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20/10/2010 17:08:58
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XVIII – UM CORPO EMPONCHADO
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia


XVIII – UM CORPO EMPONCHADO NUM TEMPORAL DESABADO!

 


A vida na estância seguia o seu rumo; e cada um cuidava de fazer o seu trabalho. O João Vieira retornava com a turma dele para o galpão da estância todo o fim de tarde. O que não impedia que a gente conversasse todos os dias, já que o almoço era preparado lá mesmo, no posto, pela mulherada. E ele me dizia que estava muito satisfeito com o trabalho de todos. Mas eu sabia que alguma coisa não andava bem com o capataz. Embora negasse, eu percebia que no seu íntimo ele estava sofrendo por ter de deixar aquele lugar. Finda a guerra, muitos anos antes, o capataz deu com os costados nos campos da Tapera. E, desde então, não conheceu outro pouso. Um dia comentei com meu sogro sobre o estado de ânimo do João Vieira, que isso me preocupava, porque eu me sentia um pouco responsável por ele, assim como ele por mim.
_ Conheci muito homem dono de estância, mas é a primeira vez que vejo uma estância dona de um homem! - disse ele, a respeito do amigo de muitos anos. E eu só pude concordar. Aliás, que fora o seu Alírio eu acho que ninguém conheceu melhor o capataz do que aquele índio.        
Viver com Joanita era como viver uma outra vida dentro da própria vida, que eu já vivia. E aprender com ela era uma tarefa à parte, todos os dias. Obedecendo a força do sangue charrua, a indiazita lidava com a cavalhada da mesma maneira como um guri de estância lida com a cachorrada: dando nome aos animais e chamando-os, a todos, pelo nome. Eu me surpreendia, sempre, ao ver com que facilidade eles se sujeitavam a ela. Quando um cismava de não querer atender a um chamamento, Joanita explicava que ele talvez não quisesse companhia naquela hora, assim como a gente, de vez em quando; e que isso era uma coisa que tinha que se respeitar. Para ela, montar sem arreios, que ela nunca usava - no cavalo, não nela - e sair a galope pelos campos, deixando que o próprio animal decidisse por aonde ir, dava uma sensação de liberdade, que a aproximava do Criador. A liberdade era um presente Dele - o que os cristãos chamam de livre arbítrio, penso eu - e foi dada não só aos homens, como também a todo ser vivente; e até mesmo ao vento, segundo ela.
 

      
Joanita dizia que seria minha, para sempre, neste ou no outro mundo, desde que eu não a tivesse como coisa minha, pois que a posse extingue a liberdade; e sem liberdade, não há amor; e não havendo amor, não há vida. Para ela, o desejo de posse era a razão maior do sofrimento daqueles que têm a descendência européia, já que eles eram escravos dos próprios desejos. Nos meus tempos de sacristia eu tinha lido algumas coisas sobre isso, e já nem me lembrava mais disso; de modo que foi com alegria que me vi, de novo, pensando sobre esse tipo de coisa. O segredo da doma do índio, explicava-me ela, era que o domador branco achava que era preciso não apenas domar a carne do animal, mas que era preciso, também, subjugar a vontade, o espírito, enquanto que o índio dava-se por satisfeito em poder compartilhar a vida com o animal, que compreendia isso e tornava-se dócil, submisso até.              
Se essas coisas eram verdades, não me importava saber naquela hora; isso eu saberia quando tivesse que partir deste mundo e prestar contas a Deus. O que me importava, mesmo, era o encanto que ela tinha para mim. E hoje, nos momentos em que consigo raciocinar com um pouco mais de clareza, sobre as coisas que ela me dizia, percebo que o fato de existir, noite e dia, não se deve apenas a um capricho da natureza, mas, sim, que faz parte de mais uma dentre tantas lições deixadas pelo Criador, como ela tanto queria que eu compreendesse. A vida é, mesmo, uma alternância de situações que só se termina com a morte: dia e noite, frio e calor, tristezas e alegrias, tudo se sucede, confirmando o ditado dos antigos que diz que não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe.
 

Vivíamos felizes, eu e ela. E nem mesmo a iminência de deixar a Tapera me causava tristeza, pois conforme eu disse antes era apenas um outro ciclo que se iniciava. Nós não fazíamos planos. Joanita dizia que fazer planos aprisiona o homem ao desejo de um futuro que não pertence a ele, mas ao destino traçado pelo Ser Maior. Era preciso viver um dia de cada vez, fortalecendo o espírito para o dia seguinte e para viver algum contragosto; que certamente viria, cedo ou tarde. O homem branco, dizia ela, não aceita as contrariedades como parte da vida. E por não estar pronto para isso, é que trazia, sempre, sofrimento ao coração. 

Numa sexta-feira à tarde voltávamos do campo, meu sogro, Joanita e eu, em direção ao acampamento, junto ao rancho do Pedro Laureano. Nós passamos quase o dia todo atrás de reculutar uma potrada, que meu sogro pretendia levar com ele. Nos primeiros dias de apartes, Joanita e eu achamos melhor ficar por lá, junto do posto, já que ela não queria ficar solita na casa grande. E eu achava muito cansativo ter que ir do posto para a estância, todo final de tarde. Acontece que o serviço, agora, era bem pouco; e nós já tínhamos resolvido passar o fim de semana na casa grande. No fundo, eu queria poder conversar um pouco mais com o João Vieira. E Joanita, também, já estava com saudades da casa; o que eu até estranhava um pouco, já que não era dada a esse tipo de apegos. Mas ela me disse que sentia como se aquela casa fosse nossa; e que por isso gostava de estar lá. 

Sem que ninguém esperasse um vento gelado se veio da banda oriental, pegando a todos meio que de surpresa, já que não era mais tempo das friagens. E tanto eu quanto o índio voltamos a cabeça na direção da origem, ao mesmo tempo.         
_Bueno! Se a coisa vier conforme se apresenta, é melhor que vocês tomem depressa o rumo da estância. Aproveitem o final de semana e vejam se me arrumam logo um neto, pra eu ter com quem brincar em dias como esses que vêm por aí.         
Para sorte nossa o Pedro Rengo amanheceu com todas as juntas do esqueleto doendo; sinal de muita chuva, segundo ele. Eu que já conhecia bem as baldas do velho, achei por bem atar o meu poncho por sobre os arreios, só para se um acaso; e passei muito trabalho pra convencer Joanita a fazer o mesmo, o que ela acabou fazendo muito a contragosto, e rindo da minha cara.        
_ Um dia tão lindo e tu fazendo questão, só por conta de uma cisma! – reclamou. Mas eu insisti, até que ela acabou cedendo. Afinal de contas, não era ela a pessoa mais indicada para reclamar dos pressentimentos alheios.          
De início eu não dei muita importância ao mau tempo, que se aproximava de nós. Até porque aquilo já não era mais tempo de chuva grossa. Mas depois de observar o céu, repetidas vezes em menos de uma hora, comecei a achar que a coisa não ia ser, assim, tão fácil. Os meus medos enraizados por situações anteriores se vieram de uma só vez, quando ouvi o índio Guarany dizer, com ar de quem não brinca com o que diz:
_ Temporal de raio e de vento, isso eu lhes posso garantir! Entonces é melhor que ganhem logo o rumo das casas, que ninguém é louco de se bobear e ficar a campo com o que vem aí.
 

Olhei com cuidado para o céu, sobre a cabeça dos uruguaios, e concordei que aquilo que se avizinhava era coisa mui séria. De modo que mesmo de poncho acostumado a desaforo, a situação não recomendava que se ficasse debaixo do aguaceiro.
O problema seria o caminho por onde voltar. Pelo campo aberto não era coisa pra quem tivesse juízo; e o caminho que restava...
Só de pensar em trotear por aqueles lados num tempo daqueles me fez subir um arrepio pelo espinhaço, que levou mais de hora até baixar todos os pelos. E foi o próprio índio Guarany quem fez a recomendação do caminho de volta - coisa de sogro -, alegando que já era meio tarde e que por conta do mau tempo iria escurecer mais cedo. Portanto, o melhor seria andar por um lugar que oferecesse algum abrigo, em caso de precisão. Mas, depois de recordar o que aconteceu da última vez em que peguei um temporal naquele costado de sanga, achei que não era aquele o melhor lugar para um passeio com a minha prendinha.        
Acontece que não tinha mesmo outro modo de ir para casa, com alguma segurança. A não ser que a gente resolvesse não passar aquele fim de semana na estância, pois era certo que choveria por dois ou três dias.
 

Saímos num trotezito apurado, deixando que os cavalos galopassem por conta quando o terreno permitia, pois aquele era um campo que tinha suas particularidades: ou era limpo, de se poder ver a corrida de um tatu em noite de lua cheia, ou era maceguento de esconder um lote de borregos gordos. Já estávamos perto da mata, faltando vencer só mais um cerrito, quando a chuva chegou. Primeiro um garoão de pouca força, mais vento do que água. E logo em seguida veio chuva de verdade, derramada com fartura, o que nos obrigou a entrar na mata meio de qualquer jeito, já que não se tinha tempo de procurar lugar melhor. Por sorte havia por ali um lugar de pouso de gado, debaixo de um copado bem cerrado de umas árvores baixas, de chão limpo; e que se mantinha praticamente seco, mesmo com todo aquele aguaceiro.        
De há muito que eu vinha sentindo uns arrepios pelo espinhaço, mas eu não quis comentar meus pressentimentos com Joanita, que a índia era cismada com essas coisas de sonhos e avisos sem explicação. Embora eu achasse essas crendices dela pouco cristãs, achei melhor deixar pra lá e não complicar as coisas, as quais já não andavam muito boas. Deixei o pensamento vagar sem rumo e acabei lembrando que na Bíblia tem uma história dum hebreu - José, se não me engano - que se tornou o querendão no Egito, só porque sabia ler os sonhos. O que me fez pensar que minha prendinha talvez não andasse muito errada, quando acreditava nos sonhos dela; apesar de eu também acreditar que as leis dos santos não campeassem junto aos campos da Santa Helena.        
Nossa situação não era ruim, ainda que a noite tivesse chegado mais rápida do que se esperava. Mas, mesmo assim, podia se dizer que tivemos sorte. Estávamos num lugar onde mal caía um pingo aqui e outro ali. Os ponchos nem chegaram a molhar muito e os cavalos estavam secos e calmos. Decerto que não se poderia passar a noite por ali, pois que a sanga corria mui perto; e havia sempre o perigo de uma inundação nos pegar desprevenidos durante um cochilo, que a força das águas não é coisa com que se facilite.
 

Temporal de campanha não é um negócio muito bonito de se ver. E aquele que não é acostumado com a vida no pampa, se assusta e com razão. São nuvens tão escuras e grandes, que parecem cobrir o Rio Grande inteiro. Quando não é chuva de vento é de gelo; quando não é de gelo é de raio; e quando Deus cisma de avivar o gaúcho, é tudo ao mesmo tempo! Apesar do susto inicial, a pior parte passou depois de mais ou menos uma hora. E qualquer gaúcho sabe que numa hora dessas o que se tem de fazer é buscar abrigo num capão de mato e ter paciência. Se tiver canha, melhor; se não: paciência dobrada. 
_ Logo, logo, o tempo se acalma e a gente pega o caminho de casa. Saindo tudo como deve sair não demora, e a gente tá no nosso ninho - eu disse pra Joanita, que procurou aconchego junto ao meu peito. Eu, de início, pensei que ela estivesse um pouco assustada com a chuva. Mas os modos dela me diziam que não era isso. Tinha alguma coisa acontecendo.
_ Ouviste? - perguntou ela.
_ O quê?
_ Não sei! Achei que tinha escutado alguém gemendo...
_ Não te assustes, minha prendinha! Deve ser um animal qualquer, que decerto anda molhado ou com frio.
_ Não, não é bicho, que bicho do mato eu conheço desde pequena. O que é eu não sei, mas bicho não é!
Ficamos em silêncio por um tempo, ela na intenção de descobrir o tal gemido e eu cuidando de avaliar se já era possível sair dali. Não que eu tivesse medo de qualquer animal gemendo no mato. O caso é que eu tinha coisas mais interessantes pra fazer em casa e não sobrava nenhuma vontade de descobrir o que estava se passando naquelas entranhas.
 

Nisso, o clarão de um raio reverberou por dentro da mata fechada, seguido por um estrondo de fazer tremer o chão. Senti outra vez um vento frio me subir pelo lombo, fazendo arrepiar até os cabelinhos de dentro do nariz. Foi quando Joanita me apertou o braço.
_ É gente! - disse ela, como se tivesse mesmo resolvido o mistério.
_ É gente precisando de ajuda. Não me digas que não ouviu?
_ Só o que eu ouvi foi uma trovoada; e não gostei! Do jeito que vai a chuva, não para tão cedo. E eu já tô achando melhor a gente seguir viagem. Alguma coisa por aqui não tá me agradando!
_ Vamos procurar!
_ Procurar o quê, guria?
_ Quem tá precisando de ajuda! Não é possível que não tenhas escutado.
_ Só escutei uma trovoada. E não acredito que com um barulho daqueles tu tenhas escutado alguém gemendo!
_ Pois eu te juro que ouvi. E eu não vou embora e dar as costas para um vivente precisado!
_ E quem disse que é vivente? De jeito nenhum que tu vais me fazer procurar pela boca de quem geme, numa escuridão dessas e num lugar como esse!
_ Mas é claro que é algum vivente! Já viste morto gemendo, por acaso?
_ Não sei. Neste canto do mundo pode acontecer de tudo. Quem precisa de ajuda não geme, diz: me ajudem!
_ O que se passa contigo, paisano? Eu não acredito que o Graxaim da Tapera ande com a cola no meio das pernas, só por causa do escuro!
_ Mas que barbaridade, guria! Por acaso tu já me viste com medo?
_ Então, o que é?
_ Respeito! - eu disse, seco.
_ Como assim?
_ Sabe-se lá o que se passa aí pra dentro? Eu ando sempre prevenido, porque tudo o que não presta se achega pro meu lado. Se puder evitar, eu evito.
_ Mas eu não. Até porque me criei a campo e até hoje não conheci bicho que não fosse deste mundo - disse ela, desafiando-me.
 

_ Tu diz isso porque não conhece o seu Ernesto Mão-pelada!
_ Não fala bobagem! Além disso, quem sabe se não é alguém como a gente, que ganhou o mato de qualquer jeito por causa do aguaceiro e num golpe de azar acabou se pisando?
_ Bueno! Agora tu me fez pensar melhor. E, nesse caso, não custa nada dar uma olhadinha pela volta. Mas eu quero que tu me prometas que quando eu disser que é hora de voltar, tu não vais discutir.
_ Mas é claro que não, meu senhor! Não é o senhor quem manda? - disse ela, debochada.
Eu ainda pensava em que lado seguir, quando ela saiu na frente, obrigando-se a partir, apressado, no rastro dela. A verdade, mesmo, era que eu não tinha nenhuma pretensão de ficar dando voltas no escuro, procurando por alguma coisa que eu nem tinha escutado, não sabia o que era e nem queria descobrir. Saímos puxando os animais pelas rédeas, caminhando com cuidado, por causa dos galhos mais baixos, procurando não nos afastar muito da saída para o campo. Afinal, nunca se sabe quando vai ser preciso mudar de idéia numa situação daquelas. Para minha sorte, Joanita enveredou por um caminho onde não se podia passar com os cavalos; e eu achei que era a hora certa de voltar, já que deixar os cavalos para trás não era coisa nem de se pensar.    
_ E então? - perguntei. Mas ela não me respondeu. E chegando mais perto de mim colocou um dedo sobre meus lábios, pedindo silêncio. Confesso que não fiquei nada satisfeito de ter, finalmente, ouvido o que ela teimava em dizer que tinha ouvido. O caso era que ouvir gemidos de dor, justo no costado dos campos onde imperavam as vontades do Mão-pelada, era coisa de afrouxar a barriga, até mesmo de um guapo como eu. Não nego que me passou pela cabeça a possibilidade de descobrir que aquele lamento podia vir da boca de uma morena, que sumiu sem deixar rastro; e que eu tremi só de pensar nisso. Era como se eu voltasse a viver o mesmo pesadelo.
_ Tá muito longe, mal se escuta – falei, sem muita certeza.
_ Não, não tá longe; tá baixinho e bem perto! Fica aqui com os cavalos, que eu já volto – disse.  Mas antes que pudesse sair do lugar, eu agarrei o braço dela.
_ Não senhora! De jeito nenhum que eu vou te deixar sumir por aí, sozinha. Ou vamos juntos ou eu vou só.
Mas Joanita tinha seus próprios modos de fazer as coisas. E sem que eu esperasse, atou as rédeas do cavalo num galho baixo e saiu caminhando rápido pela escuridão, me deixando resmungado um monte de desaforos.
_ Não te preocupas comigo. É só tu não saíres daí, que eu te acho de volta - disse ela, sem dar atenção para o que eu dizia. Eu bem que tentei seguir no rastro dela, mas estava muito escuro. E apesar de eu poder ouvir os passos fui obrigado a desistir, com medo de acabar indo parar em outro lado, o que só aumentaria a confusão. Acontece que Joanita também tinha seus momentos de pouca sorte. E não tinha, ainda, andado uns dez metros na escuridão, quando tropeçou e caiu, deixando escapar um grito abafado. Aproveitei a oportunidade para um puxão de orelhas, à distância:
_ Pelo amor de Deus, guria! Isso lá é hora de perder o juízo? Volta pra cá, antes que tu te pises. Se não, daqui a pouco vai ser tu quem vai gemer por aí - eu disse, com raiva.
_ Já vou! - respondeu ela, sem discutir; o que me fez pensar que talvez ela tivesse mesmo se machucado.
_ Cadê tu, guria?
_ Eu tô aqui, bem na tua frente. Vem me ajudar.
_ Mas que merda! Eu não disse que tu ia te machucar, teimosa? Por que é que tu nunca me ouves?
 

Preocupado, tratei de tentar chegar até ela, achando que precisava de ajuda. Mas Joanita tinha me reservado uma de suas surpresas. O caso foi que ela não tinha tropeçado em nenhuma raiz, como eu tinha pensado. O que se passou foi que tropeçou no corpo, que estava caído bem no caminho, o qual ela agora arrastava com dificuldade, me pedindo que a ajudasse.
_ E agora? O que é que tu me dizes, teimoso?
_ Digo que tu não tens juízo. Onde já se viu...        
Era impossível dizer qualquer coisa do infeliz que se achava aos nossos pés. A escuridão mal permitia que se pudesse ver um ao outro. O jeito era sair dali o mais rápido possível e tentar ver o que se podia fazer pelo gemente.
_ Quem será esse gaudério? É uma pena que não dê para enxergar a cara dele. Vá que seja o Ernesto velho, já morrendo, e eu aqui fazendo força pra salvar a vida dele. Não gosto nem de pensar. Eu mesmo me dava uns relhaços pelo lombo, se fizesse uma bobagem dessas!   
_ É uma mulher! - disse Joanita. _ Vamos deitar ela sobre o lombilho e sair logo daqui.
_ Quem te disse que é uma mulher, se eu não consigo enxergar nem mesmo o meu cavalo que trago pela rédea?
_ Por que eu tive que carregar ela de lá pra cá; e eu conheço o corpo de uma mulher porque é igual ao meu, ora!
 

Deixamos a mata e ganhamos o campo debaixo de muita chuva, coisa que eu só concordei em fazer porque a tempestade de raios já tinha passado e, no mais, agora era só água, mesmo. Eu ainda pensava no que fazer, quando Joanita tirou o próprio poncho e colocou por sobre o corpo, atravessado sobre o cavalo.
_ Mas o que é que tu estás fazendo, guria? Por acaso tu não vais montar? Depois que tu tiveres montado, o teu poncho irá cobrir as duas.
_ Ela tá muito gelada, precisa se aquecer bem!
_ Não vais me dizer que pretendes ir sem poncho, numa chuva dessas?
_ Só se o meu marido permitir. Mas eu não creio nisso, ele é um homem muito educado...
_ Mas que coisa de louco, guria! Tu só me tira do sério! - fui dizendo, enquanto tirava o meu poncho, contrariado, e sentindo a chuva me atacar sem pena. _ Por que tu não me pediste logo o meu, pra cobrir ela?
_ Porque antes que tu resolvesses fazer o que te peço, irias reclamar por pelo menos uma hora. E isso só iria piorar o estado dela; assim foi mais rápido.
_ Que bonito! Vais salvar a mulher e matar o teu marido... – falei, tremendo de frio.
_ Não faz caso, meu amor! Quando chegar na estância, eu sei o que fazer pro teu sangue voltar a ferver nas veias.
 

Aquele tipo de promessa não era bem o que eu precisava naquela hora. Vendo Joanita vestir o meu poncho largo, que cobria não só ela como também a moça e quase todo o lombo do cavalo, não pude deixar de dizer umas palavras de gratidão ao anjo que me fez trazer os ponchos, mandando um sinal através das dores nas juntas do Pedro Laureano. Acho que foi a primeira vez que agradeci ao Céu pelo fato de alguém sentir dor! Não contando, é claro, com aquela vez em que o Mão-pelada fritou um olho com um tição de brasa.
_ Tens certeza de que não quer que eu traga ela no meu cavalo?
_ De jeito nenhum! Essa tua égua rosilha pode ser da tua confiança pro serviço, mas hoje ela tá me parecendo muito inquieta; parece contigo.
_ E não é pra se ficar inquieto, numa situação dessas?
_ Tá vendo? É como eu sempre te digo: conforme tu te comportas, assim é que vai se comportar o teu cavalo. É só tu te acalmares, que ela se acalmará também.
_ Fácil de falar, pra quem vem bem agasalhada...
_ Não diz uma coisas dessas, meu sorrinho molhado. Tu nem imaginas o quanto me dói o coração de te ver, assim!
_ Podes ter certeza de que dói muito mais em mim. Mas que barbaridade! Isso lá é tempo de cair uma chuva dessas? Quando chegar em casa vou me sentar na frente da lareira e derramar meio litro de canha num gole só! - eu disse, pensando em como seria bom se eu tivesse ali comigo um trago, pra aquecer os ossos.         
Quando chegamos na estância eu pensei em levar a moça pra o galpão, onde eu sabia que o João Vieira já teria feito fogo grande, me esperando pra o mate. Pelo menos foi isso o que nós combinamos, logo pela manhã. A cachorrada tratou de dar o aviso da nossa chegada; o que alertou o capataz, que saiu à frente do galpão para ter certeza de quem se tratava, e respondeu de pronto ao aceno que eu fiz, numa espécie de chamamento. Veterano no trato com situações de enrosco, o João Vieira percebeu de pronto que tinha algo errado. E eu nem bem tinha apeado e ele já estava no costado, ajudando Joanita a tirar o corpo desfalecido de sobre o matungo. Pegando a moça no colo, sem dificuldade, saiu apressado no rumo da casa grande, assim que teve certeza de que ela estava viva.
_ É numa hora dessas que a gente vê a serventia de um poncho campeiro - observou o capataz.
_ Eu que o diga! – respondi, reclamando do frio.
_ Leva os matungos pra o galpão e ata por lá, que depois se desencilha. Aproveita e pega aquele balde velho enferrujado, junta o que puder de brasa e traz pra acender o fogo aqui de dentro da casa grande - disse ele, sem perder tempo com indagações.
Depois de alguma luta e muito cansaço, pudemos, enfim, sentar para chimarrear junto à lareira. Joanita já tinha terminado de limpar a moça, com uns panos quentes banhados numa infusão de ervas. E agora tinha posto nela roupas limpas e quentes. Para completar o serviço fez a coitada beber de um chá de eucalipto-cidrão, misturado com uma outra erva que eu nem sei dizer o nome, mas que fazia a bebida feder e cheirar bem, ao mesmo tempo. Quando ela se achegou até nós, eu me fartava de canha com chimarrão, encolhido junto ao fogo. Joanita não bebia nada que tivesse álcool, por isso aceitou, sorrindo, o mate, quando o capataz lhe ofereceu.
_ Tu devias era tomar um pouco daquele chá que eu fiz pra ela; pegaste muita chuva e é sempre melhor prevenir – falou-me ela.
_ Não faz caso, minha prenda. Tu podes entender muito da tua medicina, mas pro mal que eu tô sofrendo agora esse é o melhor remédio.
_ Como é que ela está? - quis saber o João Vieira.
_ Eu achei a coisa muito séria. E não me agrada o estado dela. Judiaram muito, como pra matar, mesmo. Ainda bem que pelo menos ela tomou do chá que a mãe me ensinou; e que eu já vi levantar gente em estado pior. Em todo caso ela precisa descansar bastante. E, por isso, eu misturei uma erva forte que vai fazer a coitada dormir muito tempo, no mínimo um dia inteiro.
_ Nesse caso o melhor é a gente ir dormir, também. Agora não adianta ter pressa. E tu tens razão. Quanto mais ela descansar, melhor. Quando ela acordar a gente descobre o que se passou e como é que ela foi parar por lá.
 

Assim que ele se foi, eu procurei o caminho do ninho e caí disposto a dormir um dia inteiro, também. Mas antes que eu apagasse, Joanita me fez beber o tal do chá, com a diferença que sem a erva que fazia dormir.
_ Pode ser que a gente tenha trabalho com ela durante a noite e eu não posso ficar sem a tua ajuda. Amanhã tu vais te sentir novo - justificou.
Pouco antes de clarear o dia fui ao encontro do capataz, no galpão.
_ Buenos dias! - fui saudando, ainda da rua.
_ Buenos! Se achegue pro mate! - convidou ele. O capataz já havia chimarreado muito, pois tinha por hábito fazer madrugadas grandes, enquanto que eu tinha por costume dormir um pouco mais. Mas, mesmo assim ele sempre me esperava com o mate renovado e disposto a tomar mais dois ou três, só para fazer companhia.
_ Que tal a moça? Passou bem a noite?
_ Melhor que eu, eu acho. Não deu nem mais um resmungo, depois que bebeu daquele chá.
_ O que é que tu achas?
_ Não sei bem te dizer, mas foi anarquia das grandes o que fizeram com a coitada. Pelo menos foi o que a Joanita me disse, já que ela não me deixou olhar a moça. Eu tenho pra mim que isso não vai ficar assim no más. Não demora e vai aparecer alguém procurando por ela. Se ela escapar dessa eu vou deixar de implicar com as beberagens que Joanita prepara. Podem não ter um gosto muito bom, mas se funcionarem já valeu a pena.
_ Não deu pra ti ver se tá muito machucada?
_ Não. Mas eu perguntei pra Joanita se ela poderia ter se machucado por ter caído do cavalo, e ela me disse que aquilo foi tunda mesmo; apanhou de cima a baixo e de um lado ao outro!
 

_ Melhora?
_ Acho difícil. Cuspiu sangue à lá-farta, por pelo menos umas três vezes. Mas nem assim soltou um ai; dorme como uma pedra.
_ Isso não tá me agradando. Se vocês tivessem encontrado ela em outro lugar, eu ficava mais descansado. Mas logo no costado da Santa Helena!
_ Eu pensei a mesma coisa. Ninguém me tira da idéia que aquele animal do Mão-pelada tem o dedo nisso. É bem do feitio dele. Quem sabe seja alguma empregada nova, que não se sujeitou aos amores daquele bicho?
_ Eu tive pensando em ir no povoado, indagar pelos bolichos. Mas o melhor é a gente esperar para que ela mesmo diga. Se aparecer alguém procurando, a gente diz que não sabe dela. Pelo menos até que ela possa falar se quer ou não que a encontrem. Nunca se sabe se quem chega é a favor ou contra - concluiu o capataz.        
No dia seguinte quando, eu me preparava para ir matear com o capataz no galpão, Joanita se levantou e chamou por mim. Eu cheguei a pensar que a moça tinha deixado este mundo, mas Joanita me disse que não se tratava disso. O caso era que apesar de conseguir manter a coitada sem febre, não conseguia fazer com que parasse de cuspir sangue; e ela não sabia o que fazer.
_ O que é que tu achas que pode ser feito? Ela piorou?
_ Não, pra falar a verdade até que ela botou menos sangue esta noite. Mas, mesmo assim eu fico preocupada.
_ Tem calma, minha prendinha, o que tu podias fazer já fizeste. O jeito, agora, é esperar. Vamos ver como é que ela passa esta noite. Conforme for, amanhã a gente procura ajuda.        
Na segunda-feira pela manhã encontrei Joanita na cozinha com a aparência cansada, cochilando, sentada num mochinho, enquanto esperava que a água fervesse pra fazer um chá. Desde que começou a cuidar da moça que Joanita dormia no quarto com ela. E, embora ela negasse, eu pude perceber que ela, na verdade, não andava dormindo muito.
_ Cansada?
_ Tô. Não consigo dormir, de jeito nenhum. Fico com medo que ela me chame e eu não consiga acordar.
_ Pois, então, deixa que eu tome conta dela durante o dia, pra ti poder ir dormir na nossa cama. Doente é doente, não importa se homem ou mulher. E eu tenho certeza de que ela não vai se importar que eu fique com ela.
 

Depois de aprontar o chá, Joanita me fez trezentas recomendações sobre como cuidar da moça. Fomos até o quarto, para que ela me mostrasse como é que eu tinha de fazer para trocar as compressas, que tinha posto sobre o rosto machucado da moribunda - que me perdoem a palavra, mas eu achava que ela estava, mesmo, mais pra lá do que pra cá. Quando Juanita destapou o rosto da pobre, senti que não foi por acaso que ela tinha ido parar na Tapera. Ainda que muito deformado eu reconheceria aquele rosto, mesmo se fosse possível ficar ainda dez vezes pior.
_ Conheces? - perguntou Joanita, quando viu o meu assombro.
_ Tu não vais acreditar...

(continua...)
Autor: André Moab Garcia
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andremoabgarcia@hotmail.com

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