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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

12/01/2010 00:06:55
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XIII – A ENRASCADA DO ARROIO
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XIII – A ENRASCADA DO ARROIO


Pealar o Sabiá era uma questão de honra para mim. O caso é que para isso eu teria de aventurar-me sem companhia pelos campos da Santa Helena. Não que eu tivesse medo, mas essa idéia sempre me arrepiava o espinhaço. Depois de outra conferida, para ver se ele não vinha no meu rastro, cheguei-me para os lados do capão de mato que costeava a sanga. E quando dei com os costados já bem perto do Passo da Cruzeira, achei que era a hora de começar a caçada.        

O meu plano era seguir de a cavalo o mais pra frente que pudesse, mas sem deixar os campos da Tapera; depois entraria à pé nos campos da Santa Helena e seguiria devagarzito, até topar com o resbaloso pelo caminho.  

Deixei a égua à soga, pastando debaixo de um arvoredo; freio atado no pescoço, mas com os arreios firmes, para o caso de ser preciso... Na mala de garupa levei pão, queijo e salame – nunca se sabe se o dia vai ficar meio comprido - e uma de butiá maduro, que só por isso já valia a pena, mas dessa vez tomei o cuidado de beber com modos.     

Quando avistei o lugar, onde anos antes tantas coisas tinham acontecido, a saudade da morena me atacou de chofre. E eu achei que seria interessante recordar algumas coisas boas, no mesmo lajeado onde eu tive o último encontro com ela. Por causa daquele entrevero o lajeado tinha se tornado para mim como um campo santo; um lugar de coisas boas e ruins, tudo ao mesmo tempo. Ir até lá e não ver Juliana estirada sobre as pedras era como acordar de um sonho bom, coisa que eu sempre me recusava a fazer.     

Acomodei-me, prudentemente, na mata que costeava a sanga, escolhendo com cuidado um lugar onde eu não pudesse ser visto; um ponto onde a mata se derramava do alto do cerro, em direção à sanga. Contemplei o lajeado vazio por mais de hora, entremeando saudade com canha, fazendo o tipo de mistura que com certeza não terminaria bem. Mas eu me dei conta disso. E antes que a empreitada ficasse sem serventia, resolvi me mudar dali. Eu já ia me levantando quando ouvi um barulho, que pelo jeito não vinha de muito longe. Um galho de mato seco tinha estalado. E antes de deixar meu esconderijo, tive que esperar para ver se era mesmo uma rês, conforme eu tinha imaginado.  

Como forma de ter certeza de que nada de ruim fosse acontecer, levei a mão esquerda até o cabo da adaga, que trazia bem firme, presa na faixa da cintura. No lado direito, caído ao longo da perna, o mango papada-de-touro estava de prontidão, já que naqueles campos morava o bicho aporreado...    

Como um pouco de ajuda nunca é demais empecei uma precezita campeira, convocando meia-dúzia de santos guerreiros, só pra modo de fazer companhia a um gaúcho cheio de boas intenções. Incluí nas minhas preces um pedido para que o antigo dono do mango não aparecesse por ali; não que eu tivesse medo de duelar com o Mão-pelada, mas não custa lembrar que respeito conserva os dentes e eu não tinha ido até lá para isso.        

Pois não vê que a sorte tinha resolvido a me amadrinhar. E imaginem qual não foi a minha alegria quando vi que o Sabiá se aproximava, mui cuidadoso por sinal, procurando ele também um lugarzinho com vista para o lajeado. Parecendo um capincho, de tão quieto, encontrou sem dificuldade um bom abrigo, a coisa de uns dez metros de mim, só que mais abaixo; o que me deixava com uma visão melhor impossível, pois que eu tanto via a ele como podia ver muito bem o lajeado.        

Decerto que ele andava se fresqueando com alguma guria da Santa Helena. Disso eu já não tinha mais dúvida. O que de certa forma até justificava tanto segredo. Ninguém que soubesse do causo deixaria que ele voltasse para lá, nem mesmo eu que entendia bem desses cambichos. Pois não tinha lugar pior pra se meter num enrosco do que os campos da Santa Helena. Eu tinha me decidido ir embora, assim que a namorada dele aparecesse, pois não era minha idéia dar fé daquela sem-vergonhice. Além de eu achar que aquele lugar merecia um pouco mais de respeito. Passou-se meia hora, desde que ele tinha chegado. E eu comecei a ficar inquieto, de ter de ficar parado ali, esperando para descobrir um segredo que não tinha mais razão de ser. O que eu precisava era dar um jeito de sair sem que ele se apercebesse de mim.        

Nem preciso repetir que quando eu cheguei na Santa Helena era ainda um piazito recém saído da sacristia. E que por conta dessa infância inocente não poderia ter juntado pecado o suficiente para que Deus tivesse me posto justo no mesmo canto do mundo onde ainda vivia o último parente de Judas. De qualquer modo, quanto mais eu achava que a minha vida tinha seguido para um rumo diferente do dele, mais nossos destinos arrumavam um jeito de se encontrarem. E para não contrariar o Patrão Celeste, a coisa seguiu conforme o de costume.         

Mas que eu tentei não me meter na confusão deles, isso eu tentei! Não pensem vocês que eu não me envergonho, às vezes, de contar certas coisas, porque tem coisas que não se deve mesmo contar. Acontece que o sucedido naquele dia só ficou sendo sabido por nós da Tapera. E esse segredo era pra morrer comigo. Mas depois que algumas coisas infelizes aconteceram entre o Nestinho e o Pai dele - culpa de uma certa Isabel, de quem depois se fala -, e levando-se em conta que os dois já foram lá pra baixo, onde é o lugar deles, contar a verdade não vai fazer mal pra mais ninguém - não que eu fosse me importar se alguma coisa fizesse mal a qualquer dos dois...                

Pela posição do sol calculei que passava pouco do meio-dia, quando eles apareceram, justo quando eu me preparava pra sair dali; de modo que acabei adiando o plano de fuga e resolvi ficar. Afinal, a presença deles mudava as coisas, e talvez aquele negócio de namoro secreto não fosse bem assim.         

La-pucha! - pensei pra mim, enquanto observava os homens caminhando tranquilos na direção do lajeado.  Um eu logo reconheci: era o tal Afonso. com quem eu tinha me desentendido no sobrado das gurias. Caborteiro e metido a facão sem cabo, era certo que não andava por ali à toa. E não era preciso que alguém dissesse que os dois andavam aprontando alguma. Não foi por outra que o Sabiá andava com aquele jeito abobado; decerto descobriu alguma arte daqueles jaguaras, e esperava a hora certa de dar o bote. Em todo caso eu não ia poder guardar segredo do João Vieira, uma vez que andar gavionando na Santa Helena não era direito - apesar de ser quase uma obrigação; além do quê era mais perigoso do que roubar comida de onça parida.

Espichei a vista o mais que pude, para ver se conseguia reconhecer o outro gaúcho que andava campeando naquele rincão. Mas o índio estava de lombo virado pra mim, de maneira que não tinha outro jeito que não fosse esperar. Vejam só, eu que esperava um caso de enrosco do Sabiá com alguma guria atrevida acabei me deparando com o que talvez fosse um caso de valentia.         

Nesses casos a ciência pampeana recomendava um bom trago de canha, acompanhado de um naco de queijo com salame, que é pra modo de acalmar o vivente. E, para não discordar de tão antiga sabedoria, deitei goela abaixo uma dose de metro e meio, mais ou menos! O problema foi que, enquanto eu comia, me distrai e respirei na hora que era pra engolir – ou engoli na hora de respirar, tanto faz –; o resultado foi que me engasguei. Sufocado com uma bola de queijo e salame atravessada na garganta, senti que o mundo começava a rodar pela falta de ar. E sem outro remédio, resolvi procurar ajuda.

Vai daí que saí rastejando os dez metros que me separavam do Sabiá e esbarrei no bicho de chofre, o que fez com que ele ficasse vermelho como um tomate. Nem preciso dizer que o susto foi grande, daqueles que faz o índio ficar com os olhos estrelados, o que provocou nele um efeito esquisito, levando o Passarinho a soltar um vento ruim de se cheirar, que de tão brabo me fez ficar bom do engasgo - ainda que eu tivesse preferido continuar engasgado.
_ Barbaridade, tchê Sabiá, tu andas mal mesmo! Vai te internar na Santa Casa, que já estás apodrecendo! - eu disse, num cochicho.
_ Que pialo, Graxaim! Quase que me assusto! O que é que tu faz por aqui?
_ O mesmo que tu: vim pescar...
_ Bá, chê, não mente que aqui nunca deu peixe, e tu sabe disso.
_ Sim, senhor. Mas se não dá peixe nestas bandas, o que é que tu andas fazendo por aqui, que mal pergunte e nem é de minha conta?
_ Eu ia passando e me deu vontade de descansar um pouquinho... Na verdade, eu vim me aliviar, que não ando bem da barriga; e tu sabes bem que nessas horas não se escolhe lugar.
_ Que não andas bem da barriga nem precisa dizer! – falei, referindo-me ao vento ruim com que ele me recebeu.        

Nisso, os dois encurtaram a distância e se chegaram na barranca da sanga. E dali ficaram espionando, para todos os lados, buscando algum movimento que pudesse lhes atrapalhar os intentos. Naquela parte a largura da sanga não chegava a três metros; e dali onde eles estavam até onde eu me escondia com o Sabiá regulava mais uns trinta metros. De modo que a situação não era muito tranqüila, e qualquer descuido poderia resultar num lufa-lufa daqueles. Não que se tivesse medo daqueles maulas pacholentos; e até que a idéia de dar um manotaço na orelha daquele sujeito me enchia de gosto. Mas o caso era que eu já tinha tomado uns goles meio grandes, e podia ser que isso me causasse algum enredo. Além do quê a prudência me roncava na barriga, lembrando que lá não era o melhor lugar e nem aquela a melhor hora. Durante mais alguns minutos eles ficaram só olhando em de redor. E como não achassem nada que lhes estorvassem, tiraram as roupas e, nuzitos em pelo, se atiraram na água. O que se passou depois eu deixo por conta do que cada um consegue imaginar...

_ Lá fresca! - cochichei no ouvido do Sabiá. _ E pensar que tu perdias teus domingos espionando dois colhudos se cobrindo; e ainda voltava pra estância todo contente!
_ Tava bom de eu te dar uma tunda, só pelo desaforo! Mas isso se vê depois. Vamos dar um jeito de sair daqui, que eu não me agrado dessas frescuras...
_ Não é o que me parece... - eu disse, enquanto ele me olhava como se quisesse me matar.        
Quietos, como quem namora filha de guarda, começamos a nos mexer, procurando qual seria o melhor caminho pra sair em segurança. Teria dado tudo certo - e o que eles estavam fazendo teria ficado em segredo, pelo menos eles pensariam isso -, não fosse um pequeno incidente. De repente, outra pessoa se apresentou num berreiro abarbarado, se esgoelando e correndo cerro abaixo, vindo dos lados da Santa Helena, numa carreira impressionante, capaz de deixar muito galgo com inveja.       

Aquilo pegou todo mundo desprevenido, dando a impressão de que o tempo tinha parado, deixando os quatro sem ação, enquanto ela se aproximava da sanga. A primeira coisa que a gente se pergunta é: o que leva uma pessoa a tomar uma atitude daquelas, interrompendo o namoro horroroso daqueles dois animais? Sim, porque mesmo no mais louco dos viventes sempre sobra um mínimo de juízo, pra saber que aquele não era o melhor dos lugares pra se atirar numa hora como aquela!    

Mas o suspense durou pouco, pois mal ela se atirou na direção da água, perto dos enamorados, uma nuvem cobriu o lugar com um zumbido que não deixava dúvidas: abelhas!

_ Mas que merda! - disse o Sabiá. _ Fica quieto, que elas não vêm para o nosso lado... - completou ele, na esperança de que a gente pudesse manter a nossa posição em segredo. O problema foi que ele me disse isso, mas não avisou ao enxame que nós não tínhamos nada a ver com aquilo. E num gesto que surpreendeu até a mim - depois da segunda picada -, foi ele quem saiu correndo no rumo da sanga, feito um louco!

Vai daí que só sobrou eu de lombo exposto. E nem preciso dizer que elas se botaram com vontade, me fazendo sair em disparada quase ao mesmo tempo em que o Sabiá; o que não impediu que nenhum dos dois levassem pelo menos umas vinte ferroadas bem dadas. Enxame como aquele nunca mais vi; trezentas mil abelhas - calculei eu por alto -, e que davam umas ferroadas de deixar cada caroço que só vendo.

_ Sai da frente, que aqui vai mais um! – gritei, enquanto corria; que o espaço na água não era muito, e eu precisava garantir uma vaguinha. Não fosse a dificuldade da situação a indiada já teria se atracado de tapa, gritando desaforos, que motivo não faltava. Acontece que o enxame era grande e estava mui furioso, o que não deixava ninguém dizer uma palavra; sendo que era até engraçado de se ver o abaixar e subir das cabeças dentro d’água, numa misturama de pelados com vestidos, e ninguém se incomodando com o seu vizinho.         

A situação que já não era boa se complicou, quando o enxame resolveu atacar uma boiada, que pastava por perto; e que pra ajudar na dificuldade era quase tudo touro chimarrão.
_ Corre, que lá vem os bichos! - gritou um deles, quando viu que vinham em nossa direção, de cabeça baixa, dispostos a levar tudo por diante, deixando todo mundo ainda mais apavorado. Há sempre quem duvide, mas posso garantir que mesmo dentro d’água dava pra sentir o chão tremendo.  Como se fosse combinado, todos acharam melhor sair da frente. E pulamos pra fora da água, ao mesmo tempo saindo correndo todos na direção do mato - pelados e vestidos -, cada um procurando por um lugar que pudesse servir de abrigo.

Não era a primeira vez que eu me via numa anarquia como aquela, pois que meu tempo na Santa Helena tinha sido cheio delas; de modo que me aproveitei do desespero deles e agarrei o Sabiá pelo braço, puxando ele para os lados da Tapera, que era o nosso chão. Dali, ele que se virasse como pudesse, porque se os touros tinham seguido por outro rumo o mesmo não tinha se dado com as abelhas, que insistiam em perseguir a gente. Como cada um tinha deixado sua montaria num lugar diferente, combinamos, meio que de improviso, de nos encontrar no poço raso da Tapera, que era o lugar onde a gente tirava lambari pra isca.        

Quando cheguei, ele já me esperava com uma botija de vinho na mão.
_ Que barbaridade, chê Passarinho! E eu que pensei que tu tivesse de namoro com alguma china da estância; e tu lá, dando fé daqueles boludos!    
_ Vai-te pra merda, bobalhão! Não vê que eu tava mesmo chuleando a guria! E, assim no más, me aparecem aqueles dois... Eu lá tenho cara de quem pastoreia colhudo?
_ Sei lá! Só sei que a gente acabou se metendo na confusão dos outros, a troco de nada. Mas, antes de qualquer coisa, me diz, Passarinho: quem é aquela guria e quem são os frescos que estavam na sanga?
_ Então tu não enxerga, tchê? Não conhecestes? Nem acredito...
_ Bueno! Um eu conheci, era aquele Afonso que se desentendeu com o capataz, no vinte de setembro. E a guria, se eu te disser talvez tu até nem acredite, mas eu acho que já conheço e não lembro de onde; eu só sei que é linda uma coisa por demais! Por acaso era com ela teu enrosco?
_ Era e não era...
_ Bá, chê! Deixa de frescuras, que agora não adianta mais. Afinal, o que é que tu fazias por lá, que não é da minha conta?
_ Tchê, Graxaim! Se não é da tua conta, por que tu me seguiste?
_ Bueno, companheiro! Não vê que eu preparei uma com butiá maduro, pra uma pescaria de primeira, mas tu refugou a parada...
_ Sei. Mas e daí?
_ Daí que depois que eu tomei o primeiro gole achei uma judiaria não repartir esse mel com meu melhor amigo. Então, resolvi te procurar!
_ Te para, bobalhão! Tu queres que eu acredite nessa história?
_ Depende! Tu quer que eu acredite na tua?
Ele me olhou nos olhos, e abriu um sorriso farto.
_ Pois, então - eu continuei -, eu andava na tua cola, pra tentar descobrir o que é que andava te deixando tão abobado. E quando me dei conta, já estava metido naquilo. Quando vi os dois, corri pra junto de ti, que era pra te tirar dali. Mas, no fim, até me arrependi, porque tu quase me mata com aquele fedorão!
_ Culpa tua! Aonde é que já se viu chegar daquele jeito? Quase que me assusto! Se eu não estivesse prevenido, nem sei... Cheguei a pensar que fosse algum peão de lá. Mas, agora que tu me encontrou, cadê a cachaça? Fui à mala de garupa, presa na anca da rosilha, e puxei o vasilhame, com o líquido já pela metade.
_ Isso é que é amigo: mais um pouco e não sobrava nada! – reclamou ele. _ Ainda bem que eu sou prevenido e deixei esse meu vinho de molho, num pedaço da sanga. Trocamos as garrafas e provamos um da bebida do outro.
_ Mas tchê, Graxaim! O que é que tu achas que eles faziam lá? – perguntou-me, ainda lambendo os beiços.
_ Como é que eu vou saber? Quem pode me dizer isso é tu mesmo, que andavas por lá gavionando. Aliás, que tu não me respondestes quem era aquela indiada toda.
_ E precisa que eu te diga? Tu já não sabe? Eram o Afonso e o Nestinho, o filho do seu Ernesto. Agora, a guria eu não sei quem é. Será parenta de um deles?
_ Acho que não. Eu tenho certeza de que conheço ela, só não deu pra olhar direito por causa da confusão. Coisa de louco um enxame daqueles...
_ Coisa de louco foi aqueles dois, de namoro! Dois machos brabos, metidos a peleadores, se tampando na sanga, há,há,há... – disse o Sabiá, explodindo em risadas. Quando viu que eu não achava graça, me perguntou:
_ O que foi, chê? Acaso te decepcionastes? – disse, em meio a risadas.
_ Por que tu não me disse que o filho do Mão-pelada andava campeando por aqui?
_ Mas, tchê! Eu também não sabia, nem nunca mais tinha visto aquele filhote de cruzeira. Mas que é ele é ele, isso eu tenho certeza.
_ E a guria, se for mesmo parente deles tua situação se complica, porque agora eles também sabem que tu andavas por lá. O que é que tu tinhas com ela?
_ Eu lá tenho cara de louco, Graxaim? Se eu soubesse que ela tinha algum parentesco com qualquer dos dois, não me bobearia com gente de uma raça daquelas. O caso é que eu nunca tinha visto aqueles dois por lá, só ela é que ia pro lajeado e, depois, tomava banho de sanga. E, mesmo assim, eu nunca tive nada com ela; não conheço nem sei quem é... E antes que tu esqueças, eles também viram a ti.
_ Lá fresca, tchê! Eu nem tinha me dado conta. Mas, tchê, Sabiá, quanto mais tu conversa, mais enredado fica o causo. Se tu não tinhas nada com ela, o que é que afinal tu fazias?
_ Bueno! Era pra ser segredo, mas agora não tem mais importância que tu saibas, porque nenhum de nós vai mais se bobear por lá outra vez. Mas eu preciso que tu guardes segredo do meu pai e do capataz; se qualquer deles ficar sabendo que a gente se meteu nessa confusão, não é bom nem pensar no que pode dar. Fiz que concordava com ele, com um gesto de cabeça.
_ Jura? - ele perguntou.
_ Estás duvidando de mim, companheiro? Logo eu, filho de padre...
_ Pois, então - começou ele, depois de pensar um pouco nos meus argumentos -, tu lembra daquela vez que a gente veio pescar e eu saí pra recorrer o costado da sanga, só pra ver se não tinha nenhum curioso?
Fiz que sim, com outro gesto de cabeça, enquanto tomava um pouco de vinho.
_ Vai daí que enquanto eu caminhava uma trovoada me sacudiu o mondongo, e eu me vi obrigado a procurar um lugarzito no mato, pra modo de não fazer a campo, feito bagual a trote; e quando achei uma moita adequada, me quedei quieto...
_ Mas, tchê! O que é que teus bosteios tem a ver com o causo?
_ Bá, chê, como tu estás apurado! Tem calma que eu chego lá... Quando acabou o churrio eu pensei em ir na sanga lavar o porocho, mas quando eu me aprumei escutei um troteado e tive de me acocar de novo, pra ver no que ia dar. Eu jurava que só podia ser algum peão desgarrado, mas o que me apareceu foi uma “ruana” lindaça uma barbaridade!
 

Mal ele terminou de falar e veio à lembrança o rosto da moça que eu tinha visto no baile, no mesmo dia em que vi o Nestinho pela primeira vez; mas eu não tinha me dado conta disso antes, porque eu achava que tinha visto o Mão-pelada remoçado, culpa de uns vinhos a mais... Em todo caso, se fosse mesmo ela não era à toa que o Sabiá tinha se maneado naquele olhar, pois que eu mesmo nunca consegui esquecer dela; e olha que mal trocamos umas olhadas! Meu anjo responsável por me avisar das encrencas me deu o alerta: “não adianta correr, que agora é tarde!”.
_ Chê, tu sabes o que ela fez? - perguntou ele, cortando meus pensamentos.
_ Decerto reclamou do fedor... - eu disse, debochando. _ Como é que eu vou saber, Sabiá? Então, se eu soubesse ia ficar aqui com cara de vaca atolada te escuitando...
_ Credo, chê, que azedume! Até parece o João Vieira! Agora espera eu tomar outro gole, que essa tua cachaça tá boa, mesmo!
Olhei para a garrafa, medindo com os olhos o que ainda restava.
_ Não adianta reclamar, foi tu que me convidou. - disse ele, calmo, continuando com o gargalo nos beiços. Depois, limpou a boca com as costas da mão e seguiu com o causo:
_ ...Bueno! Agora fica quieto e me escuta. Pois não vê que a guria apeou, tirou a roupa e se deitou numa parte bem rasinha, justo no lugar onde eu tencionava lavar o rabo; de modo que eu tive que ficar lá, todo cagado e cheio de mosca nos quartos, enquanto ela se refrescava no bem bom.
_ E...? - eu quis saber, curioso.
_ E nada, tchê! O que é que tu querias que eu fizesse? Levantasse do meu canto, naquele estado, e fosse até ela, dizendo: “a moça dá licença de eu lavar minha bunda por aqui?”?
_ Eu não quero saber de ti, animal cagão, mas dela. O que foi que ela fez?
_ Mas, tchê, Graxaim! Como tu és ignorante! Ou, então, és surdo dos ouvidos! Eu não disse que ela tirou a roupa e se deitou na sanga. Pois, então! Só podia ser para tomar um banho. Aliás, que a “coisa” devia andar suja uma barbaridade! Eu nunca tinha visto uma pessoa ficar tanto tempo esfregando o negócio de mijar! Depois, eu acho que sentiu frio, porque ficou se tremendo toda. E quando parou de tremer, tomou coragem e saiu da água.
_ Sei...
_ Pois é isso, companheiro. Todo domingo ela fazia a mesma coisa, de lá; e eu fazia a minha parte, daqui!
_ Agora eu entendo por que é que tu andavas tão abobado e metido a cantador. Não era à toa que tu refugavas quando eu te convidava pra umas voltas. E daí, che? Conversastes com ela?
_ Que nada! Tive medo de ela se assustar e sair berrando no rumo das casas.
_ Não vais me dizer que passastes todo esse tempo só espionando a xirua? Ficastes abobado, por isso?
_ Tu diz isso porque não deitastes os olhos na ruana. Te digo, tchê, Graxaim, que não tem pinguancha que se iguale! Uma pena que hoje ela tenha se complicado, na hora do banho...        

E se complicou mesmo. Mas os detalhes eu só fui saber depois. Sem perder muito tempo, terminamos com o vinho e a cachaça. E nesse meio tempo aproveitamos a ocasião para botar todos os assuntos em dia, além de combinar meia dúzia de planos apatetados, caso os dois viessem tirar satisfações. De volta ao galpão, já no cair da noite, busquei meu rumo junto aos pelegos e, embalado pelo efeito da bebida, adormeci, imaginando como seria ver a tal guria nua na sanga. (continua...)

Autor: André Moab Garcia
E-mail:
andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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16/02/2010 20:04:28 Adelar Pedro Ribeiro - Porto Alegre / RS - Brasil
E aí, índio velho? Tu anda meio sumido, mas teus causos tem fundamento. Tá escrevendo mui bem, barbaridade. Ms que tal? Tenho um amigo escritor. Um forte abraço! Que Deus te abençoe, a ti e a tua família!
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