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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

29/07/2009 15:55:09
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: IX – CAMPEANDO UMA ALMA, NO PAMPA
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia

 

IX – CAMPEANDO UMA ALMA, NO PAMPA SUL-BRASILEIRO!

 

 

 

 

Três dias depois, eu acordei. De início cheguei a achar que tinha mesmo morrido, e que se abrisse os olhos iria ver algum anjo voando por perto. Antes era preciso fazer um balanço da minha vida, para ver se eu merecia mesmo um lugarzinho no céu; vá lá que eu tivesse ido parar em algum outro lugar, por conta de um ou outro pecadinho... Já pensou acordar e dar de cara com o pai do Mão-pelada!

Aos poucos fui tomando tino da situação. O lugar era um galpão. Eu estava numa cama de verdade e sobrava o pelego por baixo, o que me fez pensar que se não era o céu; pelo menos também não era um lugar pior. Se o mundo ainda fosse o mesmo e eu não estivesse delirando, aquele era o galpão da estância da Tapera.

 

Rincão do Inferninho – São Sepé/RS

Foto: Nilson Monteiro

 

Por perto um fogo grande enchia o ambiente de calor, embora eu ainda tremesse de frio. E ao acomodar a coberta, percebi que era familiar. O dia estava claro. O barulho de chuva continuava lá fora, mas já não chovia como antes. Era uma chuva mansa, mais para garoa do que para temporal. Mais adiante, em outro canto do galpão, avistei o animal atado e sem arreios, comendo milho, calmamente.

 

Foto: Clício

 

Perto de mim alguém roncou a cuia e eu senti o cheiro de mate. Pela primeira vez, depois de muito tempo, eu me senti em casa de novo, ainda que eu não soubesse, com certeza, o que era estar em casa.

- É o senhor? – perguntei, sem mudar de posição

- Sou.

- Aquele animal, por acaso, é a égua ruana?

- É.

- Esse é o meu poncho?

- Não, é o meu. Eu só te emprestei ele!

- E Juliana, como é que ela está? – indaguei, ansioso.

- Quem? - a voz do capataz soou diferente.

- A minha prenda, minha guria. Ela ficou boa?

- Vou te fazer um chá de cidreira e depois tu vais dormir de novo. Descansa, que depois tua cabeça volta a funcionar direito... Se é que ela funciona!

- O senhor não entendeu! - eu disse, enquanto me esforçava para poder sentar - A Juliana, a morena que estava na ruana usando o poncho!

- Não tinha mais ninguém lá; encontrei o poncho sobre o lombo da égua. O homem me olhava nos olhos, enquanto falava. Essa era uma das particularidades do João Vieira: olhar nos olhos, firmemente, dando a impressão que sempre dizia mais do que realmente falava. Mas nunca ninguém conseguiu ler com clareza esse olhar. Eu, muitas vezes cheguei perto; mas de tudo não se podia saber. Revirei o poncho a procura do furo feito pela lâmina e o encontrei sem dificuldade.

- Aqui! – mostrei-lhe o buraco. - Olha aqui o lugar onde a faca entrou! – disse-lhe, com os olhos cheios d’água.

O capataz pôs a mão sobre a minha testa, para medir a febre, e em seguida passou a mão pelos meus cabelos, num gesto de afago.

- Chê, ela não estava lá. Eu acho que tu estás fazendo confusão. É melhor tu tentar dormir de novo.

- Tava sim! É claro que estava! – repeti. Em seguida, meus olhos derramaram água e eu comecei a choramingar. Depois o mundo começou a girar e eu apaguei outra vez.

 

Foto: ZH

 

Pois, bueno! Não vê que de há muito o João Vieira vinha dando falta de uma ponta de boi gordo, de uma invernada lindeira com um rincão dos fundos da Santa Helena. Só para modo de tirar a cisma, no dia anterior tinha recorrido outra vez aquela invernada, recontando o gado. E para sua surpresa, percebeu que agora o numero de bois sumidos era ainda maior. Ao clarear daquele sábado, ainda pela hora do mate, o capataz estudou o tempo com cuidado. E falando baixo, disse para si mesmo: - Quem não tiver bem de poncho, que não saia! Distraído, não percebeu que o seu Alírio havia entrado no galpão, e já se achegava ao costado dele, dizendo:

- E mesmo quem tenha, que fique pelas casas! – sugeriu, conforme o seu parecer.

- O que foi que houve, chê? - quis saber o capataz, já que era costume do companheiro, aos sábados, matear até mais tarde, com a esposa, na cozinha da estância.      

- Nada... - desconversou o velho Alírio - ... me deu saudades de ti!

 

 

 

Mas o olhar do capataz lhe pegou desprevenido. Quando o João Vieira atravessava o olhar, era o mesmo que ter um laço apertado no pescoço. E o seu Alírio sabia de não poderia fugir do assunto.

- Tu sabes como é a mulher; teve um daqueles sonhos... Achou melhor eu vir aqui, para ver se tu não te fresqueavas, saindo por aí com esse tempo se armando!        

- O que foi desta vez, “hermano viejo” ? - quis saber o capataz, no seu linguajar de fronteira.        

- Sei lá! Sonhar ela sonhou; mas me contar tudo, não quis. Só disse que viu o teu sangue derramado. E eu bem que tentei, mas ficou só nisso - explicou seu Alírio, dando de ombros. 

 

 

Sentaram-se próximo ao fogo de chão, e ficaram em silêncio. Durante muitos anos intrigou-me como a vida daqueles homens se fundia naquele viver isolado, de maneira que, durante a comunhão das madrugadas, pareciam ser uma só pessoa. Por vezes e vezes observei os dois passarem horas ao pé do fogo de chão, ou nas lidas de campo, sem trocar uma palavra. “Conversamos em silêncio”, me dizia seu Alírio.

Mas naquela manhã o silêncio não campeou, e o velho Alírio puxou conversa:

- E o gado lá dos fundos?        

- Faltavam vinte e cinco reses. Ontem recontei. E agora faltam cinqüenta! De tanto procurar, acabei encontrando o mestre, onde o aramado foi desatado. E foi feito por quem conhece da coisa! Bandearam para os lados da Santa Helena. Mas, se ficou por lá eu não sei...        

- Entonces, o melhor seria fazer umas rondas, de quando em vez. Quem sabe a gente dá sorte e descobre quem é esse sorrinho.        

- Pois é, companheiro! Seja quem for, já tá acostumado a comer aos pouquitos. E vai tirando devagar, sem que a gente se dê conta. Mas não vai longe nessa vida; e não demora se pega o bicho!        

- Tão logo o tempo firme, eu vou contigo. Hoje não adianta, que ninguém é louco de sair debaixo de um céu desses.

  

 

Uma trovoada forte ecoou dentro do galpão, dando a impressão de que tudo tremia. Embora acostumado com aquilo, seu Alírio pareceu ter sido pego de surpresa.        

- Vem sempre, quando a gente acha que não vem - disse ele, referindo-se ao barulho. Os olhos do João Vieira brilharam, na direção dele. E seu Alírio desconfiou que o capataz guardava algo para si.        

- O que foi, tchê?

- Tu estás certo! Vem sempre quando a gente não espera. Quer melhor dia para se tropear um gadinho do que hoje?        

- Nem te fresqueia! Não tá mais aqui quem falou! Se tu saíres, a mulher me mata. Pois não vê que ela me mandou aqui só pra te cuidar! Tu queres morrer ou quer que eu morra?        

- Bueno, chê! Se o caso for de morrer, a tua situação não é das melhores. Se eu sair só, periga. E se tu fores comigo, periga também...

 

Lucero: Tordinho Negro

da Cabanha Az de Ouros,

de Gravataí-RS

 

João Vieira passou a mão num buçal e tomou o rumo da mangueira de pedra. Lá escolheu dois animais de confiança e vivacidade, que o tempo assim exigia. Para ele, um tordilho-negro de uns seis anos, animal de raça crioula apurada; cavalo que nas lidas de campo bastava que lhe montassem, e o de resto fazia por conta. Bem tratado e apoderado no milho, de peito largo e mui tirano, no dizer do capataz, num atropelo campo afora nem touro chimarrão se punha na sua frente. Acolherado a ele um colorado, de nome Minuano, o preferido do seu Alírio, quando o assunto exigia alguma pressa. Se o tordilho se fazia respeitar pela força crioula, o colorado-mestiço não deixava pra ninguém, se o caso fosse uma carreira de precisão. Anos de vivência campeira ensinaram ao capataz que havia um animal adequado para cada ocasião. E se o caso fosse provocar a disposição do compadre, falta de confiança no animal não seria desculpa. Era a convivência por anos com ele que fazia com que soubesse, de antemão, qual seria a decisão do companheiro. Pouco antes de ele chegar de volta no galpão, um raio caiu, em algum lugar por perto, deixando os animais assustados. Em seguida, uma trovoada forte fez com que o capataz prestasse mais atenção no tempo.  

 

 

Encilharam e saíram, sem trocar palavra. Por volta do meio-dia, já refazendo o caminho de volta, churrasquearam uma paleta de ovelha, protegidos dentro do capão de mato que costeava a sanga, e que formava a divisa natural entre as duas estâncias.

- Então, Alírio, o que é que tu achas? - perguntou o capataz, depois de terem passado a manhã revirando os campos.

- Eu acho que nós somos mais colhudos do que eles. Ou, então, eles têm um pouco mais de juízo - concluiu ele, referindo-se ao fato de não terem visto nem uma única alma rondando pelos campos, naquela manhã. João Vieira apenas ergueu as sobrancelhas e concordou, balançando a cabeça.

- Onde foi que o teu guri viu os dois?

 

 

O Sabiá, filho do seu Alírio, contou ao pai que num domingo, enquanto aporreava uns jundiás, acabou se distraindo e entrou nos campos da Santa Helena, sem se dar conta. E foi por acaso que topou com os dois num lajeado de pedra, que ficava meio escondido numa curva da sanga. Embora o Sabiá não tivesse ainda conhecimento do assunto, viu de pronto que aquilo não era nenhuma brincadeira; e resolveu não interferir nas intimidades do amigo, deixando a prosa que gostaria de ter com ele para uma outra ocasião. Isso tinha acontecido a coisa de uns quinze dias. E como andasse por ali, o João Vieira achou que talvez fosse bom trocar umas palavras com o guri - nesse caso, eu mesmo. Ele não sabia bem porque, mas tinha afeição por mim, embora eu nem desconfiasse disso. Além do mais, pelo que contou o Sabiá, a tal guria só podia ser a filha mais nova da dona Júlia. E seria bom dar uma olhada na moça, por quem ele também tinha os seus dengos, mas que ninguém sabia.        

Ao que parece, os dois andavam formando um casalzinho; e essa idéia até que lhe agradava.        

- A comadre deve estar te esperando de relho na mão. Por isso eu acho bom que tu vá na frente, chê! Não me agrada a idéia de te ver apanhando...

Seu Alírio adivinhou as intenções do amigo:

- Vais procurar o guri?        

- É! Ando meio curioso pra saber como é que o Mão-pelada anda tratando o pobre.        

- Não é bom facilitar! Não demora a chover, e vai ser coisa das brabas!        

- Não faz caso, compadre. Se o tempo piorar muito procuro abrigo na Santa Helena, que o Ernesto é louco, mas não a ponto de negar abrigo para um lindeiro. De um jeito ou de outro eu falo com o guri.        

- Tá certo, tchê! Mas mesmo assim isso não me cheira bem. Tu sabes que o sonho da mulher não falha! Ela não me disse o que foi, mas que não foi coisa boa, disso eu tenho certeza! Quer ficar com a minha adaga? O capataz abriu um sorriso:

- Estás me estranhando, chê! Por acaso já me viste andar desprevenido? Nem te preocupas! Vai com Deus, que eu por aqui me viro.        

Seu Alírio bem que ainda tentou convencer o amigo a deixar a conversa para um outro dia. Falou que podiam trazer o Sabiá e aproveitar o dia para uma pescaria. Mas o João Vieira tinha lá as suas baldas; e quando cismava de fazer alguma coisa, não tinha cristão que o convencesse do contrário.        

Aconteceu que passado menos de meia-hora depois da partida do amigo, quando se preparava para saltar uma valeta, atrapalhou-se o tordilho negro, rodando de modo estranho, caindo de ponta e quebrando o pescoço. O capataz sabia reconhecer, por experiência de anos, e de outras rodadas, também, quando a coisa não ia funcionar nos conformes; e quando percebeu um leve falsear de pata saiu pelo lado de montar, com uma destreza impressionante. “Que sina! Por pouco que não me estrago!”, pensou.         

Depois de examinar o animal e ter a certeza de que nada poderia ser feito, desencilhou e deixou os arreios pendurados numa árvore, tomando o cuidado de não deixar à mostra. Nunca falta um índio mais curioso; e em terras estranhas não se pode facilitar. Quanto ao matungo, fazia questão de enterrar o bicho tão logo a ocasião se apresentasse; afinal, um animal daqueles não se deixa para os corvos. Como a puxada para as casas fosse custar uma barbaridade, pendurou o poncho no ombro e saiu a passo, no rumo da Santa Helena. Uma vez lá poderia pedir um cavalo emprestado, de modo a poder voltar para a Tapera. De quebra, teria um bom abrigo para o temporal, que não tardaria; e, ainda, poderia por os assuntos em dia com o guri.    

 

    

De fato, o temporal não tardou. E ele não tinha caminhado ainda meia légua, quando o que estava há muito represado no açude celeste desabou sobre a pampa gaúcha. João Vieira sentiu-se incomodado; apesar do poncho não verter água e ele ainda poder contar com a proteção da mata, não lhe agradava o temporal de pedras e raios, que aquilo, sim, era coisa de se respeitar. Puxando um pouco pela memória, o capataz tentou recordar quando foi a última vez que tinha visto uma tempestade de raios como aquela. Mas por mais que tentasse não conseguia se recordar de um dia como aquele. Sair da mata seria correr um risco desnecessário. Não eram poucas as histórias de peões mortos por mandados, pelo meio do campo; e ele não tinha nenhuma intenção de se tornar uma delas.         

O problema era que caminhando por dentro da mata ele perdia os pontos de referência. E a menos que parasse, para esperar uma trégua, correria o risco de passar do ponto onde deveria deixar a proteção e ganhar o rumo da estância. Ocorre que a experiência já tinha lhe ensinado que quando um temporal leva tanto tempo se armando, era sinal de que o Patrão da Querência lá do Céu não iria deixar o caso assim no más.  Por conta desse porém, ele se viu na obrigação de ter que deixar o abrigo e procurar por um cerro, de modo de lá do alto poder achar o seu Norte. E foi isso o que ele fez.       

 

 

Antes de sair, respirou fundo; e ensaiou uma prece campeira, pedindo proteção. Expor-se a campo, daquele jeito, era o tipo de situação em que um homem se vê pequeno; e não têm quem não olhe para cima e peça ajuda! Não tinha ele ainda caminhado dez metros, quando um raio transformou em uma bola de fogo um ipê grande e muito velho, bem no seu costado. Para complicar um pouquito o que já não era muito fácil, não bastasse a chuva cerrada, que quase não lhe deixava ver nada, o clarão do raio terminou por embaçar de vez sua visão. A verdade é que não enxergava nada e, durante um tempo, chegou a pensar que estava cego.

Lá-fresca, ermão, que agora eu me atrapalho! – disse, em voz baixa. E em seguida completou: não há de ser nada; já comi toucinho com mais cabelo!

Mas deixa que a tal prece deve ter sido escutada por algum anjo de sentinela. E antes que o desespero pudesse se encostar, julgou ter ouvido alguém chamando por ele:

- Seu João!

Era uma voz de mulher, que soava meio familiar. E ele quedou-se imóvel, esperando que repetissem o chamamento.        

- Seu João Vieira! Por aqui! - disse a voz, como se lhe indicasse um caminho.        

- Por favor, seu João! Ajude! - dizia ela.         

De todas as coisas já vividas, nenhuma até então tinha lhe causado tal efeito. Sentiu que os pelos do corpo se eriçavam, do garrão até o couro cabeludo; e ele não foi capaz de distinguir se aquela voz vinha de gente viva ou de alma de morto. Não que o capataz fosse dado a crendices, mas nos tempos da guerra não foram poucas as vezes em que ele se deparou com situações que não podia explicar, principalmente nos lugares onde tinham acontecido degolas. Aliás, que esse era um dos assuntos dos quais ele nunca falava. Eu mesmo, bem que me esforcei por tirar alguma informação, mas ele sempre dava um jeito de falar o menos possível e se escapar da conversa.         

Sustentando-se quase que só na coragem, firmou o olhar na direção da voz, mesmo sabendo que não poderia enxergar quem lhe chamava. Mas ele era um homem de nunca se impressionar por coisa pouca. Além do mais, se alguém pedia ajuda era porque tinha precisão. E João Vieira não deixava um cristão sem socorro, nem que a situação lhe fosse contrária. Ocorre que aquela foi uma tarde de muitos enganos. E, sendo assim, com ele não foi diferente, pois pensava em não mais enxergar; e o que ele via, agora, era de tirar o fôlego!

 

 

Vestida de branco, como uma noiva, e seca como se não estivesse caindo uma gota de chuva, em pé, à sua frente, a filha mais nova da dona Júlia, com uma expressão mui serena, apontava a direção:

- Siga por esse caminho. Logo ali, depois da curva, basta que o senhor cruze a sanga pelo lajeado pequeno e siga para o lajeado grande, que já vais ver a égua ruana esperando. Mas vá depressa, porque se não vai ser tarde, quando o senhor chegar lá!        

Enrosco só presta grande, que miséria pouca é bobagem! Se num minuto estava cego, no outro enxergava; e, em seguida, já não tinha mais ninguém em sua frente. Isso já era coisa suficiente para confundir os pensamentos; e não tinha porque ficar ali, parado, tentando resolver o enredo. O jeito era empurrar os peitos e ver no que ia dar!         

Agindo por impulso seguiu, conforme lhe tinha dito a moça. E, ao apontar no lajeado grande, viu-se de frente com a cena! Puxando a adaga da cintura, antes de dar o primeiro talho, firmou o punho da mão que estava livre e despachou de lá um manotaço de entortar pescoço de touro, gritando em seguida para o homem: - Eu posso!    

Uma botada do João Vieira era coisa de se respeitar!        

Depois disso, como o inimigo não pudesse mais se levantar, me levou de volta para a proteção da mata e, debaixo de uma árvore bem copada, limpou minhas feridas, procurando avaliar o tamanho do estrago. Em seguida, lembrou-se de procurar pela égua ruana, pois se tinha uma coisa da qual ele não duvidava era de que o animal estaria esperando por ele no local indicado; e o de resto já é sabido.        

Passado algum tempo do sucedido, o capataz veio a ficar sabendo de outros detalhes, que eu não tinha podido esclarecer. Primeiro foi o envolvimento do velho Anastácio naquele causo, que acabou por salvar a vida do Mão-pelada, levando o estropiado de volta para a estância, debruçado por sobre o lombo serrilhado do petiço barriga. Quanto à morte da D. Júlia, foi tudo esclarecido pelo Aristeu Coimbra, um peão dos tempos de antes e muito amigo do João Vieira, que não deixava a Santa Helena por ter sido criado pela mãe da D. Júlia, a quem considerava como irmã. Nunca ficou muito claro para mim como foi que ele viu tudo o que se passou dentro da casa e não tentou ajudar a meia-irmã. A história ficou por isso mesmo, pois que o Aristeu acabou morrendo alguns anos depois, sem que eu pudesse falar sobre isso com ele. Morreu de tristeza, diziam; mas não sem antes procurar o João Vieira, para colocar alguns pingos nos ís.         

Conforme o que ele disse, era desejo da falecida que o capataz aceitasse a filha dela e o guri, sob seus cuidados. Um pedido desnecessário. Mas o que causou, mesmo, estrago foi ele descobrir que Juliana era filha dos dois: dele, João Vieira, e dela, a dona Julia - fique claro. O caso marcou fundo na alma do capataz. Uma ou outra vez escutei o João Vieira me contar a história deles, mas ele sempre disse que depois dela casada eles nunca mais se encontraram; e que a dona Julia teria dito aquilo só para que ele aceitasse a Juliana na estância, o que ele teria feito de coração aberto, fosse ela filha dele ou não. Uma História cheia de espaços em branco e um lote de coisas que ele não explicava. Uma única vez, perguntei se ela era mesmo filha dele, mas ele não quis me responder; embora não tenha podido conter algumas lágrimas mais teimosas, nunca disse nem sim nem não.         

E Juliana?

 

 

A verdade é que durante os dias seguintes ao entrevero andei a ponto de me deixar levar pela tal tristeza. Não foram poucas as vezes em que pensei que o capataz tinha encontrado o corpo e o enterrado nalgum lugar, que não queria revelar. No entanto, se fosse assim, não haveria razão – e eu tenho certeza de que não foi só por mim - para que o capataz recorresse campo e pampa, durante um mês inteiro, no rastro dela. Junto com o seu Alírio, revirou povoado, vila e cidade. Nada! Um dia, num final de tarde, durante o mate, o capataz me contou o que tinha acontecido com ele, naquela tarde junto à sanga. E desde então eu tive a certeza de que se ela não andava entre nós; e por certo, também, não estava entre os mortos. Algum dia, de alguma forma, eu me encontraria com ela... (continua...)

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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