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Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

17/03/2010 10:25:21
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XIV – O REENCONTRO DA SANGA
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia
 

XIV – O REENCONTRO DA SANGA 

O Gertulino Martins foi o índio mais grosso que Deus permitiu estanciar no Rincão de São Pedro; e se houve outro igual, era gêmeo com ele, isso ninguém discute! O Gertulino velho era grosso, por qualquer lado que se olhe a palavra; ignorante, rude e sem instrução - dentre outras coisas -, e só conhecia a letra ó porque lhe disseram que tinha o mesmo desenho da argola do laço. Dizia a peonada que era mais fácil ensinar um porco a trotear de ré, do que enfiar na cabeça dele - do Gertulino, não do porco - qualquer operação mais difícil do que um mais um. Não tomem por ofensa ao animal, mas o caso é que o Gertulino era burro, mesmo!     

Criado a sabe-se-lá-o-quê, cresceu quase a ponto de não ser enquadrado como gente. Só para que tenham uma noção, o bicho, de lado, media o mesmo que a porta de um rancho, enquanto que de frente regulava com um touro pampa chimarrão, medido da ponta da guampa até o final da cola. Quando vestia um poncho dobrava de tamanho, de modo que nem sogra de brigadiano topava a parada. Durante o tempo em que estanciou na Tapera foi, com certeza, o único que não foi chamado por apelido; sina da qual ninguém se livrava, nem mesmo o João Vieira, a quem se chamava de quase tudo, mas sempre às escondidas, que respeito é bom e conserva o lombo em bom estado.        

Acolherado ao gigante - isso foi obra do capataz, fique bem claro -, veio também parar rodeio na Tapera um indiozito magro feito cachorro de peixeiro, de nome Ponciano. Não tinham entre si nenhum parentesco, embora se conhecessem desde que ambos se deram por gente entre os viventes. A primeira conclusão que se tira disso é que o Gertulino passou a vida comendo a ração dos dois, e que mantinha o magricela consigo na intenção de garantir um prato a mais de bóia, além dos outros tantos que lhe tocavam. O Ponciano, além de ser pouca coisa em matéria de gente, era curto também de palavras; o que não impedia que ele falasse, sempre, com muito respeito. Mas, isso só se fosse mesmo preciso; de resto, era calado feito uma parede.        

O Gertulino era contador de causos, e, durante a hora do mate, fosse na madrugada ou no final do dia, se esparramava num conversar que fazia a alegria da peonada. E foi ele mesmo quem contou que um antigo patrão da parelha pôs no magricela o apelido de Perfil, e que não foi pouco o que se precisou de conversa e tempo pra explicar para o Gertulino que perfil era o mesmo que de lado. Apesar disso, de lado era a forma como o Gertulino tratava o amigo, quando não queria usar o nome. Vez que outra o Gertulino também se referia ao amigo por Sem sombra, ou, então, Bomba de chimarrão, o que sempre me fazia rir sem controle; cheguei a pensar em chamar o bruto de Cuião, só pra fazer parelha com o Bomba; mas, analisando com um pouco mais de juízo, deixei de lado a intenção.          

O capataz topou com eles, por vez primeira, enquanto apartava um gado para um saladeiro, para quem os dois trabalhavam. Conforme me contou o próprio João Vieira, o Ponciano era flor de campeiro num aparte, e certo como a morte num tiro de laço ou pialo de cucharra, se fosse o caso. Em compensação, o que tinha de grande o Gertulino faltava-lhe em destreza. De acordo com o capataz, ninguém conseguia ser pior na lida de campo do que ele, nem mesmo eu, na minha pior fase; e olhem que eu dei trabalho ao homem velho!        

Lembrou-me o capataz de uma feita, em que eu lacei a cabeça do meu próprio cavalo e embolei, pelo meio do campo, atado junto ao matungo, fazendo um fiasco de parar rodeio. Mesmo assim, de acordo com o capataz, perdi a parada para o grandalhão, que num tiro de laço, que saiu enviesado, conseguiu laçar o João Vieira, que paleteava uma vaca num aparte. Tombo horroroso uma barbaridade, acolherando capataz, cavalo e vaca, deixando tudo amontoado no meio do mangueirão, enquanto o resto da manada olhava, de queixo caído, ao redor daquela montoeira de bicho. Brabo como um touro laçado pelas bolas, o João Vieira saiu da confusão cuspindo fogo, e se foi, mui tranqüilo, até o Gertulino, enquanto tirava o lenço do pescoço e tentava limpar o rosto:

_ Afinal, tchê, o que é que tu querias fazer, inda que mal pergunte? - perguntou o capataz.

_ Eu só queria lhe ajudar com a vaquinha...

_ Ah, sim... - disse o João Vieira, pensando em socar-lhe o mango pelo meio da cabeça, enquanto o Gertulino apeava de sua montaria. Quando o gigante chegou bem perto, o João Vieira deu uma boa olhada no tamanho do problema e resolveu deixar aquilo para uma outra hora. O capataz também era brabo, mas tinha juízo!              

Seguindo com o causo, me disse ele que o tal Gertulino cismou de botar a culpa pela trapalhada no infeliz matungo, não bastasse o fato de ter que suportar um bagualão daqueles, por sobre o lombo.  Como modo de exemplar o animal, pelo dissabor causado ao capataz, de uma só botada, na beirada da orelha, deitou o baio velho por sobre a vaca, que continuava laçada junto ao outro cavalo, o que só fez aumentar a confusão!

No primeiro final de semana, depois que eles chegaram, eu saí com o capataz, para aporrear uns tatus e tomar uns tragos. E enquanto a gente caminhava, ele me contou o que tinha em mente.        

_ Lembra que tu me dissestes que andavas com o guri do Alírio, quando se toparam com gente da Santa Helena?

_ Disso ninguém esquece...

_ Pois, então, tchê! Achei que já era hora de a gente ter alguém pra fazer ronda nos campos que dão costado com a Santa Helena. O grande é guapo feito cavalo crioulo, e não se achica por qualquer coisa; de modo que não é meia-dúzia de maulas que vão sustentar no freio um pampeano daqueles.

_ É... Mas, por outro lado é ruim de compreensão feito um quilo de bosta, e não sabe nem a diferença entre um borrego e um sorro!

_ Mas o caniço sabe. 

Disse ele, mui sério, enquanto eu me desmanchava rindo. Ver o João Vieira chamando alguém por apelido era coisa que só acontecia por descuido ou borracheira.

_ Mas o que é isso, patrão? Chamando um cristão respeitoso por apelido? Não vai me dizer que foi o vinho?

_ Será que agora eu não posso mais confiar em ti?

Olhei pra ele com ar de brabo, por causa da indagação.

_ ...Pois, entonces, conforme eu te dizia, o indiozito é pouco de carne, mas sobra em sabedoria. E te digo que um gaúcho daqueles é mais perigoso numa carga de a cavalo do que vestir as bombachas com uma cruzeira dentro; vi muitos desses fazer estrago grande, nos tempos de guerra. Aliás, antes que eu me esqueça, se um dia for preciso resolver qualquer coisa à moda gaúcha lança na frente o Gertulino, que é grande e rasga cerca de arame farpado de peito limpo, sem nem sentir coceira. Deixa que o fino fique no teu costado, que ninguém te pega desprevenido; esse tipo de gente vê além do que a gente consegue ver.        

Guardei esse conselho, e pude comprovar a verdade dele. Desde então, volta e meia me pergunto como é que o capataz conseguia prever de tudo um pouco. “O diabo é mais perigoso por ser velho, do que por ser diabo” - dizia ele.        

Não preciso dizer que o capataz tinha feito seus ajustes, em consequência a uma conversa que tivemos depois do acontecido, naquela tarde, na sanga da Santa Helena. O caso teria passado em segredo, pois, afinal de contas, não me interessavam nem as espionagens do Sabiá nem o cambicho vergonhoso dos tigres da Santa Helena. E é claro que o Sabiá me encheu de puteadas, pelo feito. Mas o caso era que aquilo merecia ficar aos cuidados de gente que soubesse ler aqueles sinais. E foi por essa razão que eu acabei contando tudo pro João Vieira. E não foi por outra que o seu Alírio despachou a mulher e o filho nos rumos da vila, de modo a apurar os preparativos para o casamento; o que se daria em breve, visto que a noiva já estava de volta de Porto Alegre.    

Quando o João Vieira me disse que começariam as rondas, eu me lembrei de pronto da moça que se banhava nua na sanga, e julguei que não seria direito deixar que a pobre fosse pega, em seu namoro solitário, por alguém como o Gertulino. Hoje, eu sei que isso foi uma desculpa que eu inventei, pra mim mesmo, só para justificar uma última incursão às terras da Santa Helena. E fiz isso porque eu não conseguia tirar aquele rosto da minha mente, pois vinha me prometendo que iria lá, assim que a ocasião se apresentasse.        

Contrariado como um touro laçado, montado numa vaca, partiu o meu companheiro, no primeiro sábado do outono, para cumprir o destino traçado pelos pais. De cabeça baixa e olhos tristes, o passarinho cantor da Tapera cruzou a última porteira, acompanhado pela mãe. E, é claro, por mim, que fiz questão de lhe fazer companhia, até aquele ponto. Ainda nos encontraríamos outra vez, antes do casamento, na ida ao baile da estância dos Tarumãs, onde, por sinal, minha vida tomaria o seu rumo definitivo.        

Apartei-me do meu amigo e comecei meu caminho de volta, pensando no que me esperava naquele dia. Visitar o lajeado de pedra, na beira da sanga, me enchia de ansiedade, e a possibilidade de encontrar a dona daqueles olhos de anjo me faziam querer chegar logo lá. Nessa ocasião, não levei comigo nenhuma bebida, pois quem anda só não pode facilitar; e eu não tinha intenção de esbarrar com alguém daqueles campos, estando numa condição desfavorável. Além disso, não ficava bem ir ao encontro de uma moça tão fina com o bafo igual ao de um corvo.                               

Deixei o matungo atado no mesmo lugar, onde eu tinha deixado na última vez em que estive lá, e procurei me abrigar da vista de algum curioso, num lugar diferente ao da última ocasião. Afinal de contas, aquele seria o primeiro lugar onde um deles procuraria por alguém que andasse gavionando por ali. Uma vez acomodado, só me restava torcer para que ela aparecesse. A verdade é que eu não tinha nenhuma garantia de que ela fosse aparecer, justo naquele dia; mas o tempo estava bom e, ainda, fazia algum calor, o que me dizia que ela viria.        

E veio, mesmo! Até que nem demorou muito, já que para quem espera o tempo se arrasta. E eu senti o coração batendo forte, quando deitei a vista nela. Veio montada num pingo tordilho, de pelo lustroso - cavalo de patrão, na certa -, trocando pisada, num passo macio e sem pressa, como se observasse bem o lugar para onde ia. Desmontou, antes de chegar à beira da sanga. E eu percebi que ela andava com alguma dificuldade, como se estivesse adoentada. O problema maior era como eu me aproximaria dela, sem causar algum susto, o que poderia fizê-la fugir ou gritar por socorro. A minha esperança era que ela respondesse ao meu chamamento, caso eu estivesse certo de quem se tratava.          

Esperei, até que ela sentasse na pedra e se sentisse a vontade. E quando vi que tinha se acomodado, com os pés na água, achei que era a hora certa. Claro que eu não deixaria que ela tirasse a roupa; não era com essa intenção que eu estava ali. Por isso, assim que eu julguei que estava tranquila, chamei por ela:

_ Helena!

Ela tinha se deitado sobre o lajeado, deixando os pés dentro d’água. E quando ouviu o nome, sentou-se, de pronto, com os olhos arregalados, procurando pelo lugar de onde viera a voz.

_ Quem é?  - perguntou, com voz fraca, parecendo assustada.

_ Sou amigo. Não precisa te assustar.

_ Ninguém, neste fim de mundo, é amigo... - ela disse, enquanto punha-se de pé, indo em direção ao cavalo.

_ Não te assusta, que eu não quero te fazer mal. Nos conhecemos, desde Porto Alegre; não lembras de mim?

Ela parou, antes de montar, e virou a cabeça, procurando por quem falava. Aproveitei a chance para sair do meu abrigo e ir ao encontro dela. Estávamos em lados opostos da sanga, e eu parei, antes de atravessar, para que ela pudesse me ver e se sentir segura. Tirei o chapéu e esperei que ela me olhasse com atenção, até que me reconhecesse.

_ Não acredito... Não pode ser quem eu penso. És tu mesmo?

_ Que eu sou eu, disso não tenho dúvidas. Mas se eu sou quem tu pensas, como é que eu vou saber?  - eu disse brincando, para que ela pudesse se sentir mais a vontade.

_ Graças a Deus tu estás vivo, guri! Eu sabia que um dia tu virias me procurar. Por que demorastes tanto? Não era tu, naquele dia das abelhas? Por que não viestes antes? Eu achei que tinha te visto no baile, mas depois achei que não era tu...

_ Tem calma, guria. Como é que eu vou responder, tudo ao mesmo tempo?        

Eu pensei que ia chegar ao outro lado da sanga, antes que ela voltasse a molhar os pés. Mas ela conseguiu atravessar, antes mesmo que eu molhasse os meus; e se atirou nos meus braços num choro de alegria, que fez meus olhos também se encherem de água. Primeiro, ela se agarrou em mim de tal modo que eu me senti maneado e meio sem jeito para retribuir o abraço. Depois foi se afastando, aos poucos, até que parou com a distância de um braço; e passou a me examinar, como se fosse para ter certeza de quem eu era.       

Ao contrário de Juliana, que tinha o olhar de um anjo, de tão doce que era, Helena tinha o olhar curioso, meio assustado, como se estivesse sempre procurando por algo que não estava bem à vista. Reconheci naquele olhar cheio de curiosidade uma espécie de busca, como o que me flechou na noite do baile, anos antes. Naquela noite eu cismei que só podia ser Helena a dona daqueles olhos. Mas, depois, assim como ela, pensei que tivesse me enganado. Agora eu tinha certeza de que era mesmo ela. No entanto, se seus olhos conservavam a mesma vivacidade, a mesma coisa não se podia dizer de seu corpo. A aparência de quem vivia em sofrimento saltava aos olhos, dado a sua magreza. E eu não conseguia imaginar aquele ser tão frágil como sendo a paixão secreta do Sabiá - e a minha, também, nos meus tempos de guri. Além disso, os maus tratos tinham deixado suas marcas à flor da pele, onde as manchas roxas sobravam até mesmo em seu rosto, antes tão meigo.

_ Me disseram que tinhas fugido com uma guria, depois de ter matado a mãe dela. O pai ficou muito triste, e nem quis dizer pro padre o que tinha acontecido. Eu não consigo acreditar que tu tenhas te tornado um bandido; tu eras um guri tão bem criado...

_ E continuo o mesmo; quer dizer, fora uma coisa ou outra. Mas a história não é bem essa que te contaram, e eu não sou nenhum bandido. A verdade é que aconteceram algumas coisas entre eu e o seu Ernesto...

_ Nem me diz! – interrompeu-me ela, apressada. _ Só de ouvir esse nome eu já fico assustada. Se eu te contar como tem sido a minha vida aqui, acho que tu até nem vais acreditar!

_ Então, tu deves ter muito para me dizer. Eu acredito em tudo que venha do lado do Mão-pelada. Não se pode duvidar de nada do que acontece na Santa Helena.

_ Esse tal Mão-pelada eu ainda não conheci, mas já me basta meu sogro, o seu Ernesto. O homem é um bicho, de tão ignorante; consegue ser pior do que o filho!

_ Sogro? La-pucha, que o causo é pior do que eu pensava! Mas vamos procurar um lugar melhor pra conversar, que aqui qualquer um pode ver a gente, e eu não sou muito amado neste rincão esquecido por Deus.                

Afastamos-nos dali e buscamos abrigo no capão de mato, que serpenteava entre as duas estância; cruzamos a sanga e encontramos um bom lugar, já no lado da Tapera. Pelo menos ali, se eu fosse encontrado por alguém, não corria o risco de ser um inimigo. Começamos a conversar, apressados, falando os dois quase que ao mesmo tempo; o que deixava a conversa meio sem sentido. Depois, achamos melhor falar um de cada vez, para que o enrosco fosse se resolvendo. Expliquei para ela como as coisas tinham acontecido, desde que eu cheguei na Santa Helena até a minha briga com o Mão-pelada, e a minha vida na Tapera. O que eu não podia imaginar era que ela, também, tinha passado por um aperto quase igual ao meu. Afinal, ela era a dona de tudo aquilo e, de certa forma, eu esperava que a presença dela fosse trazer algum tipo de justiça, ou castigo mesmo, para aquela tropilha de gente desalmada.    

À noite, já bem acomodado sobre meus pelegos, e pensando bem no caso, cheguei á conclusão que a situação dela era muito pior do que tinha sido a minha. Não que ela não pudesse fugir dali, como aconteceu comigo, mas é bom lembrar que eu também não tinha intenções de abandonar a Santa Helena; e assim como ela eu também pensava que poderia amansar o Mão-pelada, e que tudo seria só uma questão de tempo. Mas a história para ela troteava aos solavancos, e o tempo escurecia como armação vinda da banda oriental.        

Helena me contou que depois do que se passou comigo - conforme a história que contaram pra eles - o Dr. Manuel ficou muito chateado, chegando mesmo a se sentir culpado pelo que aconteceu com a esposa do seu capataz. Acreditava ele que eu pudesse ser uma pessoa de confiança no comando da estância, porque conforme eu já disse, ele tinha cismado que morreria antes de ver Helena casada. Desiludido comigo, não quis impor ao padre Edson o castigo de se sentir culpado pelos meus desvarios e, por conta disso, manteve segredo até a morte do amigo, dois anos depois. O problema foi que devido ao seu comportamento esquisito, o Dr. Manuel Dias não confiava em mais ninguém. E a consequência disso é que não foi difícil para o Mão-pelada impor suas vontades.         

Assim como eu, dezenas de outros guris tinham sido apadrinhados pelo velho juiz; e, entre eles estava o Nestinho filhote de cobra. A coisa de uns quatro ou cinco anos - na mesma época em que vi Helena no baile - o Dr. Maneco fez sua última visita à Santa Helena. E disse que quando morresse a filha ficaria aos cuidados do Ernesto, até que o Nestinho voltasse do colégio onde estudava. Aliás, pensavam que estudava, quando na verdade o que fazia era vadiar em outras companhias pela capital.        

Era um noivado imposto, apesar da contrariedade da noiva. Mas ele insistia que isso era o melhor a fazer, pelo futuro da filha. O Ernesto conseguiu convencer o Juiz de que o filho dele era um exemplo de bom moço, de boa educação e estudo à altura; e sugeriu ao velho que ele fosse feito tutor da menina, até que ela completasse a maioridade e escolhesse um noivo que fosse do seu gosto. Isso, é claro, no caso dela preferir outro que não o Nestinho. Para infelicidade de Helena, o pai veio a falecer pouco depois; ataque do coração - disseram os médicos -, e ela teve que deixar a vida na capital e ir morar na estância.

É claro que nunca passou pela cabeça do Mão-pelada deixar que Helena casasse com outro que não o filho dele. E, por conta disso, Helena tornou-se sua prisioneira, até que o casamento fosse consumado e o filho tivesse direitos sobre as terras da Santa Helena, dentre outras coisas - pelo menos era isso que ele tinha em mente. Como forma de apressar o casório, o Mão-pelada tratou de trazer o filho de volta, antes mesmo de ele completar os estudos. Aliás, que ele já tinha saído do colégio do mesmo jeito, pois foi surpreendido junto com um outro aluno fazendo coisas que nem se deve comentar, e a sua expulsão, por motivos vergonhosos, ficou em segredo.

O caso foi que ele não podia voltar pra estância e, por isso, mantinha uma casa de aluguel na Santa Maria, viajando de vez em quando pra capital, de maneira que quando recebeu a carta do pai, chamando ele de volta, achou o chamamento uma benção. Não custa lembrar que aquilo que eu chamo carta era, na verdade, um amontoado de garranchos, já que o Mão-pelada escrevia quase tão bem quanto uma vaca; e que esse manuscrito só chegou às mãos do filho graças ao antigo companheiro de frescuras dele – do filho, não do pai –, que, por ser filho de gente muito rica, não chegou a ser expulso do colégio.  

Nem preciso dizer que por conta desses gostos o Nestinho quase teve um ataque de frescuras quando soube que teria que casar com aquela moça. Mas se convenceu da conveniência daquilo, quando conheceu um igual chamado Afonso; e que, para mal dos pecados, foram feitos um para o outro!                    

Helena até que simpatizou com o moço, quando ele chegou na estância e foi apresentado para ela como seu futuro marido, pelo próprio Mão-pelada; o problema foi que ele não se mostrava muito interessado nela, que por sua vez, dada a  solidão e o isolamento, começava a achar a idéia de casar com ele como uma chance de fugir daquela vida. Observando com mais cuidado, Helena começou a se dar conta de que o Nestinho era um na frente do pai e outro muito diferente quando estava a sós com ela; e que começava, aos poucos, deixar claro para a noiva que não lhe agradava ficar de namoro, quando não estavam diante do pai dele. Conforme ela me contou, no começo o Nestinho até que era uma pessoa boa de se conviver; afinal, era o único por lá que tinha uma educação igual à dela; mas que foi se tornando desagradável, à medida que sua amizade com o Afonso foi se aprofundando. Entendam esse “aprofundamento” como quiserem.          

Nestinho passou do desinteresse para a aversão e da aversão para a violência, em menos de um ano. Aliás, que esse era um dos seus traços de personalidade, juntamente com o desprezo pelo ser humano, que confirmavam a sua filiação. No começo da última primavera, as agressões ficaram mais freqüentes. E eles procuravam se distanciar cada vez mais um do outro, até que levada pela solidão e os desejos de seu corpo jovem, descobriu os prazeres da sanga e da entrega às águas calmas sobre o lajeado. Assim Helena passou os últimos meses, desde a primavera, sonhando seu futuro, namorando solitária sobre a pedra, na esperança de que alguma coisa fosse acontecer para mudar sua vida sem graça.        

Se tinha uma coisa que nos tornava iguais era a nossa vocação para enredar, sempre mais, nossas vidas já enredadas. De modo que, para não renegar o destino, Helena achou de visitar a sanga, mesmo sem saber qual tinha sido o destino do “noivo”. Cuidado este do qual ela nunca abria mão, já que a possibilidade de ser vista por ele na solidão do lajeado lhe causava arrepios, dado o nojo que passou a sentir dele. Por coincidência, justo naquele dia o noivo, junto com seu “noivo”, teve a mesma idéia, assim como eu e o Sabiá.         

Ao se aproximar da sanga, Helena achou que tinha ouvido uma voz conhecida. E, como medida de proteção, resolveu deixar o cavalo que usava de montaria atado um pouco mais distante, terminando o percurso esgueirando-se por entre algumas árvores, que pertenciam ao mato ralo no lado da Santa Helena. Acontece que o Bicho-ruim, ao que tudo indica, tinha, mesmo, se aquerenciado naquele lado do mundo. E, como por obra dele, e apesar de todo o cuidado, Helena tropeçou numa raiz à flor da terra e caiu de culo por sobre um tronco oco, onde uma colméia de abelhas brabas, há muito, fazia morada. O que se passou, então, todo mundo já sabe, menos o fato de que o Nestinho não se agradou nada da intromissão dela em seus namoros. E incentivado pelo tal Afonso, aplicou-lhe uma tunda de fazer caroço, sendo que até àquele dia ela nunca mais tinha pisado por ali. Aquele nosso encontro - ao ver dela - era um sinal de que as coisas estavam por mudar.        

Fiz de tudo para levar Helena para a Tapera, naquele mesmo dia. Mas ela recusou-se a deixar o que era seu, e me disse que depois que me encontrou, no dia da confusão, passou a alimentar uma idéia que um dia lhe veio, por acaso, à cabeça. Ficamos de nos encontrar outras vezes no mesmo lugar, para que ela pudesse me participar o que vinha pensando. Mas, por mais de mês rondei aqueles campos, a procurar por ela, sem encontrar. Helena desapareceu, sem me dar nenhuma explicação.         

Resolvi pedir ajuda ao João Vieira, que logo conseguiu descobrir o que tinha se passado. Segundo contou pra ele um peão da Santa Helena, não por acaso o Aristeu Coimbra, o mesmo que esclareceu a morte da D. Júlia, o Nestinho tinha viajado para a capital com a noiva, pra modo de resolver uns negócios. E, segundo diziam, não tinham mais intenção de morar na estância, e que iriam ficar por lá mesmo. Não posso negar que a notícia me pegou de mau jeito, já que eu tinha passado a pensar cada vez mais nela. Mas, com o passar dos dias, fui me acostumando com aquilo, e acabei me conformando. Se um dia eu soubesse que eles tinham voltado, esperaria por ela no mesmo lugar. Até lá só me restava rezar, para que a vida lhe reservasse no futuro melhor sorte.       

Mas as coisas não saíram bem como eu tinha pedido, nas minhas rezas; o que me fez pensar que eu devia andar rezando ao contrário, visto que as coisas sempre aconteciam do modo oposto ao que eu pedia!   (continua...)

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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