito a favor. Comigo não foi diferente...

Fui bater na Santa Helena já na boca da noite, conforme tinha previsto o Sabiá; louco de cansado, com fome e ansiando por um mate, para espantar uma friagem que se aquerenciava por lá. O João Vieira tinha me emprestado um poncho velho, mas eu não quis usá-lo pra não fazer fiasco, me passando por friorento diante de uma gente que eu nem conhecia. Podia ser que me achassem meio fresco e eu queria que tivessem uma boa impressão da minha chegada.

 

 

Quando eu vinha a uns cem metros do galpão, sai de lá uma cachorrada que era uma coisa! Contei por alto mais de trinta; tudo latindo e babando ao mesmo tempo, num alarido de arrepiar, capaz de botar pra correr até sogra de lobisomem!

 

 

Conforme a cuscada foi se chegando no matungo eu fui me vendo feio: morde daqui, late dali e late acolá, que eu grito daqui! No começo o cavalo foi se defendendo, meio que coiceando, meio que corcoveando e eu meio que apatetado. Sem saber o que fazer facilitei; e fui ao pasto! Já no cair peguei um cachorro magro desprevenido, sentando-lhe a bunda por sobre o lombo. E esse já ficou fora da parada. Pra mal dos pecados, ainda dei uma cabeçada num cusquito lebreiro que me esperava de boca aberta. E eu nem imagino como aquilo foi se dar, mas o fato foi que o animalzinho virou a cabeça de mau jeito e acabou quebrando o pescoço. O problema foi que ele era o dengo de um peão, que por conta da morte do animal me causou muita ruindade. E nem era pra tanto, já que o cachorro se mostrou morredor uma barbaridade!

Mas deixa que a dor ensina a gemer! E tão logo um outro me beliscou o garrão, eu senti que não dava pra me bobear. E na bocada seguinte eu já estava bem montado. Mas nem me perguntem como! Montei tão depressa que até mesmo o João Vieira tiraria o chapéu se tivesse visto.

O caso era que a coisa estava mesmo braba para o meu lado, e eu tive que fazer por mim. Apontei o matungo na direção do galpão e cravei-lhe o garrão nas virilhas, sendo que dali por diante fosse conforme o que Deus quisesse. E Deus quis que a lambança fosse grande e a noite longa!

Chegando já bem perto do galpão - com a cachorrada disposta a não deixar que ninguém se salvasse -, no meio da confusão o animal que eu montava escorregou e eu alcei voo por sobre a cabeça dele, direito à cachorrada. Só que dessa vez os bichos se avivaram e não ficou nenhum para me esperar. De maneira que enterrei as guampas meio que de banda num bosteado de vaca, que de tamanho era maior do que um disco de arado. Levantei tão rápido quanto tinha caído, com uma cara que assustou a cachorrada. E não era para menos! Aquela animalada guapa, veterana de campo e mato, nunca tinha visto um animal com a cara branca-de-medo, de um lado, e verde-bosta-de-vaca, do outro!

 

                    

 

Vai daí que o matungo se aproveitou da anarquia e despachou um pataço sem piedade no queixo de um cusco graúdo, que me mirava de boca aberta, e que depois daquela noite passou a tomar água feito cavalo: chupando. Não pensem vocês que eu não me importei do animalzinho ter ficado só com um coto da língua. Pelo contrário; na mesma hora me peguei imaginando como é que o pobre faria pra lamber as bolas. E pior: já pensou um verão daqueles bem brabos e o bicho tendo que aprender a assoprar as moscas? Acontece que por mais que eu tenha ficado chateado com aquilo não poderia fazer nada. A cachorrada da estância não andava lá comendo muito bem, e a língua do coitado serviu de jantar para um outro mais faminto que estava por perto, e que não perdeu a oportunidade de fazer um lanchinho.

 

 

Pois não vê que depois disso a cachorrada, por alguma razão, enfureceu-se com o matungo e se atracaram nele como corvo em carniça, mordendo aonde sobrasse espaço. Como o espaço já não fosse muito, pra salvar o que lhe restava de couro partiu o animal velhaqueando campo a fora, esparramando arreio e mala-de-garupa pra tudo quanto foi lado.

Solito no meio do campo, tendo por companhia o Patrão Celeste e um cusco sem língua babando sangue, achei que aquela era uma boa hora para encontrar meu rumo. Numa reza mui apressada pedi a Deus que fosse cuidar daquele pobre cavalo acossado de dentadas, porque eu dali podia me arranjar sozinho. Pensei comigo “me basta uma carreira boa e já logo to lá dentro e bem seguro”, e foi o que eu fiz!

Mas deixa que eu tinha me esquecido que aquele cusco ao meu lado podia não ter mais língua, mas dentes tinha de sobra. E quando eu comecei a corrida acho que ele se lembrou desse detalhe, de modo que dali até a entrada do galpão levei pelo menos umas quinze mordidas. Aconteceu que a última dentada do infeliz deslinguado me pegou meio que de mau jeito; e quando eu já me achegava na porta me enredei das patas com o bicho, ainda grudado na minha bombacha. O resultado disso foi que fui entrando já dando cambalhotas e acabei esparramado no meio da gauchada. Antes que baixasse a poeira, gritou um bobalhão: “vai entrando, companheiro, que o mate já tá servido!”. Me levantei, mui altivo, e com o que me restava de coragem ensaiei um “Boa Noite!”, com a voz desafinada, o que só serviu para provocar mais risadas, que responder não responderam.

Num canto do galpão, logo à esquerda, reinava um fogo de chão, aonde se assava uma costela bem graúda, cravada em dois espetos de pau. E ao redor dele meia dúzia de peões mateavam entretidos, sem dar a mínima para a minha chegada desastrosa. Para lá seguiram, também, os que estavam à porta me esperando; quatro no total: dois dizedores de bobagens e dois bobalhões, que riam e diziam graça de mim. Do outro lado, à direita, brilhava um fogo menor, debaixo de uma trempe. E por cima dela duas panelas tisnadas e uma chaleira que fumegava sem parar. Ao lado daquela cozinha galponeira um homem montava guarda. Cigarro caído no canto da boca e uma caneca a seus pés, da qual ele se serviu com fartura, antes de se dirigir para mim, perguntando num tom mui manso:

- Te perdestes, guri?

Eu bem que tive vontade de responder que se tivesse me perdido não estaria ali. Mas a minha educação de sacristia não me deixou dar a resposta merecida. Mesmo porque, verdade seja dita, ainda que o padre velho não tivesse me amansado à palmatória, eu não teria mesmo respondido atravessado, por duas razões. A primeira foi que o silêncio que se fez no macherio, depois que ele fez a pergunta, foi uma coisa de impor respeito. E se aquele monte de homem respeitava, não ia ser eu que daria o mau exemplo falando fora de hora. O segundo motivo pelo qual eu me calei foi porque naquele dia tudo o que podia acontecer de ruim já tinha acontecido - eu achava. E eu não queria piorar as coisas me arriscando a perder meia dúzia de dentes, que iam me fazer falta na hora de saborear uma costela daquelas que estavam assando com tanto capricho. Em razão disso respondi, com humildade:

- Sim senhor...

“Sim senhor!”, continuei em pensamento e pensando baixinho, para que nada mais desse errado, “Eu não deveria ter achado graça da sua ignorância, com relação às letras, naquela tarde. Mas o senhor já foi à forra! Portanto, seu Ernesto Mão-pelada, vamos deixar de rusga, já que a conta tá zerada! Porque se o senhor se fresquear, depois que eu me casar com a Helena lhe meto um pé na bunda!”.

Que raio de ventre estragado tinha cuspido aquele bicho pra fora eu não faço nem idéia. O caso era que a bondade tinha passado bem longe daquele corpo e a única coisa em que ele concordava comigo era na vontade que um tinha de sentar as patas nos fundilhos do outro. Pelo menos foi o que ele deixou claro naquela noite, pois eu ainda não tinha nem achado um lugar para sentar e ele se saiu com essa:

- Pois, então, guri, se tu tens alguma intenção de dormir neste galpão é bom que vá te lavar, porque nem a cachorrada que vive por aqui fede tanto que nem tu!

- Sim senhor! Só que minhas mudas de roupa se esparramaram pelo campo a fora. E como é que eu vou fazer?

- O que qualquer um, na tua situação, faria: procura!

- Mas, seu Ernesto, e a cachorrada?

- O que é que tem?

- Se me estranharem de novo?

- Corre! Não foi assim que chegastes aqui?  

- Sim senhor – falei, resignado, quando percebi as intenções dele - E o quarto de banho?

- Só se usa no inverno. Vai te lavar na sanga!

- E onde é a sanga?

- Te vira! Tu és muito inteligente pra te apertar por bobagem. Só não me entra mais neste galpão, enquanto estiver nesse estado - disse ele, encerrando a conversa, já alterando a voz.

Que remédio? Dali mesmo, sem nem ter descansado, dei a meia volta e me vi na frente do galpão, outra vez. E nem é preciso dizer que já saí me pelando de medo de me topar com a cachorrada. Devagarzito fui ganhando terreno e espichando a vista o mais que podia, na esperança de encontrar, bem depressinha, qualquer trapo que pudesse usar por uma noite. Pelo jeito, algum anjo tinha escutado minha reza apavorada. E já logo me topei com minha mala de garupa que, por sorte, tinha sido refugada pela cachorrada; e que fora uma coisa ou outra ainda guardava consigo um bom pedaço de pão, um naco de queijo e uma faquinha carneadeira. Por sinal, que essas coisas tinham sido postas na minha mala por conta do João Vieira, campeiraço de primeira, que conhecia de antemão as necessidades de um homem a campo. Logo adiante encontrei o poncho velho, servindo de cama para o cusco deslinguado. Mas eu não me sofri; saquei da carneadeira e rezei um Pai Nosso que, aliás, nunca é demais, recomendando a alma do seu Ernesto pro lugar que ela merecia, e me fui disposto à outra lambança, que afinal miséria pouca é bobagem; assim diziam os antigos!

Mas deixa que o cusco era daqueles que só tinha valentia quando andava de bando. E quando se viu solito, tendo que se ver de mano comigo, preferiu ganhar o campo, num “caim-caim-caim” que parecia até que tinha levado um talho nos quartos! “Bueno! Agora só me falta achar a sanga!”, pensei, assim que meu único inimigo fugiu, demonstrando valentia igual à minha. Pela frente do galpão eu sabia que não era, pois foi daquela direção que eu tinha vindo, de modo que só podia ser por trás. Dei volta e resolvi rodear junto ao galpão; nunca é bom desprevenir. E se por acaso o deslinguado tivesse ido buscar ajuda, eu pelo menos tinha pra onde correr. Eu já ia rodeando o galpão, quando uma voz me fez sentar de soco. Era o Mão-pelada, trovejando o vozeirão para a gauchada no interior. Não que eu fosse curioso nem dado a ouvir conversa alheia, mas já que eu andava por ali não custava nada me inteirar do assunto.

- ... Pois, entonces, a coisa é como lhes digo! O guri tentou fazer mal pra filha do patrão. E, por isso, ele tá aqui. O Dr. Manuel é mui amigo do padre que criou esse guaxo. E ele bem podia ter mandado sangrar o bicho. Mas não quis botar no ombro do padre a cruz de ter criado uma cruzeira... De modo que a coisa é como o patrão botou na carta. Vamos fazer esse guri pagar os pecados, até que ele se resolva a ir embora, por conta! Não quero ver ninguém se irmanando com esse traste e nem ajudando ele em nada. Deixem que o bicho sofra bastante, que é pra ver se ele se vai logo embora; e quanto mais rápido ele for, melhor pra gente. Porque o patrão pode chegar sem avisar e dar de cara com ele aquerenciado na estância, se criando gordo. E, aí, quem vai pagar é a gente! Se ele corcovear, podem passar o laço, à vontade. Mas não demais, de modo que ele não possa ir embora!

Lá de fora eu vi a boca da noite se tornar escura. “La-pucha”! Pensei com meu poncho velho: era só o que me faltava. Ou aquele velho infeliz não sabia mesmo ler e imaginou aquela conversa de louco, ou então ele leu e não se agradou do escrito e resolveu me botar fora. Eu não sei o que dizia na carta, mas eu não acreditava que uns beijinhos fossem levados tão a sério, pra me acusarem de fazer mal pra Helena. Fosse qual fosse o motivo, por aquele costeio de cordas eu não esperava. Mas deixa que a paciência é uma virtude cristã. E eu me lembrei que o padre Edson dizia que com fé todo coração amolece. Depois eu aprendi que à mango, também! De modo que desenredar aquele nó seria só uma questão de tempo.

Até porque - pensava eu - aquela estância sem fim, mais cedo ou mais tarde, teria a minha marca; e eu não iria deixar para trás, assim no más. O caso é que eu estava lá, encostado no oitão do galpão, entretido com bons pensamentos. E já tinha até me esquecido do que tinha que fazer. Mas o capataz me fez lembrar:

- Seu Honório! - gritou ele.

- Senhor?

- Vá até o meio do campo e chame pela cachorrada... Depois, vá lá pros fundos e atiça tudo na direção da sanga... Pra Deus não pensar que a gente é ruim, vamos ajudar o guri a achar a água!

Hay muita gente que tem estudo e cisma de dizer que água não tem cheiro; e eu até creio nisso. Mas eu também nunca ouvi falar que nenhum desses doutores tivesse uns vinte cachorros na cola e que fosse preciso achar água pelo cheiro, pra continuar neste mundo! Se lhes digo, acreditem, pois foi o que se deu comigo. Bastou para isso que o tal peão botasse o focinho pra fora e chamasse pela cachorrada. Dizia o Pedro Rengo que durante a viajem, da roseta até o encosto na virilha, de um tudo podia acontecer. E não é que ele estava certo? Mal o primeiro latido tinha entrado pelo ouvido, quando meu focinho apontou: é pra lá!

 

 

Saí numa carreira de fazer inveja a muito parelheiro, correndo na direção do nariz; e mui atento àquele mundo de latidos, que já se anunciava bem perto e que por certo vinham loucos por uma forra, sendo que não demorou muito e um galguito sinuelo me deu as “buenas” no garrão. Apavorado, e sem enxergar coisa com coisa, já que a noite era sem lua, espichei a pisada o mais que pude, na esperança de me topar com uma árvore ou qualquer outra coisa que me servisse de abrigo. Mas deixa que “quando o índio tá de azar até no peidar se descadera”, assim diz o ditado. E como eu não andasse num dia de melhor sorte, acabei foi enterrando as guampas numa vaca velha, que parada, pastava o ar justo no meu caminho!

Por vezes e vezes ouvi o João Vieira me dizer que a vida faz o que a gente quer, só que quase sempre do jeito que a gente não gostaria. E na situação em que eu me encontrava, era de se gostar menos ainda! Pois se passou que depois daquele acidente vacum, tamanha era a minha velocidade que assim que acertei o animal, ali pela altura do vazio, acabei voltando pra trás, ricocheteado à pança, de modo que acabei caindo bem sobre o galgo que vinha me beliscando. Desnorteado, assustou-se o pobre bicho mais do que eu. E com a bravura de um animal que é campeiro partiu, mui brabo, em direção à vaca velha, sabendo que a culpa pelo acidente tinha sido mais dela do que minha. Aconteceu que a pobre vaca, assim como eu, já sabia o que lhe esperava; e partiu na direção da escuridão, num galope feio, levando atrás de si a cachorrada lhe aporreando campo à fora. Talvez até nem me creiam, mas fiquei deitado no campo, feliz da vida, ouvindo os latidos, cada vez mais longe... (Cotinua...) 

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com
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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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