Usuário:
 
  Senha:
 
 

Grupo Fogo de Chão:
Gaúcho

 

07/02/2011 12:15:28
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XX – SONHOS DEFUNTADOS
............................................................................

O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XX – SONHOS DEFUNTADOS NO DESCALABRO DA TAPERA!

Uma parte do posto do Pedro Laureano estava com os potreiros lotados de gado, escolhido a dedo. E a demora em vender os bichos podia fazer com que perdessem peso. Afinal, era muito boi em pouco espaço. E por conta disso, numa segunda-feira, saímos, eu e o capataz, para procurar um comprador. Além disso, o capataz dizia que quem compra mais campo é porque tem gado pra botar nele. E ninguém gosta de ver seus campos engordando gado dos outros.

Em Bagé encontramos com um comprador, que negociava em nome de um grande matadouro, e que era das confianças dos estancieiros da região. O índio já tinha feito, antes, muitos negócios com o próprio João Vieira. E por conta dessas foi que acertamos a venda do nosso gado com ele mesmo. Gaúcho respeitado e conhecedor de gado como poucos, de fala mansa e conversa comprida, bem ao gosto do capataz; de modo que foi pra já que o dois se enredaram em assuntos de bois.

Naquela noite fizemos o pouso na propriedade de um conhecido do capataz, que, aliás, o homem conhecia todo mundo. E antes que o dia seguinte clareasse nos tocamos, de cola erguida, na direção da nossa futura estância. Quando eu digo que o João Vieira conhecia todo mundo é porque ele conhecia, mesmo. Mas o que me deixava curioso era saber como é que um homem, que parecia enraizado numa estância velha, conseguia conhecer tanta gente. Pois não vê que o tal dono das terras também era conhecido dele!

_ O senhor não me leve a mal em perguntar - eu comecei curioso, quando acabamos a visita -, mas de onde é que o senhor conhece tanta gente?

_ Tchê! Talvez tu nem me acredite, mas eu conheci esse velho durante a revolução. E se eu te disser o que esse homem era capaz de fazer, montado num cavalo, numa carga de lança... - respondeu ele, deixando o resto no ar.

_ Se o senhor me diz, acredito. Mas o causo não é esse. O que eu quero saber é de onde o senhor conhece tanta gente?

_ E eu não te disse? Da guerra!

_ E por acaso não morreu ninguém nessa guerra? Sim, porque pelo que o senhor conhece de gente dá a entender que todo mundo que foi, voltou.

_ Bá, tchê! Mas como tu fala bobagem... - disse ele, com o mesmo tom de reprovação que usava quando não gostava das minhas observações.

_ Por acaso não te dás conta de que eu não nasci na Tapera!

_ Eu sei disso, patrão. Mas o senhor mesmo disse que quando chegou lá ainda era bem novo, o que me faz pensar que o senhor não tenha tido tempo de andar muito pelo mundo.

_ Pois é! É onde tu te enganas. Pode ser que eu não fosse tão novo assim.

_ Não acredito...

_ E se eu te disser que tenho quase duzentos anos? - perguntou ele, debochado.

Mas o João Vieira estava num dia especial. E mesmo com a minha resposta desaforada ele continuou de bom humor. Na verdade, ele estava feliz como eu nunca tinha visto. E não era para menos. Depois de passarmos um dia e meio na estância, o capataz acabou ajustando o negócio com o proprietário; que, por sinal, ficou até contente em saber que seus campos iriam parar nas mãos de alguém que ele achava que os merecia. 

Para mim foi como um presente do céu. Não que eu tivesse ambições de me tornar estancieiro; aliás, que nem eu nem o capataz. Mas porque aquela seria a casa onde eu e Joanita viveríamos, dali por diante. Um lugar nosso, de onde nenhum comprador repentino iria nos arrancar de um dia para o outro.

_ Pode começar a encomendar a gurizada! - disse o João Vieira, com um sorriso largo, sugerindo que era hora de começar a pensar em filhos.

_ Vai ser só o tempo de a gente entregar o gado, botar o dinheiro no bolso e, no outro dia já “tâmo” de casa nova!

De minha parte, o que me fazia mais feliz era ver o João Vieira naquele estado; e ficar imaginando como seria a cara de Joanita, quando soubesse da novidade.

_ Vou te contar uma coisa, guri... - disse ele, fazendo uma pausa, procurando as palavras.

_ Assim que chegaram na Tapera, o Alírio e a mulher dele, ela sonhou que eu ia morrer por lá mesmo, peleando no meio do campo. Pra te dizer a verdade, eu não gostei muito daquela conversa. Mas, conforme o tempo foi passando, eu comecei a pensar que não haveria outro campo onde eu pudesse cerrar os olhos de vez. E não fosse pela história de cair peleando no meio do campo, eu até achava que meu fim se daria por lá mesmo. Mas, agora! Agora eu acho melhor a morte trocar de plano, porque lá é que eu não morro mais!

O mesmo vento gelado, que prenunciava coisa ruim, me acertou de um soco. Achei que era a hora de reviver velhos costumes. Rezei, em silêncio, o que eu ainda lembrava de reza forte, e pedi a Deus que fosse só mesmo um vento frio...

Findava o dia, quando demos com os costados de volta na Tapera. De longe já se avistava a fumaça que subia, preguiçosa, da chaminé do galpão. E eu me lembro que chegamos a falar de como seria bom um mate acompanhado de um trago de canha, enquanto se contava a novidade. Sentados, em derredor do fogo de chão, mateavam o Ponciano e o Gertulino, quietos além do normal.

_ Buenas, gauchada! Mas que caras são essas? Dor de barriga? - brincou o capataz, na chegada.

De repente nos apercebemos de que alguma coisa não estava nos seus conformes. E, fosse o que fosse, era mui sério. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi que Helena tinha morrido. As caras dos dois eram de morte. E a primeira da fila era Helena; de modo que eu pensei logo nela.

_ A gente tem problema, patrão - disse o magricela, com ar pesado.

_ Problema se resolve - respondeu o capataz.

_ Pra tudo na vida tem um jeito, só pra a morte que não! – completou, em seguida.

_ Pois é, patrão. O problema é que o causo é de morte, mesmo.

No mesmo instante troquei olhar com o capataz. De certo que ele também tinha pensado em Helena, porque em seguida perguntou para eles:

_ A guria da casa grande?

_ Não, senhor. A mãe dela.  E também o seu Pedro e a mulher dele. Mataram os três.

_ A mãe dela? Como? - falamos eu e o capataz, ao mesmo tempo, ambos pensando na mãe de Helena.

Foi quando a gente se deu conta de que eles não estavam falando de Helena, até porque eles nem sabiam que ela estava lá.

_ Joanita! – eu disse, já dando a volta e me preparando para sair em direção da casa.

_ O Pedro e a mulher? - perguntou o João Vieira.

_ Espera, tchê! - me chamou, antes que eu saísse.

_ Pois é, patrão. Aproveitaram que a estância tinha ficado por conta. Entraram nos campos, lá do posto do seu Pedro. Mataram eles e roubaram todo o gado!

Foi preciso que eles repetissem tudo umas três ou quatro vezes, até que eu e o capataz conseguíssemos entender o que tinha acontecido.

_ A guria já sabe? – perguntei, pensando que Joanita talvez ainda não soubesse o que tinha acontecido com a mãe dela.

_ O Guarany tá lá, com ela. A gente chegou tudo entreverado, de volta na estância, e fomos juntos até o posto, pra ver como iam as coisas por lá. Uma barbaridade o que fizeram! Judiaria, mesmo... Teve até degola!

_ Deixa, no más. Depois tu me conta - disse o capataz

_ Vamos lá dentro, guri, que eles tão precisando da gente.

Foi de calar a voz de qualquer um o abraço que o índio Guarany deu no João Vieira, quando se encontraram. Eu acho que aquela raça de homens não chorava, porque simplesmente não tinham daquela aguinha salgada nos olhos. De minha parte não pude evitar que uma ou outra lágrima caísse, quando encontrei Joanita deitada na cama, com os olhos inchados de tanto chorar. Ao lado dela, Helena - minha candidata à defunta - segurava uma caneca de chá, enquanto lhe acariciava o rosto, invertendo uma cena que eu tinha visto se repetir nos dias anteriores.         

Ninguém sabia, ao certo, como a coisa tinha acontecido. O que restava, de fato, eram três mortos e quinhentas reses desaparecidas. Sem falar no nosso sonho destruído, antes mesmo que a gente tivesse contado o que chegou a sonhar. Os homens tinham se encontrado, no caminho de volta. Embora se esperasse que voltassem em dias diferentes. E quando se depararam com aquilo, ficaram meio que sem saber o que fazer. O índio velho, o Gertulino e o Ponciano cuidaram dos enterros, que foram feitos, lá mesmo, no posto. A velha índia foi sepultada pelo marido, conforme o costume deles. Enquanto que o Gertulino e o Ponciano cuidaram de dar um enterro cristão ao Pedro e à mulher dele, tendo deixado, inclusive, uma cruz para marcar o lugar das sepulturas.          

De acordo com eles, além de matarem os três os bandidos ainda queimaram o ranchinho do posteiro. E quando eles chegaram, só tinha sobrado as cinzas. Por conta disso, eles concluíram que os três foram mortos assim que nós viramos as costas; como se os que fizeram aquilo só estivessem esperando uma oportunidade. O Pedro Rengo teve a garganta cortada. E foi deixado pelo campo, mesmo. Decerto que judiaram dele, para tentar saber de coisas dos seus interesses. E depois que terminaram o serviço atearam fogo no ranchinho do posto, com as mulheres lá dentro.       

O Olegário Leite-de-onça saiu no rastro deles, no mesmo dia. Enquanto que o os outros dois ficaram para ajudar o índio Guarany e, também, quedarem-se de sentinela. Uma coisa que todos concordavam era que o gado tinha cruzado para os lados da Santa Helena. Quem tinha feito o serviço não tinha se preocupado muito com os rastros. Até porque ninguém faz desaparecer os rastros de uma tropa daquele tamanho. Por três dias ainda rondamos os campos deles. E a única certeza era a de que se o gado passou por lá foi só mesmo de passagem, porque ninguém conseguiu achar nenhuma rês com a marca da Tapera.

O João Vieira apartou do gado restante umas reses, e as vendeu para pagar a peonada. O que por sinal já tinha sido acordado com o antigo dono. O capataz fez os pagamentos e explicou que era intenção dele que todos pudessem receber bem mais do que aquilo. Mas, depois do sucedido, ele não tinha mais de onde tirar o dinheiro. Mesmo sem receber o que esperavam, nenhum peão queria arredar o pé da Tapera sem resolver aquele caso. Mas o João Vieira disse que não tinha mais nada que eles pudessem fazer por lá; que se eles queriam mesmo ajudar, o melhor era ganharem o mundo e sair especulando por onde passassem se alguém sabia de alguma coisa. Ficou combinado que se fosse preciso falar com a gente, era só ir até o rancho do Guarany. E que se não desse pra ir até lá, então, que mandassem um chasque por qualquer conhecido, que o capataz dava um jeito.

Na manhã seguinte eles partiram, decididos a não deixar a coisa por isso mesmo. O seu Alírio ainda sugeriu que o capataz escrevesse para o Cel. Soares Neto, contando sobre o roubo da parte que nos cabia. Mas o capataz não concordou. Além de não parecer verdade, era certo que o novo dono sabia de antemão a quantidade de gado que encontraria ao chegar. O negócio estava fechado e não tinha nada mais que pudesse ser feito. Doeu, de verdade, ver aquela indiada macanuda troteando no rumo das saídas, para nunca mais voltar.

Foi uma semana estranha, com um gosto amargo da despedida de um lugar que ninguém gostaria de deixar; e, também, onde ninguém mais queria ficar. À noite, quando eu me deitava para dormir, via nos meus sonhos o gado que estava apartado e com a venda já acertada; as tralhas de cada um, arrumadas; e cada qual de volta à estância, com seus destinos já encaminhados. No sábado à noite o capataz planejava reunir a peonada, no posto do Pedro Rengo. E mandar que se carneasse com fartura, para um churrasco de despedida, o qual só terminaria no domingo, pois que na segunda de madrugada a tropa partiria, marcando o fim de um tempo na história da Tapera.

Dali por diante só ficariam na estância eu e o capataz, que combinamos de esperar, juntos, pelo comprador. O João Vieira acertaria a paga de cada um, conforme o que era justo. E é claro que todos ficariam satisfeitos com a generosidade demonstrada por ele. Depois, mandaria que fizessem fogo grande e que se bebesse com gosto. Afinal, a despedida da Tapera merecia capricho no desacerto. E como aquele seria o último churrasco naqueles campos, então, que não faltassem ossos para alimentar os sorros que viriam. Eu tinha sonhado com isso, muitas vezes, antes. Mas, agora, aquele sonho começava a se repetir como um enfadonho pesadelo. (continua...)

Autor: André Moab Garcia

E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

............................................................................
  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
Untitled Document