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Paixão Côrtes:
Chico do Porrete

 

09/07/2010 21:22:42
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XVI – O MISTÉRIO DA CASA DAS...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XVI – O MISTÉRIO DA CASA DAS QUERENDONAS  

   

Três meses tinham se passado, desde o baile na Estância dos Tarumãs. E agora o inverno já ia bem adiantado, sendo que nos dias em que não chovia, geava; e nos que não geava, chovia. De qualquer modo, qualquer um que fosse pobre sentia que seus dias neste mundo encurtavam a cada pôr-do-sol.

O Sabiá, finalmente casou-se, a coisa de uns dois meses. Mas não suportou o viver no povo. E passou a dividir o tempo entre a estância e o povoado, onde o sogro tinha-lhes presenteado com uma casa. A esposa, flor de guria, como ele bem merecia, de saída não tinha gostado muito daquelas idas e vindas. Mas, aos poucos, foi se aquerenciando e tomando gosto pelo viver em estância; de modo que já se sentia muito à vontade quando tirava uma temporada na Tapera, em companhia da sogra.        

Pouco depois, em meados de setembro, o capataz recebeu uma carta do Cel Soares Neto, dando conta de que já estava acertada a venda da Estância da Tapera, o que nos deixou muito entristecidos. Como forma de gratidão e reconhecimento por uma vida dedicada à Tapera, o Coronel deixava para o capataz uma tropilha de animais: cavalos, bois e ovelhas. O que fazia, mesmo, justiça, pelo que merecia o João Vieira. Era o bastante para nos deixar tranquilos quanto ao futuro. O problema era saber o que fazer dali por diante. O seu Alírio receberia também o seu tanto, com igual justiça. E ele já tinha se decidido, mesmo, por botar bolicho no povoado. Enquanto que o Sabiá pretendia dividir o tempo entre o ofício de cantador e o cuidado com o comércio. O restante da peonada receberia um bom pagamento pelos seus serviços; e depois que cada um tratasse de cumprir o seu destino. Para Joanita o lugar não importava, desde que estivéssemos juntos; criou-se nos campos, trocando de pago de tempos em tempos. Para ela, o mais importante era a companhia do marido; o de resto deixava por conta do destino.

Casamos uns quinze dias depois que eles chegaram à estância, pouco antes do casamento do Sabiá. Mas não foi um casamento tradicional, como o dele. Conforme o próprio Juan Guarany tinha dito eles eram um povo diferente, que tinham seus próprios usos e costumes. Eram muito práticos em assuntos de cambichos. Principalmente se o caso envolvesse sonhos e outros sinais, como o que tinha acontecido comigo.  

Bueno! O que quero dizer é que, sem saber, eu tinha aparecido tanto no sonho da mãe como no da filha. E para eles isso tinha um significado especial. No caso da mãe, sendo ela sogra, deve ter sido um pesadelo! É claro que era preciso saber identificar o visitante que aparecia em seu sonho. Mas eu nunca duvidei da interpretação da minha indiazita, porque nascemos, mesmo, para dar sentido aos dias um do outro. 

Depois de casados o João Vieira mandou-nos morar na casa grande, dizendo que também já era hora de a vida voltar a habitar por lá; e que era nossa obrigação botar um lote de piazitos, para que ele tivesse o que fazer depois de velho. Até porque ele não queria perder para o seu Alírio, que vivia implicando ao dizer que não demorava a vir o primeiro Sabiazinho.

O Índio Guarany e a esposa levantaram sua tenda junto ao rancho do Pedro Rengo, no posto lá dos fundos, onde a Tapera era lindeira com as terras da família do tal Afonso, e também com as da Santa Helena. Acabei apelidando aquele rincão de Tríplice Fronteira, por conta da vizinhança arisca...! Esse fresco do Afonso tinha ficado atravessado na minha garganta desde o causo na Casa das Chinas. E me deixara de orelha em pé desde o dia daquele enrosco com o Nestinho, na sanga da Santa Helena, que resultou numa tunda de fazer caroço na pobre da Leninha!  

Por falar nisso, vejam os senhores como o destino é caprichoso... A venda da estância já estava acertada, mas faltava ainda a confirmação do negócio, por meio de um pagamento que o comprador deveria fazer, em breve. Segundo o coronel Soares Neto, não se deixaria a estância até o início de dezembro, pois ele tinha acertado que nós teríamos o tempo que fosse preciso para apartar os nossos animais, achar campo ou negócio para eles. E só depois disso é que teríamos de partir. E ainda nem findava setembro, o que nos deixava com pouco mais de sessenta dias; tempo de sobra, segundo o João Vieira.     

Não foi por acaso que o capataz despachou o domador para os campos, sob os cuidados do Pedro Rengo. Ocorre que, como o que tinha de melhor dentre os rebanhos ficava praticamente tudo naquele rincão, o João Vieira tinha pedido ao Guarany que desse uma limpeza nos campos daquela volta, de modo a levar embora o que não prestasse para a estância, deixando lá só a flor da cavalhada. Esse era o único rebanho que não estava em conformidade com os demais.        

É claro que todo o rebanho daqueles campos era só uma nesga do que morava na Tapera, mas o caso era que o Pedro Velho tinha, mesmo, mão pra coisa. E debaixo do olho dele bicho algum se criava colhudo, abichado ou chimarrão. Boiada de se parar rodeio, até mesmo no meio do campo, se fosse o caso; ovelha de cria, borrego e capão, com o devido trato e tosados no tempo certo. 

Sem falar na eguada de cria, que botava cada potrilho que era uma coisa linda de se ver! Aliás, não se pode negar o dedo do Leite-de-onça no trato com a cavalhada, que disso ele entendia. Mas é claro que nem de longe ele se comparava na doma com o Guarany. Apesar disso, era ginete de primeira. E quando se atracava no lombo de um potro, podia o bicho corcovear como quisesse que o Olegário aguentava o tranco. 

O restante dos campos da Tapera não eram menos povoados, conforme eu já disse. O problema era a qualidade: touro chimarrão, com mais de dez anos e tonelada e meia de peso, se achava sem dificuldade pelos campos. Sendo que volta e meia, quando se pechavam com um desses, cachorro, peão e cavalo corriam, todos, com a cola no meio das patas. Antes que o capataz tivesse resolvido dar um jeito na Tapera - que foi quando se acabou com um monte deles -, não era raro um monstro daqueles desmanchar, debaixo do próprio peso, uma ou outra novilha, descuidada, no primeiro cio. E, também, não era qualquer vaca velha que se deixava montar, que o negócio era feio até de se ver... 

Por lá se matou sorro do porte de assustar ovelheiro dos mais guapos, e que impunham respeito só de se ver o tamanho. De modo que se a parada fosse de mano, muitas vezes o cachorro refugava. Manada de bagual aporreado era um caso à parte. Contam que de uma feita o próprio índio Guarany – que segundo a lenda domava até lobisomem louco –, ao se deparar com os bichos precisou tomar uns quantos litros de uma beberagem ancestral, que o fez dormir por dois dias sem acordar nem pra mijar!        

Na primeira semana de novembro, perto de findar o prazo para a entrega da estância, o João Vieira achou por bem que já era a hora de apartar o que nos cabia. E deu ordens para que se fizesse uma seleção entre o que tinha de melhor; e se deixasse tudo em um ou dois dos potreiros no posto do Pedro Laureano. O capataz dividiu o trabalho por turmas. 

O Pedro Torto cuidaria do aparte das ovelhas, que eram mais mansas e exigiam menos trabalho por parte dele; já que seus movimentos não eram os mesmos de antes, quando chegou na Tapera. O que, por sinal, não significava de fato uma grande mudança, uma vez que o Pedro Rengo - sabidamente torto - não tinha, mesmo, muita destreza. Ainda assim, o velho era campeiro de se respeitar! E o que lhe faltava em destreza, compensava com a experiência de anos a fio sobre o lombilho e seu grande conhecimento no trato com qualquer tipo de animal. No costado dele o Sabiá, que se apresentou na estância procurando o que fazer, e que reclamou uma barbaridade de ter sobrado para ele a tarefa de lidar com as ovelhas, coisa que a bem da verdade não tinha lá muita emoção. Mas o João Vieira disse que ele agora era músico, e que a mulher dele, também, não era muito mansa; e que ele não poderia correr o risco de se estropiar, correndo alguma vaca mais braba. Por vaca mais braba por favor não entendam como mais braba do que a mulher dele!         

Junto com o Sabiá veio o Apolônio Miguelino, cunhado dele, um gurizote na casa dos quinze anos, que não era lá de muita serventia na volta das casas. E que por não querer nada com nada foi mandado aos cuidados do João Vieira, para que ele desse uma amansada no guri. Mas deixa que esse Apolônio Miguelino era um tipo meio estranho, como se isso não fosse normal na Tapera! De olhos miúdos e orelhas de abano, sem falar nos braços cumpridos que davam a impressão de ir até os joelhos, o que deu margem pra um lote considerável de apelidos. Não acredito que haja alguém neste mundo que vá gostar de ser chamado de Meia perna, que foi a primeira alcunha que deram pra ele, por causa dos braços compridos; e nem mesmo de Dorminhoco, por causa dos olhinhos miúdos. E eu duvido que alguém goste de ser chamado, principalmente, de Tá-dormindo, que foi o apelido que o capataz deu pra ele, já que tinha os olhos tão pequenos que não dava pra se saber se estava acordado ou não. O caso era que fosse por qualquer nome que a gente o chamasse ele sempre atendia; coisa que me fez pensar que talvez o guri não fosse maturrango e que só não atendia quando chamado pelos pais, porque não gostava do próprio nome, que a bem da verdade não era, mesmo, muito lindo. Como não tinha nenhuma experiência na lida de campo, e ninguém tivesse mais tempo de ensinar, o Tá-dormindo ficou sendo o caseiro da estância, volta e meia fazendo o papel de mandalete: sempre pronto e bem disposto.         

A peonada mais xucra, como o Gertulino Estrupício e seu domador, o Ponciano, ficariam no aparte da boiada sob as ordens do próprio João Vieira, a quem fiz me prometer que ficaria sempre fora do alcance do laço do Estrupício. Só pra ter certeza de que tudo sairia nos conformes, seguiu com eles o seu Alírio. A cavalhada ficou por conta do índio Guarany, o que era natural; e no costado dele, eu e o Leite-de-onça. 

Domador de potros, conheci um lote considerável. Indiada bruta e sem temor, que se atracava na potrada na base do ou eu te domo ou eu te mato! Mas que, apesar de muita coragem, nem sempre conseguiam sucesso; e na maioria das vezes acabavam aumentando a conta dos aporreados de uma estância. Acontece que em se tratando de lida com baguais, o índio Guarany parecia não ser deste mundo. Contou-me o capataz que segundo o que ele tinha ouvido do próprio avô, quando menino, a raça de gaúchos ancestrais do índio Guarany já andava atracada sobre o lombo dos matungos há muito tempo. E que o europeu, que se achava muito civilizado e conhecedor de tudo, ficava de boca aberta vendo a indiada nativa disparando nos varzedos, montando a bagualada em pelo e fazendo dos bichos como se fossem uma parte de seus próprios corpos. Com ele aprendi muito mais do que eu pensava que se pudesse saber sobre cavalos. E nem mesmo o Olegário, que era vivido no ofício, conseguia escapar de levar, de vez em quando, uma puteada por conta de alguma gauchada.

Era um domingo, já no final da tarde. Sentados em volta de um foguito galponeiro o índio Guarany, seu Alírio, o Sabiá, o João Vieira e eu conversávamos animados, chimarreando e tomando uns tragos, entre um causo e outro. Pela manhã tinha-se carneado um boizinho, rachando de gordo; e um leitão cevado no capricho, bem pesado e arredondado. E o resto do dia ficou reservado para que se assasse, sem pressa, uma costela; e se descansasse, que a semana tinha sido puxada. O capataz dispensou a peonada no sábado, ao meio-dia. E cada qual seguiu o seu rumo, enquanto que nós preferimos ficar na estância tratando dos nossos assuntos. Como não se tivesse serviço no posto do Pedro Laureano, deixamos o rincão e voltamos para junto das casas, onde se tinha um pouco mais de conforto.        

Depois que terminamos nossas tarefas, a mulherada se atracou na lida de fazer linguiça, toucinho defumado, queijo de porco, banha e coisas desse tipo; serviço para a semana toda! Na parte da tarde, quando nosso almoço galponeiro ainda assava, já se podia sentir o cheiro de pão assando no forno da casa grande. Mais para o fim de tarde, depois de almoçados, ficamos pelo galpão, proseando pelo gosto da companhia uns dos outros, distraídos entre mate, canha, carne e causos de todo tipo.        

O sol já buscava o seu lugar de pouso, quando um quero-quero deu sinal no campo da frente. Era o Olegário Leite-de-onça, que voltava de mais uma de suas visitas à Casa das Querendonas. E a julgar pelo modo como se equilibrava sobre o lombilho, nem vinho nem canha tinha faltado nas pulperias. 

Sabendo que a gente sempre se reunia por ali, quando não deixava a estância, o Leite-de-onça se veio direito ao galpão, numa alegria abarbarada! E mal apeou, já procurou por mim.

_ Tchê, que bom que tu estás por aqui. Dá cá um abraço, amigo velho! – disse, já me agarrando.

_ Mas o que foi que te deu, papa-égua? - que esse era o apelido que eu e o sabiá botamos nele, logo que chegou à estância. _ Andaste tomando mijo de égua com cachaça?

_ Mas que barbaridade! Não se pode nem mais cumprimentar um amigo, como ele merece, que já fica logo desconfiado! - respondeu ele, fingindo-se de magoado.

_ Chê! Não precisa ficar chateado. Eu até te agradeço pelo abraço... Mas, ainda que mal pergunte, posso saber por que hoje eu mereço isso, se tu nunca me tratou desse jeito?  

_ Mas é claro, tchê! Graças a ti eu hoje pialei uma potrancona lá nas gurias, e nem precisei coçar a guaiaca. Na semana que vem, se tu fores comigo, eu vou poder cobrir mais duas. E de graça, tchê! Agora, me diz se tu não mereces meu abraço? Se continuar desse jeito, depois da venda da tapera eu acho até que vou morar por lá. Quem sabe não me aceitam de sociedade...! – disse ele, sem conter uma risada franca. Que o Olegário era meio louco, todo mundo já sabia. Mas, pelo jeito, a coisa agora ia piorando. Que conversa era aquela de deitar de graça com china de aluguel, só por minha causa, e depois dizer que na próxima semana seriam duas? Ficamos todos nos olhando, meio que sem entender nada, esperando que ele desse continuidade.

_ Então, companheiro? Vamos juntos, na semana que vem? – perguntou, ansioso.

_ Que história é essa, tchê? Me conta isso direito, que ninguém tá entendendo nada do que tu estás dizendo! – pedi, antes de tomar mais um gole de canha, pra modo de me prevenir do que viria de lá.

_ Tá bom, tchê, eu te conto. Mas espero que tu não refugues um pedido de amigo! - disse ele estendendo o braço para a bebida, dizendo que era pra limpar a garganta. _ Eu tava tomando uns vinhos com uma potra de anca larga, já me preparando pro serviço, quando uma dona se achegou. Chegou, pediu licença e puxou conversa: se eu era peão da Tapera, se te conhecia, se ainda andavas por aqui e se estavas são de lombo. Mas é claro que sim, eu respondi. Aí ela mandou te dizer que precisava muito falar contigo; e que tu fosse comigo no próximo domingo, sem falta! Depois ela disse: “essa guria eu pago; e se tu me trouxeres ele pra conversar comigo eu te pago duas, na semana que vem”. Dá pra acreditar numa coisa dessas? - disse ele, sorrindo com todos os dentes que ainda lhe sobravam na boca - uns dois ou três, se não me falha a memória.

_ E o que mais? - eu quis saber.

_ Mais o quê? - disse ele. _ Não tá de bom tamanho, assim! Pra que tu quer mais? É só ir lá conversar com a dona e tá feito! O bonitão aqui esvazia os grãos por um mês. Quem sabe ela até te arruma uma ou duas, também?

_ Mas é claro que não tá bom, chê! Quem era essa mulher? Ela te disse o nome dela? Como é que ela é?

_ Lá-fresca, como tu indagas, tchê! Até parece que não gostas das coisas sem complicação. Logo tu, que vivia reclamando que a sorte nunca te acompanhava... Depois não reclama!

_ Não é reclamar, companheiro! Mas aonde já se viu isso? – perguntei. _ Tu que já andas no mundo há muito mais tempo do que eu, por acaso já te topou com uma coisa dessas?

_ Pra te falar a verdade, não. Mas se a dona quer assim, eu vou fazer o quê? Refugar? De jeito nenhum! Depois de tanto tempo barranqueando potra, se me oferecem mulher de graça não recuso nada, seja feia, desdentada, corcunda ou manca. E mesmo se for tudo isso junto, eu ainda assim encaro! – disse, explodindo em outra de suas gargalhadas.

_ Bueno, amigo velho, não fiques chateado comigo. Mas penso que tu vais ter de pagar pelas gurias - eu disse, achando a conversa sem sentido. _ Mas nem o nome ela te disse? - insisti. 

_ Nem disse nem eu perguntei. Mas se tu queres saber como ela é eu digo: é uma mulher de modos como os teus, de boa conversa e educação; se vê logo que não é da profissão, a não ser que seja cafetina de casa de luxo. Um morenaço daqueles que a gente se agarra e não quer mais soltar, de crina cumprida e bem escura. Não me disse o nome, mas me disse assim: “se ele te perguntar da parte de quem é o interesse, tu só diz que é da Jandira”.        

Aquilo caiu como um mandado sobre os que sabiam da história. De pronto o João Vieira correu os olhos pra mim e para o seu Alírio, demonstrando surpresa. O Sabiá meio que se engasgou com um gole de mate, o que acabou avivando a curiosidade do Olegário.

_ Conhecem o nome? - indagou ele, depois de tomar outro tanto de canha.

_ Conheço de outros tempos, ainda da capital, quando eu era um gurizote – respondi, tentando evitar que ele ficasse muito curioso. _ Mas não te preocupas, tchê, porque pensando melhor eu acho que tu vais mesmo ter de deitar com as chinas; te garante na parada, ou vais querer ajuda?

_ Deixa no más, que a minha parte eu faço - disse ele, mui contente. - Agora que tu já me disseste o que eu queria ouvir, peço licença pra modo de procurar o meu ranchinho. Só passei pra dar as buenas e saber da tua resposta; termino a borracheira nos meus pelegos - completou, com a voz já meio embrulhada. E como ninguém insistisse para que ele ficasse,  se foi.

Depois que tivemos a certeza de que ele tinha, mesmo, ido embora, o seu Alírio voltou ao assunto:

_ E então? O que é que acham? – quis saber.

_ Tem outro jeito? – respondeu, perguntando o capataz.

_ Não, não tem! - eu disse.

_ Tem mais alguém com compromisso pra os lados da Casa das Alçadas?  - perguntou o capataz.

_ Da última vez que foram, não me convidaram - comentou o seu Alírio. _ Desta vez, ninguém se livra de mim!

_ Se não quiserem que eu vá, não tem problema. Mas lhes digo que sou de sangue charrua: nasci livre e ninguém manda em mim. Se eu digo que vou é porque vou, e pronto! Fiquem brabos, se quiserem! - disse o índio, confirmando presença. Ficou faltando a resposta do Sabiá, que de cabeça baixa mateava distraído.

_ Mas é claro que vou! - falou ele, num repente, quando percebeu que todos o olhavam mudos, sem que ninguém lhe perguntasse.

_ Tchê! Alírio, providencia um lotezinho de gado pra gente inventar uma tropeada, de modo a prender a mulherada na estância. O puteiro fica longe do povo, mas nunca falta uma fofoqueira pra dizer que viu alguém aonde não devia. A gente sai com a tropita e bandeia o gado, de volta, pra dentro dos campos, um pouco mais pra frente. Sábado de manhãzinha, se ganha o mundo... 

No fim de semana seguinte fiz madrugada grande, sentindo o corpo moído. Joanita tinha passado a noite inquieta, se remexendo sem parar e resmungando um monte de coisas que eu não consegui entender. Perdi as contas das cotoveladas e coices que levei durante a noite. E quando levantei, me sentia mais cansado do que estava ao deitar. Quando me preparava para sair, Joanita acordou.

_ Já de pé? - disse ela, também se levantando. - Parece tão cedo ainda!

_ Não consegui dormir direito. Tu estavas muito inquieta. Além disso, pode parecer muito cedo, mas não é; te esqueceste que vamos sair com a tropa, logo cedo?

_ Eu tinha me esquecido – disse, um pouco sonolenta, parecendo também cansada. _ Tive um sonho esquisito...

_ Não foi à toa! Aonde já se viu comer uma linguiça frita inteira, antes de deitar?

_ O que é que tu querias que eu fizesse? Passei a semana inteira lidando com carne e fazendo essas coisas. Acabei ficando com desejo - ela disse, se explicando.

_ Quer que eu te faça um chá de carqueja, antes de sair?

_ Não precisa te preocupar. Depois eu faço... O que eu queria, mesmo, era que tu não saísses.

_ Eu sei que não deveria perguntar, mas eu não tenho juízo. Então, lá vai: por quê?

_ Eu sonhei que tu ias procurar por aquela guria.

_ Que guria, minha prenda?

_ A de olhos azuis, que tu me falaste; a que ninguém sabe se é viva ou morta - disse ela, me pegando desprevenido.

_ Bueno, minha guria, se for por isso podes voltar pra cama, porque eu não vou procurar por ninguém - eu disse, tentando parecer firme.

_ Vai, sim! Se não for por ela é por alguém que sabe dela...

Ficamos em silêncio, por alguns segundos. Tu és livre e sabes disso. Quantas vezes já falamos sobre essas coisas de que casamento é um destino que um sentimento bom nos reservou - disse ela, quebrando o silêncio. _ Eu não quero te prender junto de mim; eu só quero saber o que tu vais fazer.

_Por que tanta preocupação, se tu sabes bem que eu nunca vou te deixar, minha índia? Meu espírito e o teu não podem mais se separar; não foi isso que disseram, quando a gente casou?

_ Não é te perder desse jeito que eu falo. Tem alguma coisa ruim pra acontecer. E pode não acontecer, se tu não fores aonde vais - disse ela, preocupada.

_ Cada vez te entendo menos, guria! Tu não vives me dizendo que ninguém foge do seu destino?

_ O destino de tudo o que vive é o mesmo, mas tem muitas maneiras de se esperar por ele. Alguma coisa no meu sonho diz que vocês vão apressar as coisas... 

_ Mas que barbaridade, guria! Por que tu não podes ser como todo mundo? – falei, sem querer fazer uma crítica. Joanita sempre sabia das coisas, antes que elas acontecessem.

_ Então, bueno, minha prendinha! Senta, que eu vou te contar o que vai acontecer - eu disse, sabendo que ela não me deixaria sair sem falar sobre aquilo. (continua...)

Autor:   André Moab Garcia
E-mail:
andremoabgarcia@hotmail.com

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