Usuário:
 
  Senha:
 
 

Walther Morais:
No Arremate do Dia

 

07/06/2009 11:11:35
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: VIII – O ENTREVERO E OS MANGAÇOS DO
............................................................................

 O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

VIII – O ENTREVERO E OS MANGAÇOS DO PAPADA-DE-TOURO!

 

 

Conforme o correr dos dias, enquanto o capataz esteve fora, o velho Anastácio foi me domando no serviço da volta das casas e no trato com os animais de leite e montaria, de modo que peguei logo o jeito certo de fazer as coisas.

E no ato de tirar leite de madrugada eu era o mesmo que um terneiro, bebendo o que podia daquele leite gordo e quente, que me fazia ganhar corpo a olhos vistos. Minhas trapalhadas na mangueira já quase não aconteciam; embora uma vez - não vou mentir - emangueirei um tourito que andava querendo namoro com uma vaca, por ali, e que acabou causando um bocado de confusão na hora da ordenha! Também é verdade que naquela madrugada o velho Anastácio, mui jeitoso e enxergando menos do que eu, conseguiu até manear o bicho, mas se atrapalhou ao apertar uma teta que não era teta; e quando se deu conta do engano, me socou um balde pela orelha, que ainda hoje lembro o barulho que faz! Mas aos poucos fui me ajeitando, comendo a lá-farta, mas não na frente dos outros, que pra isso eu ainda não tinha confiança; e assim fui ganhando em saúde e força.         

O dia seguinte amanheceu com todos ansiosos, querendo saber como o capataz se comportaria nas lidas de campo. Mas, para a surpresa de todos, ele não apareceu - o que, diga-se de passagem, eu comemorei como se ele tivesse morrido. E essa sua ausência se repetiu por mais dois dias. No terceiro, sem notícias dele, fui ter com Juliana na beira da sanga. Era dia de lavar roupas e, pela hora da sesta, nos encontramos conforme o combinado.  

Primeiro o namoro sobre o lajeado grande; sem muita conversa, que uma semana de saudade me tirava o poder da fala. E, depois do banho em remanso seguro, voltamos para o mundo dos homens.

- Que tal anda o bicho? – perguntei. Por acaso anda amolado? Prometeu ajustar umas contas comigo e não voltou mais!

- Acho que ficou louco de vez! - me disse ela. Só faz tomar canha, comer e dormir. De quando em vez fica brabo, sem motivo, e diz que vai nos passar o laço... A mãezinha não me conta, mas eu acho que ele andou dando nela... - ela falou, com tristeza na voz.

- Filho da puta! – resmunguei. Se te encostar um dedo, lhe arranco a passarinha!

- Não te bobeia, meu guri!

Quando ela me chamava assim, a voz ficava se repetindo na minha cabeça: meu guri... meu guri... meu guri...

- Não te bobeia, meu guri, que ele me olha de um jeito como se desconfiasse de alguma coisa; se nos pega junto, adiós tia Chica! - completou ela, usando uma expressão típica dos pampas.

- Ele se fresqueou contigo? - perguntei.

- Ainda não. Mas me olha de um jeito... Não fosse pela teimosia da mãezinha, o melhor que a gente fazia era ir pra Tapera e de lá ganhar o mundo, depois que a coisa acalmasse.

- Eu já cansei de te dizer isto! – falei, chamando a atenção. - Pensa bem, minha prenda, mais cedo ou mais tarde ele vai querer te incomodar, mas antes vai querer dar um jeito em mim. Tu querendo fugir, é pra já que a gente dá jeito! Alguma coisa anda me tirando o sossego; e eu tenho sentido a barriga roncando, sinal de que vem coisa por aí...

- Não! - disse ela, teimosa. - Já basta a covardia da mana Jandira, que nos abandonou. Só saio daqui sem a minha mãe depois dela morta, ou quem sabe nós duas juntas...

- Pelo amor de Deus! - reclamei com ela. - Não diz uma coisa dessas! 

Quando chegou a hora, nos despedimos; e ela me beijou com doçura.

- Te lembra, meu guri, daquela vez que eu te beijei assim, porque tinha cismado que a gente ia passar um bom tempo sem se ver? - perguntou.

Eu lembrava... Tinha sido num domingo à tarde, antes do inverno e antes do acidente com o raio.

- Pois, então! - disse ela. - Daquela vez eu andava com um mau pressentimento e acabou que, ao invés de a gente ficar longe, aconteceu foi que a gente acabou ficando bem juntinhos.

- É verdade! – concordei com ela, sem me dar conta de que ela tentava me dizer alguma coisa.

- Pois guarda também este beijo que te dei, porque eu ando de novo com aquele pressentimento... 

 - Nem de brincadeira! - reclamei com ela, meio que brincando. - Nem vem com outro raio daqueles, que só de pensar me arrepia o espinhaço. Tem jeito melhor de a gente ficar junto: é só tu arrumar a tua trouxinha...

- Não te assusta, meu guri, que não vai te cair nenhum raio pela cabeça; dessa vez o mau pressentimento é comigo. E é por isso que eu te peço que guardes esse beijo no teu coração.

 Na direção do Uruguai, um raio cortou o céu; e um vento frio me fez arrepiar. Fiz o sinal da cruz e rezei baixinho: - de novo não! Foi o que pedi, mas eu estava enganado; foi bem pior! 

Armação de tempo do lado uruguaio não era coisa para se brincar. Esse aprendizado herdei do velho Anastácio, quando das primeiras aulas, ainda no mangueirão de pedra da Santa Helena. Por vezes e vezes achei que o mundo ia se acabar num dilúvio, a cada vez que los hermanos nos mandavam chuva. Normalmente, quando o tempo se arma na banda oriental não tarda a chover. Mas naqueles dias São Pedro tinha outros planos, e por três dias deixou que o céu carregasse, sem que uma única gota caísse; só para aumentar a angústia e castigar o peão. 

Era um dia de sábado, lembro bem. E, conforme mandava o costume, na parte da tarde a peonada se desdomava e cada qual corria para o seu destino, casa de família ou de china, variando conforme o costume e o gosto de cada um, sendo que mesmo os que tinham família não deixavam de dar uma passadinha nas “gurias”, nem que fosse só para tomar uns tragos e dar “as buenas”.

O costume nas estâncias é de que no fim-de-semana sempre fique um peão na função de caseiro, já que o quartel não pode ficar sem soldado. O Anastácio velho de há muito não ía no povo, primeiro, porque não tinha família, e, depois, porque já não podia mais se refestelar com china; de modo que tinha se enraizado na Santa Helena. O meu caso era quase o mesmo; não tinha família e nem me interessava em correr atrás das “gurias”, pois a que me importava estava por ali mesmo, de jeito que eu também não arredava o pé da estância. Até porque mesmo que eu quisesse não acredito que o Mão-pelada deixasse.  

E como nos sábados a estância ficava despovoada dos bichos de alma, eu e a minha “anja” trigueira tínhamos a tarde inteira para o nosso namoro, sem medo de que algum peão nos achasse por conta do acaso.         

Juliana tinha o costume de sair tão logo terminava as lidas de casa, quando a mãe aproveitava para tirar a sesta. Eu não tinha hora certa, pois sempre tinha um peão mais lerdo, que não se dava conta de que o tempo não tem pena do pobre, e saía sempre mais tarde, como se as horas perdidas não lhes fizesse falta. 

Peão que não se dava com o banho conheci de lote! Era um tal de lavar rosto, mão e pé, sem falhar nem no finados. Mas banho, mesmo, de corpo inteiro, era outro assunto. Um desses foi o Anastácio. Dizia o velho que traíra toma sol sem sair da água, e que, portanto, ele podia muito bem tomar banho sem entrar nela - na água, não na traíra.  

Mas acontecia que três ou quatro vezes por ano a coceira incomodava por demais; e era nessas poucas ocasiões que o bicho velho se via na obrigação de dar com os costados na água, conforme aconteceu naquele dia.

Pois bueno, senhores! Conforme eu dizia, o tempo de há muito se preparava na banda uruguaia, sinalizando a quem tivesse juízo que não era bom sair sem poncho. Mas aquele foi um dia diferente. E tanto foi que o Anastácio resolveu tomar banho. Todo mundo esqueceu do juízo; e do poncho só eu lembrei.        

Primeiro foi Juliana, que obedecendo às ordens do amor e maneada nos desejos do corpo, tratou de buscar aconchego no remanso da sanga à espera do seu - no caso eu -, e por lá se esqueceu da vida. Depois foi o capataz, que não esquecendo da morena - e como a mãe não lhe tivesse serventia - a mãe dela, não a dele -, tratou de sair no rastro da presa. Aconteceu que por conta do destino, e principalmente da sujeira, seguiu também o negro velho no rumo da sanga; e eu no rastro dele, só que com outra intenção. Vai daí que o destino juntou todo mundo no mesmo rodeio. Choveu uma barbaridade!  

E a confusão se deu na medida, conforme agradava ao tinhoso – refiro-me ao dos infernos, não ao da estância! 

Aconteceu mais ou menos desse jeito: tão logo chegou na beira da sanga, Juliana se aquerenciou sobre o lajeado, de corpo estendido, pois ainda que não fizesse sol forte o mormaço tinha sido suficiente para aquecer a pedra. E aquele chamamento de calor convidava para um cochilo despreocupado, sem dar atenção à outra coisa que não fosse o ruído manso da sanga, correndo sobre as pedras.         

Mas deixa que naquele dia o Ernesto Mão-pelada acordou virado ao avesso. E como já há muito tempo não causasse mal de boa qualidade, cismou o maula que os grãos andavam mui inchados e que somente uma pessoa lhe poderia trazer conforto. Sequer deu as caras em casa para o almoço, pois desde a madrugada que ansiava pela sobremesa.  

E para dar mais graça, derrubou uma garapa azulada goela abaixo, um litro bem medido, sendo que durante toda a manhã quase não fez outra coisa.

Nem é preciso dizer que eu só vim a saber desses detalhes depois de tempos passados. Mas acontece que a verdade precisa ser dita de um todo, pois que meia-verdade é o mesmo que meia-mentira. Assim me ensinou o seu Alírio Jardim. E por isso preciso repetir todos os passos do capataz, desde a madrugada.         

Depois de tomar todo o litro de canha brava, andando à toa pelos campos, o Ernesto velho cismou de achar que dona Júlia - renga, estropiada, torta e jeitosa como uma vaca de botas - podia ainda ser de alguma serventia naqueles assuntos de calor nas partes. Como a filha dela lhe tivesse escapado das vistas, mal entrou em casa e atracou-se sobre o lombo da pobre mulher, sem nem mesmo dar qualquer sinal das intenções. O problema foi que ninguém pôde explicar para aquele trapo de gente que se ela tivesse cedido aos caprichos do bruto, o que se passou com a filha poderia ter sido evitado; nem que para isso ela se visse obrigada a castrar o marido. A essas alturas já não preciso dizer que gente e bicho era, no ver do capataz, de um jeito ou de outro tudo bicho, sendo que para ele bicho animal exigia melhor trato, já que era coisa do patrão, enquanto que gente era bicho sem dono. Conforme eu dizia, se aproveitou de quando a mulher se curvou para pegar qualquer coisa que se lhe tinha escapado das mãos, e com a delicadeza de quem faz exame de toque em vaca alheia amontoou-se de espora e tudo sobre o espinhaço torto da esposa, há tanto tempo sem uso.         

Quis a mão do destino - e eu não me atrevo a dizer que foi a mão de algum anjo - que o que tinha caído das mãos de dona Júlia fosse justo uma acha de pau-ferro, de uma pilha de lenha, que ela sem muita pressa arrumava num canto junto ao fogão. Tomada de susto, ao ser atropelada daquela maneira, reagiu por puro reflexo. E não mais que num repente, servindo-se da agilidade que há muito julgava morta. Livrou-se do ataque do animal e com o mesmo pedaço de pau, que apanhara do chão, sentou um pataço pelo meio do focinho do atrevido. O golpe deixou o cretino ainda mais bêbado do que já estava, ficando o bicho meio encurvado, no meio da cozinha, com as bombachas pelo meio das pernas e com as vergonhas num estado meio sim meio não, conforme o gosto de cada um... Não que o Mão-pelada outrora fosse outro, pois por vezes e vezes a esposa havia pensado que aquele homem fosse mesmo uma espécie de centauro pampeano, só que sem nenhuma qualidade mitológica, mas que por certo tinha sido amamentado por uma égua, já que no passado era mesmo do costume dele agir daquele modo.

 - Mas que barbaridade, animala! Acaso não te agrada mais os meus carinhos, cadela velha? - disse ele, com ar de decepção, sentindo o sangue escorrer do nariz. Num minuto falava, no outro baixava o braço na direção do ouvido daquela que até instantes antes era o objeto do seu amor.

- Pois então vai ser do teu jeito, imprestável! E é pra já que te desentorto... No segundo manotaço dona Júlia percebeu que a coisa não ia ser boa; e após mais dois, já dormia a velha, estirada no chão da cozinha. Acontece que o Ernesto velho tinha lá seus caprichos; e se disse que desentortava, era porque desentortava mesmo. E por conta desse temperamento perseverante foi que encostou o taco da bota contra o espinhaço da mulher, fazendo força contra o chão, até que ouviu o estalar dos ossos.

Feito o serviço sentou-se num mochinho. E, sem pressa, saboreou o restante de uma cachaça, esquecida na cozinha, pensando na enteada. Antes de sair à caça, olhou para o corpo amontoado a seus pés e cismou porque cismou que a finada ex-torta sorria. E como isso lhe parecesse uma provocação, com um único coice virou-lhe a face.   

 

 O Anastácio velho era daqueles negros que se encontra com facilidade nas estâncias. Trabalhador uma barbaridade, sem hora pro serviço, passou a vida na lida de campo, a troco de quase nada, mandando o pouco que ganhava para ajudar no sustento da mulher e de dois filhos, que ficaram no povoado. O tempo passou, os filhos cresceram, ajustaram-se de peões em outras estâncias, e, depois disso, a distância e o tempo se encarregaram do resto. Quando a mulher morreu, só veio a saber uma semana depois. Às vezes se lembra de ter chorado de saudades, uma ou outra vez, ao ajeitar umas flores do campo sobre a sepultura da companheira. Não lembra muito bem dos filhos nem lembra de mais ninguém; e ninguém dos tempos de antes lembra mais dele.        

Naquele sábado, quando me juntei ao velho na mangueira para as lides com o gado de leite, quase levei um susto ao ver que ele já tinha feito todo o serviço. Àquelas alturas eu já tinha me acostumado com as manias do velho, que falava sem parar, sendo que quando parava era só para reclamar de alguma coisa que eu tinha feito errado. Aconteceu, porém, que naquela madrugada ele falava mesmo era comigo:

- Chê, tô com uma coceira que não me aguento mais; nem dormir direito eu consigo. Pulga não é, porque já tô curtido...

- Quem sabe um banho? – sugeri, com medo de levar uma puteada.

- Pode até que seja! – resmungou o velho. - Se bem que à coisa de um mês, antes do inverno, tomei um banho no açude... Depois de um tempo completou:

- ... Sem falar num banho de chuva, que me pegou desprevenido. Em todo caso, pode até ser que tu tenhas razão. Se não chover até o meio-dia, pode ser que eu me banhe na sanga, que a água do açude anda mui suja; e eu não suporto água suja!

 

Mesmo assim, eu ainda acho que pode ser por causa de algum desses cuscos fedorentos que o seu Ernesto cria na estância. Não precisa ele saber disso; que fique só pra gente... Disse isso e saiu na direção da cozinha, carregando os baldes, enquanto eu fiquei por ali, com cara de boi babão.

Como não choveu, a água não veio, e o Anastácio se viu na obrigação de ir até ela. Do alto dos seus oitenta e tantos anos, continuava o negro a ser um trabalhador incansável. Mas se tinha uma coisa que não se animava a fazer, além de tomar banho, era andar a pé. De maneira que a sanga ficava meio longito e o velho cascão (Deus o tenha!), se viu na obrigação de arrear um animal. Para tanto se serviu de um petiço de nome Barriga, animal manso, velho e forte como ele próprio. O nome vinha do fato de o animal ter o espinhaço tão curvado que fazia com que a barriga quase encostasse no chão. Arreio mesmo, nem carecia; bastava o buçal, e em cima do pelo não levava nada: badana, carona ou pelego.            

No lajeado, Juliana ressonava, preguiçosa, aproveitando-se do tempo nublado, quase escuro, sem que isso a preocupasse. Pelo o que ela me contou, disse que ouviu o matungo se achegando. Mas fingiu que dormia, porque tinha certeza de que era eu quem se aproximava. Esperou alguns minutos, e como eu não me dirigisse à ela, abriu os olhos para ver o que se passava. De pé, ao seu lado, nuzito em pelo, assim como veio ao mundo, Ernesto Mão-pelada, com as vergonhas à mostra, dura como a própria consciência, apontava para ela. Da mão esquerda pendia, junto ao corpo, o mango “papada-de-touro”, que ele balançava levemente, prenunciando coisa ruim.

- Lagarteando, preguiçosa?

- Puta merda! - resmungou a trigueira, espichando o olhar na direção dos campos, por trás do capataz, esperançosa de que a sua alma salvadora - no caso eu, e não sendo eu qualquer uma outra -, viesse em seu socorro. Depois de avaliar a situação, e como não visse ninguém, concluiu que se corresse em direção ao outro lado da sanga talvez tivesse alguma chance. Era claro para ela que o homem andava borracho, e se ela tivesse sorte podia ser que ele se maneasse na travessia daquele trecho, cheio de pedras escorregadias. Depois, ela teria que dar a volta na mata que costeava a sanga, atravessar no passo e ganhar o rumo das casas.

Pensando bem, caso ele caísse nas pedras e ela levasse alguma vantagem na travessia ele certamente voltaria para o cavalo e iria no seu rastro, exatamente pelo mesmo passo onde ela pretendia atravessar de volta, tendo em vista que não havia outro mais perto. Era preciso pensar outra saída. E ela decidiu pela mais corajosa.

- Eu tava mesmo te esperando... - disse ela, enquanto se virava de bruços na laje e mergulhava as mãos na água, a procura de uma pedra que lhe tivesse serventia nos propósitos.

- Melhor, então! Logo se vê que saíste cadela igual a tua mãe e a tua irmã. Da primeira vez é sempre um berreiro; depois, sentem saudades e já vêm de cola erguida. Eu gostava muito daquela tua irmã, a Jandira, mas tive que botar ela pra correr daqui, depois que emprenhou. Mulher prenha não tem nenhuma serventia; uma lástima! Mas já foi tarde a infeliz! Mas tu, não! Tu, mesmo que emprenhe, vou querer na volta das casas. Ainda é mui nova, e vais dar caldo por mais uns anos...        

 

Assim que o Anastácio velho tomou o rumo da sanga, eu dei de mão no freio e preparei uma égua ruana, na qual eu tinha muita confiança, e saí no rastro do velho, seguindo para não ser seguido, que era o modo mais seguro de não ser pego de surpresa, por ele mesmo. Mas antes de sair a campo, cismei que algo não andava de acordo. E depois de observar melhor o tempo, resolvi levar o poncho nos tentos, para o caso do céu desabar, antes que eu conseguisse convencer Juliana a voltar para casa. A verdade é que eu andava mesmo desconfiado da sorte, e já tinha me decidido a deixar o nosso cambicho para um outro dia.        

O petiço Barriga seguia firme, num trotezito miúdo, animal ruim de montaria que era, fazendo o velho sacudir uma barbaridade sobre o espinhaço magro, que mais parecia um serrote. Não sei bem o que se deu, mas acho até que ele dormiu. E sobre isso eu falo com o conhecimento de quem já viu lotes de campeiros borrachos dormirem sobre os matungos, sem cair nem deixarem o troteado. E com a dupla a minha frente, o caso não me parecia ser diferente. Chegava a ser engraçado ver aquilo: ora o Anastácio pendia para um lado e o animal troteava para o outro; dali a pouco a coisa se invertia e eles seguiam firmes, naquele desacordo de marcha. Distraído com aquele cai-não-cai, nem percebi que o Anastácio velho tinha tomado o rumo do lajeado, onde Juliana me esperava. Espichei a vista na direção da sanga, para ver se ela iria perceber que alguém se aproximava, e foi justo nessa hora que ela, antes de bruços, virou-se num repente, com uma pedra branca na mão, e de uma só botada castigou a orelha do capataz, que já fazia menção de se acomodar sobre ela.        

Calculei a distância entre nós - uns cem metros, quando muito - e cravei o garrão na virilha da égua, gritando-lhe um “á-há-há”, pra modo de avivar a bicha. Mas deixa que por conta do tropel de patas o petiço Barriga se assustou, e saiu também num galope abarbarado no rumo do focinho, sem se importar com o que tivesse pela frente. Tomado de surpresa rodou o negro velho, tombando para o lado direito, rolando pelo campo sem levantar muita poeira, já que apesar de forte não era mais do que couro e osso.

 

 Cego de raiva - e meio surdo, também -, ainda zonzo com o manotaço no pé da orelha, Ernesto Mão-pelada sentiu que o sangue lhe escorria do ouvido. Disposto a não deixar por menos - embora não conservasse a mesma saúde de antes, mantinha ainda um pouco da agilidade, adquirida depois de anos na lida com os bichos -, de um único salto agarrou a trigueira pelos cabelos. Com a crueldade que lhe era natural, e sem fazer muito esforço, deu um só murro, atirando Juliana para fora do lajeado, indo a coitada cair de todo lombo no fundo da sanga. Quando se preparava para buscar sua presa, sentiu que uma força lhe tirava ao chão, fazendo a sua cabeça bater forte contra o lajeado. Era o petiço Barriga que, em sua louca carreira, quase decretou a própria morte ao atropelar o capataz, metendo-se, assim, em briga alheia; só se salvou porque o Ernesto pensou que tivesse sido eu quem tinha feito aquilo. 

Quando apeei, o capataz estava deitado de costas na pedra, respirando com dificuldade, na ânsia de recuperar as forças. E foi quando eu vi que o sangue brotava com fartura pelas ventas, misturando-se ao que já caia do ouvido. Acontece que ao deixar o galpão eu tinha por finalidade outro tipo de peleia. E, por conta disso, não levei comigo nada que pudesse me servir de arma. Aliás, que desde então nunca mais saí para aonde quer que fosse sem levar pelo menos uma carneadeira, que a gente nunca sabe... Mas quis o anjo responsável pelo meu couro que o Mão-pelada deixasse cair o mango papada-de-touro, quando foi atropelado pelo petiço; e, sem pensar muito, dei de mão no achado.

 

Encontrei Juliana agarrada ao barranco do outro lado da sanga e respirando com esforço. Mala suerte a da trigueira, pois o pataço lhe quebrou o nariz, provocando uma sangria de dar pena. Me agarrei a ela, ainda dentro d’água, enquanto ela fazia força para me contar o que tinha se passado. Mas não tem situação ruim que o tinhoso lá de baixo não possa piorar. E sendo assim a chuva desabou como há muito vinha prometendo. E pra fazer bonito, choveu granizo só de tamanho grande.

- E agora, meu guri? Desta vez nem a mãezinha nos salva!

Juliana sabia tanto quanto eu que aquilo não ia ficar no barato. Mas até àquela hora nenhum de nós imaginava que dona Júlia já tinha encontrado o seu fim.

- Vamos embora! Com sorte a sanga enche e ele morre afogado. O jeito vai ser a gente deixar a Santa Helena. Tu vai em casa e avisa a tua mãe que não dá mais para ficar. Diz pra ela que nós vamos para a Tapera, que lá o seu João Vieira nos ajuda.

Conseguimos deixar a sanga a muito custo, porque o granizo castigava sem dar sinal que fosse diminuir.

- Vou te pôr na ruana. Veste o meu poncho e te manda pra casa. Não espera por mim. Pega tuas coisas e te toca para a Tapera. Diz para o capataz que eu chego logo. Vou costeando a mata, para me proteger do temporal. E assim que chegar no Passo da Cruzeira cruzo para o outro lado; e encontro a estância pelo cheiro!         

Levei Juliana com cuidado até a montaria que, como se pudesse compreender a situação, comportou-se docilmente, enquanto eu lutava para acomodar a morena sobre os pelegos. Quando ela terminou de vestir o poncho, um grito nos chegou até os ouvidos.

- Pára-te quieto, graxaim filho da puta! Não te ensinaram que é feio roubar comida dos outros?    

 

 O granizo deu lugar a um temporal cerrado, de não se ver além da distância de um corpo de cavalo. E eu só enxerguei o bicho quando um raio guaxo riscou o céu, clareando para os lados da sanga. Lá estava ele. Sabe-se lá como, tinha recuperado as bombachas, ainda que aos frangalhos. E tentava recompor-se, como se aquilo fizesse algum sentido numa tarde como aquela. O sangue já não escorria como antes, mas ainda lhe manchava do rosto até o meio do tronco, fazendo dele uma figura mais feia do que o de costume, no meio do temporal. Sem que se pudesse ver com clareza o que acontecia, ele aproveitou-se do momento e foi em direção ao cavalo que tinha maneado, que, sem outra alternativa, quedava-se quieto em meio ao aguaceiro. Do pelego sacou uma adaga comprida; e no curto clarão, provocado por um raio, vi quando a arma relampeou em sua mão, anunciando que não seria pouca a bobagem.        

Chamei por São Jorge - que era guerreiro, e também andava a cavalo, e que, por conseqüência, também era meio gaúcho -, pedindo ajuda, alegando que pelear com dragão nem de longe se comparava a uma briga com o Mão-pelada. Fiquei parado, esperando que Juliana partisse para um lugar seguro. Eu temia mais por ela do que por mim mesmo. Era certo que a volta viria, e eu não queria que ela ficasse ali, à disposição das intenções dele. E ele se veio, mui confiante, na certeza de que nós dois éramos ovelhas do seu cercado; caminhando lento, exalando um monte de ruindades, que se percebia pelo bufar das ventas.        

Mas deixa que se o causo envolvia a minha prenda amada; e valentia me sobrava. Então eu resolvi que não iria cair, assim no más. E quando ele se chegou, já de adaga em riste, foi logo decretando o meu destino:

- Te cagaste, guri? Vou te tirar os grãos e tu vais morrer sangrando, bem devagarzito, vendo o que eu faço com a tua guria! – disse, já partindo pra cima de mim. Mas ele nem chegou a terminar o dizer - me lembro bem -, confiante de que eu não reagiria, facilitou e eu joguei o corpo de lado, para desviar do talho, e em seguida larguei-lhe o mango por cima do ouvido pisado, deixando a orelha rasgada de leste a oeste; golpe feio uma barbaridade! E foi pra já que recomeçou a sangria. 

 Meio que tomado de surpresa, o capataz levou a mão ao ouvido e ficou olhando para a mão tingida de encarnado, deixando claro no olhar escuro que não tinha se agradado nada daquilo. Quis o destino que ele acabasse ficando numa posição meio enviesada em relação a nós, de maneira que podia atacar tanto a mim como a ela conforme lhe fosse o gosto. Quando me dei conta disso me mexi de modo ameaçador tentando chamar a atenção dele, pedindo para o negrinho do pastoreio que cutucasse a virilha da égua e levasse Juliana para longe dali. Mas quando o índio não anda num bom dia come filé, que é carne macia, e ainda assim quebra um dente, diz o ditado. De maneira que nem ela nem a montaria faziam qualquer movimento que me desse alguma esperança que fossem escapar dele. O Mão-pelada sentiu no ar que o tempo estava bom para as suas maldades e resolveu que era a hora de caprichar no estrago.

- Te agrada uma sangria? - começou dizendo; e num salto ligeiro deu de mão nas rédeas da ruana e puxou o animal para a sua frente, de modo a deixar a morena, em sua montaria, entre nós.

- Se gostas de sangue, então toma!        

Vi quando a mão se mexeu e pensei comigo: “lá se vai a égua ruana; ficamos a pé...”. Nem preciso dizer que pensando assim eu estava antevendo uma situação mui cabulosa: eu e Juliana no meio do nada; o céu desabando e ninguém por nós. Para completar, sobrava o Ernesto Mão-pelada de adaga em punho; e com todo o tempo do mundo. Lá puxa, que a coisa ia ficar esquisita! 

Aconteçe que o criador daquela criatura não foi o mesmo que criou os seres humanos; e por conta desse detalhe ninguém conseguia nunca pensar como ele. Não foi diferente dessa vez. Pensei uma coisa e ele fez outra: a lâmina subiu e passou da altura do pescoço do animal, depois fez uma curva e cravou-se, em algum lugar, no colo da morena. A julgar pelo que se passou ele deve ter encontrado alguma resistência; por alguma razão a faca não tinha entrado bem a contento. E ele, então, fez um pouco mais de força e empurrou a adaga até que o punho não pudesse ir mais adiante.  

Juliana, do alto do seu porte trigueiro, mirou meus olhos em silêncio. Talvez haja alguém que não creia, mas lhes digo que vi quando as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. Chovia, é verdade, mas tem coisas que não se pode explicar. E aquela tarde foi cheia delas. Juliana tinha os olhos mais lindos e doces que eu já tinha visto. E mesmo naquela hora, quando se cravaram em mim, como lanças em carga, eu lembrei de quantas vezes eu disse que para ela falar era um desperdício, bastava-lhe o olhar. Pelo tamanho da lâmina, eu tinha certeza que lhe tinha varado o corpo.

- Gostas de me ver sangrando... e a ela? – gritou, quando puxou a adaga para fora do corpo, recuando um pouco para ver o estrago.

Mas por alguma razão o sangue não apareceu, decerto por causa do poncho, que lhe caia mui folgado, o que de certa forma quebrou o encanto intencionado pelo capataz. Que a faca tinha encontrado o corpo eu não duvidava; vi o vermelho na lâmina, e isso é coisa que não se confunde. Mas algo me dizia que era preciso acreditar em coisas boas. Talvez o poncho reforçado tivesse impedido um corte mais feio, e o talho tivesse sido só de raspão. Mas se por outro lado o corte fosse mesmo fundo, então tinha ficado escondido debaixo do poncho. No entanto, o modo como me olhava me fazia pensar que ela estava só assustada, sem saber o que fazer. Foi então, que tomado de uma nova esperança, retomei a iniciativa:

- Firma nos arreios e faz o que nós combinamos! – gritei, enquanto dava uma palmada na anca da égua. Em seguida passei por detrás do animal e me deparei com o capataz, que já me esperava.

E foi ele que se veio, rasgando o tempo ruim como se fosse o senhor das coisas. Mas alguém, lá de cima, não deve ter gostado de ver um homem com tanto entono; e, por capricho da sorte, ele resvalou no pasto molhado e caiu meio de culo. Se naquele tempo eu soubesse das manhas que sei hoje, lhes digo que o Mão-pelada teria se acabado por lá mesmo.  

Acontece que eu andava mais preocupado com a morena, pois quando eu aticei a égua ela simplesmente não se moveu; e eu vi quando Juliana calou os olhos em mim, com ar muito sério. Por isso, tão logo o malfeitor deitou o lombo, eu boleei o corpo e depois de aprumar o mango soltei de todo o braço por sobre a anca da égua gritando para que ela fosse embora de uma vez. Mas que nada, nem um passo. Gritei para ela:

- Vai, guria! Vai-te embora logo...

Mas nada. Juliana continuava com os olhos fixos em mim, sem expressar tristeza ou dor; apenas olhava.  

- Vai, minha guria, foge daqui! - gritei de novo, quando vi que o capataz se levantava.

- Mas que merda, tchê, tu também não desiste! – disse, enquanto baixava-lhe o mango pelo meio da cabeça.

Não sei se foi a bebida que ele tomou, sem freio, ou se o ferimento na cabeça estava incomodando. Também podia ser que tivesse caído de mal jeito e arruinado a perna de uma vez; ou, então, um anjo peleador no meu costado, amadrinhando. Quem sabe o que se passava? O caso é que o Mão-pelada começou a me parecer mais lerdo. E foi aí que me dei conta que além de mais novo eu estava inteiro e são-de-lombo. E que, portanto, a vantagem era minha; não tinha porque fraquejar. Mal ele se aprumava, de novo, e antes que estivesse de pé, fiz um jogo de corpo, ao lado dele, e puxando o papada-de-touro de trás do corpo sentei o couro, com todo o gosto, direto na cara do homem.         

quem conhece das lidas de campo sabe do estrago que um mango de serventia pode causar. Para que tenham uma idéia, se tivesse pegado no olho tinha puxado para fora. Mas o desgraçado deu sorte e o couro grudou na sobrancelha, puxando tudo de uma vez. E se eu achava que aquele traste não poderia ficar mais feio do que era, ali estava a prova de que eu estava errado. Aproveitando o movimento do braço, girei o relho sobre a cabeça; e jogando o corpo de lado, na direção da ruana, dei-lhe um mangaço de levantar o vergão.

- Anda, égua filha da puta!

Eu já nem acreditava que aquilo podia acontecer, mas creiam que o animal nem piscou o olho. Logo, um outro mandado caiu, em algum lugar, mui perto, pois que senti a terra tremer. E nisso eu já levava alguma experiência, sem falar no barulho ensurdecedor da trovoada, de fazer chacoalhar os ossos dentro da gente.

Percebi, num relance, que a escuridão se avizinhava, mui cedo por sinal. E quando me recobrei do susto, busquei os olhos da morena. Nunca consegui entender o que se passava, mas lá estava ela, com o mesmo olhar, as mesmas lágrimas e a mesma candura. No mesmo instante, um arrepio me subiu pelo espinhaço. E eu, também, comecei a chorar, de olhos colados nela. Entre nós não mais que metro e meio, mas nem assim eu consegui me aproximar dela. Era como se eu estivesse colado no chão. Nesse meio tempo o capataz juntou o que restava de suas forças e se veio, em nossa direção, me obrigando a caminhar de costas, na direção da sanga, para ver se desviava a atenção dele para mim, na esperança de que Juliana ainda pudesse reagir àquele estado de paralisia. Parei na beira da sanga e chamei por ela, mais uma vez. Depois desatei num choro de criança, e não me importei com mais nada. Foi quando o Ernesto velho me acertou de chofre, não de adaga, mas com o punho fechado, bem em baixo do queixo, me deixando de tal modo atordoado que mesmo se eu me esforçasse não conseguiria mais manter os olhos abertos. Tivesse eu caído pelo campo, era bem capaz de ele acabar comigo; de modo que quando eu me acordasse já nem andaria neste mundo, mas sim com os anjinhos do céu - eu acho.

Mas quis um desses anjos que eu viesse a cair justo, de todo o lombo, dentro da sanga, o que me fez de imediato recobrar a consciência. E, num gesto de puro instinto, busquei proteção, nadando para o outro lado, e virando a cabeça, em seguida, à procura de Juliana.        

O temporal seguia forte, sem sinal de que fosse dar uma trégua. E não se enxergava muita coisa, debaixo do aguaceiro. Mas mesmo assim eu podia ver que a morena continuava lá, parada, do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecendo: os olhos fixos em mim, como se me abraçassem. Com muito esforço, cambaleei para fora da água, buscando me distanciar do capataz, que vinha outra vez em meu encalço. Pode parecer meio estranho, mas considerei isso um bom sinal, pois enquanto ele estivesse na minha cola Juliana tinha mais chance de fugir. É claro que para isso eu teria que continuar vivo por mais tempo. Para o mal dos pecados, o Mão-pelada não achava isso uma boa idéia. E como tivesse ele outros planos para aquele fim de tarde, antes que eu pudesse sair correndo pelo campo ele me alcançou. Eu tinha virado a cabeça, uma última vez, para ver a situação da minha prenda. Mas só o que eu vi foi aquela cara de louco e o movimento do braço, sendo que a coisa foi tão rápida que não tive tempo nem de fechar os olhos, antes dele me acertar outra vez. Dessa feita foi um pataço, vindo meio de lado, que me estourou na cara, enchendo a minha boca com gosto de sangue; de modo que eu perdi de novo a noção do mundo.

- Pensa que pode comigo? - repetia ele.

Meu corpo tremia, de modo a já não poder mais controlar. Mas não era de frio, era um tipo de desespero, de medo e de desamparo, tudo junto. Cheguei a ensaiar um começo de uma reza forte, que eu conhecia, e que era poderosa, de fazer louco dormir em pé. Mas a voz do tinhoso interrompeu as minhas intenções:

- Vou te capar, filhote de padre! E tu vais sangrar como um boi, devagarzito, que é para dar tempo de ver o que eu vou fazer com a tua guriazinha!        

Não tinha mais jeito! Mas se eu ia mesmo morrer, que fosse com alguma honra, porque eu não ia deixar aquele cretino me pegar sentado no campo, como um pobre bicho; me firmei nos garrões e olhei nos olhos dele. Naquela hora tudo se passou como se o tempo estivesse parando. O mundo lá fora parecia que estava se desligando e eu só escutava o bater do meu próprio coração: tum-tum, tum-tum, tum-tum...

Vi quando o capataz deu um passo para trás e mirou o meio das minhas pernas; vi quando a sua boca torta se abriu, ensaiando um sorriso e mostrando a baba ensangüentada. E para o meu desespero vi quando a adaga brilhou, no caminho que ele tinha me prometido. Por cima do seu ombro vi Juliana sobre o cavalo. Só que dessa vez ela estava muito perto de nós, logo atrás do capataz. Então, eu disse para mim mesmo: “eu tinha razão, minha prenda: me bastam teus olhos!”. Notei que ela sorria para mim e depois não senti mais medo nem dor nem frio nem nada, só o bater do coração: tum-tum, tum-tum, tum-tum... Em seguida não vi mais nada. A voz do Mão-pelada ecoou nos meus ouvidos:

- Pensou que podia comigo, seu monte de merda? Pois te digo que tu não podes, nem tu nem ninguém!

O clarão de um raio iluminou a tarde e outra trovoada ensurdecedora reverberou pelos campos. Em seguida, ouvi o barulho forte do punho contra a carne, mas a faca esperada não me rasgou o ventre. Ao invés disso ouvi uma outra voz, retumbando como se fosse outra trovoada:

- Eu posso, tchê!

Era a voz do João Vieira! (continua...) 

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

............................................................................
  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
  Observações: Autor: André Moab Garcia E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
14/07/2009 01:43:45 Max E. Fischer - Rio de Janeiro / RJ - Brasil
Não sei porque nenhuma editora se interessa em publicar uma obra dessas. Mandei um e-mail para o autor e recebi uma cópia integral, que já li e reli, por sinal. E apesar de já ter relido, ainda visito esse sítio, por causa das gravuras que, conforme o autor, são adicionadas por vocês. Parabéns pela iniciativa de apoiar nossos artistas, de todos os gêneros! Abraços fraternos! Max
Sítio: *****
Untitled Document