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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

15/12/2011 23:40:59
MENINO JESUS GAUDÉRIO
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Lembrava uma dessas tardes de inverno pampeano. O céu empedrado, sem um ventinho: sinal de geada braba. Mal dera o Angelus e não se encontrava viv’alma na rua. Frio de renguear cusco! A china vinha embuchada de nove meses. Agarrava-se nas rédeas, quase deitada sobre o cavalo mancarrão, único que conseguira, exatamente por não valer nada. O caborteiro responsável pela empreitada sumira na perdição da vida, desconhecendo que a repontada trazia piá gaudério para este mundão sem porteira. Quando sentiu o primeiro garroteamento no baixo ventre apertou os calcanhares na ilharga do animal, que estucou o passo. Olhasse para todo o lado e não enxergaria nem uma taperita de consolo. Fez a curva da estrada, já agarrada na reza para Nossa Senhora do Bom Parto, única fidalguia que a podia valer. Despontou, lá no longe, um bolicho guaipeca, desses perdidos ao meio do nada. É o Deus dará e o bolicheiro. Acelerou a montada, mais uma vez. Sem querer, apertou os pés na ferroada da parição; e o animal respondeu. O bicho bagual, embora macho, entendia dessas coisas de botar cria no mundo. Na frente do bolicho, apeou-se devagar. A barriga era um escorrego só. Apesar do frio, ou por isso, a indiada estava firme na canha do fim de dia. A rapariga, embora china embuchada, era bonitaça. A homarada se virou para especular, enquanto ela perguntava ao dono do bolicho onde poderia encontrar pousada, que o piá já estava querendo olhar a querência pelo lado de fora. O bagual coçou a cabeça, dizendo que não tinha acomodação. Mas que a umas quadras dali ficava a Estância da Ramada, gente boa que só ela; haviam de lhe dar guarida. _ Acha que aguenta o piazito até lá? _ Há de aguentar - assegurou a mãe -, pois, se não tem outro jeito, arreglado está! Tocou-se a passito, que os sacolejos do cavalo lhe provocavam repuxos imediatos. Apeiou, para abrir a porteira, e segurou-se um pouco no moirão da cerca. A alameda que levava à fazenda era ladeada por tarumãs antigos. Provocava medo aquele corredor escurecido pela galharia, mas impunha-se atravessá-lo. E foi-se, de manso, a segurar a barriga, como se pudesse impedir o nascimento soflagrante. Não chegara à casa grande e já o capataz vinha encontrá-la num zaino guapo. Marilena foi pedindo pousada, explicando o parto iminente e mostrando o rocim em que vinha. _ Minha dona, bem que lhe queria fazer os préstimos, mas nem o patrão nem a patroa estão nas casas; foram para a cidade, passar o Natal com os filhos - esclareceu o homem. Abombada, não se aguentando mais, a chinoca se desacorçoou. Grossas lágrimas rolaram, enquanto puxava as rédeas e retomava o trilho, por onde viera. _ Mais três quilômetros e tu encontrarás a Estância do Caverá; te dão guarida. Ouviu, nas costas, a indicação. Tocou a montaria, na precisão. Já ia tironeada das ideias. Era chão a não se acabar, naquela emergência. O frio entrava pelo poncho, a gelar-lhe os ossos. Era breu o céu. E o suspiro da noite molhava-lhe os cabelos. _ Nossa Senhora do Bom Parto, me dá uma boa hora - pedia desesperada. _ Uma taperita qualquer, onde eu possa apeiar de vez; e uma alma que não seja maleva, pra recolher meu rebento. De longe enxergou as luzes. E a esperança voltou ao seu coração. _ Ai, que me emendo, minha Nossa Senhora, saio da vida e crio raiz. E amargava em cima do pingo, como se isso adiantasse. As luzes vinham do galpão, de onde desencantava um som de cordeona, bonito de se ouvir. Mas difícil era prestar atenção, naquele momento. A casa tinha todas as janelas fechadas. Alguns fiapos de luzeiro escapavam das venezianas. Escolheu o galpão, para se apresentar. _ Buenas! Estou procurando asilo para mim e para a cria, que já está apontando. O chiru tirou, devagar, o pito da boca, empurrou para trás o chapéu e largou a cordeona, encostada num tripé brilhoso do uso. Era certo que esses movimentos, muito lentos, lhe permitiam avaliar a chinoca e pensar numa resposta. A mulher vestia uma chita muito molambenta e umas botas masculinas, que se viam maiores que os pés que guarneciam. E o poncho estava esticado, pelo tamanho da barriga. Era china, se via de longe. _ Cuê pucha! Como que vem embarrigada desse jeito? Há de grunir um bocado, minha prenda. _ Ai, senhor, não havia maneira de ficar naqueles pagos. A dona do arranchado que eu servia não fica com piá guaxo, entrega tudo pra o padre. Sou china por percisão. Apertei a cincha o quanto deu, para não mostrar a cria. Solita, passei na treva da espera. Depois, não deu mais. Não havia recau que segurasse o guri. Dei com os costados na rua. Eu fiz por gosto pelo homem. Vou parir e eu vou criar. Me ajude, senhor! Só um canto para largar o corpo, uma mão para aparar. O chiru mediu o bucho e viu a cria despontando como vaca no pasto. Era haragano, mas não era jerivá. A dor do sangue do Rio Grande bateu-lhe, e as peleias se insurgiram.  Pois que venha, se arresolveu. _ Pois, comigo morocha não fica no desprotejo; assunto tu e a cria. Vou encilhar meu cavalo, que o teu não serve nem pra mais uma quadra. Tá estropiado. E me chame José. Pegou a china pelo braço, para que apeiasse. Chamou a peonada a arreglar pouso. Os gaúchos se olharam, entrecoçaram as pernas na bombacha solta e se puseram a serviço. _ Meu nome é Marilena, mas pode me chamar Maria, como todo mundo faz. Saíram montados no mesmo animal. Passaram por detrás da casa grande, esparramada no meio do terreiro. E se perderam na noite do campo, através do assobio do vento, desses dezembros, que às vezes, assolam o Rio Grande. Depois de meia hora, já em pleno pasto, avistaram uma choupana, onde os homens já tinham alumiado o fogo. Apeiaram. José prendeu o cavalo e abriu a porta sem trinco. Lá dentro, os peões aguardavam trovando. _ Tenho mulher pronta pra dar cria - foi avisando José, com o cenho franzido e a mão no relho trançado, que pendia ao lado do facão; a traíra presa no cinturão. Os empregados, conhecedores da severidade do capataz, apertaram os ponchos ao corpo e postaram-se em guarda ao redor da casa coberta de quincha. Falavam baixo e não levantavam os olhos, para não assuntar a dona que se enfiava às pressas na salvação. Amontoada e já afofada num canto uma porção de palha cheirando a mofo esperava. _ Se ajeite, moça, que é por aqui mesmo o nascedouro. Tirou o poncho e estendeu por cima da cama improvisada, mais para bicho do que para gente. Maria deitou-se, gemendo. As pernas apertadas, para segurar a cria e as dores agudas do parto. _ De buraco apertado não sai Bem-te-vi. Afrouxa, dona. Minhas mãos são de vaqueano, e nessas horas lhe hão de servir. Viram-se os dois a forcejar, para trazer ao mundo mais um filho de Deus. O piá berrou, estapeado no recavém. ­_ É gadelhudo o Chico, Maria! Gadelhas negras como as suas! - sorria José. A sisudez de gaudério se perdendo diante do choro de recém-nascido. Com peito já incendiado, falou mais para si mesmo: _ Pois não há de ver que é diferente de ver vaca e égua nascendo? É filho de gente! Correu ao cavalo e trouxe um pala, para enrolar o pimpão. Maria segurou o filho e o beijou, enquanto colocava no seio a boca buscadeira. Os homens, à espera, entraram. O choro fora o sinal da permissão. Os chapéus rodando nas mãos duras. Agacharam-se, olhando mãe e filho como quem olha santinho bento. Por trás, José fiscalizava os modos dos baguais. Um levantou-se e disse, muito solene: _ O menino vai crescer; precisará de defesa. Dou meu punhal de empunhadura de prata. Muito lhe há de servir. O segundo chiru não se fez de rogado; tirou a guaiaca e depositou diante de Maria: ­_ Dinheiro ele há de percisar; dou lugar para ter aonde guardar. O terceiro levantou-se e, meio envergonhado, declarou: _ De valor nada tenho, nem punhal nem guaiaca; mas colhi estas macelas, que hão de perfumar este lugar. E largou as flores douradas, ainda com um aroma fresco da terra gaúcha. _ Como há de se chamar o guri? Já basta que não tenha pai, nome há de ter! - atreveu-se o primeiro. _ Tome tenência! - rugiu José. _ Acha que sou algum alarife? Estou amanonciado! É meu guri, para o que der e vier! Trouxe o guri pro mundo, o filho é meu! Maria olhou o homem, o filho e pensou na Virgem e na promessa que fizera no caminho. _ Pois, se o pai se agradar se chamará Gesuíno. Lá no céu, naquele instante, acima de tudo, a luzeira cintilou!

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  Autor: Vana Comissoli
Causo enviado Por: Vana Comissoli - Porto Alegre / RS
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Conto gauchesco publicado aos 20.12.2010 e republicado em 15.12.2011.


 
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