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Vilson Schmitt:
Tradicionalismo Moderno

 

03/06/2006 19:19:28
PORTO DOS ASSOMBROS
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Sou pedritense. Moro onde nasce o rio Santa Maria. Nesse rio tem uma zona determinada; lugar que, na revolução de 93, mataram uma camarilha de velho. Naquela revolução, era balaço pra cá, faconaço pra lá, ficando essa velhama estendida. Em homenagem aqueles velhos que pelearam por lá fizeram uma catacumba, na beira do mato. Lá, tinha um porto que dava muito peixe. Também, muita gente se aproveitava dos pescadores. Alguém ia pra se fazer de fantasma e saquear algum pescador. Diziam que aparecia muito fantasma, muito lobisomem. Um dia, convidei uma camarilha de amigos pra dar uma chegada no Porto dos Assombros. Uns, queriam, outros, não. Eu, também, fazia que queria e não queria, porque a cousa era feia... Aí, os índios disseram: - Tchê, nós saímos logo, meio borrachos, mais engraxados que telefone de açougueiro, do baile do Capixi (porque o Capixi tava dando um baile...). O velho Capixi era um desses velhos antigos, que domou muito naquela época e ficou meio alcatruzado. Pobre do Capixi... Dava horror de ver! Era boa criatura. Nunca conseguiu um pila pra botar uma chapa: na frente da boca um dente só; um negro velho, feio! Cabeça mais pelada que sovaco de sapo. Ele tinha umas mulatas, umas filhas; bonitas como ovo de pelincho! Os vestidos eram mais floreados que vestido de cigana. Bueno! Aí, combinamos: - No baile do Capixi, tem um concurso de valsa. Depois, nós meio se emborrachamos e vamos pra picada dos Assombros. Fomos pro baile, só assistir o concurso. Botamos a mala na garupa, tudo ajeitado: lampião, aquela lambança toda. Chegamos no baile. De repente, ali pelas dez horas, entaipou a lambança: o gaiteiro, tchê, só tocava pra cima, de tanta gente! Pelos lados, não dava; já se pechava todo mundo... Quando o negro queria rir, tinha que ser de bico, porque pros lados se pechava. Assim, ó de gente! E fomos. Só olhar o concurso de valsa, pra seguir viagem depois. No concurso tinha um negro, Calandro, de Dom Pedrito; famoso. O prêmio era bom. Parece que o Capixi dava uma novilha ao primeiro colocado. De repente, aquela negrada grudou na valsa. Mas, vou te dizer uma cousa: a indiada tirava os quartos como boneca de mexeriqueira. A noite inteira, tchê! E grudados na valsa! O Calandro não era trouxa. Escolheu uma mulata velha, dessas delgadas como pulga de tapera, e se atracou com ela. Oiga-le-tê, maula! Mas a cousa saltava fogo! Atracou-se com a mulata... a dançar. Aquela valsa durou uma hora e pico, mais ou menos. E nós, sempre olhando; com os cavalos prontinhos pra pescaria. De repente o Calandro largou... terminou a valsa, largou a mulata: morta. Caiu morta... Ah! Houve um princípio de bochincho nessa altura. Morreu, a mulata. Naquela corrida toda, gritei. – Vamos pra pescaria, que isso vai dar nó! – Não. Aí vem o doutor! Já saiu um lá, de auto, buscar o doutor. Este constatou que a mulata dançou quinze minutos, viva, e uma hora e quarenta e cinco o Calandro a puxou morta! Essa negra dançava mesmo, né? Esse resto, ela dançou morta. Não perdeu o embalo nunca, seu! Ganhou o concurso e o bochincho estourou. E nós, ó... Bueno. Nos mandamos pra pescaria. Esse negócio de bochincho não é comigo: - Vamos pra pescaria que é a nossa finalidade. Compramos uns pastéis do Capixi (que vendia pastel) e fomos embora. Já na pescaria, o primeiro pastel, que fui comer meio com fome, na bocada, o barbicacho me voou da cabeça. Dava horror, esses pastéis! Quando chegamos na costa do mato, nós já tava com as gadelhas lá em cima. Desencilhamos os cavalos e atamos à soga a cavalhada. O dono do petiço era bochinchão que dava horror! Companheiro de lá, também. Entramos picada adentro. Uma noite escura, preta como corvo e luto. Fomos entrando. Nos primeiros passos, nos atropela um lobisomem... E era negro que se atirava na reboleira, se atirava pra sanga... Aquele reboliço. O mato parecia que vinha abaixo. E ali ficamos. O tal de lobisomem sossegou. Bueno, a gente se refrescou. Começamos a cochichar uns com os outros e tal: - Tchê, vamos ver esse lobisomem. Não tá bem isso aí. Um companheiro, muito mais corajoso do que eu, saiu a procura. Viu que era uma vaca, pesteada de tristeza, que tava dentro do mato. E, uma vaca pesteada de tristeza não tem a quem não atropele! Primeiro susto! Mas, se constatou que era vaca; não tem problema. Agarramos as malas, de novo, e tocamos pras barrancas do arroio. Chegando no arroio, pegamos a comida que nós levava: só pastel. Daqui há pouco, um dava uma bocada e era chapéu que voava... Pastel do Capixi era só “rrrram”! Sentamos na barranca. Atiramos as linhas n’água. Atiramos longe, não! Olhamos longe, como avestruz em campo pequeno. De repente, um grito, meio à esquerda? “Mas, o que foi que te aconteceu?”. Bah! A gadelha se foi lá em cima! De novo! Em riba do laço, aquele grito! Na hora que eu tava comendo o pastel....E, voou o chapéu! Paramos o ouvido. Desastre! Começamos a nos olhar. Nós não tinha revólver, não tinha nada, só uns facões. Resultado do assunto: lá pelas tantas, fomos ver o que era. Chegamos numas reboleiras de unha-de-gato. Era um pedaço de disco da Jardinheira que tinha quebrado. Alguém botou fora e, com as enchentes, se enredou nas unhas-de-gato. Tava ventoso e quando a unha-de-gato passava ali o pedaço de disco tocava: “Mas o que foi que te aconteceu?”. Outro assombro! Aí, nos tranqüilizamos de novo. Voltamos pras barrancas do arroio. No que sentamos, o do petiço começou um bochincho com um companheiro. Mas, te falo de bochincho! Saltava tampinha de joelho, ponta de orelha, pé com bota... E eu, meio borracho, não tava dando importância pra aquela briga. O do petiço se incomoda e quer ir embora. <SPAN style="""mso-spacerun: " ? yes?> </SPAN>– Vou encilhá meu petiço e vou me embora! Nem tirei a saber porque eles brigaram. E ele encilhou o petiço. Não demorou quinze minutos o mato parecia que vinha abaixo! E vinha pro nosso lado.... Era o petiço do desgraçado, correndo direto a nós. Agarrou picada adentro e veio que nem uma lista! Só vi quando ele voou pra cima de nós e caiu pro meio do arroio. O desgraçado, borracho, encilhou um capincho que tava dormindo, deixando o petiço. Outro susto! O capincho se prendeu a velhaquear e saiu correndo direto à água. Terceiro susto! Decidi: “Até vou mudar de porto. Não fico por aqui. Não agüento mais!”. Saí e fui passeando bem aonde tinham pealado a velhama de 93, nas catacumbas. Mas, aí, fui me arrepiando.... Nem me dei conta daquilo. Quando dobrei uma catacumba, um me calça com um revólver. Mas, um monstro! Não sei bem o que era. – A vida ou a carteira! – gritou. – Mas que vida nova?! Eu já tô morto há trinta anos, chê!! – respondi, na tampa, pra aquela coisa feia!

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  Autor: José Fontoura
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Este causo Porto dos Assombros, narrado por José Fontoura, inscrito pelo Pólo Cultural de Bagé, conquistou o 1. lugar no Concurso de Causos do I Encontro Gaúcho de Literatura Oral, realizado de 08 a 10 de fevereiro de 1982 na cidade de São Gabriel-RS, a Princesa das Coxilhas e Terra dos Marechais!

 
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