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Walther Morais:
Pra ser feliz no Sul

 

28/03/2011 15:37:11
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXI – PEONADA PRONTA PARA...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia 

XXI – PEONADA PRONTA PARA PARAR PATRULHA, EM DEFESA DA ESTÂNCIA 

Domingo, pela manhã, antes de me sentar para uma despedida particular com o capataz no galpão, fui ao encontro das mulheres, na casa grande, para ter certeza de que estava tudo bem. Dois dias antes eu tinha despachado para Dom Pedrito o Tá-dormindo, que levava com ele uma carta de Helena para o Juiz de Direito daquela comarca. Nela Helena pedia um favor muito especial, em nome da antiga e afetuosa amizade que seu finado pai tinha para com ele; o que ela insistia para que fosse levado em conta.  

Foi uma carta escrita em tom pessoal, sem as frescuras formais de quem precisa adular uma autoridade. Helena explicava sua real situação de saúde, pedindo máxima urgência quanto ao que deveria ser feito. Eu não acreditava que aquilo pudesse ser resolvido, sem que ela estivesse presente diante dele. Mas ela confiava que sim, pois não fazia muito tempo que soubera de um caso parecido, narrado pelo finado pai. E, se não lhe falhava a memória, envolvendo um parente desse mesmo Juiz. Se saísse tudo como o esperado, o mensageiro deveria estar de volta na estância na segunda-feira, no mais tardar, por volta do meio dia.         

De saída, o juiz lamentava o fato de seu estado de saúde estar quase igual ao dela. O que para mim queria dizer que ele estava ruim mas não nas últimas, como era o caso dela. Em seguida se dizia surpreso com a carta, porque fazia coisa de uns quinze dias que estivera na Santa Helena e o noivo dela tinha dito para ele que ela estava bem adoentada, mas longe dali, em Porto Alegre. Ele tinha ido até lá acompanhando um amigo, proprietário do cartório de registros, que tinha feito a escrituração dos novos campos comprados em nome da estância Santa Helena. Segundo o que ele explicava o Ernesto não tinha poder para vender qualquer bem que fosse de Helena. Mas isso não queria dizer que ele não podia aumentar o patrimônio dela.  

Quanto ao que ela pedia, por mais que tivesse consideração pela família não poderia fazer o que Helena queria, já que ela não tinha poder de decisão sobre seus bens; condição esta registrada em cartório, lá mesmo, em Dom Pedrito. No entanto, isso também não queria dizer que era o fim do mundo, porque sempre se podia achar uma saída para um cristão embretado no campo das leis. Como prova disso, e também em consideração ao seu finado pai, embora adoentado ele viria ao encontro dela na Santa Helena. O Juiz terminava dizendo que chegaria à Estância por volta do meio-dia, já na segunda-feira. E que queria, mesmo, ter um particular com ela, pois tinha ficado meio cismado com a insistência do noivo em saber o que seria feito da estância, caso ela viesse a falecer. 

Uma notícia daquelas teria feito um pequeno milagre no estado de saúde de Heleninha, não fosse o fato de nenhum de nós ser bem-vindo naqueles campos onde o juiz dizia que encontraria com ela. Mas para um guri criado em batina de padre, feito eu, milagre era uma vontade divina. E, sendo assim, era coisa de não se poder evitar, porque se era para acontecer, iria acontecer. E pronto!

_ Nossa! Não é que me esqueci de dizer na carta que não estava mais na Estância Santa Helena! - disse Helena, recriminando-se pelo esquecimento.

_ Não tem importância. Eu dou um jeito de trazer ele pra cá – falei, tentando fazer com que ela ficasse calma,

_O mais difícil nós já conseguimos. Ele só vem na segunda, pela manhã, de modo que assim que clarear o dia eu vou para a estrada e fico na espera. Quando ele passar, eu me achego e explico a situação. Se for possível se resolver alguma coisa, vai ter que ser resolvida aqui na Tapera! 

Helena foi contra. Para ela o melhor era irmos os dois ao encontro dele; e depois seguirmos para a Santa Helena. Afinal, o homem era uma autoridade. E nem mesmo o Mão-pelada iria se bobear na presença dele. A verdade é que ainda restava-lhe uma gota de esperança de poder, ela mesma, expulsar aqueles carrapatos de seus campos. E já que a morte era inevitável, queria pelo menos que fosse em casa. De minha parte eu achava arriscado entrar na Santa Helena com ela, pois isso poderia parecer uma afronta. E o melhor era deixar que o próprio Juiz fizesse por onde expulsar eles de lá. O que elas concordaram. E eu dei graças a Deus! Uma coisa era entrar lá bem amadrinhado por gente como o João Vieira e a peonada da Tapera; outra era peitar o Ernesto velho, tendo dois moribundos no costado.

Acontece que nós esquecemos que já na segunda-feira chegaria o novo dono da Tapera, de modo que Helena teria mesmo que ir comigo ao encontro do juiz. Depois disso, e dependendo do que ficasse decidido com ele, seria preciso levar Helena até os campos do Guarany; uma viagem puxada, que na minha opinião consumiria o que restava das forças nela.

Helena achava que não seria preciso, pois confiava que o Juiz tomaria conta dela, dali para frente. Em todo o caso, como forma de se precaver, Joanita resolveu deixar pronta uma infusão que faria Helena dormir durante a viagem, e que lhe diminuiria o cansaço a pouparia suas poucas energias.

Joanita seguiria, naquele mesmo dia, com o pai para Bagé, onde depois nos encontraríamos na estanciola deles, para então decidirmos o nosso futuro. Tive de prometer que não me emborracharia, sem ter certeza de que Helena estaria bem. Joanita me fez lembrar que o Tá-dormindo iria com eles até perto do povoado; e que Helena não podia ficar sozinha por muito tempo. A morte da mãe tinha deixado minha indiazita entristecida por muitos dias. Porém, seguindo o exemplo do pai, ela se mantinha disposta nos afazeres; principalmente no que dizia respeito à Helena. Antes de partir, ela me fez repetir toda a lista de coisas que eu teria de fazer para Helena; especialmente os tais chás, que segundo ela era o que mantinha Helena de pé.         

Daquele dia em diante as coisas todas me pareciam incertas, ainda que Helena teimasse em dizer que tudo daria certo para nós. Segunda-feira pela manhã, quando eu ganhasse a estrada com Helena, o João Vieira ficaria aguardando pela chegada do novo dono. E assim que “passasse o serviço” iria ao nosso encontro. Assim que Joanita partiu, antes que eu fosse ao encontro do capataz no galpão, Helena me chamou.

_ Algum problema? Não te sentes bem? 

_ Me sinto ótima. Só queria te pedir um favor.

_ Pois então diz, guria! Por acaso eu sou capaz de te negar alguma coisa?

_ Tu não... - disse ela, sorrindo com jeito travesso.

_ Já vi que vais me pedir alguma coisa que eu não devo fazer – falei, pressentindo o perigo.

_ Bah! Não precisa ser tão dramático. Não é nada demais.

_ Então, eu fico mais tranquilo. O que é, afinal?

_ Eu sei que vocês vão se reunir no galpão, pra uma despedida.

_ É mais ou menos isso. Mas se tu achas que eu vou te levar...

_ Não! Não é isso que eu quero de ti.

_ Então fala, guria!- eu disse, impaciente.

_ Eu queria que tu viesse tomar uma taça de vinho comigo.

Era só o que me faltava! Depois de Joanita me fazer mil recomendações sobre a saúde de Helena, agora era a própria doente quem queria receitar seus remédios. Dá pra imaginar? Depois de tanto cuidado, não seria eu quem poria a vida de Helena fora numa borracheira...

_ Mas de jeito nenhum! Onde já se viu uma coisa dessas!

_ Por favor! Não tem porque me negar esse pedido. Mais mal não vai fazer. Além disso, eu também não sei o que vai ser daqui pra diante. Será que eu também não tenho direito de me despedir destes campos? Eu faço de conta que estou na Santa Helena; e, assim, quando eu for embora, vou sabendo que pelo menos me despedi com dignidade.

_ La pucha, guria! Agora, sim, tu me deixou sem saber o que fazer. Vou conversar com o João Vieira e volto em seguida - falei com a voz firme.

_ Mas tu já fica sabendo: caso ele concorde, vai ser só um copinho!

_ Vou te esperar no quarto. Quero por uma cadeira perto da janela e ficar olhando pros campos, enquanto nos despedimos – disse ela, com um sorriso enorme.

Entrei no galpão e encontrei o capataz arrumando o carroção, que eu usaria no dia seguinte pra levar Helena.

_ O que foi, tchê?

_ Só me arrumam enrosco... O senhor tá sozinho? Por onde andam o Sabiá e o pai dele?

_ O Alírio cismou de dar uma última recorrida. Não me agrada a idéia, mas ele me prometeu que não ia longe. Em todo o caso, levou o guri com ele.

Aproveitei para contar sobre a carta que o Tá-dormindo trouxe da parte do Juiz.

_ Não fiquei sabendo de ninguém que tenha vendido campo nessa volta - comentou o capataz.

_ Quem sabe o Nestinho e o Afonso não resolveram juntar as duas estâncias. Os campos deles não são lindeiros em duas invernadas grandes?

_ Até que poderia ter sido isso, não fosse o Nestinho filho de quem é.

_ Mas é por isso mesmo que eu acredito numa barbaridade dessas. O Mão-pelada odeia a frescura do filho; mas se tu soubesses o que ele é capaz de fazer por dinheiro...

_ Nesse porém o senhor tem razão. De qualquer jeito, segunda-feira a gente vai ficar sabendo. Agora eu preciso resolver uma outra coisinha.

_ Vai falando, que eu te escuto - disse ele, voltando ao que estava fazendo. 

_ A Helena me pediu que levasse um pouco de vinho pra ela; disse que também queria se despedir e que não sabia o que seria dela daqui por diante.

_ Pois eu acho que ela faz muito bem.

_ Será que não faz mal?

_ Tchê, guri! Tu quer me deixar louco? Eu digo que ela faz bem e tu me perguntas se não faz mal!

_ Não foi isso que eu quis dizer. Eu quero saber se não vai fazer mal pra saúde dela.

_ Nem acredito que tu estás me dizendo isso, tchê! Por acaso tu achas que pode ser pior do que tudo o que ela já passou? Deixa a guria se despedir em paz. Quem sabe se tomar uma borracheira até não melhora um pouco? Além disso, se alivia nossas penas por que não pode aliviar as dela?

_ Borracheira? O senhor quer que eu morra? Se Joanita descobre uma barbaridade dessas, quem vai precisar de cuidados sou eu! Um copo, e olhe lá...        

Não sei porque, mas naquele dia eu achei que aquele negócio de venda da Tapera tinha mexido com a cabeça dele. Aquilo lá era conselho que se desse para uma pessoa no estado em que a pobre se encontrava? Tá certo que ela já não andava tão mal. Mas doença é doença; e não é coisa que combine com uma borracheira. 

Encontrei Helena sentada junto à janela, como ela disse que estaria.

_ Vem, senta aqui do meu lado - convidou ela.

_ Tu vais me prometer que não vai passar da conta - eu disse, com ar de irmão mais velho.

_ Hum-hum - resmungou ela, concordando ao tomar o primeiro gole. Depois ficou em silêncio, pensativa.

Fiquei parado, sem dizer nada. Aquele era um momento só dela, uma coisa particular. E eu só estava ali para ajudar, caso fosse preciso. Mas Helena não pensava a mesma coisa.

_ Tu lembra de quando nós éramos amigos, lá em Porto Alegre? - perguntou ela.

_ Nunca pude me esquecer.

_ Tu lembra dos nossos encontros na igreja?

Fiz que sim, já meio sem jeito.

_ E daquela vez, no confessionário? – perguntou com um sorriso, sem olhar pra mim.

Fiquei sem saber o que dizer.

_ Tu prometeu que casaria comigo... - ela disse, maliciosa.

Senti que meu rosto queimava.

_ Chegou a pensar mesmo nisso, em um dia casar comigo? - insistiu ela.

Na mesma hora em que ela fez essa pergunta, meus pensamentos voltaram para o tempo em que o finado padre me mandou ficar aos cuidados do Mão-pelada; se ele soubesse...

_ Te juro que sim. Nós não tínhamos idade pra ter juízo. Mas o amor que eu tinha por ti era verdadeiro - respondi com o coração.

Aquela era a verdade. E naquele momento Helena não merecia outra coisa que não fosse a verdade.

_ O meu, também - disse ela, com a voz cheia de carinho.

_ Acho que tu vais ter que cumprir tua promessa...

Olhei para ela, me sentindo como se tivesse voltado no tempo. Eu mal tinha tomado um gole do vinho. Mas, de certa forma já me sentia embriagado. Não era a mesma embriaguez do álcool. A causa era outra. Estava no rosto de Helena, que me parecia angelical como no tempo dos nossos namoricos.

_ Eu tinha me esquecido o quanto tu é bonita - falei com sinceridade.

Helena sorriu, agradecida pelo elogio. Os últimos acontecimentos tinham deixado suas marcas. E algumas não eram bonitas. Mas Helena nunca seria feia, mesmo não sendo mais tão bonita quanto em nossa meninice. Peço que me desculpem pela confusão com as palavras, mas foi assim que eu pensei naquele dia. E ainda hoje não consegui achar outro jeito de dizer isso. Helena pousou sua mão sobre a minha.

_ Tu andas muito esquecido. Esquecestes que eu era bonita e que prometeste casar comigo. Olha só no que deu. Agora eu estou feia e tu estás casado. Mas a gente sempre pode consertar pequenos enganos... - disse ela, enquanto virava o corpo em minha direção.

Deixei Helena adormecida na cama com um sorriso de felicidade e paz em seu rosto. E me fui ao galpão decidido a tomar uma borracheira com o João Vieira, que a ocasião pedia canha da boa e sem medida. A tarde passou depressa, sem que eu tivesse me dado conta disso. Não é dada ao homem a capacidade de compreender os caminhos de Deus. Isso eu aprendi com o padre Edson. Mas eu nunca duvidei que de um jeito ou de outro a gente acaba vivendo o que nos foi destinado viver. Quando eu fui parar naquele rincão, cheguei achando que era meu destino viver a minha vida com Helena, o que acabou não acontecendo. Eu estava enganado. Em uma única tarde vivemos tudo o que tínhamos que ter vivido juntos. Tempos depois eu ainda me surpreendia ao recordar com que intensidade nos amamos em tão pouco tempo. Tem sempre alguém que não acredita, mas tenham certeza: no pouco tempo que nos foi dado viver o nosso amor, de acordo com o possível, fomos felizes!

Cheguei meio sem jeito, num andar entristecido, feito boi depois da castração, pensando que apesar da companhia um do outro aquela seria uma noite longa, de muito trago e pouca prosa. Mas não foi bem assim...

Lá estavam, ao pé do fogo de chão, o capataz, o Seu Alírio e o meu companheiro Sabiá, chimarreando, em silêncio, como faziam no tempo em que lá cheguei. Não me envergonho de dizer que tive vontade de chorar. Sempre fui dado a essas bobagens de me emocionar, ao encontrar meus amigos. Mas o João Vieira me conhecia melhor do que eu. Pra não me deixar cair, dando de mão num caneco, largou de lá:

_ Isso é uma barbaridade! Todo mundo da Tapera esperando por ele, e ele resolve passar a tarde “na perna” – gritou, usando uma expressão de que gostava muito. E em seguida completou, antes que eu tentasse dizer qualquer coisa:

_ Te achega, Graxaim. Não tarda e chega cachorro novo na Tapera velha; e sem demora botam a gente pra correr. Te achega e vem tomar uns tragos com os amigos; que logo se toma a estrada, pra nunca mais voltar. Como diria teu velho amigo Ernesto “Mão-pelada”: acabou-se o Rincão do Sorro!

Aquela foi a nossa última reunião no galpão da Tapera. Mas, apesar de todos saberem disso, ninguém tocava no assunto. Só estavam os quatro no galpão. Mas a fartura foi de acordo com a ocasião. Um garrafão de canha com butiá, que o João Vieira tinha escondido, há não sei quanto tempo, e que estava uma coisa de fazer sacristão dar no padre. O seu Alírio conseguiu um vinho da colônia, daqueles que se bebe com o beiço grudado no gargalo e, depois, se diz que ficou entalado, só como desculpa pra não parar de beber. 

Da carne, então, nem lhes conto. Um quartinho de borrego, com a graxa na medida. E uma costela de um novilho que tinham tirado sei lá de onde, já que com pouca gente na estância só se carneava ovelha, mas que estava de se roer os ossos, de modo a deixar a cachorrada morrendo de raiva. Isso sem falar num tatu crioulo que o Sabiá e o seu Alírio tinham esbarrado no caminho de volta, e que parecia saber que era noite de comida farta. Só não disseram pro animal que ele era parte do cardápio! Antes que se bebesse até dormir de pé, o capataz deu início a nossa última reunião.

_ Tchê, guri! Tu não vais acreditar, mas o Alírio disse que derrubaram um bom pedaço de cerca na divisa com a Santa Helena. Não te parece provocação?

Olhei para o Seu Alírio, que só fez confirmar.

_ E só por desaforo, passaram uns quantos boizinhos deles pros lados de cá - falou o Seu Alírio.

_ Não sei por vocês, mas por mim que se vão à merda todos eles, acolherados. Que diferença isso faz pra gente agora? - eu disse, já aborrecido por aquilo tudo. Não me saía da cabeça a tarde com Helena. E a última coisa em que eu queria pensar era na gente daquelas bandas.

_ Deixem no más, que segunda chega o novo dono. E eles que se entendam.

_ Concordo, tchê. Mas tu não te dás conta do que pode ter acontecido? - perguntou o capataz.

Olhei pra ele, curioso, enquanto ele me passava uma caneca de canha com butiá.

_ Pensa bem, guri, em tudo o que aconteceu nos últimos dias. O Cel. Soares disse que faltava o pagamento de uma parte para fechar o negócio. Roubaram nosso gado. O nosso amigo lá em Bagé disse que o Mão-pelada estava por comprar mais campos e que queria vender um lote de bois igual ao nosso...

_ La pucha! Eles compraram a Tapera! – gritei, de repente.

_ Bah, tchê! Mas como tu és inteligente! - disse o Sabiá, debochado.

_ Eu disse pra eles que tu ia descobrir...

_ E com o nosso dinheiro! - completou o João Vieira.

_ Mas tem uma coisa, senhores. O Juiz esteve na Santa Helena resolvendo a questão da compra dos campos, antes do dia que roubaram o nosso gado. Não pode ter sido com o dinheiro do nosso gado que eles compraram a Tapera - eu disse, depois de raciocinar um pouco.

_ Eu pensei nisso - comentou o Seu Alírio.

_ E não sei como foi que eles fizeram. Mas que foram eles, disso não se duvida mais.

_ E alguém, algum dia, duvidou? Se eu tivesse vindo com o senhor eu tinha botado o laço num boizinho deles, só pelo desaforo! – falei, chateado por ter que lembrar aquelas coisas.

_ E onde é que tu achas que eu comprei essa costela tão linda? - disse o seu Alírio, com um sorriso de satisfação.

_Mas de que adiantou eles terem feito uma coisa dessas? Se roubaram da gente ou de outros, a Santa Helena ainda é da Helena. Eles não são donos de nada - comentei.

_ Acontece que eles pensam que ela morreu - disse o capataz.

_ Pior pra eles. Morrendo a dona não fica nada pra eles - eu disse, achando que eles tinham feito uma cagada das grandes.

_ Bah, tchê! Acorda! - falou o João Vieira.

_ O Ernesto de burro não tem nada. Tu não disseste que eles indagaram pro Juiz de quem seria a estância se a dona morresse? Não te passou pela cabeça que agora eles também já sabem que não são donos de nada e que precisam dela viva.

_ Pois é! Azar o deles... – falei, meio distraído.

_ Agora que acham que ela morreu, vão fazer o quê?

_ Nada - respondeu o capataz.

Olhei pra ele, sem entender coisa com coisa.

_ Não vão fazer nada. Vão continuar a vida como se ela ainda fosse viva. Eles sabem que não vai aparecer ninguém procurando por ela. A não ser esse tal Juiz, que pelo jeito também não vai muito longe naquela carcaça velha. De modo que eles não têm que fazer nada, só esperar o tempo passar.

_ La fresca! Agora foi que o causo se enredou... – falei, tentando arrumar os pensamentos.

_ Bueno, guri! O causo agora é bem mais sério. De modo nenhum eles podem saber que a guria tá viva. E nós vamos fazer o seguinte: ninguém sai da tapera sozinho e sem estar bem armado, que daqui por diante só se pode esperar coisa pior. O Alírio vai com o Passarinho até o Rincão dos Netos buscar uns amigos nossos, dos tempos de antes. E eu vou contigo entregar a guria nas mãos desse Juiz. Agora, que a gente já sabe quem vem pela frente, eu não preciso esperar pelo novo dono. Saio e deixo a estância por conta.

_ Amigos de antes? – perguntei, curioso, sem entender o que ele quis dizer.

_ Guerra, guri! Vamos pra guerra! Ou tu imaginaste que eu ia deixar isso, assim, no barato?

_ Agora o senhor falou o que eu queria ouvir. Eu tenho, mesmo, uns atrasados com o Mão-pelada...

_ Vamos com calma - interrompeu o Seu Alírio.

_ Vamos devagar, que o homem é só um e todo mundo quer um pouquinho...

Tudo decidido, o João Vieira disse que era hora de a gente cuidar da nossa última noite ali. Porque dali em diante cada um que se preparasse pra tudo. Não foi fácil deixar aquele assunto de lado. Mas no segundo litro de canha a turma foi se enquadrando. Recuerdos e recuerdos de causos vividos ali; risadas e tristezas, tudo acolherado, peleando contra umas gotas d’água que brotavam no canto dos olhos. Culpa da fumaça, lhes digo de certeza, que ali a indiada era guapa. E só, mesmo, um tanto de lenha verde pra fazer um gaúcho daqueles verter água do olho. No meio da borracheira, lembrei que nem o Sabiá nem o Seu Alírio tinham conhecido a Helena. E julguei que seria bonito de minha parte levar o Passarinho para conhecer, de perto, aquela moça que ele gavionava quando ela se banhava na sanga da Santa Helena. Nada mais justo. Afinal, foi por ter se apaixonado por ela que o Sabiá começou a cantar direito. Saí com ele, meio que de arrasto, que o bicho já tava pior do que eu. E, de quebra, se vieram juntos o capataz e o Seu Alírio.        

Deve ter sido uma cena mui esquisita para a pobre da Heleninha. A sorte é que ela estava num dia de muita felicidade; e acabou se emocionando. Vai daí que, sem saber se ria ou chorava daquele mundo de homem já meio gambá, achou melhor mandar todo mundo ir dormir, debaixo de muita puteada! Lhes digo que, mesmo já meio borracho, pude ver que os olhos dela brilhavam de felicidade; o que me deixou com a certeza de que os dias dela neste mundo não estavam, assim, tão perto do fim.

Depois daquela nunca mais tomei uma borracheira de acordar azul-esverdeado e sentindo na boca um gosto de sopa de guampa! Antes de pensar num canto pra dormir, mirei um basto velho, que não era de ninguém; e que, por isso, todo mundo dizia que era dono. E foi justamente nesse basto que dei os meus primeiros passeios no lombo de um matungo, quando cheguei na estância.

Como no dia seguinte eu sairia no carroção, julguei que aquele deveria ser o último basto daquela estância, onde eu sentaria o meu fundilho. E, antes de buscar um ninho pra passar a noite, resolvi sentar nele uma última vez. Dormi ali mesmo, sentado. (continua...)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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