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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

10/04/2009 08:14:55
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: VI – NA LIDA BRUTA, DE CAMPO...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

VI – NA LIDA BRUTA, DE CAMPO E GALPÃO!

 

Foto: Guilherme Pulita

   

Conforme eu dizia, Juliana passou a nortear minha vida. E dali em diante, de tudo eu passaria de bom grado; nenhum fardo seria por demais pesado, a ponto de me fazer dobrar a espinha. Foi pensando assim que, no cair da tarde daquele nosso primeiro dia, cheguei de volta ao galpão.

Para minha sorte a gauchada ainda não tinha voltado da campereada; e a única alma que eu encontrei foi a do velho Anastácio, caseiro de longa data e tão velho quanto a própria estância. Já tinha me falado sobre ele o João Vieira, dizendo que no passado tinha sido um peão respeitado no rincão, homem bom e direito, mas que agora andava surdo, rengo e ruim das idéias, de modo que quase já não tinha serventia; e que só se sustentava nos garrões porque era de raça crioula pura, gente que morre de pé feito vela de pagar promessa.

No osso da vida cravei sorte de seco com o tal Anastácio. Aliás, que ele já esperava pela minha chegada, não sei se recomendado pelo Mão-pelada ou pela própria Juliana, que tinha chegado bem antes de mim e de quem ele gostava muito. Em todo caso, fique claro que se o capataz lhe tinha recomendado um lote de ruindades para quando eu chegasse o velho provou que não andava mesmo regulando bem. E contra as minhas expectativas, me tratou bem uma coisa por demais, o que me fez sentir como gente outra vez. Por motivo que nunca me tocou saber, quando a indiada esbarrou de volta, depois de um dia que parecia não ter fim, a noite já ia adiantada. E graças ao velho caseiro, de nada faltava no galpão.

Cambona

Imagem: mtg.org.br - modificada

Seguindo as instruções dele, cedo eu busquei água na cacimba, que ficava nos fundos do galpão, e ajudado por ele aprendi a acender o fogo de chão, de modo que quando a peonada chegasse já encontrasse as cambonas cheias de água quente para o mate. Depois, cortei um pouco de lenha; não muita, que isso sempre tinha de sobra, mas o velho disse que era só pra que eu ficasse amigo do machado. Antes de entrar de vez pro aconchego do galpão, botamos as vacas na mangueira, onde fui avisado, desde então, que leite se tirava mui cedo, e que o melhor seria eu sair para a função assim que o primeiro peão se levantasse. Quando finalmente terminei de varrer o galpão ele me deu permissão para acomodar minhas coisas num canto e esperar, de banho tomado, pela encrenca, que era certo que viria com a chegada do capataz.

Preparando a boia

Gravura: lucas.art.br

O próprio Anastácio trouxe da cozinha da estância os panelões: um com arroz e o outro com feijão e charque gordo. Além deles, uma panelinha com comida suficiente para três, que ele disse que era pra me entregar só depois que o capataz se recolhesse para casa. Pedido da moça lá das casas, que era pra ficar em segredo. Por enquanto, pra modo de enganar a fome, que ela sabia ser grande, um pedaço de pão com manteiga e uma fatia generosa de queijo. Aliás, que a tarefa de ir à cozinha buscar qualquer coisa era somente dele, já que o capataz não permitia que homem nenhum botasse os pés perto das mulheres; e nem mesmo olhar para elas ele deixava. Além da comida, Juliana mandou, em seguida, o meu poncho, dizendo num bilhete que nunca se podia imaginar as intenções do capataz, e que o melhor seria que ficasse comigo, embora isso fizesse com que ela ficasse um pouco triste, por não poder dormir abraçada nele.

Fiquei curioso de saber como ela tinha aprendido a ler e escrever; e fiquei sabendo, depois, que no tempo em que a esposa do Dr. Manuel era viva todos os empregados eram alfabetizados. Ignorância é doença séria - dizia ela. Nesse tempo Juliana ainda nem era nascida, ou, se era, não lembrava mais dela. Mas dona Júlia cuidou que as filhas não sofressem da tal doença. De quebra, Juliana mandou, também, um prato de louça e talheres, uma caneca, cuia, bomba e um tanto de erva, suficiente para quatro ou cinco dias. Recomendava, ela, que eu deixasse tudo aos cuidados do velho Anastácio, que era de muita confiança; ao contrário do capataz, que podia de uma hora pra outra cismar de revisar minhas coisas e dar de cara com tudo aquilo. No começo tive medo que o velho pudesse contar para o Mão-pelada a raiz de tudo, mas eu não tinha como ter certeza; de modo que era preciso confiar no julgo de Juliana, que dizia ser ele confiável. O melhor de tudo foi saber que ela não tinha se esquecido de mim; e a volta do poncho amigo, antes de me aquecer o corpo, me enchia de calor o coração, cada vez que eu sentia nele o cheiro dela.

Desencilhando

Gravura: Vasco Machado 

Enfim, chegaram; ar grave e cara de poucos amigos. Era evidente que o cansaço fazia efeito e, por conta disso, nem fizeram caso de mim. Desencilharam e largaram a cavalhada no potreiro da frente andando com passos arrastados, confirmando que o dia tinha sido mesmo longo. Depois do lavar de pés e mãos muitos até refugaram o mate e se atracaram direto nas panelas. E teve até um que nem agüentou terminar de comer; e quando viram o infeliz já dormia sentado junto ao fogo de chão, com o prato ainda sobre as pernas.

 

Chimarreando

Gravura: lucas.art.br

 

           O capataz, como de costume, não comia antes de matear, acompanhado de uns tragos de canha. E como tivesse começado o dia maltratando a pobre Juliana, seguiu, depois, mui satisfeito, judiando da peonada; o que pelo jeito tinha sido suficiente para aquele dia, já que ele também parecia cansado e só de vez em quando é que me lançava um olhar. Depois de jantar, com o palheiro no meio dos beiços, me dirigiu a palavra.

- Quando todo mundo acabar de comer, se sobrar alguma coisa, tu pode comer os restos, que isso vai te ensinar a dar valor a um prato de bóia. Mas não esquece de dividir com a cachorrada, que os bichos são teus irmãos e te querem bem. Teu lugar de dormir é aí mesmo onde estás, que é por aí que a cachorrada se deita. E tu ainda é muito novo pra deixar a tua família... - disse ele, sem me olhar nos olhos. - Amanhã tu ajuda o seu Anastácio na lida das casas, enquanto eu penso no que fazer de ti. Depois disso deu boa noite pra gauchada e tomou o rumo de casa.

Assim que ele saiu a peonada seguiu o exemplo, e sem demora foi cada um pra sua cama, na peça que ficava junto do galpão e que servia de dormitório. Quando teve certeza de que todos tinham se recolhido o seu Anastácio trouxe o meu prato e a panelinha com a comida. E não era nenhum exagero dizer que ali tinha mesmo comida para três. Mas confesso, sem nenhuma vergonha, que comi de não deixar nem o que lamber para os cachorros! Acabei servindo pra eles o resto que a peonada tinha deixado nos pratos, o que, aliás, não era muita coisa. Da obrigação de racionar os animais tirei proveito de travar amizade, já que da mão que alimenta nem bicho nem gente esquece; e graças a isso nunca mais tive problemas com eles. Depois de satisfeito, devolvi as coisas pro caseiro, agradecendo quase às lágrimas pelo o que ele fazia por mim, o que ele respondeu com um resmungo. Com o passar do tempo, depois de conhecer melhor as manias do velho, cheguei à conclusão que aquele resmungar podia ser entendido como um gesto de amizade ou afeto. Abraçado ao poncho respirei fundo, buscando o aroma desejado e, pensando nela, adormeci.

Posso dizer que dormi de mais ou menos para mal. Cachorro por baixo, por cima e por entre, sem falar no pulguedo infernal, que podia ter sido usado como uma das sete pragas do Egito.  Bem acomodado como estava, já no primeiro toque do caseiro me pus de pé.

- Isso lá é lugar de gente dormir... – resmungou o velho, falando sozinho. -  Apura guri, que se o capataz te pega no sono te faz levantar à coice. Vai lavar essa cara e traz água pro mate, que do fogo eu mesmo cuido.

Ligeirito no más me fui à cacimba e, sem muito enredo, consegui voltar antes que o capataz andasse na volta do fogo; de percalço, mesmo, só uma alpargata perdida, mas isso era coisa que depois se via. O calor do fogo logo se fez sentir; e o chiar das cambonas era como um chamamento. Como se adivinhasse o que eu pensava, seu Anastácio aconselhou:

- Deixa piá, que mais tarde se mateia com calma, depois que eles saírem.

No rastro dele segui para a mangueira. Não é pouca coisa o aprendizado campeiro. Não sei que tipo de pecados o Anastácio velho trazia encangado, mas naquela madrugada de pouca luz e muita confusão fiquei com a impressão de que aquele pobre caseiro tinha se livrado de um lote deles. Pra começar eu não enxergava quase nada e já de saída, atordoado pelo mugir de vacas e berros de terneiros, cravei o garrão num balde e saí tropicando pelo mangueirão de pedras, numa zoada que assustou a bicharada; e como resultado botei dois terneiros pra correr campo à fora. Só não fiz estrago maior porque o velho me agarrou pelo braço, sem entender o que se passava; e só o que ele disse foi um mas que barbaridade!. Aliás, essa expressão de espanto passou a me perseguir em situações como aquela, já que a minha vocação pras cagadas estava apenas despontando.

- Fica no meu costado - ele disse -, e só faz o que eu te mandar.

E foi assim que ele encheu um balde de leite e disse para eu por em tal lugar; e eu fiz direito no más. Veio um segundo balde, e eu certinho conforme o mandado. Nota dez, pensei comigo. No terceiro, tudo nos conformes. O problema veio com o quarto balde. Pois não vê que uma vaca tinha bosteado pelo caminho, coisa comum numa lida daquelas, e eu, abobado a não mais poder, falseei uma pata e me fui ao chão de todo o lombo, numa cagança de dar dó. O incidente resultou numa mistura de leite com bosta de vaca, que deixou no ar um cheiro que dava nojo e água na boca, ao mesmo tempo. Tivesse isso acontecido quando eu andava perdido na mata, era bem capaz que eu tivesse provado!  Mas deixa, que a coisa ainda iria piorar. 

Depois do quinto veio o sexto e último balde - que leite tinha à la-farta -, e foi nesse que se deu a tragédia da qual ainda trago a marca. Aconteceu que depois de findar a ordenha o velho me alcançou o balde e disse que largasse por ali, porque ele queria tirar umas canecas, pra modo de a gente tomar ali mesmo, ainda quente. Há quem não acredite, mas larguei o tal do balde bem de atrás de uma vaca, que pra ajudar na desgraça não era das mais mansas; e foi pra já que ela largou-lhe um pataço de fazer inveja a muito bagual colhudo. Vai daí que depois de voar bem uns quinze metros, corcoveando pelo ar, o amaldiçoado balde achou por bem fazer o pouso bem pelo meio das guampas de um curioso, que vinha dar fé do serviço! Sem outra coisa que pudesse ser feita, chamei em meu socorro uma legião de santos, que andassem sem serviço, pedindo a Deus que aquele curioso fosse qualquer um, menos ele.

Mala suerte, companheiros! Quando abri os olhos, ele já vinha em minha direção – mui tranqüilo por sinal –, trazendo o balde na mão.

- Perdestes alguma coisa, guri? – perguntou, sem alterar a voz; e no mesmo embalo em que vinha me largou o balde com vontade pelo meio das ventas, de modo que se eu não levanto o braço, num gesto de proteção, nem estaria por aqui lhes contando o causo. Não que o balde não tenha me acertado; a sorte foi que decerto um daqueles santos que eu tinha convocado chegou a tempo de evitar o pior. Se não pude desviar o golpe, pelo menos amorteci com o braço; e como resultado um talho de meio palmo e um monte de desaforos que eu escutei por ter estragado ainda mais o balde velho. Nem preciso dizer que ele não ficou nem pouco satisfeito com o meu gesto de defesa; e só pelo desaforo fechou o punho e me acertou pelo alto da cabeça, como quem dá uma martelada. Não é bonito o que vou dizer, mas só quem já sentiu o pescoço enterrando na caixa do peito sabe qual é a sensação de achar que o espinhaço vai sair pela bunda!

Quando acordei, depois daquele golpe bárbaro, ainda no mangueirão, a manhã já ia adiantada; e pela posição do sol devia ser por volta do meio-dia. Contrariado, por não ter conseguido sucesso no atentado, depois de me passar uns laçassos pelos quartos, o dito me proibiu de sair dali e me deixou sem comida, sem água e sem poncho que me servisse de coberta durante o resto do dia e à noite. - Se a fome apertar muito pode comer um pouco de bosta, disse, dando as costas, prometendo voltar na manhã seguinte. Pra ter certeza de que eu não pensaria em descumprir sua ordem, deixou de sentinelas dois peões, que se revezaram na vigília. Por conta da vigilância, nem mesmo Juliana pode fazer algo por mim, de modo que tive de suportar a situação, no osso!

Gente ruim conheci de lote nesta vida. E na qualidade de aprendiz de Padre, debaixo de muita reza - e surra com casca de vaca -, consegui amansar uns quantos; e os que não pude, deixei aporreados. De gente ruim até corno brabo, passando por doido que dá na mãe, mas não rasga dinheiro; de bêbado valente até sogra de bigode; enfim, de tudo quanto foi raça de afilhados do capeta eu tratei do jeito que pude, mas da qualidade do Mão-pelada nunca mais encontrei nenhum. O bicho era ruim de todo o lombo. E eu acredito que depois de ter parido aquele ser, até mesmo o cão dos infernos achou que tinha exagerado e jogou a forma fora.

Relembrando o meu Padre velho - Deus o tenha! -, para quem não havia ser que fosse de todo ruim, porque de um jeito ou de outro algum proveito sempre se tira, me vi na obrigação de concordar com ele. O bom do capataz foi que na ânsia de me judiar ele acabou por me ajudar a fortalecer o espírito. De qualquer modo meu corpo nunca concordou com a participação dele nessa história de fortalecer a alma, pois do que ele recebeu do capataz nada teve de bom! Se por força de espírito ou teimosia eu não sei, o caso foi que eu agüentei o repuxo daquele dia; mas essa força toda só conseguiu passar da primeira noite, porque o que me esperava para o dia seguinte era coisa de não se fazer para um cristão de poucos pecados como eu.

Com um galo mui altivo cantando alto, pelo meio da testa, achou por bem o capataz mandar trazer de uma invernada - que com certeza fazia divisa com o inferno - um touro brabo, que de tão furioso nem a cachorrada chegava perto. Para que se tenha uma idéia do bicho, ouvi a explicação da peonada, dando conta do atraso, de que foi preciso cinco homens para sujeitar o animal a laço; dois laçaram pelo pescoço, dois pelas patas e um ainda teve que passar uma chaira pelo focinho do bruto, onde prenderam a argola do laço para, enfim, dominar o monstro. Ainda hoje me admiro de ver com que disposição a gauchada se atira nas lidas de campo, enfrentando bichos e perigos sem nunca deixar de cumprir uma tarefa. Enfrentaria eu, de bom grado, dez Mãos-peladas se preciso fosse, só pra não ter que passar nem perto da morada de um bicho daqueles!

Não satisfeito com a contrariedade do animal, mal chegava na porteira da mangueira o monstro - tapado de laços esticados, a ponto de quase arrebentar -, o infeliz do capataz achou de bom tamanho deitar por sobre o lombo do tinhoso um sovéu de cinco pontas, que deixou cada vergão que era coisa horrorosa de se ver; sumanta daquelas amansava até lobisomem louco, e era de arrancar lágrimas até do próprio dono dos infernos. Não tivesse o causo se passado comigo, nem eu acreditaria se me contassem; mil quilos do mais puro ódio, convidados a dividir com uma única alma cristã a solidão do mangueirão de pedras!

Acontece que o animal - o capataz, não o touro – achou que podia fazer melhor, do ponto de vista dele, é claro, e antes que a peonada livrasse o monstro daquele mundo de laços mandou que eu tirasse a roupa. Eu não iria tirar, porque achava aquilo um absurdo. Mas, depois que ele deitou o sovéu, pela segunda vez, sobre o meu espinhaço, passei a achar que o dia já estava mesmo um pouco quente e resolvi atender ao pedido dele.   

Não tomem por desaforo a comparação, mas eu me senti como um daqueles cristãos no circo de Roma! Quando deparei com a anarquia, ainda cheguei a pensar em convocar, por via de uma reza forte, uns cinco ou seis santos, que eram da minha confiança. Mas desisti da idéia, achando que seria um pecado imperdoável convocar uma alma santa para dividir comigo uma parada daquelas. Até porque se já tinham me deixado na mão, refugando paradas menores, naquela, mesmo, é que não iriam se achegar! Mas fé é coisa que passa a fazer parte do inconsciente da gente. E quando me dei conta, já estava convocando São Jorge, já que enfrentar dragão não deveria ser muito diferente de peitar um bicho daqueles. De qualquer jeito o castigo acaba hoje, pensei, como forma de consolo; já fiquei emanguerado um dia e uma noite e é certo que outro dia não passo!

´           Naquela manhã, de nenhuma esperança, escrevi, para sempre, no livro das bravuras pampeanas, como é que se separa um guri de um homem! Como guri que era, me fui bem ligeirito buscar abrigo num cantinho que estava perto. E oitavado ali na quina, fiquei esperando pela cabeçada que me faria, enfim, conhecer a minha Santa Mãezinha, lá no céu. Comecei a chorar baixinho; não de medo, mas emocionado pela iminência desse encontro celeste. E se não abri um berreiro foi só pra não incomodar o animal, com as minhas coisas pessoais – afinal, cada um que cuide dos seus problemas; e não era a minha intenção tornar-me um problema na vida dele.

Depois de muito correr pelo mangueirão, enlouquecido, buscando um lugar por onde pudesse sair dali, não mais que num repente o bicho deu-se conta da minha presença. Mui lentamente, baixou a cabeça e começou a sua pequena viagem na minha direção, mugindo fino e bufando grosso; até que parou, a coisa de meio metro de mim. Bufando com vontade, deu uma arrastada de pata no chão que, se o piso não fosse já tão socado, pelos anos de uso, teria aberto um buraco grande - o suficiente para que eu coubesse dentro, sem sofrer aperto -, e soltou, em seguida, um mugido, que ecoou na minha cabeça por muitos anos. Tapado de judiarias foi se achegando mui cuidadoso, para ter certeza de que aquilo era mesmo gente. E, com uma só cabeçada, me fez trocar de ponta, feito uma folha no vento, sem que eu saísse do meu cantinho. Mas deixa que eu, antes encolhido, de testa no meio das pernas, fui parar de cabeça pra baixo e patas pra cima, numa posição esquisita, de modo que eu via o bicho de cabeça para baixo; e tão perto ele estava da minha cabeça, que se eu quisesse dar um beijo amistoso era só esticar o beiço!

Aconteceu, então, que ele achou de bom tamanho dar mais um daqueles mugidos, de fazer tremer as pedras; e, como resultado, tudo o que estava guardado dentro de mim saiu de uma só vez, de modo que eu me caguei de todo lombo! Até aonde eu sei, esse foi o único caso conhecido de um infeliz que conseguiu fazer chover merda sobre si mesmo. Não contando com essa minha reação de defesa, a criatura desavisada respirou fundo, pra tomar fôlego, antes da cabeçada fatal. Quando sentiu, de chofre, o aroma daquilo que tinha se esvaído de mim – cheiro brabo uma barbaridade! - cheguei a ver uma lágrima escorrendo daquele seu olhão; então começou a recuar, devagarito, decerto pensando que não seria uma boa idéia enfiar as guampas naquilo! Sem entender coisa com coisa, vi, com espanto, quando o bicho tomou velocidade e se atirou com toda a força contra a porteira da mangueira, levando tudo por diante e sumindo num galope pelo campo a fora. Com a consciência do dever cumprido, desmaiei sem nem mudar de posição. 

Quando dei por mim, estava de molho na sanga. Um pouco mais acima seu Anastácio, sentado numa pedra grande, fumava um palheiro, distraído; e perto dele pastava um petiço baio. Me lavei com disposição, cheio de alegria, por ainda estar no mundo dos homens; e depois de muito esfregar as roupas nas pedras, me acheguei pro lado do velho.

- Toma um gole, guri! - disse ele, me passando uma garrafa, já pela metade. - A guria lá das casas, pelo jeito, te quer bem; mandou dizer pra ti aguentar o tranco e que, conforme for, havendo jeito ela te ajuda. Toma - insistiu ele -, bebe um gole grande, que é pra poder firmar o garrão e endireitar o lombo. Mas não te atira com muita sede, que tu andas fraco. Além disso, a gente tem que “racioná”, porque canha na vida do peão funciona como remédio, que se usa pra modo de aliviar as penas.

Nunca fui dado a discutir com os mais velhos; e se o homem disse que era remédio, é por que era mesmo. Sem mais delongas virei o litro nos beiços, tomando um gole mui farto, que me fez tossir por meia hora. E quando o homem esticou o braço na minha direção, querendo de volta o remédio, eu repeti a dose. Dali por diante senti que meu coração voltava a bater forte, na caixa do peito.

Naquele ano o inverno, já de saída, se apresentou medonho, chegando de repente na primeira semana de maio, depois de um domingo de muito sol, dando a todos a certeza de que não se teria o costumeiro veranico de maio. A segunda-feira amanheceu debaixo de uma garoa fina e gelada, de fazer o sangue correr devagar nas veias; o que se estendeu por três dias, sem dar trégua. Depois vieram as geadas branqueando os campos, acompanhadas do temido Vento Norte, um presente dos hermanos argentinos; e, novamente, chuva, frio e geada.  Depois, muito frio; o Minuano ou Pampeiro, como dizem alguns; frio e mais frio!

Até ali eu vinha me agüentando, conforme a vontade de Deus, fazendo minha lida diária com muito cuidado, pra evitar alguma encrenca, já que o tempo lá fora não convidava pra uma noite a campo, ou coisa parecida. Ainda assim, volta e meia eu descuidava e o capataz me deitava o relho no lombo, o que me fazia sentir amargurado. Quando isso acontecia eu me quedava entristecido, achando que a vontade do Pai Celeste não valia mesmo, naquele rincão.

Antes, encontrei-me com Juliana umas quatro ou cinco vezes, se muito, sempre que a peonada seguia para o povoado, aos domingos, correr atrás de china, gastar umas patacas no jogo do osso e se encharcar de canha. O Mão-pelada me mantinha racionado, com os restos que eu tinha de repartir com a cachorrada - pelo menos ele pensava isso -, mas Juliana compensava o jejum, contrabandeando, através do velho Anastácio, bóia da boa, com fartura, sem falar que quando podia me surpreendia com algumas doses de aguardente ou vinho, roubadas, corajosamente, do padrasto.

Passada aquela tarde na sanga, Juliana aprendeu a escapar dos cercos do capataz, mas tornou-se arredia, só se deixando ver quando tinha certeza de que ele tinha saído da estância. Trigueira de olhos mui azuis, cabelos já pela altura dos quadris, ainda hoje, depois de muito correr campo, não topei com china que lhe fizesse parelha e nenhuma que lhe chegasse aos pés. Com certeza se perguntarão mais tarde: mas e Joanita, não era também ela tão bonita quanto Juliana? É claro que era, mas Joanita era fruto da terra, com sabor e cheiro de terra; de sangue ancestral anterior à própria raça dos centauros gaúchos, enquanto que Juliana tinha ascendência angélica, como se não fosse cria deste mundo, nascida de homem e mulher. Talvez, por isso, tenha se ido... quer dizer, acho até que nem foi; esperava em casa, como dirá Helena, mais adiante.

No último domingo, antes de o inverno repentino pegar a todos desprevenidos, nos encontramos na beira da sanga, no lugar de costume: um lajeado de pedra, que ficava mais acima do lugar onde nos vimos, pela primeira vez. O lajeado se estendia por quase toda a largura da sanga e não era usado pelos animais, por causa das pedras que dificultavam o acesso; e nem mesmo a peonada gostava do lugar, porque diziam ser mal assombrado. Contavam que por ali se tinha degolado gente, na Revolução de 93. Naquela tarde, antes de ir embora pra casa, Juliana se achegou com um jeito diferente, com os olhos brilhando. E aconteceu um beijo tão cheio de doçura, que depois dele mel de Mirim passou a ter gosto de fel, quando comparado ao sabor daqueles lábios.

- Não sei por quê - disse ela -, mas tenho a impressão de que a gente vai demorar pra se ver de novo; e eu te dei esse beijo pra te sentir perto de mim, se isso acontecer. 

- É cisma tua! Até que chegue o inverno e a gente tenha que ficar encerrado em casa, ainda leva mais umas semanas. Depois, quando o inverno chegar, eu tive pensando em fazer um buraco, assim feito um tatu, e vou abrir a boca da furna bem no teu quarto, que é pra gente poder ficar juntinhos, nos dias mais frios - eu disse, arrancando um sorriso bonito da sua boca.

Conforme eu dizia, depois daquele domingo ensolarado o inverno fez querência nos pampas rio-grandenses. E por conta do mau tempo, no fim de semana seguinte a peonada não pode deixar a estância. Eu andava um pouco aéreo, naqueles dias, sem nem me importar com a presença do capataz, por andar cheio de uma alegria interior, só de pensar em Juliana. O beijo da última semana trouxe para a minha vida uma vontade de viver, de um jeito que eu nunca tinha experimentado; era como se até aquele dia nada de ruim tivesse acontecido e as nossas vidas recém tivessem começado. Pressentindo alguma felicidade no ar, naquela madrugada, e, como se anunciasse um temporal carregado de trovoadas e relâmpagos, achou por bem o Mão-pelada que era hora de fazer o que ele mais gostava de fazer, quando não tinha nada pra fazer. Depois de muito roncar de cuia me saiu com essa: - Já vi que o guri anda treinado, na função de fazer fogo de chão. É pena que tenhas feito um fogo tão grande, porque tá um calorão daqueles. Mas não há de ser nada! Vamos lá pra fora, que tu precisa te acostumar com o frio.

Digo, sem nenhuma vergonha, que senti a barriga corcovear como há muito não sentia; lancei mão na direção do poncho velho, que naqueles dias me era de muita serventia, mas o capataz, antevendo a minha intenção, mostrou sua discordância.

- Não faça caso, animal, que para o que tu vais fazer isso só vai te estorvar! – disse num meio-sorriso, sem disfarçar a falsidade.

Mandou que eu encilhasse um matungo mouro, meio brabo, que pastava no potreiro da frente, que além de dar trabalho pra pegar só foi parar quieto já bem longe do galpão. E quando voltei com o bicho no bucal, o dia já ia quase amanhecendo. Quando digo que o dia estava amanhecendo, não confundam com clareando, pois que o que tinha de nuvem escura por cima era uma coisa de fazer velho dizer que o mundo já estava acabando, de tão carregado o céu! Disposto a fazer com que os homens não fossem à vila, encher a alma de pecados, o Patrão lá de cima providenciou um temporal de impor respeito, anunciando que faria chover de boi tomar água em pé. Cada raio que caía iluminava como se fosse o meio-dia de um dia de verão; e era seguido por uma trovoada, de fazer tremer o chão debaixo das patas.

            - Demoraste, guri! - me disse, mal eu entrava com o cavalo. - Vamos ter que correr um pouco, pra não perder a manhã de serviço.

Quando eu terminei de encilhar o mouro, ele deu de mão nas rédeas; bem agasalhado com um poncho grosso, que só de ver já dava um suador.

 - Por acaso, o amigo não pensou em montar nesse animal, não é? - perguntou ele. - Se tu tivesse voltado mais depressa, eu ia te dizer que era pra ti pegar um pra teu uso. Mas, como te atrasaste, não vai dar tempo pra isso. O jeito vai ser tu correr um pouquinho...

Mal terminou de falar e saiu ganhando o campo, num trote agalopado, enquanto que eu, sem demora e conhecedor da volta que viria, começava uma carreira no rastro dele. Por mais de uma hora corri pelo campo feito um louco; de vez em quando facilitava, no pular de uma macega, e me ia de cara ao chão. Mas o capataz sempre vinha em meu socorro. E mal o relho cantava no lombo, eu já me punha de pé outra vez; quando ele não inventava de me dar um coice, mal eu endireitava o espinhaço, me fazendo cair de novo, antes que eu tivesse ficado de pé.

Quando julgou que já tinha encontrado um bom lugar - depois que eu caí pela última vez, e não levantei com três relhaços - apeou do cavalo e começou a me explicar o serviço. Em meio a um chircal, de metro e tanto de altura, se agachou junto a uma planta, que não media ainda um palmo, e com um puxão firme arrancou a erva com a raiz inteira.

             - Tá vendo as grandes? - perguntou ele.

             - Sim senhor! – respondi, pressentindo a encrenca.

             - Arranca todas, e com a raiz inteira, que é pra não dar rebrote. Se tu conseguir terminar antes do almoço, eu mesmo carneio um capão gordo e te sirvo o churrasco; se não der tempo de terminar antes do almoço, nem me apareça por lá, a não ser no cair da noite. No outro dia tu voltas, pra terminar o que ficar faltando. Como é inverno e tu quase não tens o que fazer na volta das casas, achei que tu ias gostar de sair um pouco pra rua; quando terminar esse campo, te boto em outra invernada.

Olhei o campo à minha volta e encomendei minha alma pra qualquer santo que se interessasse por ela - embora eu duvidasse que, com um tempo daqueles, aparecesse algum candidato. Antes lembrei-me de recomendar o Mão-pelada direto pro colo do capataz do último dos infernos, ainda que eu desconfiasse que já estivesse diante dele.

Otimista uma barbaridade, fiz uns cálculos a meu favor e cheguei à conclusão que cem homens não dariam conta da tarefa em um ano.

Firme nos arreios, o infeliz se despediu de mim: - Tu és guri de igreja; reza pra chover bastante, que amolece a terra e ajuda no serviço... Vá que algum daqueles santos te dê ouvidos! - disse ele, me dando as costas e ganhando o rumo das casas.

Foi-se o bicho e veio a chuva; e com ela veio o granizo, castigando, firme, como se tivesse obedecendo alguma ordem do capataz. Sem muito pensar, me atirei numa carreira desesperada, com o que ainda me restava de força para isso, seguindo em direção a um capão de mato, que se via ao longe; e não tinha corrido ainda nem meia légua quando um clarão surgiu no meu costado, seguido de uma barulheira de ensurdecer. Só me lembro de ter dado umas três voltas pelo ar, antes de apagar, delirando, certo de que algum ser celestial tinha vindo lá de cima, para me levar no colo! (continua)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com
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Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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