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Vilson Schmitt:
Tradicionalismo Moderno

 

23/08/2010 10:54:55
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XVII – AS NOTÍCIAS DE JANDIRA E O
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XVII – AS NOTÍCIAS DE JANDIRA E O BANZÉ DAS “GURIAS” DA CATARINA! 

Encontrei o João Vieira mateando solito, ao pé de um fogo de chão, já quase se apagando - o fogo, não o João Vieira.

_ Buenos dias, patrão! Ainda bem que hoje eu não fui o último a chegar. O senhor não vive dizendo que eu sou maturrango? E agora, cadê todo mundo? – perguntei, num sorriso de satisfação.

_ O Alírio foi buscar um fiambre, que a mulher dele preparou pra gente comer pelo caminho. O Guarany saiu com o Sabiá, pra reunir a tropilha; já devem vir chegando de volta. O Olegário foi à vila, acertar umas contas dele; e depois nos encontra. A cachorrada também já anda pelo campo, ajudando com a tropa. Falta alguém? - disse ele, só de implicância.

_ Bueno! - eu disse, desolado - Pelo menos ainda dá tempo pra tomar uns amargos... – falei, resignado.

Mas, quase que nem tempo pra isso eu tive. Não demorou muito e todos foram retornando ao galpão, quase que ao mesmo tempo, como se fosse combinado. 

Saímos, em seguida, empurrando a tropa, devagar. E assim que foi possível bandeamos o gado de volta, para os campos da Tapera. Paramos um pouco mais pra frente, debaixo de um bosque grande. E por ali fizemos nosso café. Depois, passamos ao largo da vila, onde o Leite-de-onça juntou-se a nós.  

E antes do meio-dia esbarramos na porta do salão da gringa Catarina.

_ Oh, de casa! - gritou o Olegário, já empurrando a porta.

_ Te levanta, Catarina, que tu tens visita - disse o João Vieira, com intimidade.

_ Mas, que barbaridade! - disse ela, quando saiu de trás de uma porta, com a cara amarrotada.

_ Será possível que as gurias não têm mais direito de dormir um pouco? Desse jeito não duram até o fim do ano!

_ Não tem importância! Guria bem disposta pra esse serviço é coisa que não falta por aí - continuou o capataz.

_ Se, por acaso, se acabarem essas, tu logo arruma outro lote.

_ Vou chamar umas tiangas - disse ela.

_ Alguém tem preferência?

_ Eu tenho! Quero uma que seja limpa e cheirosa - falou o João Vieira.

_ Mas não precisa acordar ninguém. Deixa, no más, que descansem, que a gente veio mesmo foi pra encontrar uma pessoa. Mas enquanto ela não chega, pode servir vinho, queijo, salame e pão, se tiveres.

_ Seu João, seu João. Por acaso alguma vez me pedistes alguma coisa que eu não tenha te dado? - falou a gringa, abrindo um sorriso largo, enquanto saía na direção da cozinha.  

O tempo passou depressa. E quando me dei conta a sala já estava cheia de gente, bebendo e rindo alto. A casa da gringa Catarina tinha boa fama na região. As gurias eram até que bonitinhas; todas limpas e arrumadas. E o lugar era bem frequentado, porque ela fazia questão de escolher os fregueses pelo bolso. Ao contrário do puteiro do Julião Boca-preta, onde não só as mulheres eram refugos de outras casas como a peonada que frequentava também não valia muita coisa.         

Têm coisas que se passam com a gente que na hora não se consegue dar o sentido certo; e só se lembra daqueles sinais quando as coisas acontecem. Se naquele tempo eu fosse mais atento a esses detalhes, talvez os acontecimentos fossem diferentes, ainda que eu duvide. Afinal, destino é destino.

_ Eu não acredito que esse monte de homem veio aqui só pra beber! Será que nenhuma das minhas gurias agrada um de vocês? - perguntou a gringa, mal chegando junto à mesa.

_ Já que tu perguntaste, por acaso não anda por aqui uma castelhana de pelagem ruana e olhos grandes? - quis saber o Índio Guarany.

_ Até que enfim um gaúcho disposto a honrar as bombachas! Espera aqui, que eu vou procurar por ela. E os outros?

_ Deixa, no más, que a gente dá jeito, Catarina; se for pra te agradar, não demora e já tá tudo entreverado - disse o João Vieira. Bastou a resposta para que a gringa das ancas largas se largasse atrás da castelhana.

_ Que mal pergunte ao amigo, mas de onde conheces essa castelhana? Não és tu o homem que me dizia que nunca anda por essas casas? - indagou o capataz.

_ E não ando mesmo, companheiro. Mas minha mulher disse que sonhou com essa castelhana; e eu perguntei só de curioso - explicou o índio.

_ Mulher quando sonha diferente, que ninguém duvide! A minha, mesmo, de vez em quando tenta me prevenir. Mas, mesmo assim, eu teimo e não faço o que ela diz. E depois tenho que olhar pra ela com cara de guri cagado - comentou o seu Alírio. 

Mal ele terminou de falar e se achega, toda cheia de sorrisos, uma castelhana de nome Estela: loura e de olhos grandes, conforme tinha sonhado a mulher do domador.

Não tomem por heresia o que vou lhes dizer, mas a presença daquela mulher era como a presença de um anjo, que tivesse vindo me alertar de um outro sonho. Assim como naquela tarde na beira da sanga, quando eu conversava com Juliana e ela me dizia que andava com mau pressentimento; e em seguida uma trovoada ecoou vinda do lado uruguaio, fazendo-me sentir que algo ruim não tardaria. Também ali, naquele puteiro, a presença da castelhana, confirmando o sonho da minha sogra, fez com que eu ficasse inquieto, lembrando do que Joanita tinha me dito pela manhã.

_ Companheiros! - disse o Guarany - Não era essa a intenção: mas que gringa mais linda! Se não se importam, vou tomar uns vinhos com a moça e ver se trato de uns assuntos de doma! 

Seguindo o exemplo dele, todos foram, um a um, saindo da mesa, só para tomar uns tragos de vinho e dar risada com as cabritas espalhados pelo casarão. Como se estivesse esperando a hora certa, a mulher sentou ao meu lado, perguntando:

_ Te importa se eu tomar uma caneca de vinho contigo?

_ Não me importaria, se eu não estivesse esperando outra pessoa – respondi, sem muita vontade de conversar.

_ Se tu for quem eu acho que seja, não precisa esperar mais – disse, fazendo-me rir; o que provocou nela um olhar curioso.

_ Uma vez eu falei, mais ou menos, assim como tu. E o que arrumei de problemas depois, tu nem acredita! – expliquei, depois de lembrar o caso com o Mão-pelada.

_ Não é minha intenção te trazer problema. Pelo contrário, talvez eu te ajude a se livrar de um...

_ Já me agradei da tua idéia, apesar de não me lembrar de nenhum problema que eu tenha. Em todo caso, estás convidada a tomar um vinho comigo.

_ Pode ser que te não te lembres, mas eu acho que o meu problema e o teu tem o mesmo nome: Ernesto!  

Olhei para ela como, se ao invés de um nome, eu tivesse escutado um tiro.

_ Antes de me falar disso, me interessa mais saber de outro nome: Jandira - eu disse, curioso.

Na verdade, todos pensamos que ela fosse a Jandira, mas não se parecia em nada com a dona Júlia nem com a Juliana; nem mesmo em corpo ou qualquer outro traço, como olhos ou boca.

_ Sabe de uma coisa? Quando ela me pediu que te procurasse, eu fiquei um pouco com medo. Mas, agora, te olhando nos olhos, gostei de ti. Vou te contar uma história - disse ela, esperando que eu servisse o vinho. Depois bebeu dois ou três goles, antes de começar a falar. 

_ O meu nome é Isabel. Nunca me deitei com nenhum homem por dinheiro, mas já fui dona de uma casa dessas. Não igual a essa; muito maior e luxuosa, bem no centro da capital, a duas quadras do palácio do governo. Pra falar a verdade, nunca me deitei com homem nenhum. E a razão disso é que eu não gosto de homens. Entendes o que eu quero te dizer?

_ Pra te ser sincero, não! – respondi, sem maldade. Ela me olhou nos olhos, um pouco espantada.

_ Não tem importância – disse, como se esperasse mesmo que eu não compreendesse o que ela tinha me dito.

_ Quando eu era pequena, meu pai morreu. E pouco depois, minha mãe casou de novo. Um dia meu padrasto achou que era hora de eu virar mulher. E quando eu tinha dez anos, ele mesmo providenciou isso. E não foi só uma ou duas vezes, foram muitas e muitas.  

Até que um dia minha mãe me escutou chorando no quarto e deparou-se com ele se aproveitando de mim; saiu sem que ele percebesse que ela tinha visto aquilo, foi até a cozinha, voltou e matou o desgraçado com vinte e cinco facadas. Pouco tempo depois, enforcou-se. Uma tia terminou de me criar e eu nunca mais quis saber de homem. Agora tu entendes porquê? Fiz que sim, com a cabeça, não falando pra não interromper a história.

Não sei bem explicar porque, mas eu também tinha gostado dela. A conversa ia começando bem; e eu não queria que ela parasse de falar. O modo como ela falava me fazia lembrar do tempo em que eu morava na capital. E ouvir de novo alguém falando sem o sotaque carregado da fronteira me fazia sentir como se eu ouvisse algum conhecido, que não via há muito tempo.

_ Pois bem! Um dia, apareceu na minha casa uma guria procurando trabalho. A primeira coisa que eu pensei, quando uma empregada veio me dizer que tinha uma moça querendo falar comigo, foi que era mais uma procurando um lugar de viração, onde pudesse ganhar um bom dinheiro. Minha casa era muito bem frequentada; e não faltava quem quisesse fazer a vida lá. Não era lugar pra qualquer uma, porque eu mesmo escolhia a dedo, e era muito exigente. Afinal, eu tinha um nome e não podia deixar que qualquer guria se virasse no meu estabelecimento. Mesmo assim, toda semana aparecia uma querendo trabalhar. 

 

Quando a gente tem esse tipo de negócio, nunca pode deixar de examinar o que aparece. Porque é um negócio onde carne fresca sempre tem procura. E um rostinho bonito ajuda no movimento, com velhos endinheirados. Mas a moça que procurava trabalho não era de viração; e nem sabia que aquela casa não era de família. Disse-me que vinha do interior e que procurava trabalho há bastante tempo. Mas não conseguia, porque estava prenhe; e ninguém queria uma barriguda em casa. Nem precisou me dizer que estava passando fome e necessidade: isso se via na cara. De modo que eu fiquei com pena dela. Mas nem por isso eu ia pôr ela pra dentro da minha casa, porque quem tem casa de viração não pode ter pena de barriguda. Se não, em seguida fecha o puteiro e abre um orfanato, que as gurias mesmo providenciam isso.

Isabel fez uma pausa e olhou em volta, pra ver se nenhum curioso escutava a nossa conversa. Bebeu mais um pouco de vinho e olhou para mim, procurando adivinhar o que eu achava daquilo. Sem precisar dizer nada, deixei claro que a conversa me interessava. Ela, então, continuou.

_ Eu perguntei pra ela por que ela tinha saído de casa; se era como tantas que apareciam, depois de agradar o namorado, pegar barriga e ser posta pra fora de casa pelos pais.  

Ela começou a chorar, dizendo que o padrasto tinha feito mal pra ela. E que ela precisou sair de casa, por causa das ameaças dele. Eu fiquei curiosa com a história dela e quis saber mais. Ela me contou que tinha uma irmã menor. E que o padrasto prometeu nunca tocar na irmã, se ela fosse embora com a cria dele e não contasse nada pra ninguém; se ela não quisesse sair, ele prometia fazer a mesma coisa com a irmã e matar a mãe dela. Parece que o homem era meio brabo, metido a dar em mulher...

_ Jandira! - eu disse, espantado.

_ Jandira - repetiu ela.

_ E sabe o que aconteceu? Eu me apaixonei por ela.

Falou e ficou me olhando, esperando pela minha reação. Servi nossos canecos e olhei para ela, curioso. Eu não tinha entendido aquele negócio de “me apaixonei por ela”.  

Em todo o caso, não custa lembrar que eu fui criado por Padre; e achei que aquilo era um tipo de piedade ou coisa assim.

_ Era a criatura mais doce que eu já tinha conhecido. Cuidei dela. Dei casa, comida e um trabalho leve, só pra que ela não fosse embora. Depois de dois meses morando na minha casa, descobri que ela também não suportava os homens. E nem preciso te dizer que, por causa disso, ela deixou de ser minha empregada e que ficamos muito amigas – comentou, com aquela cara de quem esperava que eu entendesse o que ela tentava me dizer. Como eu teimasse em não ver além do que estava na minha frente, ela bebeu mais um pouco e recomeçou a história:

_ Um dia, um homem me procurou pedindo que eu aceitasse na casa uma mulher. Disse que não queria que ela fosse de outros homens; e que pagaria pela estada dela, indo de vez em quando fazer uma “visitinha”. A proposta era boa. Ele disse que era filho de estancieiro; e que era um segredo que ele queria manter longe dos ouvidos da família. Não era a primeira vez que um gurizão filho de coronel se apaixonava por uma puta e fazia isso. Com o tempo eles cansavam. E se a guria fosse esperta, saia com um bom dinheiro no final; se não, voltava pra vida. 

Quando a guria chegou lá, foi uma surpresa. Era muito feia: magra, de pele branca e cabelos amarelos. Parecia mais uma vassoura, ao contrário. E aquilo me deixou curiosa. Vá lá que digam que o amor é cego. Mas o rapaz enxergava bem; e não era possível que não visse aquilo. Eu tenho experiência nisso; e te digo que se ela fosse fazer vida na minha casa, além de difamar meu estabelecimento, era capaz de passar fome, sem ter quem quisesse se deitar com ela. Deixou a guria lá, pagou adiantado e sumiu. Passou um bom tempo até que ele, um dia, apareceu de novo, junto com um amigo. E foram os dois para o quarto, com ela. Cada um faz o que gosta, eu dizia pra mim mesma. Pra quem é do ramo nada causa estranheza, porque a gente se acostuma a ver de tudo.

Às vezes, eu sentava pra beber um pouco com as gurias e saber como iam as coisas; se alguma precisava de médico ou outra coisa qualquer. De vez em quando eu comprava uns vestidos novos e dava de presente pra elas. Essas coisas agradam, deixam as gurias mais felizes e elas trabalham melhor. Numa tarde daquelas eu conversava com a feia. Luísa é o nome dela. E perguntei como é que ela andava se saindo com os dois amigos. E ela começou a rir. A gente se dava bem e ela gostava muito de mim. E esse tipo de conversa é comum com as gurias da vida.  

Os homens pensam que as mulheres nunca comentam nada. Mas a verdade é que tudo o que eles fazem elas contam, dando risadas, quando bebem um pouco a mais. Luísa me disse que aqueles dois eram um presente na vida dela; e que logo ela poderia deixar a viração, porque eles pagavam muito bem e ela não precisava fazer nada. Em pouco tempo ela poderia voltar para a casa dos pais, com um bom dinheiro. E, talvez, até abrisse um negócio na cidadezinha serrana, de onde ela vinha. Eu não tinha entendido no começo, mas ela começou a rir. E me disse, direto na cara: “não acredito que tu não tenhas visto que são dois frescos: um come o outro. E eu só tenho que sentar numa cadeira e ficar de costas pra eles, enquanto eles brincam”. 

Não que eu seja burro; pelo contrário, acho até que sou bem inteligente. Pelo menos era isso que o finado Padre queria que eu pensasse. Mas acontece que eu sempre precisei de um pouco mais de tempo pra entender o que as pessoas tentavam me dizer. Não foi à toa que paguei uns pecados, por achar que o Mão-pelada não era tão ruim. Quando Isabel terminou de falar aquilo ficou me olhando, esperando que eu falasse qualquer coisa. Mas, no meu entender, faltava que ela contasse mais alguns detalhes, para que eu pudesse saber o que eu tinha a ver com aquela história. Principalmente em se tratando de histórias de colhudos, que se enroscam em namoros. Já me bastavam os que eu conhecia e que, por certo, não tardariam a tentar me fazer esquecer o que eu e o Sabiá tínhamos visto na sanga. Por sorte o Nestinho tinha se mandado pra capital, embora eu tivesse ficado meio entristecido por causa da Helena. E do tal Afonso eu nunca mais tive notícias.         

De repente, senti as frussuras tremendo. Podia ser só uma coincidência o que eu tinha pensado, mas alguma coisa me dizia que eu tava no caminho certo. Tomei uns goles graúdos e arregalei os olhos pra ela, que continuou com o causo.

_ Como eu te disse, era acostumada a ouvir e ver as coisas mais estranhas dentro da minha casa, já que isso fazia parte da profissão. E achei a história que a Luísa tinha me contado meio engraçada, porque todas as gurias ficavam se perguntando o que foi que aqueles homens tinham visto na gringuinha feiosa.  Todas tinham curiosidade de saber o que ela fazia com eles. O caso era que eles escolheram a Luísa, porque ela era de confiança. E não era a primeira vez que fazia aquele tipo de serviço: o máximo da sorte na vida de uma puta feia. Tinham chegado até ela por recomendação de um outro.  

Eu prometi para ela que manteria o segredo. E mantive, mesmo, porque confiança é importante nesse negócio. E o que se passa dentro dos quartos - os da casa e os das gurias, também - só interessa pra quem tá lá dentro. A não ser que seja caso de judiaria, porque isso eu não deixava de jeito nenhum.

Uma tarde, eu conversava com a Jandira sobre uma das gurias, quando ela falou, por acaso, na sorte que tinha a Luísa, por ser bancada por dois filhos de estancieiros. Mas que, por outro lado, não devia ser nada bom ter que dar conta de dois. Eu então contei pra ela que a vida da Luísa era bem melhor do que ela imaginava. E ela ficou curiosa, dizendo que gostaria de ver a cara dos “fregueses” da gringuinha. Ela, a Jandira, não frequentava o salão; e cuidava de outras coisas, durante a noite. E, por isso, quase nunca via a cara de quem ia lá. E não demorou muito para que eles aparecessem. Como de costume, foram logo para o quarto, levando de carona a gringa magra, com jeito de vassoura. Eu aproveitei e avisei a Jandira que eles tinham ido pro quarto; e que se ela queria ver que caras tinham, era só ficar disfarçando pelo salão que ela logo mataria a curiosidade.

Isabel ficou calada, por um minuto, antes de beber um pouco de vinho. E eu tive a impressão de que ela andava pensando em alguma coisa não muito boa.

_ E então, o que se passou não deve ter sido muito bom; pelo menos é o que parece, pelo teu jeito...

_ É. Pra falar a verdade eu preferia que não tivesse acontecido. Talvez não tenha uma coisa a ver com a outra, mas eu tenho quase certeza de que foi depois daquele encontro que a Jandira adoeceu - disse ela, voltando a calar-se, de modo pensativo.

Eu fiquei quieto, esperando que ela voltasse a falar por conta própria. Não era ela a única pessoa a ficar daquele jeito, quando pensava em coisas desagradáveis. Eu mesmo volta e meia calava-me igual a ela, quando pensava em Juliana. Um pouco depois, ela voltou ao assunto.

_ A Jandira estava distraída, conversando com uma das gurias, de frente para a escada por onde eles teriam que descer quando saíssem do quarto. E nem percebeu que o tempo tinha passado e eles já vinham descendo. Quando se deu conta do movimento na escada, eles já estavam quase de frente para ela. E quis o destino que eles se olhassem, por acaso, ao mesmo tempo. Jandira deu um grito: “não!”, e desmaiou. Um dos homens, ao olhar para ela, comentou: “mas olha só quem anda por aqui!”.

_ Agora eu entendo porque tinha gente que dizia que a Jandira andava em casa de viração, mas que ninguém nunca tinha visto. Eles não queriam que ninguém soubesse onde ela estava, porque podia ser que ela contasse coisas que não interessavam para eles. Apesar disso, um deles deve ter falado sobre ela sem querer! – falei, depois que consegui ligar uma coisa com a outra.

_ Pois é - continuou ela -, eu acho que eles se deram conta disso; mas antes, ainda naquela noite, quando a Jandira despertou, eu já tinha levado ela pro quarto. Eu tinha ficado preocupada, pensando que ela tivesse doente. E assim que ela voltou a si, eu perguntei o que tinha acontecido. Ela, então, me contou quem era o homem que tinha falado com ela...

_ O Nestinho! – falei, interrompendo.

_ Ele mesmo! Jandira me falou sobre ele e disse que tinha medo que ele falasse para o pai dele onde tinha visto ela. E chorava, só de pensar em ver o tal Ernesto outra vez. Como eles não apareciam com muita frequência, a gente teve tempo de pensar um pouco no que fazer deles. Eu acho que eles também pensaram nisso. Eu tinha dito pra ela que eles não iriam querer saber desse Ernesto por lá. Afinal, eles tinham um segredinho; e não iriam querer que logo o pai de um deles ficasse sabendo daquela história! Bom, como eu disse, eles também tinham pensado nisso. E não demorou até que voltassem com uma proposta. O problema deles foi que eles nem imaginavam que a Jandira não era uma das gurias da casa. E vieram me propor justamente levar aquela guria, que eles diziam conhecer de outro lugar, para uma casa que eles tinham na cidade. Pra te dizer a verdade, eu achei que seria mais difícil convencer os dois de que a tal guria tinha ido embora, sem me dar satisfações. Mas eles aceitaram a resposta, sem tocarem mais no assunto. E quiseram, então, levar a gringuinha embora. Recebi um bom dinheiro pela perda da gringa. E, depois disso, eles nunca mais apareceram. Acreditaram, mesmo, que a Jandira tinha se assustado e fugido.

_ Isso quer dizer que a Jandira ainda mora na tua casa? Mas, que barbaridade! Pra que tanta volta, pra dizer uma coisa boa dessas? Espera, no más, que eu vou trazer aqui pra te conhecer uma pessoa que vai gostar de saber disso - eu disse, já me levantando pra buscar o capataz. Mas ela não deixou que eu saísse da mesa.

_ Te acalma moço, que eu ainda não terminei. Como eu disse, foi depois daquele encontro que Jandira adoeceu. No começo, parecia que não era nada de mais; uma dorzinha de cabeça que não passava, mas que também não chegava a preocupar. Jandira não esquecia da visita daquele homem, e vivia perguntando se ele tinha aparecido. E por mais que eu explicasse que eles tinham sumido no mundo, levando a Luísa com eles, ela não se convencia. As dores foram aumentando, aumentando, até que ela começou a ter desmaios e a delirar. Sonhava com a mãe, com a irmã, com o pai, e, principalmente, tinha pesadelos frequentes com esse Ernesto. Dois meses depois, Jandira morreu. - disse ela, como se fosse encerrar a conversa. Eu sabia que não tinha nada que eu pudesse dizer, e que o melhor era esperar que ela voltasse a falar por conta própria. Brincou um pouco com a caneca nas mãos, sem beber do vinho que ainda restava, e voltou ao assunto, sem levantar os olhos:

_ Infelizmente, não foi possível salvar a criança; o que foi uma pena, porque eu teria criado como se fosse minha - disse ela, num tom sincero.

_ Um pouco antes de morrer, ela me pediu que eu procurasse saber notícias da família dela; mas que não era pra ninguém saber onde ela estava. Jandira queria que eu achasse um jeito de levar a mãe e a irmã para se encontrarem com ela na nossa casa. Ela tinha um bom dinheiro guardado; e queria dar para elas, de preferência que elas usassem pra deixar de viver junto com aquele homem. Como o negócio tinha que ficar em segredo, eu mandei uma das minhas gurias, que era natural aqui dessa região, pra assuntar sobre a vida delas e me dizer qual era o melhor jeito de se fazer contato com as duas. Acontece que essa guria acabou demorando um pouco pra voltar com o que eu queria saber. E quando voltou com as notícias daqui, Jandira já tinha falecido. O mais curioso foi que, na verdade, eu nem sei te dizer quem morreu primeiro, se foram elas aqui ou ela lá. Com a morte da Jandira, eu perdi o gosto pela vida. Vendi o meu negócio, por um bom dinheiro, e resolvi fazer uma viagem pela Europa, pra ver se conseguia aliviar um pouco a minha dor. O problema é que quando a gente tem uma dor dessas não adianta sair pelo mundo querendo fugir da dor, porque ela vem junto da gente, se enraíza no peito. Fiquei muito tempo por lá, que dinheiro não me faltava, mas nem por isso a tristeza me largava. Até que um dia achei que era hora de voltar e tentar fazer alguma coisa de útil pela memória dela.

Um dia, por coincidência, encontrei em Porto Alegre a Luísa, passeando pela Rua da Praia. E aproveitamos para botar as conversas em dia.  

Luísa me contou que não vivia mais à custa daqueles homens, e que graças ao dinheiro ganho com eles pôde abrir um puteiro na região da Serra, como era o sonho dela. O que me interessou mesmo foi ela me dizer que eles tinham brigado; e agora, o que era daqui - o Ernesto Filho - tinha um outro amigo, e que os dois tinham trocado ela por uma outra daqui de Bagé. E que agora eles tinham uma casa alugada na cidade, só pra esses encontros. Ela não sabia de certeza, mas parece que um deles estava de casamento marcado e teria que vir morar na estância. Como não podiam correr o risco de alguém descobrir o caso, resolveram que era mais seguro ter uma casinha alugada só pra eles. E foi por isso que eu vim te procurar!

_ Eu? Por quê?

_ Porque se tu quiseres a gente pode dar um jeito de estragar a vida desse Ernesto, e seja quem for que esteja com ele. Não estragaram com a nossa? - perguntou ela.

_ Quem foi que te disse que eu quero alguma coisa com esses dois? Além do mais, talvez ninguém tenha te dito, mas parece que já voltaram pra capital já faz um tempinho...        

_ Não! Não voltaram, não senhor! Estão morando em Bagé; e continuam visitando a tal guria, de vez em quando. Pelo que eu soube, o que vai se casar se desentendeu com a noiva na estância e resolveu passar uns tempos numa casa que têm na cidade. Não sei se tu sabes, mas mesmo não sendo casados moram juntos; dizem que foi o pai dele que obrigou que fosse assim.

Então, era isso! Isabel veio me procurar porque sabia de tudo o que eu tinha passado nas mãos do Mão-pelada. E no ver dela, Jandira adoeceu também por causa dele. E sendo assim, nós dois tínhamos interesse em dar um castigo nele. Na verdade eu quase já nem pensava mais neles, porque Joanita ocupava minha vida de um modo que eu nem queria, mesmo, pensar em outras coisas; bastava- me viver ao lado dela. O caso era que mais cedo ou mais tarde eles viriam na minha cola, melhor dizendo, na nossa. Afinal, o Sabiá também estava na sanga naquele dia, além da Helena, é claro. Mas dela o Nestinho cuidava, sem muita dificuldade. A verdade era que querendo ou não a gente teria que acertar essa conta.        

Eu combinei com ela que daria a resposta assim que pensasse melhor sobre aquilo tudo. Mas que isso não demoraria pra acontecer. Isabel estava mesmo decidida a dar um castigo neles, e me disse que se eu não aceitasse a oportunidade de por em dia minhas contas com eles ela acharia outro meio de realizar seus intentos. Sugeri um novo encontro, para dali a quinze dias. Mas ela disse que era tempo demais e que só esperaria até a próxima semana. Depois, levantou-se e saiu sem esperar que o capataz chegasse, para participar da conversa ,conforme eu tinha pedido. E quando eu procurei de novo por ela, já tinha desaparecido. 

Conversei primeiro com o capataz, já no caminho de volta, e ele disse que pra ele tanto fazia; se eu resolvesse levar aquilo adiante ele fazia questão de estar junto, só pra ver o entrevero. Se eu decidisse deixar por isso mesmo, ele entenderia.

_ “Se tu não fizeres, outro vai fazer. Não foi o que ela disse?” - comentou ele. “Se bem que eu gostaria...”. No fundo, o João Vieira também tinha lá suas razões para querer ver a desgraça alheia; talvez, bem mais do que eu.         

Pensando desse jeito, eu até considerei levar a coisa adiante. Mas quando cheguei em casa, Joanita me fez pensar melhor. Acontece que a indiazita me fez pensar um monte de coisas, falando em maus pressentimentos, sonhos, sensações ruins e outras maneiras de prever desgraça, que só ela conhecia - incluam nisso um bosteado de pombo que levei na cabeça, enquanto conversava com ela na varanda da casa. Julguei que talvez ela tivesse mesmo razão. E só para não correr o risco, resolvi refugar a parada. Afinal, eu já tinha passado por uma situação bem ruinzinha com Juliana, e não queria correr o risco de ter que passar por uma coisa daquelas outra vez. Ainda mais que o destino me mandava recado, através dos sonhos e pressentimentos de Joanita; palavras que eu antes não soube ler, quando a trigueira estava comigo.        

No fim de semana seguinte, dei minha resposta pra tal Isabel, que em resposta à minha resposta respondeu um monte de desaforos. “Bueno!” - pensei comigo -, “fiz minha parte, para que a minha vida continue em paz!”.        

De bom daquela conversa com a Isabel foi que tirei a informação que Helena não estava em Porto Alegre. E, talvez, com sorte, na primeira ida à Bagé eu pudesse me encontrar com ela.         

Acontece que a tal Isabel não se deu por satisfeita, e achou por bem procurar, mesmo, por um outro que aceitasse o serviço. Mas como ela não andasse em tempo de melhor sorte, acabou não encontrando ninguém que quisesse o emprego. Vai daí que a pobre infeliz julgou que lidar com o Mão-pelada fosse pouca coisa; e marcou, ela mesma. um encontro com ele, para tratar de uns assuntos, que conforme dizia ela, interessavam muito a ele. O que eles discutiram nesse encontro não é segredo para ninguém. E, em consequência disso, a tal Isabel foi encontrada morta dentro de uma casa, em Bagé. Por coincidência, a mesma que era usada pelo Nestinho e o Afonso, para tratarem dos seus negócios. Nem preciso dizer que o causo ficou sendo sabido por nós pela boca do Leite-de-onça, que ficou sabendo por uma das gurias da Catarina, amiga daquela que morava nessa mesma casa. O resto da história eu só saberia mais tarde; mas isso é coisa da qual se fala mais adiante...

O Olegário, talvez tenha sido o que ficou mais chateado com o ocorrido. Afinal, Isabel tinha sido a responsável por bons momentos da vida dele. Outros, nem tanto, é verdade; mas, mesmo assim, ele gostava dela. É claro que tanto eu como o capataz também ficamos tristes com aquilo, pois de certa forma se tinha alguma gratidão pelo que ela fez pela Jandira. _ “Vou botar mais essa na conta dele”, disse o João Vieira, na ocasião: _“um dia, acertamos nossas contas!”.        

Aliás, que o Olegário não tinha dado muita sorte com toda aquela história. Contrariando o que ele esperava, Isabel, no fim das contas, tinha sido a responsável por alguns contratempos; no caso dele, com as gurias que ela tinha prometido. Quis o acaso que ao cumprir o trato que tinha feito com ele, a tal Isabel acabasse contratando para a farra dele duas “gurias” que não se davam, e se odiavam de coração. Aconteceu que uma não sabia da outra, e se apresentaram para o trabalho no quarto, quase que ao mesmo tempo. E tão mal se deram, de cara uma com a outra, já começaram uma discussão, deixando o Leite-de-onça na espera, e já com as bombachas pela altura do assoalho:

_ Escuta, tchê! Tu não vais querer que eu me deite contigo e essa mulher aí, não é? - disse a primeira, cheia de razão.

_ E o que é que eu tenho a ver contigo, fedorenta! Tu não vais deitar comigo, é com ele. Além do mais, eu preferia deitar com um zorrilho fedorento do que com uma alemoa dos dentes podres, igual a ti! - respondeu a outra.

_ Podre é o que tu tens no meio das pernas, vagabunda” - disse ela, braba. Depois, virou pro Olegário e continuou.

_ Tu decides: ou uma ou a outra, que nós duas juntas é que não vamos ficar no mesmo quarto, que dirá na mesma cama!

_ Pois pra mim o caso já tá decidido. O trato foi de eu ficar com as duas e eu não vou deixar assim, no más. Se vocês não se dão o problema é de vocês, que eu não tenho nada a ver com isso. Pra mim pouco importa se uma fede e a outra não tem dente. Eu só quero a minha parte e pronto. Depois, vocês que se acertem.

_ Pois eu não fico no mesmo quarto com ela; e não tem homem que me faça ficar! - disse uma delas, a que foi chamada de fedorenta.

_ Fica, se não eu te enfio a mão na cara, puta de merda - respondeu o Olegário, já se chateando com aquilo.

_ Pois, então, enfia, que eu quero ver se tu é homem!

“Então isso é coisa que se diga pra um homem com as bombachas já arreadas!”, comentou o Leite-de-onça, enquanto nos contava o causo. “Ela disse que eu não era homem e eu mostrei que era: dei-lhe uma bofetada no pé da orelha, que já deixei a bicha pronta pro serviço, deitada em cima da cama”. O problema foi que o Olegário não contava com a reação da outra. E qual não foi a surpresa, quando ela se saiu com essa:

_ Quem tu pensas que és, pra fazer uma coisa dessas com ela? - disse ela, mui séria. _ Pois fique o senhor sabendo que puta briga, mas se entende. E que não é qualquer um que chega assim, e vai dando do jeito que quer.

O problema foi que essa que ainda não tinha apanhado estava bem pertinho dele. E mal terminou de falar soltou-lhe uma mãozada pela cara do Olegário, que foi um negócio de fazer vergonha a um homem bem intencionado, que se preparava para uma tarde de amor. Vai daí que o Olegário velho, acostumado a levar não de égua sem tremer, achou aquilo um desaforo. E com a mesma tranquilidade de antes, despachou de lá um pataço pelo meio do beiço, que foi um despropósito. De modo que caiu essa por cima da outra, que ainda tentava se levantar. Sem nem pensar em cancelar a festa, e com as bombachas ainda na altura dos garrões, o Leite-de-onça deu o causo por encerrado:

_ Bâmo deixar de frescura e bâmo cuidá do serviço, que vocês tão aqui pra isso! - disse ele, sério, pensando que elas iam deixar no barato.

_ Tá vendo só o que tu me arrumou? - disse a fedorenta, pra outra dos dentes podres. _ Agora te faz de minha amiga, mas na verdade tu não vale nada, mesmo!

_ Mas, que barbaridade! - respondeu a outra, mui ofendida. _ Eu querendo te defender desse animal, e é assim que tu me agradeces! Pois agora tu vais ver... 

Contou o Olegário que ainda tentou evitar, mas quando ele deu por si elas já tinham se pegado de tapa e puxão de cabelos. Vai daí que ele ainda disse:

_ Espera, vagabunda, que eu já te mostro o animal... E saltou, disposto e distribuir uns tapas por onde caísse. E ainda ouviu quando ela respondeu pra ele: “vagabunda era a tua mãe, aquela cadela!”.

De resto, foi uma confusão que deu o que falar por muito tempo, no puteiro da gringa Catarina. Aliás, que a gringa se viu na situação de ter que mandar as duas embora; “por falta de profissionalismo”, disse ela. De um jeito ou de outro elas não iam poder trabalhar tão cedo, porque o Olegário soltou o braço com disposição e sem economia. “E ainda terminei o serviço, que já tava mesmo pago, e eu não ia perder!” - disse ele.  

Quanto àquela coisa de fedorenta e dente podre, o Olegário disse que não passava de implicância de uma com a outra; e que as duas eram até muito bonitinhas, confirmando o que eu disse antes, sobre as “gurias” da Catarina. (Continua....)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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