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02/10/2009 18:56:39
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XI - A PEONADA E AS LIDES DO RINCÃO
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS

de André Moab Garcia 

XI - A PEONADA E AS LIDES DO RINCÃO DO SORRO  

 

 

         Passou-se um ano e tanto até que se conseguisse botar bridão na anarquia, como tinha se referido à estância o João Vieira. E mais outro mesmo tanto de tempo para que se pudesse socar o freio. Mas, no fim, domamos a bicha. Nesse meio tempo deixamos a estância quando muito uma vez por mês. Afinal, era preciso acalmar as carnes de alguma outra forma que não fosse só bebendo; podia ser, também, em cancha reta, baile ou casa de china, sendo que, na maioria das vezes, era tudo no mesmo dia.        

         Cada vez que se ia ao povoado sempre acontecia algum enrosco com um de nós, o que acabava envolvendo a todos. E, como parte do negócio, se ganhava um novo amigo. Alguns ficavam na estância por um tempo, até que as coisas se acalmassem. E outros nem chegavam a por os pés por lá; mas ficavam guardados na consideração.                                                                                                     

 

                                 

 

                                                                              Foto: Eduardo Amorim/Flickr

          A Tapera começou a ficar com jeito de estância logo depois que o Pedro Torto tomou assento no posto que lhe cabia, trazendo consigo a esposa, uma senhora calma e bondosa, além de ser uma rezadeira de mão cheia, daquelas que curam desde gripe até praga de sogra! No início nem rancho tinham. Mas isso não foi problema; e logo se ergueu uma casinha de torrão, onde eles puderam se aninhar, até que as coisas melhorassem.         

Conforme eu disse antes, a estância era de uso e cuidado exclusivo do capataz. E ele tinha reunido perto das casas tudo o que pudesse cuidar, deixando o resto por conta; dando uma olhada de vez em quando, pra ter uma noção de em que pé estavam as coisas. Como resultado de muitos anos de descaso, os animais se multiplicaram à revelia, tanto os bons como os maus, e saber a quantidade de cada um deu um bocado de trabalho. O primeiro encargo recebido pelo Pedro Laureano era o de fazer um relato ao capataz da desordem que reinava nas invernadas mais distantes, enquanto ele e o seu Alírio fariam o levantamento na outra parte. Eu e o Sabiá ficamos com a missão de manter a ordem nos territórios civilizados, que compreendiam a área das casas e de três potreiros enormes e bem povoados de gado e ovelha. Na primeira reunião de serviço, o posteiro fez o seu relato: _ ...Pois é como lhe digo, patrão, tem cerca derrubada por tudo que é lado. Mas onde tem mais é na divisa com a Santa Helena. E posso lhe garantir que alguém anda contrabandeando gado pra aquelas bandas. Só não levaram os touros e as vacas velhas aporreadas, porque não puderam. De modo que o que sobrou ou é chimarrão ou muito velho! Tem cada vaca velha braba, que bota touro pra correr só de olhar pra ele! Eu não via uma coisa dessas desde que minha finada sogra era viva. Ele não explicou se as vacas eram muito brabas no tempo da sogra dele, ou se a velha espantava touro só com o olhar. Em todo caso, ninguém quis perguntar, porque sogra é problema de cada um.

 

 

 O tamanho da anarquia dava um rosário, de tão longo. Quando terminou a primeira parte do seu relatório, o Pedro Laureano precisou tomar um trago da cachaça com butiá, que eu tinha preparado um mês antes, já para aquela ocasião. Cinco litros caprichados, e que serviram para animar a reunião naquele domingo. Enquanto isso o seu Alírio assava carne debaixo da figueira velha, que fazia sombra nos fundos do ranchinho de torrão. Depois de acender um cigarro, o posteiro continuou:  

 

 

_ ...De boi velho nem lhe conto o tamanho dos que restaram, porque é capaz de o senhor nem acreditar; pescoço de um bicho daqueles não cozinha, assim, com dez fervuras. Pode botar lenha no fogo por uns três dias, até que se possa cravar os dentes num sangrador daqueles! Ovelha tem à la farta e macho boludo de tudo quanto é tamanho.  Mas, em compensação, tem sorro como eu nunca vi na vida! Eu acho até que naqueles campos a ovelhada só dá cria quando o cordeiro já é borrego, porque senão a sorrama não deixa que se criem! É tanto sorro que nem é bom deixar que cachorro ande solito por lá... Por falar nisso, a gente anda tropeçando nas mulitas; cada bicha gorda que dá água na boca.

 

 

Sorro ou Graxaim

 E de tatu, então, nem se fala; só tem bicho velho de unha na cola, que me dá até medo de botar o meu cusquinho pra se agarrar num casco daqueles; não duvido nada arrastarem ele pra dentro de uma furna!        

 

 

 

 

 

Tatus Mulitas

Na outra parte, a que tinha ficado a cargo do próprio capataz e do seu Alírio, a situação não era muito diferente; sobrava bicho velho e aporreado de tudo quanto era tipo. E o serviço não seria menor por lá. Quando chegamos na marca dos dois litros, já bebidos, o seu Alírio anunciou que o almoço estava pronto; e a gauchada se atracou com vontade, fazendo os ossos da costela gorda ficarem brilhando, em pouco tempo.         

 

 

 

Depois de uma sesteada sobre os pelegos, debaixo da figueira velha, o João Vieira botou ordem nos afazeres: a primeira coisa a ser providenciada era consertar o aramado, de modo a interromper a sangria de gado; porque se continuasse do jeito que ia, talvez em meia dúzia de anos não se encontrasse mais nenhuma rês naqueles campos. O próprio João Vieira se encarregou de contratar um alambrador, que era conhecido seu e que tinha uma turma que trabalhava rápido e bem; o melhor, segundo ele. Aproveitaria a ida no povo para negociar uma tropa de bois velhos, que andavam entupindo os campos. E, assim, teria dinheiro de sobra para pagar homens e material necessário. Se conseguisse um bom preço, passaria nos cobres tudo quanto fosse bicho velho que morasse naqueles rincões; depois, repovoaria com sangue novo e de qualidade.     

De fato, morava a ovelha naquelas invernadas. Por outro lado, cordeiro quase não se via, sinal de que a sorrama andava, mesmo, passando bem. Mas o capataz disse que era só uma questão de tempo, e que logo ele daria jeito nisso. De modo que na próxima primavera os campos estariam lotados dos bichinhos de lã.      No segundo fim de semana depois, o João Vieira trouxe do povo um peão meio louco _ se bem que o melhor seria dizer: um louco meio peão _, dono de uma cachorrada campeira de todo o serviço. Não eram mais que uns dez, mas eu nunca tinha visto uma misturama de raça como aquela: tinha lebreiro com ovelheiro, ovelheiro com galgo, galgo com veadeiro, veadeiro com perdigueiro, lobisomem com brigadiano, e por aí seguia; uma coisa de louco! Aliás, que nisso muito se pareciam com o dono!  

 

 

Disse o capataz que conheceu o sujeito num bolicho, em que ele tinha se chegado para comprar fumo e tomar um trago, depois de ter acertado um bom negócio com um domador de cavalos, um tal Índio Guarany. Por sinal, que esse homem passaria a fazer parte da minha história, pouco tempo depois. Mas disso se fala no momento certo. De volta à pulperia, o João Vieira mal tinha acendido um palheiro e tomado o primeiro gole, quando o bugre entrou, cheio de entono:

 

 

_ Que ninguém se bobeie, que hoje eu tô virado ao avesso! _ gritou, ao entrar no bolicho. _ Me bota um liso, Dom Fernando, que o patrão me mandou embora por coisa pouca, e eu preciso me acalmar...

Dom Fernando era o castelhano dono do estabelecimento, e que conhecia bem o freguês.

_ O que foi dessa vez, seu Olegário? O homem custou um pouco a responder, pois não era acostumado a ser chamado pelo nome. Ocorre que desde muito novo só lhe chamavam de Leite-de-onça, porque segundo diziam não tinha pai nem mãe conhecidos, e que quando criança teria mamado numa suçuarana. Gauderiava pelo mundo, estanciando aqui e ali, sem ter de seu nada além de uma égua velha e a cachorrada que lhe acompanhava, onde quer que fosse; e caso alguma fazenda não aceitasse seus animais, ele também não ficava. Nunca se casou, porque dizia que não se podia confiar em mulher. Além do que nenhuma lhe queria, e por conta disso desenvolveu o hábito de... Bueno! Isso ele mesmo explicou, pela resposta que deu a Dom Fernando:

 

 

Suçuarana 

 

 

_ Barranquiei a égua do patrão - disse ele, como se fosse coisa muito normal -, e a mulher dele me pegou no serviço e quase teve um ataque. Até parece que nunca viu um bagual cobrindo...

_ Mas que barbaridade, tchê! E agora, para onde vais?

_ Qualquer canto. Isso é o de menos. O que me chateia é que eu gostava da potranca - falou, com ar de tristeza.

_ E a cachorrada?

_ Levo comigo; meus bichinhos não deixo pra ninguém. O trabalhoso é achar estância que me aceite com eles. O senhor já conheceu estância que não tenha seus cachorros? Pois eu não... Mas sempre se acha lugar num posto afastado das casas, onde um gaudério como eu pode viver em paz, fazendo o que gosta.        

O João Vieira achou o gaúcho um tanto ordinário. O problema era que a Tapera andava mal uma barbaridade de cachorro, vai daí que... Ergueu-se outro rancho de torrão, próximo ao do Pedro Laureano. E por lá o Olegário “Leite-de-onça” firmou sua morada. Por via das dúvidas, o capataz mandou que o Pedro Torto só deixasse naqueles campos cavalo cuiudo e égua aporreada. Depois, providenciou que não lhe faltasse nada, fosse comida ou uns cobres na guaiaca. Aliás, que ele gastava tudo com as “gurias” no povoado, porque essa era uma das exigências do capataz, que cismou de botar o bicho nos eixos. E o que elas contavam sobre ele...        

A verdade é que o homem era meio louco, mas não era mentiroso; e a cachorrada dele era de encher os olhos! Antes que eu me esqueça, deixem que conte um causo que sucedeu, certa feita, num domingo à tarde: pois não vê que o Olegário velho chuleava uma traíra, comigo e o Sabiá, num açude grande, que ficava perto do rancho dele, quando uma cascuda bateu na bóia, afundando tudo de uma vez. Vai daí que o gaúcho atou a linha no pescoço de um cusquinho, que dormia perto dele, dando-lhe em seguida um laçasso nos quartos, pegando o animal desprevenido e fazendo com que ele saltasse na direção das casas, levando a traíra de arrasto.

_ Agora não falta aprender mais nada! – disse, referindo-se ao fato de seus cachorros só não saberem pescar.        

Conforme o que tinha prometido, o João Vieira mandou que se fizesse um aramado movo e vendeu tudo o que era porcaria velha, repovoando, em seguida, com novilhos de qualidade e uma vacada decente, para cria e leite. Deu um bocado de trabalho, mas o capataz transformou a estância velha - e de nome apropriado - num lugar de campo limpo e bem povoado, fazendo com que a Tapera fosse respeitada em toda a região.        

Um dos pontos altos daquele tempo foram as caçadas; primeiro as de sorro, que eram um problema sério, pois não vingava um cordeiro naqueles campos, e era urgente que se desse um jeito; depois vieram as de tatu, que eram o meu gosto e que deixaram causos de se rir até correr pra patente. Também teve casos de valentia, que caçada é coisa cheia de manha e, vez que outra, se leva um susto, fosse por uma carreira de touro ou por causa de alguma cruzeira, que estava aonde não era para estar: dentro da toca, fazendo uma merenda! É claro que sempre ficam os aporreados, fosse sorro ou tatu, mas isso faz parte, e sempre chegava o dia em que um desprevenia, quando alguém andava por perto, e acabava virando troféu. Quando chegavam os domingos não se pensava em outra coisa. O serviço era muito e só se podia ir ao povo um sábado sim e outro não. Teve um tempo em que era um sim, dois não. O jeito era se distrair caçando.         

Anos antes, quando eu tive aquele enrosco com o Mão-pelada, ainda na Santa Helena, ficou comigo o mango papada-de-touro, pelo qual ele tinha grande estima, e que me foi de muita valia naquela tarde. Dali em diante, sempre que ele se referia a mim era como o “Graxaim”, que tinha lhe roubado muita coisa. Na verdade, foi ele que me roubou minha prendinha, assim como um lote de sonhos bons e minhas ilusões de guri, deixando somente a lembrança daqueles dias. E foi, também, por causa dele que o povo começou a se referir à Tapera como o Rincão do Graxaim, que era como me chamavam.        

Com as caçadas de sorro abundava a oferta de couro, e, por conta disso, o lugar ficou definitivamente conhecido por Rincão do Sorro, ou Graxaim, que é o mesmo bicho. O nome Rincão dos Esquecidos veio depois, mas isso é coisa que mais adiante se explica.       

Passados os anos mais difíceis, a vida na estância voltou ao normal, ficando quase do mesmo jeito que era antes de o capataz resolver arrumar a casa. É claro que se trabalhava mais, mas também tinha mais gente para repartir o serviço. E, além disso, todos passaram a ter paga regular. Aproveitando-se dos meus conhecimentos das letras, o capataz me fez escrever, em nome dele, uma carta para o coronel Soares Neto, o dono da estância, participando-lhe das novidades e querendo orientação para onde mandar o dinheiro e as contas. O João Vieira pagava bem a peonada, um pouco mais do que os outros recebiam na região. Mas ele dizia que lá também se trabalhava mais, e tirava para si o mesmo que recebiam os outros encarregados iguais a ele. Para essas questões valia-se do meu serviço de apontador, mantendo tudo que se referisse a dinheiro sempre sob controle, para quando chegasse o dia de prestar contas.        

Em resposta, o coronel mandou uma carta dizendo que não queria saber de nada daquilo; que agradecia a honestidade do capataz e que ele, mais do que ninguém, merecia colher para si os frutos do tanto trabalho. Lembrou-lhe, ainda, o coronel, que aquelas terras eram amaldiçoadas para a família dele, e que por isso não desejava para si nada que viesse dali. Aproveitando a ocasião, comunicou ao capataz que tinha intenções de vender a estância, e que, apesar de ainda não ter fechado negócio, tudo se encaminhava para isso. De qualquer modo, deixou instruções sobre o que fazer com o dinheiro, dizendo que o mesmo seria devolvido para o capataz em forma de gado, quando a estância fosse vendida.           

O que retardava a venda era que o único interessado não tinha, ainda, o dinheiro suficiente para pagar o que realmente valiam aqueles campos. Reconhecendo a importância do capataz, para com sua família, e também o zelo com que ele tinha cuidado de seu patrimônio, o coronel legava a ele, desde já, uma boa parte do gado, cavalos e ovelhas que houvesse na estância, por ocasião da venda. Não era dado; aquilo, na verdade, estava sendo comprado com o dinheiro que o João Vieira mandava.          

Dizia ele que só venderia a estância com a concordância desse porém, por parte do comprador, e que isso ficaria registrado como condição de venda. Segundo o coronel Soares Neto, esse legado seria mais do que suficiente para que o capataz pudesse viver o resto de seus dias no povoado, sem ter que se preocupar com o seu sustendo. De qualquer modo, quando o negócio estivesse por se resolver, o coronel avisaria com antecedência, para que o João Vieira tivesse tempo de apartar e vender seus bichos. Enquanto isso, ele fosse pensando no que fazer. “Quem sabe, abrir um bolicho?” _ sugeriu o coronel, ao final da carta.

Depois de pensar por uns dias o capataz me pediu que escrevesse outra carta, fazendo uma contraproposta: pedia que ao invés de tanto gado o coronel lhe desse, então, o potreiro onde ficavam as casas, e mais dois ou três potreiros em redor. Uma troca que, na verdade, prejudicava ao João Vieira; mas ele, naquela altura da vida, já tinha as suas raízes profundamente cravadas no rincão, e não conseguia se ver atrás de um balcão servindo borrachos, nem que fosse só para passar o tempo.

_ A menos que a idéia te agrade... - me disse, uma tarde, durante o mate. _ Arrumo a vida do Alírio e da família dele; e, depois, a gente se ajeita pelo povo.

_ Eu?

_ Mas é claro, chê! O que é que eu vou fazer no povo?

_ Sei lá, foi o senhor que disse que ia!

_ Eu não vou, mas se tu quiseres eu vou. E se eu resolver ir, tu vais mesmo que não queira!

_ Eu?

_ Tu.

_ E o que eu tenho com isso?

_ Tudo.

_ Tudo, como?

_ Tudo, ora!

_ Mas tudo o quê?

_ Vai-te à merda, mal agradecido. E pensar que eu me preocupo contigo. Ainda bem que não foste meu genro...

Ficamos em silêncio, pensando naquelas palavras. A presença de Juliana encheu o espaço entre nós, como sempre acontecia quando, por qualquer bobagem, ele se referia a ela. E até a hora do jantar não se trocou mais palavra.

_ Morro aqui e aqui quero que me enterrem! Esse é o meu destino, e homem nenhum vai mudar isso – disse, mais tarde, antes de dormir, dando o assunto por encerrado.

A verdade é que atendi o seu desejo, e lembrei dessas palavras enquanto deitava o corpo dele. “Esse é o teu destino” – pensei, então. Mas isso foi bem depois...

_ Por mim tudo bem, te faço essa vontade. Mas o senhor vai ter que convencer o novo dono a lhe deixar ficar. O senhor nunca pensou em comprar um pedacinho de campo pro senhor? Eu tenho certeza que se a gente procurar direitinho acaba achando um sitiozinho que dê pra se criar uns boizinhos...

Ele não respondeu nem sim nem não. Eu acho que ele nunca tinha, mesmo, pensado nisso. Acontece que a sementinha tinha sido plantada na cabeça dele, e eu esperava que quando surgisse a oportunidade ele não corresse dela. Enquanto o coronel nos deixava em banho-maria, seguimos com nossas vidas... (continua...)  

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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