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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

30/11/2009 15:39:10
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XII – NO CHULEIO DE UM MATREIRO
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XII – NO CHULEIO DE UM MATREIRO 

 

Nesse meio tempo, o Sabiá se enrabichou por uma moça do povoado. E o caso se encaminhava mesmo para casamento. Aliás, que isso vinha bem ao gosto da mãe dele, que ultimamente andava reclamando uns netos para se entreter. O seu Alírio, pensando no futuro do filho, também era a favor da idéia e queria que ele abrisse um comércio no povo, quem sabe até na cidade. Afinal, ele tinha seus guardados; e juntando com o que o capataz prometia, era bem capaz que fosse assim.

Por tempos fiquei sem a companhia do meu amigo nos fins de semana, pois o Sabiá seguia para a vila no sábado e só voltava no domingo à tarde, fazendo pouso num quartinho que o sogro reservou para ele, junto à oficina onde o velho exercia o ofício de ferreiro. Passados uns seis meses de namoro, a moça precisou viajar com a mãe para a capital, pra modo de fazer companhia, por conta de uns exames complicados, e por isso passaria mais de mês por lá.  

Sem motivos para ir ao povo, o Sabiá voltou a fazer o que mais gostava, quando estava à toa na estância: aporrear as traíras pelos açudes ou, então, os jundiás nalguma sanga corredeira, quando não correr tatu nas noites de lua cheia. Na primeira oportunidade me atirou o laço, num convite sem recusa. E eu não me fiz de rogado; dei de mão numa garrafa, que eu tinha enterrado para uma ocasião como essa, juntei minhas tralhas e saí com ele na intenção de me distrair um pouco. O caso é que eu andava angustiado, achando a vida meio sem graça, e umas voltas com o Sabiá sempre me faziam bem, pois quando a gente saía à toa, como passeio de cobra, sempre acontecia alguma!     

De saída recordamos a nossa última caçada, quando o Leite-de-onça resolveu ensinar o ofício a um cusquinho, que ele tinha criado guaxo e que não mostrava serventia para nenhuma outra coisa. - “Nenhum animal é sem serviço na minha mão, e esse não vai ser diferente”, disse ele, quando nos convidou. Para a ocasião, o Olegário levava somente um cusco velho, já meio cansado, mas que de faro era sem igual, e que já tinha sido professor de muitos, antes daquele. Podia a mulita sair cedo e andar à vontade pelo campo, enredando o rastro como bem quisesse, que o cachorro velho desenredava e sem demora batia nela!  

Saímos no final da tarde, quando os primeiros bichos começam seus passeios, pois era intenção do Leite-de-onça que o cusquinho desse as primeiras mordidas numa cascuda descuidada, que é mesmo a primeira escola de um tatuzeiro. Mulita é bicho mais lento e sem muita força, de modo que qualquer cachorro novo se anima quando agarra uma; enquanto que com a tatuzada a coisa é mais séria, pois não foi uma nem duas vezes que vi cachorro indo de arrasto, com os dentes cravados na cola de um crioulo mais guapo.        

Tem gente que tem mesmo tino para certas coisas. E com o Olegário ninguém discutia, quando o assunto era cachorro. E se ele dizia que o bicho levava jeito, era porque levava. Não vê que o bugre tinha lá suas razões; e o cusquinho se mostrava disposto com o bicho de casco por cima. Mal entramos num campo maceguento e o cachorro velho foi ensinando o serviço: focinho cravado no chão, procurando por uma cascuda, que pelo jeito ainda não tinha enredado muito o rastro. Em pouco tempo já se carregava meia-dúzia delas nos tentos, enquanto o aprendiz seguia, mui faceiro, o seu mestre, mostrando tino pro negócio. Era mês de abril, quando a lua cheia clareia com mais força. E mal o sol encostou no horizonte a lua apresentou- se, iluminando a pampa e deixando tudo meio prateado.        

Conversa-se pouco numa caçada, pois que o bom é ver a cachorrada dando voltas pelo campo, com o focinho colado no chão; e quando um se atraca num tatu é que se quebra o silêncio. Acontece que cachorro novo não é de confiança, quando late na boca da toca. Afinal, eles não sabem direito o que interessa e o que não presta. E quando tem algum novo na função, é sempre bom ir com cuidado. Mas deixa que o tempo foi passando e os rastros foram ficando mais enredados, de maneira que não tardou muito e o cachorro velho se complicou no serviço, dando voltas e meias voltas, num caso que parecia mesmo difícil. E não foi surpresa pra nenhum de nós quando o novato resolveu entrar no caso e, sem demora, achou a toca da caminhadeira, latindo como se fosse pra salvar a mãe. - “Não dou mais três andadas e lhes garanto que esse já vai dar aula”, gabou-se o Olegário.        

Mas se o Olegário Leite-de-onça entendia muito do bicho que late, por outro lado não compreendia que um tatuzeiro não se faz assim no más, sendo que um dos bons chega a levar anos pra se fazer caçador. Vai daí que entusiasmado com o primeiro acerto do bichinho, esqueceu-se ele que a prudência é mãe da boa saúde. 

 

E assim que o animal repetiu o aviso, na boca de uma outra toca, o Olegário apressou-se e enfiou o braço pra dentro do buraco, assim como quem examina prenhez em égua de pobre! Quando sentiu a dentada, já era tarde:

_ Barbaridade, tchê! Algum bicho me mordeu! E pelo jeito é cruzeira! - disse ele, com os olhos a ponto de pular das casas. 

Como sempre acontece, quando um mais afoito faz esse tipo de burrice, cavamos o buraco até topar com o bicho e acalmar o homem, explicando que não se tratava de cobra, mas de um lagarto velho. Vá lá que o cachorro tivesse a sua culpa, mas ainda assim o erro maior tinha sido dele, Leito-de-onça. Mas ele não quis saber, e disse tanto desaforo e nome feio que nem mesmo nós, que já estivemos em tantas bocas escuras, não tínhamos ainda escutado.

Aconteceu que dali por diante o cusquinho só fez cagada! Primeiro bateu num zorrilho, que andava perto, e sobrou mijada pra todo mundo, mais pra ele é claro, que arrastou o focinho, num choro desesperado, por mais de cem metros. Depois, bateu em raposa, sorro, perdiz, quero-quero, tamanduá e, acreditem, quase se botou no cachorro velho! Só sossegou quando se largou e encurralou uma jaguatirica contra uma pedra alta, e voltou de lá já sem espaço pra mais unhadas. _“Só dou mais uma chance”, disse o Olegário desgostoso, enquanto eu e o Sabiá já íamos a ponto de estourar de tanto rir, apostando qual bicho o desastrado iria entocar em seguida.

_ Do jeito que vai, digo que ele vai bater numa vaca velha! - arrisquei um palpite.

_ Pois te digo, chê Graxaim, que ele vai bater é no dono mesmo - completou o Sabiá.

_ Em respeito ao capataz, nem lhes repondo... - falou o Olegário, com cara emburrada. Em seguida, baixou o relho nos quartos do animalzinho, que depois de tanto atrapalho tinha achado mais seguro andar colado nos pés dele. 

Avivado pelo couro de vaca, saltou o coitado, mui esperto, querendo mostrar que ainda tinha salvação. E, quando menos se esperava, zuniu o casco de um tatu crioulo.

_ Não lhes disse que ainda se ajeitava!  - gritou o dono, cheio de confiança.

De fato, o bicho agiu acertado e pegou um tatu velho, de unha na cola, desprevenido, fazendo com que entrasse numa toca pequena, de mulita com certeza, pois que furna não era; e dava pra ver a ponta da cola relampeado dentro da toca curta.

_ Te salvaste! - comentou ele pro cusquinho, que faceiro redemoinhava na volta do buraco. Mui afoito, o Olegário deitou-se na boca da toca e agarrou a cola do bicho, enquanto me dizia:

_ Mete a pá companheiro, que esse não se fresqueia mais!       

Teria dado tudo certo, não tivesse o cusquinho resolvido botar a vida fora. Por certo que não foi por gosto; eu acho, até, que foi por conta dos nervos, pois que eu mesmo já passei por situações como aquela. O caso foi que depois de muito cheirar o chão o infeliz resolveu verter água, e outras coisas, bem na entrada da toca! Pode ser que ele tenha pensado que cagando num buraco já feito iria colaborar com a limpeza dos campos, sei lá! Acontece que a cabeça do Olegário já ocupava aquele espaço. E sem pedir licença, o animalzinho se entregou à função de esvaziar as tripas, sem medir as consequências. Primeiro foi a água quente, que o homem, enfiado de cabeça na toca, sentiu escorrer pela nuca; depois foi a bosta mesmo, que se amontoou por ali, num montinho até interessante de se ver!

Só quem já andou a campo, correndo o bicho de casco por cima, é que sabe a força que tem um tatu, quando se agarra no chão. Pode o índio se retorcer de inchar a veia do pescoço, fazendo força ao puxar a cola do animal, que não consegue sacar o cascudo; quando muito a gente não deixa que ele vá mais para frente, mas puxar não puxa!     

Pois lhes digo, senhores, que vi, sem muito espanto – afinal, eu já estava me acostumando a ver de tudo -, quando o Leite-de-onça saltou de dentro da toca de uma só vez, trazendo na mão o tatu velho. Decerto que o bicho também não acreditava no que estava acontecendo. Mas, mesmo contrariado, se parou quieto, para ver o que se passava do lado de fora da toca. E se passou que o cusquinho, na certa, não viu maldade no que tinha feito. E com a cara de guri que ganha bicicleta se pôs a balançar o rabo, de um lado para o outro, mui contente ao ver o tatu pendurado pela cola, esperando o reconhecimento do dono. Já na primeira tatuzada, que levou pela cabeça, saiu chorando, incompreendido, correndo sem rumo pelo campo. Mas não foi rápido o bastante; de modo que o Olegário velho lhe desmanchou o tatu no lombo, só parando quando lhe restou na mão apenas a cola do tatu, para o qual eu tinha outros planos. Sumanta de tatu igual àquela eu nunca tinha visto. E olha que eu já tinha levado surra de tudo quanto foi qualidade. E pra finalizar o causo, encerrou-se a caçada, sem que dos dois animais sobrasse um pedaço que servisse de isca pra lambari!

Relembrei o acontecido, enquanto caminhávamos em direção à sanga. E entre um gole e outro demos boas risadas, prenunciando um dia bem a contento. Quando finalmente demos com os costados na água, ainda era por volta das nove horas. E o Sabiá insistiu para que se fosse incomodar as traíras, num poço largo que ficava pros lados da Santa Helena. De saída não me agradei da idéia, que o lugar era do meu conhecimento e ficava, mesmo, em campo alheio. E eu não tinha intenção de me incomodar com aquela gente. Mas o Sabiá era manhoso. Quando queria, sabia se achegar pelo lado de montar. E usando de astúcia se saiu com uma conversa de que era domingo, que não tinha ninguém na estância, que o Mão-pelada já não podia nem com o próprio peido e que traíra de três quilos por lá era filhote... Depois de puxar um lote de lambaris, iscamos para as cascudas meia-dúzia de linhas de bóia. E, bem acomodados à sombra de uma acácia velha, nos entregamos ao esforço de dar fim à canha, entre uma fisgada e outra. Por volta do meio-dia o Sabiá cravou dois trairões graúdos nos espetos, pra servir de almoço. E enquanto os bichos assavam em fogo baixo, ele resolveu sair recorrendo a beira da sanga, para ter certeza de que o nosso fogo não iria chamar a atenção de nenhum curioso. Assoviando mal, como de costume, sumiu no mato que costeava a sanga.

Passado já um bom tempo, depois de eu ter puxado uns trairões velhos de muita descendência, criados a ponto de serem tetravôs, comecei a achar estranheza no demorar do meu companheiro. Afinal, nem era tanto campo para se recorrer; de modo que senti no triperio que algo se passava. Tem gente que sente dor na junta, outros que têm dor nos dedos; e eu conheci até uma velha, a finada dona Emerenciana das Dores, que não por acaso caía na cama, cheia de dores, toda vez que alguém da família passava por uma situação de perigo. Comigo era o triperio que se desarrumava; e, por coincidência, sempre que alguém da Santa Helena cruzava o meu caminho. Recolhi as linhas e deixei tudo arrumado, para o caso de ser preciso uma fuga rápida. E sem mais o que pensar, mas não sem antes aliviar a barriga, fui de encontro à encrenca.

Aconteceu que mal eu deixava o costado da sanga, quando ouvi que alguém se aproximava, assoviando alto. Mas eu não reconheci como sendo o meu amigo, pois era famoso no rincão o desafinar do Sabiá, e aquele que se aproximava assoviava lindo como uma calhandra! De imediato busquei abrigo, debaixo de uma árvore de copa baixa, e por lá fiquei esperando pela visita. Mas qual não foi o meu assombro ao ver que quem vinha de lá, com o bico mui afinado, era mesmo o Sabiá!

_ Que houve, companheiro? – indaguei, quando ele chegou mais perto.

_ Nada. - respondeu de modo vago.

_ Como nada! Demorastes uma coisa! – insisti. _ E além do mais estás branco como barriga de cobra! E o pior é que o teu assovio anda lindo uma barbaridade!

_ Não foi nada, tchê! Deixa de coisa e vamos tomar um trago, que eu me cansei à toa. Não tem ninguém por lá...

No fim de semana seguinte me fui ao povo com o João Vieira. A cozinha da estância precisava de umas miudezas, e o capataz achou por bem me levar para um passeio. Saímos no sábado à tarde e, conforme o costume, no entardecer do domingo esbarramos de volta no galpão. Logo o Sabiá se apresentou para ajudar a descarregar a carroça. Já de saída percebi que ele estava bem humorado; não que ele antes fosse carrancudo, pois que o bicho sempre foi brincalhão, mas o caso é que ele não andava como de costume, e isso chamou a atenção também do capataz. Acontece que o João Vieira era tinhoso no lidar com o seu gado; e assim que o Sabiá sumiu na direção da cozinha, assobiando, ele se chegou no meu costado.

_ O que se passa? – indagou, sem explicar o que queria saber. Mas eu desconfiei da intenção e entrei no assunto.

_ Não sei, mas deve ser falta da guria que anda na capital.

_ Não é isso, che! Quem tem saudade não anda cantando. E tu sabes disso tão bem quanto eu. E esse anda cantando como um cardeal! Aí tem... - disse ele, deixando no ar uma dúvida. Quando o Sabiá voltou da cozinha, o capataz puxou conversa.

_ Então, che! Cadê as traíras! Não fostes incomodar os bichos, hoje?

_ Fui... - respondeu ele, distraído.

_ E que tal?

_ Tava bem bueno! - animou-se o cantador.

_ Pegastes quantas? – perguntei, curioso.

_ Hein?

_ Quantas, tchê? Cadê as dentuças?

_ Bá, tchê! Tu acreditas que eu até nem peguei nenhuma!

_ Mas tu andas faceiro demais para quem passou a tarde à toa, feito lagarto na pedra! - cutucou o capataz.

Mas o bicho andava mesmo arisco. E mal o capataz terminava de falar, ele já se ia na direção das casas, gritando um “boas noites” pelo meio do caminho. Nisso chega seu Alírio.

_ O que é que se passa com o teu guri, Alírio? Anda abobado como vaca com dois terneiros!

Seu Alírio deitou um cigarro nos beiços e respondeu, meio confuso:

_ Pois eu vinha justo indagar sobre isso; pensei que tu soubesses...

De repente os dois olharam para mim, que distraído cevava erva para o mate.

_ Nem se venham, que eu não sei de nada!

_ Mas vocês andam sempre juntos, feito bola de porco! - disse seu Alírio.

_ É, mas nessa eu tô como preto em baile de branco: calado, mudo e sem ter o que dizer; fico só apreciando a dança!         

Jundiá

Por experiências passadas eu já sabia que não adiantava peitar o bicho. E de acordo com a disciplina adquirida em caçadas e pescarias, me dei conta de que para pegar um passarinho daqueles seria preciso um pouco mais de paciência. Por isso, no domingo seguinte, quando ele me disse que não queria ir pescar, eu me fiz de bobo e respondi que então não iria sozinho até o poço dos trairões, da Santa Helena. E que ao invés disso iria tentar a sorte aporreando uns jundiás bigodudos, no arroio das pedras, lá pros lados do posto do Pedro Torto. Percebi, de pronto, que ele tinha se agradado da idéia, quando me disse que eu esperasse por lá, que era bem capaz de ele aparecer. Encilhei uma égua rosilha, que era quieta como um capincho, e me despedi do amigo, na entrada do galpão, de modo que ele pensasse que eu iria mesmo na direção do arroio. Já no segundo cerro, quando tive certeza de que ele não vinha no meu rastro, tomei o rumo contrário e segui pros lados da Santa Helena. (continua...)

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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