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25/03/2009 11:28:27
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: V – OS PODRES DO PERRENGUE...
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 O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

V – OS PODRES DO PERRENGUE MÃO-PELADA

 

Estância Canaleira

Bagé - RS

 

           Juliana nasceu lá mesmo, na Santa Helena, e nunca conheceu outro mundo fora dali. Seu pai, o finado Aparício Melenudo, era o capataz, naquele tempo. E de acordo com o que ela se lembrava, a vida na estância era outra, não apenas pela fartura em que viviam, mas também pela peonada, que era decente e respeitadora, o que já não acontecia agora. Aliás, é bom que se diga que anos depois, quando tive uma oportunidade, puxei o assunto com o João Vieira e ele me contou que o tal Melenudo era um daqueles gauchões que não se encontram mais: campeiraço uma barbaridade e guapo de todo o cerne; amigo de não refugar parada, fosse de manotaço ou a ferro branco, e que entre tropeadas e bochinchos deixara a sua marca em muitos rincões. Enquanto solteiros, foram lindeiros de campos e vidas; e nunca houve aramado entre eles.

Um dia, na volta de uma tropeada, num povoado, lá pras bandas de Lavras do Sul, o Aparício enfrenou um cambicho mui sério com uma morena de nome Júlia; e como fosse tempo de tomar juízo, não demorou muito e já estavam casados.

As filhas vieram em seguida. Primeiro veio a Jandira, depois a Juliana, as duas nascidas e criadas na Santa Helena. Naquele tempo, o João Vieira visitava a estância quase que todos os dias, para matear de mano com o compadre Aparício - a Jandira era sua afilhada -, e não raro dormia por lá nos sábados, que era o dia que aproveitavam para por os assuntos em dia, caçar tatu ou tomar canha, churrasqueando uma costela gorda, no galpão, com a peonada.

 

Tatu Peludo

Fonte: www.faunacps.cnpm.embrapa.br

 

Aconteceu que um dia o Aparício fuçava uma furna de um tatu velho, de unha na cola, quando se deparou com uma cruzeira.

 

Urutu-cruzeiro

 

Bote certeiro! Quando chegou de volta na estância já não se tinha mais o que fazer; foi só o tempo de se despedir da mulher e das filhas e, em seguida, partiu para os campos lá do céu. Quando o João Vieira chegou lá, depois de ter sido chamado por um peão, o amigo já tinha partido.

 

Mão-pelada

Fonte: http://.br.viarural.com

 

Depois da morte do compadre, assumiu a capatazia um sujeito de nome Ernesto, trazido ninguém sabe de onde, e que, por conta de uma mancha branca em uma das mãos e, também, por ter as unhas compridas, ganhou logo o apelido de “mão-pelada”, ou guaxinim, que é o outro nome do bicho. De cara, o tal Ernesto e o João Vieira já não se deram bem; mas o João Vieira tolerava a ignorância do recém-chegado, por causa do carinho que tinha pela família do finado compadre. Aconteceu, então, que o novo capataz não se agradou muito das visitas freqüentes do João Vieira e não tardou o dia em que tiveram uma discussão muito séria, por conta de gado, pois que, segundo disseram, tinha gado da Santa Helena estanciando na Tapera, e o Mão-pelada exigia que o mesmo fosse devolvido.

 

Tropeando

Sant’Ana do Livramento

 

No tempo do finado Aparício esse tipo de coisa era comum; e vez em quando um chegava na estância do outro com um lotezito de boi fujão. Mas agora a coisa tinha mudado e o novo capataz insinuava que os bois não tinham cruzado pra o outro lado, por conta própria. O João Vieira é claro que não gostou daquilo e partiu de adaga em punho, chamando o tal Ernesto para o ajuste de contas. Mas o bicho era manhoso e conhecia o nome do João Vieira; de modo que refugou a parada, dizendo que era um homem de paz e que não se agradava daquilo, e que só estava ali por trabalho e não queria inimizade com ninguém.        

Antes de deixar a Santa Helena o João Vieira preveniu Mão-pelada de que a família do finado capataz era também a sua família, e que se soubesse de alguma queixa da parte delas voltaria lá para uma “conversa”. Depois disso o João Vieira nunca mais pisou por lá; não que ele não soubesse de alguma queixa por parte da comadre, mas o caso foi que o Mão-pelada foi mais esperto, e ao final de um ano já tinha ganhado espaço no catre da dona Júlia, tornando-se, assim, o seu segundo marido. E o que era pior, segundo a lei dele, com o direito de tratar a família como bem entendesse.         

Contou-me, ainda, o João Vieira, que quando em ponto de moça feita - lá pelos quinze ou dezesseis anos - a sua afilhada Jandira deixou a estância numa madrugada de inverno, e dela nunca mais se soube. Segundo o “diz-que-disse” ela andava se virando em casa de china, mas, de verdade, ninguém nunca viu. Quando eu tive essa prosa com o capataz, anos depois do meu primeiro encontro, naquele dia, com Juliana, o meu coração pulava no peito toda vez que o assunto se referia a ela ou à família, e eu acabava sempre querendo saber um pouco mais. Como o João Vieira estivesse disposto a contar seus segredos, depois de mais um trago de canha servi o mate e passei a cuia pra ele, enquanto perguntava:

- Ela era bonita?

- Quem? - ele disse, fugindo da pergunta.

- A dona Júlia...

- Era, tal e qual eram, também, as gurias dela.

- E o senhor nunca pensou em se casar com ela, depois da morte do seu compadre?

- Andei bem perto... – respondeu, como se isso pesasse de alguma forma.

- E por que não casou? Ela não quis?

- Acho que também queria, mas nunca se falou nisso.

- Por quê? – perguntei, curioso.

- Essa conversa tem espinho demais pra o meu gosto. Mas, se for pra ti parar de me indagar, vou te responder o que realmente se passou: o caso foi que eu tive medo...

- Medo? Medo do quê? - eu quis saber.

- Não sei te explicar, mas acho que tive medo de que pudesse acontecer comigo o mesmo que se passou contigo; medo que ela morresse, fosse embora, sumisse no ar ou coisa assim.

- Nem acredito! O grande João Vieira, que andou de lança e adaga em punho, peleando em revolução, com medo de viver um grande amor!

- Eu vivi o meu grande amor... - disse ele, tentando me dizer o que eu já imaginava - ... só que no tempo errado! Depois dessa resposta fechou a cara e não quis mais saber de conversa. Ficamos os dois sentados, à entrada do galpão, tomando mate com canha, debaixo do poncho de estrelas, cada um remoendo as suas saudades.

De volta àquele dia na beira da sanga, me contava, então, Juliana, que quando a sua mãe resolveu se juntar com o seu Ernesto já era nascido o filho dele - o Nestinho -, cria de uma mulher do povoado, a qual ele ainda mantinha como esposa, e de quem elas nunca souberam o nome. Acontece que aquele casamento de dois lados não durou muito, porque a mulher do povoado descobriu o que se passava na Santa Helena; e depois de muita peleia desataram os nós, e cada um foi pra o seu lado. É bom que se diga que a coisa não se deu de forma mui amigável, e ele só desistiu da mãe do Nestinho porque depois da última tunda descadeirou de vez a ciumenta, de modo a não mais ter serventia; e como ela já não prestasse mais pra os seus achegos, a deixou de vez!

Desde então dona Júlia e as gurias viviam como prisioneiras na Santa Helena, sempre ameaçadas de violentas surras, caso não prestassem a devida obediência ao capataz. Conforme eu já disse, um dia a irmã sumiu no mundo, sem deixar explicações; e Juliana se viu só com a mãe, prometendo a si mesma que nunca a deixaria abandonada na estância, nas mãos daquele sujeito, por motivo que fosse; lhes digo que sofreu de toda pena a Juliana, até que finalmente se libertou da promessa e trocou de campo. Mas isso é coisa que depois se fala.

             Entregues um ao consolo do outro e aquerenciados no prazer da companhia, quando a gente se deu conta já ia bem adiantado o dia, passando em muito a hora do almoço.

- É bom a gente dar jeito - disse ela -; se alguém nos pega juntos é certo que a vida se complica ainda mais. Tu já fizeste por mim o que podia, e eu te prometo que nunca vou me esquecer disso. Mas, agora, é melhor tomar o rumo das casas e fazer de conta que nunca me viu.

Assim que Juliana acordou do desmaio, eu disse que vesti as minhas calças nela, porque não tinha encontrado nada que servisse. Depois, ficamos conversando e esquecemos disso. Quando ela se levantou, para ir embora, se deu conta de que não poderia chegar em casa vestida com aquela roupa. E ao examinar a trouxa, que a mãe tinha lhe dado para lavar, percebeu que eram somente roupas do capataz, de maneira que teria que ir para casa usando o vestido rasgado. Pediu, então, que eu desse as costas, quando ela se levantasse, para que ela não se sentisse envergonhada de usar aqueles trapos, que a bem da verdade não tapavam coisa nenhuma.

- Não precisa isso... - eu disse, cheio de boas intenções.

- Toma, leva o meu poncho, que esta noite eu durmo sem precisar dele. Mal acabei de falar e fui levantando o poncho, para poder passar para ela. Mas deixa que tudo ia tão certinho - o que não era normal de acontecer comigo - que eu acabei me esquecendo de que por debaixo do poncho não estava usando nada, o que fez com que a morena desse um grito apavorado, quando me viu naquele estado.

Não foi pouco o que eu precisei de calma, pra fazer com que ela compreendesse que tinha sido só uma confusão infeliz. Até que, por fim, ela recuperou a confiança em mim e aceitou minhas desculpas pelo acontecido. De costas um para o outro, vesti minhas calças, enquanto ela vestia o poncho, me perguntando o que diria se perguntassem pra ela de quem era aquilo.

- Não te preocupas com isso, porque eu tinha mesmo perdido ele na confusão da chegada, entrando e saindo do galpão sem ele. Se alguém perguntar, diz que achou no campo. Por enquanto, fica com ele; que é pra não esquecer de mim - eu disse, sentindo o rosto em brasas.

 

Fonte: mercadolivre

 

Olhando nos meus olhos, ela cruzou os braços, abraçando o poncho contra o corpo, e eu senti que aquele gesto era para mim. Depois de me ensinar o caminho das casas – bem perto eu estava, por sinal, mas teria de esperar um bom tempo até que lá chegasse, pra seguir meu rumo –, nos despedimos, com promessas de que, assim que fosse possível, nos veríamos de novo; e cheios de uma tristeza diferente, nos apartamos. Foi, então, que eu renasci! Não pensem vocês que eu me esqueci de Helena, assim tão rápido. Pelo contrário, não se passava um dia sem que a imagem daquele rosto bonito, de cabelos loiros, me viesse em pensamento. O caso era que naquele momento Helena era uma presença distante, se é que isso é possível, e pertencia a um mundo cheio de confortos e bem diferente do que eu vivia, então.

 

Pampa Sul-rio-grandense

 

Na solidão do pampa, eu não tinha parentes ou amigos que pudessem me oferecer algum tipo de conforto ou segurança. É claro que eu tive essa oferta, por parte do capataz da Tapera, mas ainda assim eles também me pareciam estranhos.

Enquanto voltava ao galpão, depois de ter passado quase a tarde toda deitado na beira da sanga, fui refazendo meus planos, pensando num jeito de poder cuidar de Juliana; porque, no que dependesse de mim, nunca mais o Mão-pelada sentaria as garras nela. Antes de tudo era preciso que eu continuasse vivo e, para isso, teria que me entender com o capataz; pelo menos até o dia em que o meu padrinho desses as caras na estância e ficasse tudo esclarecido. Nesse dia eu tinha certeza que a última visão que eu teria do capataz seria a dele indo embora, com os fundilhos ardendo e a minha marca gravada nele.

E foi assim que a vida seguiu o seu rumo, de acordo com a vontade de Deus – principalmente, a do capataz - e em total contrariedade com a minha. Não que tudo tivesse se perdido, porque se eu disser isso vou mentir.

 

 

Salvaram-se algumas coisas boas daquele tempo, como o meu couro, por exemplo; e é claro, o mango papada-de-touro - sobre o qual se fala mais tarde -, e que foi usado para encomendar a alma do Ernesto Mão-pelada, diretamente para o quinto dos infernos... (continua)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com
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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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