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Os Filhos do Rio Grande:
Cheiro do Rio Grande,
de Darci Lopes

 

30/12/2010 20:24:18
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XIX – A COATIARA E O ALCAIDE...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia
 

XIX – A COATIARA E O ALCAIDE DO PESCOÇO-DE-COBRA!


No meu segundo dia como enfermeiro Joanita foi ao encontro da mãe, para pedir uns conselhos e ver se conseguia fazer com que a velha índia viesse dar uma ajuda. Como ainda era cedo, fiz um chimarrão. Sentei-me junto à cama e me distraí, pensando no que poderia ter acontecido para que alguém fizesse uma coisa daquelas com ela. Quando ouvi a voz, levei um susto:
_ Eu sabia que tu ias me achar... - disse ela, tentando um sorriso. Digo tentando porque ela tinha os lábios meio deformados; e era difícil dizer que ela sorria.
_ Foi Deus que te fez me encontrar. É tão bom te ver!
 

Não consegui evitar que uma lágrima teimosa escorresse pelo meu rosto. Helena tinha um significado muito especial na minha vida. De certa forma era como se ela fosse a minha única parente, uma mistura de irmã, amiga, amor perdido e sei mais lá o quê.
_ Tu não imaginas como eu fico feliz de poder ouvir a tua voz - eu disse, com alegria. _ Pelo amor de Deus, guria, o que foi que aconteceu contigo?
_ Paguei para um homem me trazer até aqui; e ele não foi muito direito comigo...
Sem me dar conta, tapei Helena de porquês:
_ Pagou? Mas que história é essa? Por que não mandaste me chamar, que eu ia te buscar? Por que tu foste embora, sem se despedir de mim? A gente tinha combinado de se encontrar; e depois sumiste de repente. Por que não me avisou?
_ Eu preciso te contar umas coisas que aconteceram, depois daquele dia que a gente se reencontrou na beira da sanga. Mas tu vai precisar ter paciência, porque eu não consigo falar muito, fico cansada. Mas é tão bom saber que tu estás comigo - disse ela, dando um bocejo.
_ Tudo bem. Descansa primeiro; e depois me conta tudo. Joanita tem feito um chá que tem te ajudado a dormir. É por isso que tu andas sonolenta. Mas não te preocupas, porque eu não vou arredar o pé daqui.
_ Eu também não pretendo... - disse ela, esboçando um meio sorriso.
_ É tão bom estar viva - ainda falou, com a voz fraca, antes de voltar a dormir.        
Joanita chegou logo depois do almoço, trazendo a mãe acolherada. Assim que chegaram as duas foram fazer um exame em Helena, para ver qual era o estado dela e o que, ainda, poderia ser feito. Em seguida a velha saiu, para procurar umas ervas; enquanto eu aproveitei para conversar com minha esposa.
_ O que é que a tua mãe acha?
_ Ela disse que ainda é cedo para saber se Helena vai ficar boa. Mas a mãe acha que por dentro dela tem alguma coisa que não tá bem; e que pode ser coisa séria.
_ Hoje pela manhã ela acordou - falei.
_ Que bom! Sinal de que então tá melhorando! Ela falou contigo?
_ Falou. Mas não chegou a dizer muita coisa nem o que aconteceu. Mas sabe que está aqui; e disse que era aqui mesmo que ela queria estar. Em seguida dormiu, outra vez.

Ao cair da noite Helena acordou, de novo. Dessa vez era Joanita quem estava com ela. Conversaram por pouco tempo, antes de Helena voltar a dormir. Mas a partir dessa noite o sono de Helena começou a normalizar-se. Em poucos dias já passava a maior parte do dia acordada e dormindo praticamente durante toda noite. 

Eu sempre soube que a minha indiazita tinha muitas qualidades no trato com o ser vivente. E mesmo assim fiquei surpreso em ver como Helena tinha se apegado a ela. Passavam horas conversando, durante o dia. E eu acho que foi essa atenção que Joanita dava para ela que fez com que Helena tivesse sobrevivido.

Para entender o que aconteceu com Helena, primeiro é preciso entender o que se passou com Isabel, aquela que pretendia complicar a vida do Nestinho e do Afonso; e que de certa forma conseguiu. Conforme eu expliquei, ninguém aceitou o convite da cafetina. E ela, então, achou que podia fazer as coisas do modo dela. Jeitosa, como convém a quem vive de explorar os outros, tratou de fazer amizade com a guria, que agora morava na casa que eles tinham alugado para os seus encontros secretos. E sem perder muito tempo, conseguiu descobrir os dias em que os dois tiranos apareciam por lá.        

Acontece que quando iam pra essa casa, os dois davam uns cobres para que a guria fosse passear pela cidade, enquanto eles conversavam. Vai daí que não deve ter sido difícil para Isabel ter conseguido botar a mão na chave da casa. Sabendo o dia em que eles estariam por lá, ela conseguiu, ninguém sabe como, convencer o Mão-pelada de ir ao encontro dela. Talvez usando o nome da Jandira, sabendo que isso faria com que ele atendesse ao chamamento. Nesse mesmo dia a tal guria, que fazia as vezes de mulher dos dois, deve ter fingido que esqueceu de alguma coisa, tendo voltado para casa com a intenção de saber se eles já tinham ido para o quarto. E assim que pode avisou Isabel, que já esperava com o Mão-pelada, tomando uns vinhos num lugar perto. Depois foi só levar o tinhoso até a casa, abrir a porta do quarto, empurrar o Ernesto velho lá pra dentro, e esperar para ver a confusão. 

 

Só o que ela não esperava era que o Ernesto tivesse ficado um pouco chateado com a surpresa; e que, por conta do dissabor, resolvesse abrir a barriga dela, de cima a baixo. Pelo menos foi isso o que nos concluímos, graças a um parelha do Leite-de-onça, que por acaso bebia no mesmo lugar onde estavam o Mão-pelada e Isabel; e que contou ter visto os dois juntos, naquela tarde. Depois, foi só juntar com o que Helena me contou, o que foi mais ou menos desse jeito.     

Helena remendava um vestido velho - que o noivo, mui sovina, não lhe comprava novos desde que o pai dela tinha morrido -, quando o Nestinho chegou à casa botando fogo pelas ventas, como se diz. De saída ela nem estranhou, já que o bruto era mesmo dado a descontar suas raivas em cima dela. E apesar de não ser tão macho quanto o pai, era grosso uma barbaridade! Conhecedora do tempo ruim que se armava na direção dela, Helena achou melhor nem levantar a cabeça para olhar a cara do noivo, achando que poderia servir de provocação. E do jeito como estava, continuou. Contrariado, como quem espreme um ovo contra o lombilho, mal entrou e já foi tapando a futura mulher de desaforos.
_ Não vais me olhar na cara, pra ver o estrago que fizestes, sua cadela?
 

Ela chegou a pensar que ele estivesse borracho, o que não era anormal. E por isso resolveu continuar com as costuras, na esperança de que ele fosse logo achar o que fazer em outro canto. Acontece que ele, decerto pensou que o desprezo dela era uma confirmação de que ela tinha mesmo alguma coisa a ver com o acontecido. Disposto a não deixar barato soltou de lá um pataço, que fez voar cesto, agulhas, banquinho e até a própria bota que calçava por cima do rosto da mulher.
_ Era isso o que tu queria: que eu apanhasse um pouco?
Helena ficou curiosa; e resolveu olhar na cara do noivo aborrecido. Antes precisou se livrar do cestinho de retalhos, que lhe tinha caído, mui cheio de capricho, bem por sobre a sua cabeça. E, quando destapou os olhos, descobriu porque o Nestinho não andava muito feliz naquela tarde.
_ Escuta, Ernesto. Eu não sei quem te fez isso e nem imagino porque, mas que deve ter sido merecido, isso deve! - respondeu ela, contemplando, satisfeita, o rosto do noivo virado numa pasta de sangue.
_ Não sabe, cadela? Sabes, sim! Não foste tu, por acaso, quem avisou o meu pai?
_ Avisar do quê, criatura?
_ Não te faz de boba, que tu de boba não tem nada. Não quer dizer por bem, então eu te faço falar...
Ele até que tentou dar uma surra nela. Acontece que o Ernesto-pai tinha feito nele um serviço de qualidade, de modo que bastou para Helena que ela desse um empurrão, quando ele tentou o primeiro tapa, para que o filhote de brabo caísse desabado, feito um tapete velho. Ela quase nem acreditou quando viu o animal derrotado daquele jeito, desmaiado com a cara que era só sangue e mancha roxa. De maneira que, para não desperdiçar a oportunidade, aplicou-lhe, ela mesma, uma dúzia de bolachas de mão bem aberta, que faziam com que a cabeça virasse de um lado para o outro, ao sabor das bofetadas. Depois, foi até o quarto e puxou um urinol, já quase cheio, debaixo da cama, e despejou o mijo choco por cima da cabeça dele. “Amanhã é certo que apanho!”, disse ela, pra si mesma. “Mas eu ia apanhar de qualquer jeito!”, concluiu satisfeita.        
No dia seguinte receberam a visita do Ernesto-velho, logo que o dia amanheceu. Entrou sem cumprimentar a nora, que tinha aberto a porta para ele. E foi logo se espalhando:
_ Cadê o guri?
_ Dormindo, no mesmo lugar onde caiu ontem à noite - respondeu ela, de má vontade.
_ Se tu não fosses uma mulherzinha tão de merda, era até capaz que ele se interessasse por ti!
Ela chegou a pensar em responder: “e se o senhor não fosse um pai tão de merda, era capaz que ele se interessasse por qualquer mulher como por qualquer homem!”. Em todo caso, a sorte meio que andava do seu lado. E ela achou melhor não provocar. Por conta própria, ele mesmo saiu à procura do filho. E acabou encontrando-o do modo como ela tinha dito: esparramado no chão, do jeito como tinha ficado na noite anterior.
_ Mas como fede esse imprestável!
_ Chegou ontem, brabo, chutando tudo e dizendo que a culpa era minha. Não sei do quê! Depois desmaiou por aí e se mijou todo, durante a noite. No mínimo tomou uma borracheira! - disse ela, procurando amenizar o efeito do que ela mesma tinha feito. _ Decerto andava de farra com alguma vagabunda... – completou, provocando o sogro. O olhar que recebeu como resposta recomendava uma mudança de modos.
_ Acorda, tchê! Levanta, que o serviço espera. E eu não vou te chamar outra vez - disse o Mão-pelada, dando alguns chutes pelo meio da barriga do filho.
_ Me traz um balde d’água, mulher - disse ele para a nora. No segundo balde derramado, o trapo de gente a seus pés acordou, assustado: 

_ Pelo amor da minha santa mãezinha, não dá mais em mim pai! - disse o Nestinho, assim que abriu os olhos e se deparou com a figura diante dele.
_ Nunca tive amor pela tua mãe. E nem ela muito menos foi santa! Achei num puteiro. E só levei pra casa porque não achei outra melhor; me arrependo até hoje! Olha só que traste aquela vadia pariu!
_ Por favor, pai - disse o Nestinho, choramingando.
_ O que foi que o senhor fez?
_ Não me chama de pai, porque eu não sou mais o teu pai! Levanta e ouve o que eu vou te dizer.
Tremendo das patas, a custo, o filho se pôs de pé.
_ Nós vamos pra Santa Helena ainda hoje, assim que estiver tudo pronto. Quando chegar lá tu vai dar um jeito de botar um filho nos quartos dessa tua mulher. E tem que ser teu! Estás me ouvindo?
O Nestinho fez que sim.
_ Eu faço questão que esse guri tenha o meu sangue. Eu mesmo pensei em fazer o serviço, mas acredito que ainda posso te endireitar nesses teus gostos. E por isso vais tentar dia e noite. E se eu souber que por um acaso tu estejas pensando em usar favores de qualquer peão, a coisa vai ser bem pior. Entendeste?
_ Sim, senhor! Mas...
_ Não tem nada de “mas”; se eu tiver que fazer isso, tu vais te arrepender.
_ O que o senhor vai fazer?
_ Não é da tua conta. Mas só pra te deixar mais disposto, eu vou dizer: vou amarrar aquele Afonso num palanque, arrancar as bolas dele e dar pros cachorros. Depois, pode ser que arranque as tuas também.
Após ouvir o que foi dito, Helena sentiu que era a sua chance. Voltar para a Santa Helena era tudo o que ela queria. E era toda a esperança que ela tinha de se ver livre daqueles dois e daquela vida infeliz. Por outro lado, era preciso agir depressa. No que dependesse dela, o tal Afonso teria os grãos atirados pra servir de almoço pra cuscada da estância, já que deitar com qualquer daqueles trastes era coisa que ela nem em pesadelo suportaria; quanto mais um filho!           
Tentar até que o Nestinho tentou; quer dizer, mais ou menos. Tão logo chegaram à Santa Helena, naquela mesma tarde, o Mão-pelada deu ordens para que o filho desse início ao trabalho. E proibiu que qualquer dos dois deixasse a Casa Grande. Estropiado, pela tunda que levou, o Nestinho tão logo se viu a sós com a noiva caiu num berreiro de choro que fez com que Helena quase conseguisse sentir pena dele. E foi naquele momento que ela teve a idéia que lhe custou tão caro.
_ Escuta, Ernesto. Eu sei que tu não gosta de mim. E tu sabes que eu também não sinto nada por ti - começou ela, enquanto ele soluçava sentado na cama. _ Mas eu acho que a gente pode se ajudar...
_ Como? – quis saber ele, já que na situação em que estava qualquer idéia poderia ter valor, mesmo vindo dela.
_ Tu precisas dar um jeito de fazer o teu pai sair da estância por um dia. E ele tem que te levar. Quando isso acontecer, eu fujo para um lugar onde ninguém nunca vai me procurar. Eu só vou precisar que tu arrumes alguém que me leve até lá. Como tu vais estar com ele, ele não vai poder te culpar e não vai te castigar por isso. Teu pai já tá velho; e não anda muito bem de saúde. Logo ele morre e nós ficamos livres, para viver as nossas vidas. Como gratidão eu te dou uma boa parte dos meus campos, depois que ele morrer. Se tu quiseres que isso aconteça mais depressa, eu nem vou te culpar. E acho que até seria melhor pra ti. E então, o que é que tu achas?
_ Quem me garante que tu vais, mesmo, me dar uma parte dos teus campos?
_ Eu deixo um documento assinado contigo. Eu sei que tu procurarás o cartório só depois que o teu pai tiver morrido.
_ E como é que eu vou fazer pra ele me deixar sair daqui? Esqueceste das ordens dele?
_ Nisso nós podemos dar um jeito.
_ Que jeito? Por acaso vais querer enganar ele, botando uma barriga falsa? De jeito nenhum que eu vou aceitar isso. O velho é muito vivo; e se descobre: adiós nós dois!
_ É claro que não! Nem eu seria tão burra. A ordem que ele deu foi que tu fizesses por onde; que tu trabalhasses, entendeste? Só o que a gente precisa é fazer de conta que estamos tentando.
_ E tu achas que ele vai acreditar?
_ Ele não tem outra saída. Sentar numa cadeira aqui no quarto pra ver é que ele não vai fazer!
_ Tudo é possível...
_ Eu sei que tudo é possível; e esse plano, também.

Por fim, chegaram a um termo que parecia, aos dois, que daria certo. Combinaram como iriam se comportar dali por diante. De modo que o Mão-pelada fosse acreditando, com o passar dos dias, que as coisas realmente estavam acontecendo como ele queria. Aos poucos os dois começariam a demonstrar afeto um pelo outro, até que o velho voltasse a tratar o filho com mais liberdade. Afinal de contas, a peonada da estância esperava que ele participasse da vida da fazenda. Desse jeito o Mão-pelada acabaria trazendo ele de volta ao convívio, assim que se sentisse mais seguro. Eles também sabiam que não seria fácil dobrar um homem tão acostumado às falsidades, como aquele. E trataram de caprichar nas encenações, sem exagerar em tais afetos. Afinal, o Nestinho, sendo filho de quem era, também não era muito dado a essas coisas de carinhos.        
O Mão-pelada fiscalizava de perto o serviço do filho, perguntando intimidade sem nenhum respeito; dormindo encostado à porta do quarto, pra ver se ouvia alguma coisa; e até revirando os trapos de higiene dela, procurando algum sinal. Acontece que os dois tinham pensado em tudo; e ao cabo de uns vinte dias o Mão-pelada chamou o filho, para uma conversa. Helena não chegou saber do que trataram - assuntos de estância, como venda de gado, ao que parecia. Mas, como resultado ouviu do Nestinho a notícia de que o plano tinha dado certo; e que talvez ele saísse com o pai, para uma tropeada rápida, em breve.        
Dali por diante começaram os preparativos para a fuga dela. Primeiro, o Nestinho, que não tinha nada de bobo, obrigou Helena a deixar o tal documento que destinava parte da Santa Helena para ele. Mas Helena também desconfiava da sorte. E disse que escreveria, mas levaria com ela até que estivesse onde queria estar; e mandaria de volta pelo mesmo homem de confiança que ele escolhesse para levá-la dali. Também combinaram que seria preciso continuar com a farsa dos namoros, até que o dia chegasse. Afinal, nunca se poderia ter certeza se o Mão-pelada tinha, mesmo, acreditado naquilo; ou se era uma armadilha.        
Acontece que de lêndeas só nascem piolhos. E disso todo mundo sabe. De modo que não foi por acaso que o Nestinho herdou do pai não só o nome, mas também o caráter, deixando de fora só alguns gostos que deve ter puxado da mãe. Por conta disso o Nestinho, caborteiro uma barbaridade, ajustou para o serviço de levar Helena ao seu destino um peão de nome Sebastião; um índio de pescoço fino e comprido, não menos caborteiro de que ele, e conhecido pelo apelido de Tião Pescoço-de-cobra. Aliás, que o apelido lhe caiu como uma sina. E o fato de não ser de muita confiança não importava muito, já que o Nestinho também já tinha planejado a morte dele.         
A idéia era que ele partiria com Helena no dia acertado. E quando estivessem em um lugar apropriado o guasca mataria a inocente, sumindo com o corpo em seguida. Mas não esquecendo de trazer o documento que ela levaria consigo. Como pagamento o Nestinho daria ao Pescoço-de-cobra uma ponta de gado e algum dinheiro, para que ele pudesse ter um pedaço de campo só para ele, o qual nem imaginava que esse pedaço de campo seria uma cova rasa.        
Chegado o dia tão sonhado, assim que os homens saíram com a tropilha, Helena foi ao encontro do homem no lugar combinado, nos fundos da estância, de onde poderiam ganhar o mundo sem serem vistos por nenhum olho curioso. O homem recebeu Helena com um sorriso largo, dizendo para ela que estavam com sorte, pois como o tempo não andava de muita confiança dificilmente encontrariam alguém pelo campo que pudesse dizer depois qualquer coisa sobre eles. Helena ainda sentiu uma pontada de estranheza ao ver que o homem trazia somente um poncho, já que dava a chuva como quase certa. Ele explicou que aquele não era tempo de frio e que não ia passar de uma chuvinha rápida, que só iria servir pra molhar um pouco a terra. O poncho era para ela; pois ele não fazia questão.         
Mas deixa que no meio do caminho, quando já estavam perto do lugar que tinha escolhido para dar sumiço nela, o tal Pescoço-de-cobra achou que seria um desperdício dar cabo de uma prenda tão bonita. “Quem sabe até ainda é virgem!”, disse pra si mesmo, lembrando que a peonada andava falando mal do noivo. E já que ela teria que morrer, não custava nada para ele fazer um favor pra moça. “Se é pra morrer, então que morra como mulher!”, pensava ele, como se isso fizesse alguma diferença.        
Dizendo que precisava examinar a pata do animal que ela vinha montando, o qual parecia, segundo ele, mancar um pouco, quando estavam no costado da mata fechada que costeava a sanga ele pediu que ela apeiasse. Feito isso, sem dar nenhum sinal de que nada seria diferente do ela tinha pensado, num repente o Tião Pescoço-de-cobra baixou-lhe um manotaço pelo alto da orelha, que deixou a pobre da Helena atordoada e sem entender o que estava se passando.
_ És uma guria mui linda! Não achas que vou te deixar ir sem sentir o teu gostinho! Achas?
Com o que ainda lhe restava de consciência, Helena deu-se conta de que a coisa não sairia bem do jeito que ela tinha pensado. E que agora era preciso que ela repensasse os seus planos o mais rápido possível. Pondo-se de pé, com dificuldade, sem dizer uma palavra, tentou sair correndo na direção de qualquer lugar que lhe oferecesse abrigo. Mas o maula já estava de prontidão para esse caso. E nem bem ela tinha dado o segundo passo sentiu, de novo, que uma mão pesada lhe acertava a orelha.
_ Te digo, guria, que pra mim tanto faz como vai ser. E se tu preferir que seja assim, então eu te faço essa vontade - disse o infeliz, começando o espancamento. Para a infelicidade dela havia despertado nele uma espécie de prazer furioso. E quanto mais ele dava, mais se excitava. No começo ela esforçou-se para não desmaiar, sabendo que dependeria da lucidez para tentar escapar daquela situação. Mas isso não foi possível. Quando não pode mais resistir, simplesmente desabou no campo inconsciente. Acontece que miséria pouca é bobagem, já diz o ditado. E sendo assim, tão logo deitou o lombo no chão, começou a ter espasmos musculares violentos, contraindo e esticando as pernas sem poder controlar. Embriagado de excitação, o Pescoço-de-cobra achou que era hora de satisfazer aquele corpo que se retorcia de desejo - isso no ver dele -, caído bem na sua frente.  Mas deixa que o animal quís se botar de qualquer jeito. E num descuido - por culpa de um espasmo -, acabou levando um joelhaço nos grãos de fazer chorar até uma estátua de pedra!
  

Dada a violência do golpe, numa parte tão sensível, depois de rolar pelo pasto uivando feito um cachorro louco por uns dez minutos, o Pescoço-de-cobra sentiu que não poderia mais satisfazer os seus desejos carnais de macho. E resolveu, então, que era melhor terminar o serviço de uma vez. Mala suerte a do malfeitor que, ao se colocar sobre ela de adaga em punho, resolveu que seria de bom grado dizer umas últimas palavras no pé do ouvido da vítima, numa espécie de despedida, antes de lhe rasgar o pescoço. Quando encostou a sua boca junto à orelha dela, percebeu um movimento por perto do rosto. Mas não teve tempo de evitar o golpe certeiro do animal, que a natureza preparou para isso. E quando conseguiu puxar o corpo, desesperado, trazia pendurada na jugular uma coatiara, de metro e tanto, se contorcendo raivosa.
Ao ouvir a história não pude deixar de pensar em como o destino pode ser caprichoso com o vivente - nesse caso o morrente. Pois a cobra, a qual certamente iria morder Helena, que se remexia sem parar, acabou por se grudar de dentes justo no pescoço de um homem chamado pescoço-de-cobra! Do que aconteceu depois, Helena só tinha umas lembranças imprecisas, misturadas com delírios sobre uma moça de branco que teria lhe ajudado a seguir adiante. Não tinha ela a menor idéia de como tinha ido parar no interior da mata. E o que era mais incrível; como é que tinha cruzado a sanga e ido parar no lado da Tapera.
Por falar nisso, Helena nunca soube dizer muito sobre a tal moça de branco que ela achava que tinha lhe ajudado naquela tarde. Em todo o caso, depois de uma conversa franca com Joanita e o João Vieira, resolvemos ir até o lugar onde ela foi encontrada e fazer uma prece campeira pela alma de Juliana. Se havia algo que ela não merecia era ter de vagar sem descanso, naquela costa de mato!          
Ao cabo de alguns dias Joanita me chamou para uma conversa à parte, dizendo que o assunto merecia atenção. De acordo com ela - e conforme lhe tinha dito a mãe -, o caso da moça Helena era mui sério. E era quase certo que não lhe restava muito tempo, entre os viventes. É verdade que Helena vinha mostrando-se bem disposta durante o dia. E até tomava as suas inevitáveis rações de canja de galinha, oferecidas pelo menos umas quatro vezes por dia, sem reclamar além do normal. Apesar disso, segundo a velha índia minha sogra, a febre alta acabava sempre voltando, seguida de ataques de espasmos que vinham se tornando cada vez mais fortes e duradouros. Sem falar no sangue que cuspia, aos poucos, durante o dia, e que, por mais que tentasse, não conseguia esconder. Conforme a velha, o que tinha se estragado nela - na moça, não na minha sogra - era sem remédio; e que o melhor seria ter uma conversa com ela, para deixar claro o que se passava.         
Custou uma barbaridade convencer Joanita de que eu não era capaz de fazer uma coisa daquelas com Helena. Eu seria capaz de olhar nos olhos de um homem e dizer que ele ia partir para o outro lado. Mas dizer para ela, de jeito nenhum! Melhor que ela mesma, Joanita, se encarregasse disso.         
Conforme eu já disse, Joanita era mui jeitosa no trato com os bichos de alma. E foi sem muito rodeio que, durante um chá da tarde, disse o que precisava ser dito. É claro que ninguém recebe uma notícia dessas assim, de peito aberto, sem sentir o golpe. Mas no caso da Heleninha a má notícia parecia já ser esperada. De maneira que ela se entristeceu e chorou, até que dormiu um sono tranquilo como há muito não fazia.       
No dia seguinte, Helena, sentindo boa disposição, pediu para que Joanita a ajudasse descer até a varanda da Casa Grande, onde ela gostaria de tomar o mate olhando para os campos; o que, segundo ela, ajudaria a pensar sobre algumas coisas que ainda poderiam ser feitas para remediar a situação. Conversaram durante toda a manhã, como se já se conhecessem de muitos anos, falando com franqueza sobre as coisas que teriam de fazer; o que fez com que Joanita ficasse surpresa com a força que minava de Helena, a qual ela não esperava ver naquela altura dos acontecimentos.        
No mesmo dia eu tinha saído para o campo, já que se aproximavam os dias de deixar a estância. E só fui saber da conversa quando cheguei nas casas, no final da tarde. Achei a coisa toda muito esquisita, embora Joanita não se mostrasse nada surpresa. E foi preciso que minha esposa gastasse um tanto de prosa até me convencer de que fazer o que Helena pedia era necessário. Antes de concordar de vez, fui ter um dedo de prosa com Helena. E me surpreendi ao ouvir dela a confirmação de tudo aquilo, principalmente porque foi dito com a calma de quem ainda tem toda uma vida pela frente. Ao voltar para cozinha, onde Joanita ainda preparava o jantar, deparei-me com a minha indiazinha deixando cair umas lágrimas em silêncio.
_ O que foi? – perguntei, meio que já sabendo a resposta.
_ Eu sei que o homem que fez aquilo com ela já morreu. Mas o que mandou, o tal Nestinho, ainda não...
_ Disseste bem. Ainda, não!
_ Eu só queria que antes de ele morrer eu pudesse dizer umas coisinhas pra ele. Quer dizer, o que eu queria mesmo era lhe dar um tapa bem dado pelo meio das fuças! – disse ela, mostrando raiva.
_ Bueno! Se o que te deixa triste é isso, não precisas mais te chatear. Na primeira chance, nós dois vamos acertar isso com ele – prometi, para mim mesmo.
 

 A vida nem sempre permite que a gente realize os nossos sonhos. Mas, de qualquer forma, o Nestinho teve o que mereceu. E se Joanita não chegou a dar o tapa que queria, o João Vieira fez esse favor para ela. Joanita não estava comigo; mesmo assim pude ver o nosso sonho virar realidade. Aliás, diga-se de passagem, que isso nunca aconteceu comigo. Levar um tabefe do Capataz era uma coisa de deixar um gaúcho triste por uns quantos dias; sendo que eu só escutei um estalar de tapa daqueles por duas vezes. E, por coincidência, os dois no mesmo dia.  (continua...)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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