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Leopoldo Rassier:
Pilchas, de Luiz Coronel e Airton Pimentel

 

22/06/2011 02:19:28
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXII – O TURUMBAMBA COM O SOTRETA..
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XXII – O TURUMBAMBA COM O SOTRETA MÃO-PELADA 

 

No dia seguinte, de manhazinha, antes de clarear o dia, o João Vieira e o Seu Alírio fizeram fogo e cevaram o mate, para uma última madrugada. No lado de fora eu e o Passarinho fomos obrigados a despejar uns baldes de água fria pela cabeça, de modo a poder recuperar a consciência. Por sorte o capataz era vivenciado em assuntos de borracheiras; e preparou uma água para o chimarrão, especial para a ocasião. Uma mistura de losna, boldo e carqueja; coisa de fazer suar gelado, sentado na patente! Para dizer a verdade, até que nem fiquei tão mal por conta da bebida. Mas o Sabiá sofreu uma coisa por demais. Basta dizer que por umas quatro ou cinco vezes ele disse que estava pronto para partir; e quando montava no cavalo tinha de voltar correndo, pra aliviar as tripas. Lá pelas tantas, o Seu Alírio perdeu a paciência:

_ Não faz causo, guri. Vai assim mesmo, se cagando, que se não a gente não sai hoje daqui!

Ele foi, de cara feia. E eu me arrebentei de tanto rir. Depois que eles se foram, nós nos preparamos pra sair. Forrei o carroção, com uns pelegos de primeira; e acomodei Helena, deitada sobre eles. Durante o café expliquei que ela teria de fazer a viagem deitada, pra que não pudesse ser vista. O João Vieira tinha posto uma cobertura, mas quem viesse pela frente sempre poderia ver se tinha alguém sentado lá dentro. Além disso, de maneira alguma ela poderia falar conosco, caso tivesse alguém por perto. Naquela altura, Helena sabia melhor que qualquer um o quanto eles gostariam de botar as garras nela outra vez. Partimos em seguida. Mas não antes que eu tivesse rezado todas as orações que conhecia, para pedir ajuda aos anjos da guarda; numa situação daquelas toda ajuda era bem vinda. Como o João Vieira não fosse lá muito religioso, tive que rezar por ele também. O que vinha pela frente era coisa séria. E eu não podia facilitar, deixando que algum anjo ficasse contra nós só porque o capataz não lembrava dele. No campo da frente uns quero-queros alçaram voo, fazendo alarido e despertando a curiosidade do capataz.

_ Será gente vindo?

_ Não duvido nada que seja - respondeu ele.

_ O que é que temos de armas?

_ Comigo só uma adaga, minha carneadeira e o mango velho que ganhei do Mão-pelada.

_ E as de fogo?

_ Nesse baú, que está bem atrás de mim - eu disse, mostrando o caixotão de madeira talhada, que era uma das relíquias da casa grande.

O João Vieira, que vinha montando um zaino de confiança que ele usava há muitos anos, emparelhou com o carroção. E, num gesto rápido, sentou ao meu lado.

_ Lança mão das armas, que de agora em diante elas vão na cintura; eu não quero perder tempo procurando, se acaso a coisa se complicar.

Deixei a condução da carroça por conta dele e me pus a revirar o baú, em busca das armas: duas Smith 38 – chimite, como se dizia na época -, uma garrucha velha de dois canos, já carregada até a boca, e uma espingarda de cano grosso, que derrubava capincho só com o barulho que fazia. De quebra, eu trouxe também um revólver, pequenininho, que encontrei na casa grande. Por sorte tinham guardado munição p’raquilo. Não que eu acreditasse que aquela coisinha derrubasse alguém, mas eu tinha esperança de que, caso se conseguisse atirar com ele, encostado no furo do ouvido talvez o índio sentisse algum desconforto.

Helena, quando me viu pegando as armas, indagou preocupada:

_ O que foi? Algum problema?

_ Ainda não. Vem vindo gente. E tu não podes aparecer de jeito nenhum. Fica deitada, bem quietinha, e não abre a boca por nada. Levei a mão até a testa dela, pra ver se ela estava com febre, e fiquei mais tranquilo ao ver que a tarde do dia anterior tinha feito muito bem para ela, Helena parecia como se nada de ruim lhe tivesse acontecido; era só olhar pra ela, que podia-se ver que estava feliz.

Para ir do galpão da Tapera até a porteira da estância era preciso cruzar dois potreiros enormes, onde normalmente ficavam as ovelhas com cria e os cavalos de serviço. Eram campos limpos e de pasto rasteiro, o que nos permitia ver de longe quem se aproximasse. Alertados pelos quero-queros, seguimos nosso caminho com os olhos grudados naquela direção. E não demorou muito até que se pudesse ver a razão daquele alarido das aves.  

Eram mais de dez homens que vinham a cavalo. E muitos deles usando pala, embora o dia não estivesse frio, o que desagradou o capataz. Ele podia jurar que debaixo daquela coberta leve os homens, por certo, já vinham com as armas prontas pra nos pegarem desprevenidos. Foram se chegando, num trotezito apurado, deixando claro que a intenção era chegar até nós antes que a gente pudesse ganhar a estrada.

_ Três eu reconheço - disse o João Vieira, voltando a emparelhar comigo.

_ Um é o Ernesto, o outro é o filho dele, o Nestinho, e o vem mais baixo, do lado do Ernesto, é aquele que chamam de Churrasco-de-bunda, o tal Chico Piolho que queimou a picanha. Os outros deve ser gente que ele arrumou pra o serviço. Fica alerta, guri; se for preciso, não pensa duas vezes e passa-lhes a bala!

Quando estava já bem perto o Ernesto velho tomou a frente, assim como tinha feito o João Vieira.

_ Buenos dias, seu João Vieira! - cumprimentou o Mão-pelada, ao mesmo tempo em que fazia um sinal para que os que vinham com ele ficassem parados, logo atrás.

_ Buenas... - respondeu o capataz, de má vontade.

Nem preciso dizer que ele não se dirigiu a mim. Mas eu estava disposto a não entregar nada barato. E só por desaforo, cravei um olhar, de cara amarrada, na direção dele.

_ O que se passa com o senhor, seu João? Me parece tão desanimado. Se eu lhe for de alguma serventia, é só dizer.

_ Pode ser que seja - disse o capataz.

_ Pois, então, diga qual é a precisão do companheiro.

_ Alguns bandidos, sem coragem de mostrar as caras, entraram noite dessas no posto lá dos fundos e mataram gente minha; gente que me era muito cara, por sinal. O senhor sabe de alguma coisa disso?

_ Não. Por acaso, eu não sei de nada disso.

_ E o senhor, por um acaso, não viu um lotezinho, de umas quinhentas reses com a marca da Tapera, pastando nos campos da Santa Helena?

_ Não, seu João. Por um acaso, eu não vi. Mas, inda que mal pergunte, o que é que esse mundo de bicho ia andar fazendo por lá?

_ Isso eu bem que queria saber. O caso é que derrubaram uma parte da cerca, de modo que esse gadinho só pode andar por aqueles lados; e me desculpe a franqueza, quem matou meus amigos também.

_ Mas o senhor viu alguém, com cara de bandido, bandeando o gado pra lá? - indagou o Mão-pelada, com sua cara cínica.

_ Ver, não vi. Mas só pode ter cruzado pra lá, pois que a cerca continua no chão. Além disso, todo mundo na Santa Helena tem cara de bandido. E vai daí que eu só posso achar que foi gente sua que fez esse serviço.

_ O que é isso, seu João? Desse modo o senhor me ofende. De que serviço o senhor me acusa?

_ Da cerca. Depois dela no chão, passar o gado é o de menos...

_ Pois não vê que o senhor não anda muito errado. Fui eu mesmo que mandei derrubar a cerca. Agora, se o gado cruzou pra lá foi por conta própria, que eu não dei ordem pra que eles se bandeassem pra lá. Já esse negócio de bandido... O senhor me conhece, seu João, e sabe que eu nunca fui ladrão; e que eu não ia começar, agora, depois de velho. Só o que eu fiz foi derrubar o alambrado. Até porque o senhor deve saber bem que sorro na Santa Helena não se cria; se tem bicho que me dá nojo é o tal do bichinho, que vive de olho querendo o que é alheio - disse ele, com ar de provocação.

_ Quando aparece um, a gente bota pra correr de lá.   

_ E com ordem de quem o senhor mandou derrubar o aramado? - perguntou o João Vieira, irritado.

_ De ninguém, que eu não preciso!

_ Pois eu acho que o senhor anda de conversa à toa, seu Ernesto! E se trouxe esses homens pra consertar o estrago, não tem porque a gente perder tempo com essa prosa. Vá fazer o teu serviço que eu vou cuidar da minha vida, pois tenho mais o que fazer - disse o capataz, mal humorado. 

_ Pois não tenha pressa, seu João - disse o Mão-pelada, procurando mudar de posição no lombilho.

Por certo que o acontecido anos antes tinha deixado algumas marcas naquele corpo miserável. E era claro que ele se sentia desconfortável, quando ficava muito tempo na mesma posição.

_ Não tenha pressa - continuou ele -, porque eu quero lhe dizer umas coisinhas, que eu também sou um homem sério e o senhor sabe disso.

_ Pois então, apura tchê! Me diz de uma vez o que viestes fazer aqui, com esse lote de homens de cara feia?

_ O senhor me parece meio apressado pra deixar a estância...

_ Deixa de conversa à toa e fala logo o que tu queres. Dormi com os pés destapados e não ando num dia dos melhores. Quando terminar ganha o mundo, porque pelo que eu saiba aqui não é o teu lugar!

_ Pois não vê que eu acho que o senhor está enganado. No meu ver este é, sim, o meu lugar. Me dá aqui, tchê! - disse ele para o filho.

Num gesto que parecia ensaiado, o Nestinho enfiou a mão por debaixo do pala e sacou de lá um envelope grande, que passou para o pai.

_ Eu podia ler para o senhor, seu João, mas acontece que às vezes eu demoro um pouco... - ele disse, me olhando, como se quisesse que eu lembrasse do nosso primeiro encontro na estação.

_ De modo que o melhor é deixar que este meu filho, que é letrado, nos faça esse favor – completou, devolvendo o envelope ao Nestinho.

_ Bá, Ernesto, não me faz perder tempo com uma bobagem dessas; que eu saiba nem ler tu sabes! Já não lia quando tinha os dois olhos sãos; que dirá, agora, com um arruinado...

Sem esperar por outra ordem, o Nestinho fez a sua parte. Aquele era o documento que tratava da compra da Estância da Tapera pela Santa Helena. E as condições do negócio, incluindo a parte que cabia ao capataz, estavam bem claras, conforme também tinha dito em carta o próprio coronel Soares Neto. Assinava como comprador o senhor Ernesto de Tal, em nome da senhora Helena Lins Dias, de quem era o representante legal com poderes para tanto. Ainda, segundo o registro do cartório, a Estância da Tapera deixava de existir e passava, desde já, a pertencer à Santa Helena.

_ Como o senhor pode ver, seu João, eu não sei ler, mas sei fazer bons negócios. E como resultado de anos de lida pelos campos, de agora em diante tudo isso me pertence; se mandei que deitassem a cerca, foi porque eu posso fazer isso - disse ele com um sorriso largo na boca, já quase sem dentes.

_ Trabalhei o mesmo tanto que tu e nunca ganhei dinheiro que desse pra comprar nem mesmo uma chacrinha, que dirá uma estância. Aliás, que eu penso que a mesma coisa tenha se passado contigo, pois se agora a Tapera é da Santa Helena, então a estância não é tua, mas da dona Helena, que é a dona desses campos de agora em diante; de modo que, assim como eu, tu não é dono de merda nenhuma!

_ Pois não é que o senhor se enganou de novo, seu João. Mas isso não é culpa sua, porque eu nem cheguei a lhe participar. Agora, o senhor me permita dizer: o caso é que este meu filho, que é letrado, vai se casar pra logo com a filha do finado Dr. Manuel. E, por conta disso, desde já assina por ela, como se já fosse o dono. E eu, como pai, também sou meio dono. O senhor não concorda comigo?

_ Vou concordar no dia em que o teu filho botar um filho nas cadeiras dela... - disse o capataz, pegando até a mim de surpresa.

_ Espere, que o senhor vai ver. Faço questão de lhe convidar pra festa do batismo. Pra lhe ser franco, seu João, eu até que tinha pensado em convidar o senhor pra ficar de posteiro, aqui mesmo, nesse galpão velho, onde o senhor passou a vida. Mas mudei de idéia, quando me lembrei que o senhor anda com umas companhias que não são da minha confiança. Eu crio gado; sorro, os que não mato, boto pra correr!        

Aquela implicância comigo já dava sinal de fazer efeito. E eu era capaz de jurar que sentia o mango ao meu lado me convidando pra uma botada no meio daquele focinho. Como se pressentisse o perigo o João Vieira me lançou um olhar, como se dissesse: - te acalma, guri, que eles são muitos e nós só dois. E não foi mesmo preciso que ele falasse nada, pois que eu compreendi logo o que ele tentava me dizer. Aquele mundo de homens não andava por ali passeando à toa, como cobra em dia de vento. Acontece que o Ernesto velho me conhecia bem; e era certo que não ia demorar a me dizer coisas mais fortes, me fazendo sair de mango em riste na direção dele. Era só o que eles estavam esperando: o motivo. Mas deixa que eu era metido a brabo, mas não era muito burro. E, por isso, não seria eu quem iria envidar aquele monte de macho pra um acerto de contas, que, a bem da verdade, nem era deles. O Mão-pelada seguiu com o assunto.

_ ... De modo que é como eu lhe digo, seu João. Como o senhor não tem mais serventia por aqui, eu trouxe esses homens pra assumir o serviço. E eu queria lhe pedir que deixasse os meus campos.

_ Longe de querer estragar o teu dia e, sem querer, fazer pouco caso do teu pedido. Mas, por acaso, tu não reparou que eu já estava mesmo de saída? - disse o João Vieira, virando a cabeça na direção do carroção.

_ Em todo o caso, é bom que tu não te esqueças: eu volto pra buscar as minhas reses. E se descobrir que quem matou minha gente anda estanciando nos teus campos, volto pra acertar as contas.

_ Não sei de nenhuma rês do senhor. E já disse que ninguém por aqui é bandido. Mas como o senhor anda desconfiado que eu possa querer qualquer coisa que seja sua, eu me sinto no direito de, também, ser desconfiado. E mesmo a contra gosto vou ter que pedir pra um destes homens dar uma olhadinha nessa sua carroça, só pra ter a certeza de que não estão levando aí nada que seja da propriedade. Não que eu desconfie do senhor; mas, seu ajudante, sabe-se lá... - disse ele, me olhando com um meio sorriso. Dessa vez a provocação passou longe, de modo que eu retribuí com um sorriso grande, o que fez com que ele me cravasse um olhar azedo.

_ Não carece a preocupação, Ernesto, que eu mesmo te digo. Em cada um destes meus revólveres tem meia-dúzia de balas, que, talvez, sejam da estância. E é só isso o que eu trago comigo. Agora, se qualquer desses homens tiver o atrevimento de querer revistar as minhas coisas, eu devolvo estas balas, todas, enfiadas na cabeça desse teu filho noivo-estancieiro-letrado e outras coisitas más, que agora não convém lembrar. Tu sabes bem que em causos de peleia eu me viro sem aperto. E depois que fizeram aquela judiaria com meus amigos eu ando, mesmo, buscando motivo.

_ Que tal vai ser? – perguntou sério, o capataz, já de armas nas mãos.

Nem é preciso que eu fale que numa situação ruim sempre aparece um adulão, disposto a piorar as coisas. E pro causo, não faltou um que estivesse disposto a virar herói. E, não por acaso, foi o próprio Chico Piolho que se meteu a querendão.

_ O senhor quer que eu faça esse serviço, patrão? – disse, deixando o grupo e indo na direção da carreta, enquanto falava com o Mão-pelada.   

Nisso o João Vieira levantou a mão esquerda e fez mirada na direção da cabeça do próprio Mão-pelada, falando comigo.

_ Derruba esse animal, guri, que ninguém deu ordem pra esse homem querer mexer no que é meu!

Nunca na minha vida eu tinha pensado que um dia chegaria a cometer um ato tão abarbarado como aquele. Cheguei, mesmo, a pensar que não teria coragem. Mas a vida de Helena estava em perigo, assim como a única esperança que nos restava. De maneira que, enquanto eu pensava na validade daquele gesto não muito cristão, o meu dedo já apertava o gatilho. Eu já tinha caçado algumas vezes com aquela arma; e não me envergonho em dizer que eu nem atirava muito bem. Mas uma das vantagens de se atirar com uma arma daquelas é que, de certa distância, o índio nem precisa ser bom atirador, é só apontar o cano na direção do alvo e pronto, nem precisa fazer mirada. Arma de caolho, como dizia o Seu Alírio.

O que aconteceu em seguida foi uma coisa inesperada e que acabou por interromper um derramamento de sangue, que por certo se seguiria; melhor dizendo, uma coisa inesperada não: duas! A primeira foi que ao obedecer a ordem do capataz, eu acabei estourando os miolos do matungo em que o Chico Piolho vinha montado. E isso era quase o mesmo que atirar numa pessoa da família.

_ Mas, que barbaridade! - espantou-se o Mão-pelada.

_ Esse louco atirou no cavalo! - disse ele, sem acreditar.

_ Mas, que cousa! - espantou-se, também, o JoãoVieira.

_ Então, isso é coisa que se faça com o pobre animal!

Fiquei sem saber o que fazer.

_ Não foi o senhor que mandou que eu atirasse? – perguntei, meio assustado.

_ Era pra atirar no animal que vinha montado em cima, tchê! - reclamou o capataz.

_ Que baita judiaria! - disse o próprio Chico Piolho, assim que se levantou da queda e entendeu o que tinha acontecido. Embora tenha sobrado também para ele uns quantos carocinhos de chumbo, ficou mais chateado pelo matungo do que por si próprio.

É claro que essa reclamação do quase morto me deixou mais revoltado do que eu já estava. E eu já tinha me decidido a reparar o infeliz engano, quando uma segunda coisa aconteceu que me fez frear de soco. Assustada com o barulhão no interior da carreta Helena deixou escapar um grito, que logo chamou a atenção de todos.

_ Ninguém se mexa! - gritou o Mão-pelada, tomado pela surpresa.

_ O senhor baixe sua arma, seu João, que nós somos lindeiros de muito tempo e nunca precisamos disso pra resolver nossos assuntos - completou ele, dando outro rumo aos acontecimentos.

Eu tenho certeza de que ele teria preferido que eu tivesse atirado naquele adulão, só pra que ele tivesse um motivo pra começar o tiroteio. E, nesse caso, pior para nós. O próprio João Vieira reconheceu, depois, que tinha caído na armadilha dele. E não fosse pela minha besteira e pelo grito de Helena... adiós tia Chica!

_ Ainda que mal pergunte, que isso nem é de minha conta, mas o senhor, por acaso, disse que tinha mais gente? Quem é a dona? - indagou o Mão-pelada, curioso.

_ É verdade, tchê, não é da tua conta - respondeu o João Vieira, disposto a não dar conversa. Mas logo se deu conta de que a gente já tinha escapado de um problema e que não era bom entrar em outro.

_ Mas, também, não é nenhum segredo. É só a mulher do guri, que anda mui amolada e não consegue nem parar de pé.

_ Quer dizer que o sorrinho se casou? Mas,  que barbaridade! Melhor que nunca dê cria, que isso é de raça mui ruim.

_ Não tem por que se preocupar - eu disse, falando com ele pela primeira vez.

­_ Se der cria, não vai ser o senhor quem vai cuidar. Aliás, que o senhor cuida mui mal das suas...

_ É verdade - disse ele.

_ Cada um que cuide do que lhe pertence. Se o senhor não tivesse descuidado do que era seu, não teria perdido uma vez. Melhor que cuide agora, pra não perder outra vez.

_ Eu não esqueço disso, seu Ernesto. E como prova trago sempre comigo este mango velho que ganhei – falei, enquanto levantava e mostrava pra ele o papada-de-touro.

_ Vamos deixar essas coisas pra lá, que isso tudo é passado. Quando quiser aparece para um banho de sanga; venha e traga a guria, que eu vou gostar de conhecer!  - provocou ele.

Eu já ia ensaiando uma outra resposta bem desaforada, quando o capataz saltou na frente.

_ É isso, então, senhores! - interrompeu o João Vieira, pressentindo que a conversa voltava a tomar um rumo que só podia resultar num desatino de minha parte. Dessa vez eu nem fiz questão de continuar com aquilo. A voz do capataz recomendava que eu tivesse juízo, de modo que eu achei melhor deixar aquelas respostas para um outro dia.

_ Vou tomar meu rumo; fica com a tua estância - despediu-se o João Vieira, cutucando a virilha do zaino e fazendo com que ele saísse num passo lento, como se esperasse o fim da conversa.

_ Vá com Deus, seu João. Não esqueça que seu ajudante matou um animal de minha propriedade. Por conta disso, se eu achar as suas reses fico no direito de tirar umas pra mim, pra modo de compensar minha perda. O senhor não acha justo?

_ Tu ainda estás no lucro, Ernesto, e sabes bem disso. Não te bobeia me provocando, que eu ainda não guardei minhas armas; e não me importaria de morrer sabendo que botei uns carocinhos destes na tua cabeça. Eu perdi uns bons amigos e tu não perdeste nem mesmo um peão de merda desses. Mas não faça causo, no tempo certo venho buscar o que é meu... E antes que eu me esqueça, se eu escutar o barulho de um pescoço se virando na minha direção despejo bala em ti e no teu filhinho queridinho, que tu chama de letrado só porque ele sabe ler!  - falou o João Vieira, tomando o rumo da saída e dando as costas para os homens do Mão-pelada, enquanto eu, é claro, saía no rastro dele.

_ Vou esperar a tua visita; não pelo que te fizeram, mas porque somos amigos e eu gosto de ti! - ouvimos do Mão–pelada, que também se afastava na direção da estância.

Não nego que fiquei esperando por alguma traição da parte do Mão-pelada. Apesar disso, ele conseguiu me surpreender mais uma vez, seguindo no rumo dele sem nos incomodar.

_ Tchê, guri! Me passa a canha, que essa foi por pouco! - disse o João Vieira, quando cruzamos a última porteira e chegamos finalmente na estrada, sem que ninguém tivesse nos dado um tiro pelas costas.

_ Aproveita e toma também um gole, que tu tá precisando; e eu acho até que mais do que eu! 

Quando dei por mim, percebi que as minhas pernas tremiam sem controle. Como sempre fui disciplinado obedeci a ordem do capataz, com entusiasmo. (continua...)

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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