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Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

27/02/2009 12:59:26
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: IV - O ENCONTRO DA SANGA...
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 O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

IV – O ENCONTRO DA SANGA

E A JUDIARIA DO PASSO

 

  

    

Depois de ter descansado, por mais ou menos meia hora, consegui, a custo, me por de pé. E não é nenhuma vergonha dizer que as minhas pernas tremiam de fazer chacoalhar os ossos. O corpo, antes aquecido pela correria, tinha esfriado completamente, depois desse descanso; e eu não sabia se tremia de frio, cansaço ou medo mesmo, que a noite era escura; e eu nem tinha idéia de onde estava. Avaliei a situação e cheguei à conclusão que, fora o desgosto, a coisa não andava de toda ruim. Caminhando a passos lentos me distraí, pensando nas intenções do capataz, sem dar atenção ao caminho por onde eu ia. Depois de algum tempo avistei, do alto de um cerro, o que parecia ser uma mata bem cerrada; espichei a orelha, com atenção, e não demorou muito para que eu ouvisse o barulho da água correndo sobre a pedra. Eu tinha como quase certo que aquela era a sanga por onde eu tinha cruzado, ainda cedo, naquele mesmo dia. De primeiro cheguei a pensar que não, mas puxando um pouco pela memória lembrei que a mata serpenteava por entre cerros, fazendo um caminho bastante irregular e que, por isso, nada impedia que aquela fosse a mesma sanga que eu pensava estar em outra direção. Apesar de ser uma noite de pouca claridade, a visão que eu tinha do alto me permitiu ver um lugar onde a mata era menos espessa; e era justo aquele tipo de lugar que eu procurava um passo. 

Entra aqui, sai ali, abaixa a cabeça, desvia dos espinhos, tropeça numa raiz e cara no chão. Bâmo de novo! E assim me fui, até topar com a água. Não era bem um passo, como o que eu tinha cruzado pela manhã, mas um lugar de árvores afastadas umas das outras, quase que como uma clareira, o que me deixou um pouco mais animado, porque não seria difícil achar por ali um lugar aonde eu pudesse passar o resto da noite. Quando me aproximei da água percebi que não era mesmo um passo de tropas, pois o barranco do outro lado era bem mais alto, o que atrapalhava a travessia dos animais. Mas era, com certeza, um lugar utilizado pelo gado para tomar água. Isso se percebia porque o chão estava cheio de marcas, fáceis de se ver até numa noite escura. Fui me aventurando na água de aos pouquitos, que minha sorte não andava das melhores; e não seria nenhuma surpresa para mim se por ali aparecesse, num repente, algum jacaré, touro brabo, cachorro louco, a mãe do capataz ou outro bicho de igual intenção.

Era um lugar bem rasinho, aonde a água, em alguns trechos, corria fazendo um barulhinho gostoso sobre o fundo de cascalho. E não fosse pela friagem da noite eu teria ficado de molho por mais tempo, que a água fria me fazia sentir como novo, tirando o cansaço e melhorando o ânimo. Além do mais, a fome campeava e eu precisava dar um jeito; lavei meus trapos o mais ligeiro que pude e pendurei tudo num galho de uma árvore de copa larga, que no verão deveria ser um achado para se descansar do sol, perto da água. Enrolado no poncho velho e com o corpo já aquecido dei de mão na mala-de-garupa e me acomodei junto ao tronco da árvore, para comer o que restava do fiambre. Não foi uma ceia das mais fartas, mas ainda assim dei graças a Deus por ter com o que encher a barriga: pão puro com água da sanga – o queijo eu já havia comido, enquanto caminhava -, que me fizeram o mesmo efeito como se tivesse comido em casa. Não nego que de saída tive medo de dormir a campo, mas depois de pensar melhor achei que ali corria menos risco do que no galpão. Em minutos dormia um sono solto.

 

São Joaquim - SC

Foto: Alvarélio Kurossu - JDC

 

Quando acordei o sol já se mostrava faceiro, em ponto bem alto. E por certo que não era muito cedo. Julguei que era hora de achar o meu rumo. E, enquanto reculutava minhas roupas, fui me preparando para a incomodação que, por certo, me esperava. Afinal, eu não tinha nenhuma dúvida de que o Mão-pelada não iria ficar nada satisfeito em me ver de novo, principalmente estando eu inteiro e são-de-lombo. Examinei minhas roupas e percebi que a situação não era muito boa, porque, apesar de terem passado a noite estendidas, o sereno e o frio fizeram com que continuassem quase na mesma. De sorte que eu ou vestia as calças molhadas ou teria de continuar pelado, com o poncho por cima. Como ultimamente eu andasse meio que de mal com a boa sorte, preferi vestir as peças molhadas mesmo, na esperança de que com a caminhada o calor do corpo terminasse o serviço.

Comecei a caminhada de volta ao galpão com passos largos, subindo o primeiro cerro depressa. E só quando cheguei no topo foi que me dei conta: pra onde eu vou? “Mas que barbaridade!”, pensei comigo; “já mal começa o dia e eu já tô enredado!”. Sim! Porque depois dos atropelos da noite anterior eu tinha perdido por completo o rumo das casas. Mas miséria pouca é bobagem, digo e repito! E uma das únicas certezas na vida do pobre é a de que as coisas sempre podem piorar. Como para que confirmar esse dito, quando olhei com atenção à minha volta me dei conta de que o cerro mais próximo era igualzinho ao que eu estava, de modo que eu já nem tinha mais certeza de por qual lado eu tinha vindo.

 

 

Resolvi seguir na direção do focinho, já que ficar parado ali não ia mesmo resolver o meu caso. E saí caminhando à toa como passeio de cobra, na esperança de que a sorte me conduzisse para o alto de um cerro que me indicasse um caminho para a estância. Marquei a direção da sanga, pela posição do sol. Pelo menos lá eu tinha água e abrigo para uma outra noite, se fosse o caso. E me lancei na imensidão do pampa emendando uma reza na outra, que a situação assim pedia e eu não estava recusando ajuda de ninguém. Quando o sol encostou no horizonte, anunciando a chegada de mais uma noite, voltei à boca do mato. Pois não vê que eu tinha andado o dia inteiro e não tinha visto outra coisa que não fosse cavalo e vaca, de tudo quanto foi jeito. Mas gente mesmo, que era bom, nem rastro. Como restasse ainda alguma claridade eu pude escolher um lugar melhorzinho para passar a noite, já que na véspera eu tinha ficado por conta do acaso. E julguei de bom tamanho me acomodar numa clareirazinha, onde meia dúzia de vacas pastava o ar, decerto se preparando para acomodar o mondongo durante a noite.

 

Foto: www.goura.com.br

 

Vá lá que minhas experiências anteriores com o animal vacum não me deixaram boas recordações, mas o caso era que bicho por bicho eu já me sentia quase que como um deles. De maneira que resolvi me impor, como cabe ao animal superior. E bastaram quatro ou cinco gritos para que o lugar ficasse livre pra mim. Acontece que uma das vacas deve ter sentido contrariedade no meu ato e, como forma de se vingar da minha superioridade presumida, resolveu deixar cair um bosteio que, de altura, quase regulava com os meus joelhos. Como o produto não tivesse muita consistência, bastou um pisão descuidado para que eu escorregasse e caísse sentado no estrume. “Pelo menos não foi de cara”, pensei, de pronto, já me sentindo com mais sorte.        

Louco de fome, freei de soco o desespero me agarrando com Deus numa prece baguala; e já fui dizendo pra Ele que se a coisa continuasse daquele jeito não ia demorar muito para que eu começasse a pastar e a mugir pelos campos. Nessa noite não consegui ter um sono tranqüilo. Por certo que a fome teve a sua participação nisso. De sorte que, depois de um pesadelo de fazer arrepiar até os cabelinhos das orelhas, tive um sonho esquisito, aonde eu me via deitado numa cama com a Helena, num calor bárbaro de fazer queimar as partes. Não era mais a Helena que eu conhecia, mas uma morena cor de cuia e olhos doces como os de um anjo, conservando os mesmos modos da Helena, como se fosse uma pessoa dentro da outra. Terminei o sonho com o padre Edson em pé, ao lado da cama, conversando com o João Vieira que, por estranho que parecesse, trazia o Mão-pelada atado pelo pescoço, enquanto me dizia: - tenhas fé, não deixes de acreditar, tenhas fé!

Mas alguma coisa me fez sair daquela cama quente. E quando dei por mim estava sentado no meio do mato, sentindo o coração batendo com força. Qualquer pessoa sabe que estando numa situação ruim a gente acaba ouvindo vozes e vendo coisas. Mas eu era capaz de jurar que tinha escutado um grito. Tomei ciência das coisas ao meu redor e me vi só, tal como tinha deitado. E tentava entender o que tinha acontecido, quando ouvi o grito de novo. “Bueno!” - eu disse para meu poncho -, “seja quem for é gente igual a mim. E com certeza está numa situação pior do que a minha, já que eu, pelo menos, ainda não ando gritando a campo”. Passei um bom tempo em silêncio, esperando que um outro grito pudesse me dar uma direção para seguir, porque pra quem está no meio do mato a voz parece vir de todos os lados. Como a pessoa havia se calado, reuni minhas tralhas e saí em busca de um lugar alto que me desse uma boa visão do que tinha em minha volta; e caso alguém dissesse alguma coisa, eu saberia para que lado seguir.

Pela posição do sol calculei que devia ser por volta das oito horas. “Mala suerte a do cristão, que a uma hora dessas já anda desesperado”, pensei, meio que consolando a mim mesmo. Aconteceu que na noite anterior, por conta do acidente com os dejetos da vaca, eu tinha deixado minhas calças de molho, num remanso da sanga, e acabei me esquecendo de enxaguar a peça. Quando me dei conta, voltei à sanga; e por sorte a minha calça ainda estava lá. Só que dessa vez não adiantaria vesti-la, para que terminasse de secar no corpo, que o problema não era apenas o de um resto de umidade. De modo que eu tive que levar a calça na mão e seguir nuzito debaixo do poncho.

 

Cambará do Sul - RS

Foto: Abaretiba

 

O tempo estava passando e alma nenhuma dava sinal de vida por ali; de maneira que resolvi sair sem norte, achando que talvez nem tivesse escutado nada e que não andasse muito bem da cabeça. “Que sina!”, pensei; “tão novo, e já meio louco!”. A fome campeava. E depois do segundo cerro eu resolvi sentar um pouco. E fiquei por ali, pensando bobagens, imaginando um monte de coisas boas de se comer, o que só fazia aumentar a minha fome. Mas deixa que a Providência é madrinha. E justo quando o desânimo começava a me dizer que não adiantava andar a esmo que eu não iria chegar a lugar nenhum, me chega aos ouvidos um som de patas de cavalo.

E apesar da alegria de ter escutado o que poderia ser a minha salvação, lhes digo, com sinceridade, que cheguei a ter medo de procurar pelo cavalariano, porque se eu não visse ninguém acabaria pensando que estava mesmo louco. Com calma, comecei a percorrer o campo com o olhar atento, capaz de ver até uma minhoca que rastejasse a cem metros de distância. Não é pouca coisa o que um homem desesperado pode fazer! Mal alcancei o topo do cerro e dei com os olhos no vulto que se afastava, num trotezito faceiro. E cheguei mesmo a abrir a boca pra um berro, mas a mão de um anjo não deixou que a voz saísse. Percebi, naquela hora, que a sorte ainda não tinha abandonado de todo o meu corpo franzino. E quando consegui respirar de novo, já se ia, no sentido contrário, o Mão-pelada!

Mas nunca é bom desprevenir, que a qualquer hora a sorte pode mudar de idéia. E, por isso, me fui às macegas buscar abrigo, só pra o causo de o tinhoso resolver virar o pescoço na minha direção. Fiquei um tempo por ali, quieto feito uma perdiz, enquanto alguma coisa no meu juízo me dizia que os gritos que eu tinha escutado não tinham saído daquela goela, pois que a voz daquele bicho era coisa de nunca mais se esquecer. Cheguei a pensar que ele estivesse tocando algum animal por diante, mas não enxerguei outros animais, além dele e o cavalo. E como - pelo que eu sabia, de ouvir falar - o Mão-pelada, apesar de meio louco, não era de andar aos berros pelos campos, só pude concluir, então, que os gritos não tinham vindo mesmo daquela boca.

“Bueno, guri!” - eu disse, pra mim mesmo -, “se não foi ele, foi outro alguém. E seja quem seja, ainda está por aí”. De qualquer jeito o sucedido tinha lá o seu lado bom, porque mesmo que ninguém tivesse gritado e fosse só impressão minha restava o consolo de saber que era só seguir no rastro do capataz que eu achava o caminho de casa. O causo é que eu ainda não estava louco e tinha, mesmo, outra pessoa por lá.

Desci o cerro a passo e mui desconfiado - assim como quem ganha sorriso de sogro brabo -, procurando com cuidado e rezando para que eu pudesse ver antes de ser visto; sabe-se lá que tipo de alma poderia andar vagando naquele ermo. Já pensou fosse algum peão procurando pelo meu rastro, depois de ter levado uma puteada do Mão-pelada? Esse, com certeza, iria ficar satisfeito de me courear, só pra puxar o saco do patrão, já que adulão é bicho que não tem vergonha na cara. Não tardou e dei com uma picada, que seguia em direção à sanga. Lugar de mato ralo; isso se via de longe. Era certo que por lá devia ter um passo, pois que o campo parecia muito batido, já que nem macega crescia naquela volta. Deixando a proteção do verde, resolvi seguir, de peito aberto, na direção da água, pois não tinha mesmo outro jeito, a não ser que eu ficasse por lá deitado no meio do macegal, esperando que o vivente desse as caras. Mas, assim, eu corria o risco de assustar o cristão, pois não vê que a fome era tanta e minha barriga roncava tão alto que era até capaz da criatura correr de medo, pensando que pudesse ser uma onça parida!

Só consegui enxergar o corpo moreno, caído na beira da água, quando cheguei bem perto. Um barranco de metro e meio tirava a visão de quem se aproximava da sanga. Mas, mesmo assim, eu não tinha me enganado; e o lugar era mesmo de cruzada para o outro lado.

- Moça... - Moça! - chamei baixinho, com medo de a assustar. Mas ela nem se mexeu. Fiquei um tempo parado, pensando no que eu poderia fazer, enquanto observava uma trouxa de roupas ao seu lado, numa espécie de pacote feito com uma peça de roupa maior. Decerto que eram roupas para lavar. O que sobrava de seu vestido, em farrapos, mal dava para lhe cobrir o corpo. Me agachei, bem junto dela, e tirei um lenço da minha mala de garupa, na intenção de secar o sangue que corria do canto da sua boca. “Que barbaridade!”, pensei; o sangue na boca eu até podia saber como tinha sido feito, mas o do meio das pernas era de um tipo de estupidez que eu ainda não conhecia. Acontece que naquela época eu era muito bobalhão, e das ruindades da alma sabia mui pouco. E na ânsia de encontrar explicação, acabei me lembrando de umas histórias que os guris da paróquia cochichavam, em segredo, sobre as mulheres: que moça era isso e mulher era aquilo, e que vez por outra vertiam sangue das partes... coisas desse tipo.

O tempo foi passando e eu me dei conta de que precisava fazer alguma coisa pela coitada. Mas, antes de tentar fazer com que ela acordasse, eu resolvi que não seria decente deixar que a pobre voltasse a si tendo o ventre à mostra. Como não encontrei nada nas coisas dela que servisse, usei o que tinha nas mãos: minhas calças, ainda molhadas. Com todo o cuidado – mas não menos desajeitado, pois vesti nela as calças viradas para trás - terminei a tarefa me sentindo orgulhoso. Estando ela vestida, pelo menos não sentiria tanta vergonha ao despertar diante de um estranho. Usando o meu lenço, molhado na água fria da sanga, comecei com todo o cuidado a limpar o seu rosto ferido, esperando que ela respondesse ao toque e abrisse os olhos. O problema era que eu tremia tanto que tive medo de cair desmaiado por cima dela, o que só iria complicar as coisas. Molhei, outra vez, o lenço na sanga e espremi a água por sobre a testa dela, enquanto observava os pingos escorrendo, caprichosos, sobre o seu rosto. Me veio, na hora, um pensamento de que se anjo tivesse feições de gente, por certo que não seriam diferentes dela. Tão concentrado eu estava na ternura daquele rosto que não percebi quando ela abriu os olhos. E, de um só tirão, sentou-se, a morena, com a cabeça sobre os joelhos, repetindo baixinho: “não me judia, não me judia...”.

 

 

Tantas e tantas vezes ouvi o padre Edson falando em misericórdia, mas até àquele dia eu não tinha a noção exata do que se tratava a verdadeira misericórdia. Porém, naquela beira de sanga, as palavras dele ecoaram nos meus ouvidos com um sentido muito especial. E foi como que tocado por algum dom que eu cobri as suas costas nuas, com uma camisa que tirei da minha mala; e o fiz com tanto jeito que percebi que até a respiração dela tinha se acalmado. Me pus de joelhos e abracei o seu corpo trêmulo, enquanto dizia pra ela: “não te assustas, que eu não vou te fazer mal; fica calma, tá tudo bem agora; não precisas ter medo...”. No meu tempo de cidade, no aconchego da sacristia, não foram poucas as vezes que vi o padre velho na lida de consolar o seu rebanho. E mesmo sem me dar conta, naquele dia me comportei como ele. Deixei que ela chorasse o tanto que precisava. E, quando percebi que já estava mais calma, tirei a mão dos seus cabelos negros e puxei conversa:

- Não precisas ter medo de mim, eu só quero te ajudar. Como é o teu nome?

- Juliana - respondeu ela, soluçando e sem levantar a cabeça.

- O que houve contigo? Como foi que te pisastes desse jeito? – perguntei, com inocência. Mas ela não respondeu e recomeçou a chorar baixinho.

- Estás sentindo alguma dor? – quis saber, com a voz baixa. E ela respondeu que sim, com um gesto de cabeça.

- Aonde? – eu disse, tentando ajudar. De repente, o choro parou e ela levantou a cabeça, lentamente, até que pudesse me olhar nos olhos e com toda a calma me disse:

            - Na alma!

 

 

Eu já tinha me encantado com ela, enquanto ainda estava com o rosto sujo, deitada na beira da sanga. Mas eu não podia imaginar qual seria a sensação de ter aqueles olhos fixos nos meus. Senti o rosto queimando; e nem era preciso que alguém me dissesse que estava vermelho como a brasa. Fiquei abobalhado, sem saber o que fazer, com medo de morrer sufocado, porque meu coração parecia bater de atravessado no meio da garganta. Tinha olhos azuis, a Juliana; cabelos longos, cacheados nas pontas, e negros como a noite de lua nova; a pele era cor de cuia bem curtida; e tinha uma voz que não se ouvia pelos ouvidos, mas pelo coração. Dali por diante, vivesse eu mais mil anos sem rever aquele rosto ainda assim não me esqueceria dele. Mas Deus é de uma bondade infinita; e logo depois que inventou a saudade resolveu que vivente nenhum viveria tanto!

Bueno! Deixemos as penas de lado e voltemos ao causo. Sofrenei os meus medos e anseios. E, mais seguro de mim, voltei à conversa:

- O que aconteceu contigo?

- Não vistes? - respondeu-me ela, com os olhos cheios d’água. Baixei a cabeça, sem jeito, e respondi, meio envergonhado:

- Não... me desculpa, mas não entendo o que se passou contigo.

- Então, melhor! - disse ela, como se desse a conversa por encerrada. Depois de vestir a camisa, que eu tinha posto em suas costas, voltou ao choro baixinho, como se fosse um choro de vergonha. Aquilo me cortava o coração. Então eu disse:

- Bueno! Eu não sei o que se deu contigo, mas não te desesperas. Eu ando perdido pelos campos já há duas noites e ainda confio que Deus vai me ajudar; pelo menos encontrei alguém. Quem sabe a gente se ajuda? Sem levantar a cabeça ela me disse, com voz chorosa:

- Então tu não sabes que na Santa Helena Deus não campeia? - dito isto, cortou o choro de soco. E me olhando, com o rosto molhado pelas lágrimas, perguntou:

- O que te aconteceu? Como, assim, anda perdido?

Acomodei-me sobre uma pedra, bem junto dela - dava pra sentir o calor do seu corpo - e contei-lhe toda a minha história. Por horas contamos as penas um para o outro, já sabendo que alguma coisa boa tinha se aquerenciado entre nós. Eu disse pra ela que minha vida andava meio confusa, mas que por força dos anos vividos em Casa Santa eu tinha a certeza de que com o tempo tudo iria se ajeitar. Ela, no entanto, não pensava como eu; tudo nela era desesperança; e não acreditava em primaveras na sua vida. Pelo menos, não enquanto o Mão-pelada andasse nesse mundo; e me explicou o porquê de pensar assim. (Continua...)

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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