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Paixão Côrtes:
Chico do Porrete

 

19/08/2011 20:08:40
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXIII – BICHAREDO DESTORCIDO...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XXIII – BICHAREDO DESTORCIDO E PRONTO PARA O SALSEIRO! 

O caminho até a entrada da Santa Helena regulava mais ou menos quatro léguas. Quando parti da Tapera em direção à Santa Helena, anos antes, fui seguindo um caminho que cortava os campos, o que economizava a viagem em légua e meia. Tá certo que eu custei uma barbaridade para chegar à estância, mas isso porque eu perdi um pouco de tempo tentando encontrar o rumo certo. Essa foi uma das razões que nos deram a certeza de que a intenção do Mão-pelada era mesmo nos courear; o normal seria ele ter cortado caminho pelos campos, e não ir fazendo aquela viagem pela carreteira.

Quando chegamos à porteira da Santa Helena o capataz se deu conta de que a gente não ia poder ficar ali, parados, esperando que o tal do juiz desse as caras. Ainda que o Mão-pelada não estivesse por perto, o melhor a fazer seria buscar abrigo nalgum bosque de beira de estrada. E o mais próximo ficava a uma légua mais adiante. Chegamos lá em ponto de meio-dia.   

E como aqueles campos já não pertenciam à Santa Helena, o João Vieira achou seguro acender o fogo pra fazer um arroz com charque e tomar uns mates. Na verdade, ninguém podia ter certeza se o juiz tinha chegado na Santa Helena antes de a gente poder impedir ou se ele ainda nem tinha chegado. De modo que o jeito era ficar na espreita, rezando para que ele tivesse se atrasado. Naquela altura nada podia ser pior do que a chegada de alguém na Santa Helena procurando por Helena, dizendo que tinha recebido uma carta dela combinando o encontro.

Passava das duas horas quando o capataz avisou que vinha gente pela estrada. Nós tínhamos entrado um pouco mais no bosque, buscando proteção das árvores. Enquanto que o João Vieira ficava abrigado perto da estrada, observando se alguém cruzava o caminho. Assim que percebeu o movimento, veio nos avisar.

_ Fiquem aqui, quietos, que eu vou ver se é ele. Se for, eu me chego e dou um jeito de trazê-lo até aqui. 

Era ele! Antônio Maria Costabrava era o nome do juiz. Um gauchão de boa cepa, vivenciado nas coisas dos pampas, que logo se pôs mui à vontade, sentado num tronco velho que servia de banco. Estancieiro forte na região de Dom Pedrito, logo se via pelos seus modos que era acostumado com os costumes fronteiros. E sem nenhum rodeio quedou-se, ansiado por um mate. Bom de bico, chimarreou com gosto, enquanto ouvia com atenção o que Helena contava, só interrompendo de vez em quando, para pedir que ela repetisse alguma coisa que ele não tivesse entendido. Veio acompanhado de dois homens, bem armados por sinal, que se mantiveram em pé, um pouco mais ao longe, assumindo o papel do capataz na vigília. Quando ela terminou o relato de tudo o que tinha acontecido, desde que eu fui mandado pra santa Helena até a chegada dela na Tapera, o velho Juiz estava emocionado. Com carinho ele se aproximou e abraçou Helena, como se fosse alguém muito querido. Depois, disse que compreendia o desejo dela e achava que naquela situação ela tinha razão no que pedia; e que ele não mediria esforços pra lhe atender os anseios.

Ficou decidido que nós todos iríamos para a casa que ele tinha em Bagé, onde na manhã seguinte ele começaria a tomar as providências necessárias. A família dele morava em Dom Pedrito. E a casa de Bagé ficava fechada na maior parte do ano. Além disso, embora Helena ainda tivesse a casa dela na cidade, todos concordamos que não seria um lugar seguro pra ficar. Helena voltaria com ele de automóvel, enquanto eu e o João Vieira seguiríamos do mesmo jeito que viemos. Até porque no carroção estavam todas as nossas tralhas: roupas e pertences. Naquela simples carreta cabia tudo o que dois homens tinham juntado na vida, até então. Antes de entrar no carro, o Dr. Antônio Costabrava olhou bem para o capataz e perguntou:

_ O senhor é que é o João Vieira, que andou peleando ao lado de um tal coronel Tonico Brabo?

_ Sim, senhor. Eu era um rapazote, enquanto que ele já era veterano de outras campanhas.

_ E foi o senhor que tomou parte com ele na tomada de São Vendelino?

_ Eu, mesmo. Foi um dia bem ruinzinho pros dois lados. Ninguém se entendia. Chega uma hora em que a gente nem sabe mais contra quem tá lutando...

_ E não foi o senhor que um dia impediu que ele morresse de uma bala pelas costas?

_ Traição é coisa que não se admite. Fui obrigado a atirar num companheiro...

_ O senhor salvou a vida do meu pai! - disse o juiz, antes que o capataz terminasse de falar.

_ Doutor - eu falei, me metendo a bobalhão - esse homem é o único caso de um soldado que foi pra guerra só pra salvar os outros. Nunca ouvi dizer que tenha matado um inimigo. Acho até que nem tinha. 

No dia seguinte encontrei o capataz mateando, ainda mui cedo, na cozinha da casa, e conversando com uma empregada, uma negrinha mui lindaça, por volta dos trinta anos. E eu era capaz de jurar que o João Vieira andava se engraçando pro lado dela. Sentado num mochinho perto de uma mesa, ao lado do fogão à lenha, tendo à sua frente um prato de bolinhos fritos, o capataz me pareceu muito à vontade naquela manhã. De modo que eu pensei que era bem capaz de ele acabar fazendo algum convite pr’aquela mulher seguir conosco de volta pra estância, desde que tudo desse certo. E não é que eu acho que ela teria ido!        

Naquela mesma tarde Helena me chamou para uma conversa em seu quarto.

_ Te incomodas em ficar aqui, um pouquinho comigo? - disse ela, naquele tom de voz que eu já sabia no que ia dar. E não foi diferente do que eu tinha pensado! Passamos uma tarde mágica como se não vivêssemos naquele tempo, onde as coisas estavam acontecendo. Pode ser que quem ouça essa história não entenda, mas o que se passava com Helena era uma espécie de milagre: quando nós estávamos sós ela nunca parecia doente. Durante muitos anos tentei entender como aquilo acontecia com ela. Como é que podia uma pessoa, à beira da morte, se entregar com tanta vida ao amor, ao ponto de fazer com que eu mesmo me esquecesse de tudo ao lado dela?

No outro dia pela manhã chegou um médico, mandado pelo juiz, para examinar Helena. Quando a consulta terminou, ele nos chamou, a mim e ao juiz, para uma conversa em particular.

_ Não são boas as notícias - começou ele, em tom grave.

_ Não precisa de rodeios, Martins - disse o juiz, com intimidade.

_ A moça não tem muito tempo - sentenciou ele, com a sinceridade de quem já é acostumado a lidar com aquilo.

_ Nem levando para Porto Alegre? - quis saber o juiz.

_ Não. É uma pena. Uma moça tão jovem. Não consigo entender como foi se pisar daquele jeito. Disse-me foi atropelada por um touro na estância. Foi?

_ Foi - respondeu o juiz, sem dar mais explicações.

Ficamos todos em silêncio por um tempo, até que o juiz perguntou o que eu queria ter perguntado, mas não tinha coragem.

_ Quanto tempo?

Joanita chegou ao final da tarde e a primeira coisa que fez foi correr para o quarto, onde estava Helena. Depois de conversarem um pouco Joanita desceu até a cozinha, onde entregou umas ervas para a cozinheira preparar um daqueles chás, que faziam com que Helena fosse do verde para o azul e do azul para o vermelho vivo, com a mesma rapidez. Em seguida cochichou algumas palavras no ouvido da negrinha, que se desmanchou em sorrisos. E só o que eu consegui ouvir foi o nome do capataz, confirmando o que eu pensava daquele cambicho. Aproveitei aqueles minutos para conversar um pouco com ela, enquanto cevava um mate ao pé do fogão à lenha. Porém, minha alegria durou pouco. Assim que o tal chá ficou pronto, Joanita partiu outra vez em direção ao quarto, levando consigo a chaleira fumegante.

_ Por que tu não vens ficar conosco? - perguntou ela, já se afastando apressada.

Eu fui. Chegando lá, me fizeram de servidor. E continuaram com uma prosa animada, como se eu fosse só mais um móvel do quarto, o que acabou por me dar uma oportunidade de examinar meus dois amores, ao mesmo tempo, sem que elas percebessem. Nunca passou pela minha cabeça fazer qualquer tipo de comparação entre elas.  

O que me intrigava mais era o fato de duas pessoas aparentemente tão diferentes terem tanto em comum; e como ambas despertavam em mim o mesmo sentimento. Joanita era morena, de cabelos negros e longos até a cintura. Tinha cheiro de terra, de vida livre, de flor do campo e gosto de mate. Joanita me lembrava Juliana, na simplicidade dos gestos e no modo do vestir. Helena tinha a pele clara, cabelos dourados e cacheados nas pontas, um porte elegante, a voz doce e gestos delicados. Tinha cheiro de casa, de vida em família e em cidade. Helena me lembrava Juliana no modo como se entregava ao amor, mesmo com o coração cheio de angústias, como se ambas soubessem que seu tempo aqui era curto.

Amei aquelas três mulheres de um modo que nunca soube explicar. Ao ouvir a voz de Helena conversando tão animada, lembrei-me do que o médico havia dito que ouviu dela: “quem ama não morre: vai na frente preparar a casa!”. Logo me veio a imagem de Juliana, chimarreando na varanda de um ranchinho no meio do campo. Como é que eu iria dizer pra ela que chegaria mais gente?

Quando o juiz deu por terminada a parte das leis, parti ao encontro do capataz para tratar da parte dos homens. Deixei as duas na casa com a impressão de que o tempo de fato encurtava, pois Helena, que sempre se mostrava bem disposta, me confidenciou durante a última vez em que estive com ela que gostaria de ser enterrada na estância, ao lado do túmulo da mãe dela, atrás da capelinha. Pediu, ainda, que eu desse um jeito de mandar buscar em Porto Alegre os restos do pai dela. E que eu também providenciasse para que ele fosse sepultado lá. Aquele pedido me pegou desprevenido. Deixei Helena dormindo e saí com os olhos cheios de lágrimas, ao lembrar de que para ela a vida findava como a luz em uma vela; e que já não demoraria a se apagar.          

Quando cheguei à estanciola do índio Guarany, o João Vieira estava pra lá de impaciente.

_ Até que enfim chegaste, guri; se demorasse mais um dia, eu ia te buscar pelas orelhas!

_ Saudades de mim, meu velho? Ou seria do tempero de uma cozinheira da cidade...? – perguntei, me divertindo com a reação meio que envergonhada da parte dele. No fundo, eu é que estava sentindo a falta dele.

_ Não me vem com as tuas frescuras - respondeu ele, com um olhar que dizia que ele também sentiu a minha falta.

_ E daí? Resolveram tudo?

_ Tudo preto no branco, conforme manda a lei.

_ A lei deles, guri, de gente da cidade. A nossa, a lei dos homens pampeiros, dos gaúchos de alma livre, essa ainda vai pro julgo do Patrão lá de cima!

_ Novidades? - indaguei curioso.

_ De monte. O Olegário me procurou dizendo que ouviu de gente que ouviu dizer que o Ernesto velho vem roubando nosso gado há anos, comendo de aos pouquitos. Se bem que eu já andasse desconfiado. Mas eu nunca desconfiei que fosse pra comprar a Tapera. O desgraçado vinha se preparando faz tempo. Mais uma razão pra que ele não tenha gostado da tua chegada por lá.

_ Sinal de que roubou um bocado. Depois, eu é que sou o sorro...

_ Pois é, tchê. O Alírio faz dias que me mandou avisar que está com uma indiada pronta pra anarquia. E que estão só esperando a ordem.

_ Bueno! Então, dessa vez vamos igualar em número. É gente o suficiente?

_ Talvez, não. A gente viu os que foram para a Tapera, mas ninguém sabe quantos ficaram de guarda na Santa Helena. De qualquer jeito não precisa mais. O Mão-pelada tem aqueles maulas que peleiam por paga, enquanto nós temos gente que peleia pela consideração. Só isso basta. Além do mais, o Ponciano e o Gertulino andam junto com o Olegário, só esperando pelo aviso.

_ Onde é que eles estão? - perguntei.

_ Acampados no mesmo bosque em que ficamos naquele dia; passam os dias cuidando o movimento.

_ Então, pelo jeito, já não falta nada. Mas antes que eu esqueça, o doutor Antônio disse que quer ter uma palavrinha com o senhor.

_ Barbaridade, tchê! Tu vais me fazer perder mais tempo, indo até a cidade conversar à toa?

_ É verdade, tchê. Não se pode mesmo negar o pedido da guria. Bueno! O negócio, então, é ir até eles - disse ele, concordando.

Fizemos uma última reunião para acertar tudo direitinho, de modo que na hora certa todo mundo se encontrasse no bosque, onde estavam o Olegário e os outros dois. O João Vieira despachou seus mensageiros pra tudo quanto foi lado, com as ordens.  

Depois, fomos eu, ele e o meu sogro ao casarão do juiz, em Bagé.        

O doutor Antônio nos recebeu preocupado. O estado de Helena piorava. E ele, assim como nós, fazia questão de realizar o último desejo dela, que era o de morrer e ser enterrada em seus campos.

_ Eu sei que a intenção do senhor era só levar a Helena de volta pra casa, quando tudo já estivesse resolvido por lá. Mas temo que não vá ser possível - disse o juiz para o capataz

_ O senhor acha melhor que ela não vá? - falou o João Vieira.

_ Pelo contrário. Todos nós fazemos questão de que ela esteja lá, quando a gente botar aquela cachorrada pra correr...

_ A gente? Não me diz que o senhor pretende ir também?       

_ Mas é claro que sim, tchê! Ou tu achas que eu vou perder uma oportunidade dessas? Além do mais, seu João, eu ainda sou um juiz de direito e represento a lei; de modo que, gostando ou não, serão obrigados a desocupar aqueles campos. Se obedecerem a minha voz, bom, se não... bala neles!

_ Bueno! Não sou eu quem vai discutir com o senhor. A guria vai de automóvel com o senhor?

_ Vão as duas, ela e a indiazinha bonita que não arreda o pé dela.

_ Nesse caso é melhor que a gente saia logo. Como o senhor vai de carro, podem deixar pra saírem amanhã de manhazinha. Eu vou hoje, pra me encontrar com a gauchada no bosque da Estância do Cruzeiro, aquele mesmo onde nós nos encontramos naquele dia. Que tal lhe parece?

_ Ótimo. Sairemos daqui assim que clarear. O senhor pode me esperar com tudo pronto, que é só o tempo de eu chegar e a gente rumar pra Santa Helena.

_ Sim, senhor - disse o João Vieira, dando a conversa por encerrada.

_ Vamos, guri! Ou tu vais querer ficar pra uma despedida?

_ Vou com o senhor. Só peço que me dê um tempinho, pra me despedir delas.

_ Vou aproveitar pra ver a minha guria - disse o Guarany, me acompanhando.

_ Vai lá, guri, que nesse meio tempo eu tomo um trago com o seu João, que é pra dar sorte - disse o juiz.

_ Só não te demores, porque se não quando voltares já irá nos encontrar borrachos, eu e o doutor. Que se o caso é tomar um trago pra dar sorte, o melhor, então, é tomar a garrafa toda. Não pensem que o Ernesto velho vai entregar aquilo tudo, assim no más... - disse o capataz, como se soubesse o que estava por vir.

Encontrei as duas conversando no quarto. A voz de Helena estava baixa, quase não se podia ouvir, o que me fez concordar que de fato ela estava no fim.

_ Vim me despedir. Amanhã, cedinho, as duas vão com o doutor Antônio nos encontrar perto da estância. Por hoje é melhor que tratem de encerrar essa conversa e deem jeito de descansar, que o dia de amanhã talvez não seja dos mais calmos.

_ Amanhã eu durmo em casa? - indagou Helena, forçando eu sorriso.

_ Eu te prometo que sim! - falei com certeza na voz.

_ Se tu dizes, então, eu acredito - respondeu ela, com a voz já se apagando. Despedi-me com um beijo em cada uma e saí com o coração inquieto.

No andar de baixo o capataz e o juiz estavam no segundo copo, quando eu os interrompi.

_ Tomem a garrafa e levem com vocês, pra ajudar a passar a noite - ofereceu o juiz.

_ O senhor não pensa que eu vou recusar... - brincou o capataz.

_ Se fizesse isso iria me ofender, seu João. É um conhaque especial, que eu guardei pra uma grande ocasião. E não tem melhor hora do que essa. Leva e toma, com a tua gauchada. É um presente meu.

Antes de deixar a casa, o capataz disse que tinha esquecido uma coisa pessoal na cozinha e pediu licença para ir buscar. Meia hora depois ele voltou com cara de guri que andou fazendo arte, o que arrancou do Guarany um tipo de chamada bem do feitio dele:

_ Era só o que faltava! Juan peleador atacando de galo velho, andando de asa caída!

_ Será que dá conta, meu sogro? - eu disse, só por desaforo.

_ Chê! Guarany! Me lembra, depois que a gente resolver essa pendenga, de eu dar uma tunda nesse bobalhão! - me respondeu ele, de cara feia.    

Chegamos ao bosque, quando a noite já ia alta. Mas alertados pelo mandalete despachado pelo capataz, ninguém ainda tinha pregado o olho. Fomos recebidos, ainda na estrada, pelo grandalhão do Gertulino, que quase derrubou o João Vieira do cavalo, num aperto de mãos estabanado, daqueles que dava pra ouvir o estalo dos ossos - da mão do capataz, é claro! Ao redor de um fogo de chão a indiada chimarreava, depois de ter jantado um arroz-de-carreteiro acompanhado de um quartinho de borrego, do qual ainda escorria uma graxinha pelo espeto. Como já esperavam pela nossa chegada, tinham feito bóia que desse pra todos. E foi com alegria que, depois de dar um forte abraço em todos, me atraquei no jantar. Em seguida o capataz começou a botar a indiada a par da situação, explicando com calma tudo o que tinha acontecido em Bagé; e prevenindo que, talvez, a coisa não fosse fácil no dia seguinte. Se alguém quisesse ficar de fora, ele não ficaria chateado por isso.

É bom que se diga que não estavam lá somente a peonada da Tapera, mas também uma gauchada com cara de poucos amigos que o seu Alírio tinha ido reculutar, a mando do João Vieira, no Rincão dos Netos. Eram oito, ao todo, o que eles concordavam que já seria o suficiente. Aliás, quando eu falo em cara de poucos amigos falo porque era, mesmo. Tinha cada índio mais feio, que seria capaz de assustar até lobisomem corno enfurecido. No entanto, apesar das caras, não teve um que não tivesse aberto um sorriso largo, ao se deparar com o capataz. Isso sem falar nos abraços, coisa ignorante uma barbaridade! Aquela foi uma das poucas vezes em que senti pena do João Vieira. Deus me conservasse livre de amigos como aqueles, me abraçando. Quando tive uma chance me cheguei no costado do capataz, perguntando:        

_ Não vais me dizer que salvaste a vida dessa indiada toda e que eles vieram, só por gratidão...        

_ Chê! Pra te ser sincero, tem dois que eu não vejo desde que eram gurizotes. Acontece que, quando a gente anda metido em certas situações, peleando por bandeira, se faz amigos que são pra toda a vida. Esses dois são netos de um grande amigo, que já morreu. E quando souberam da nossa precisão resolveram vir, só para honrar o avô!

_ E vão pelear sem nem saber por quê?

_ Pra eles basta a minha palavra. Se algum deles precisasse de mim, dizendo que era por um motivo justo, eu acreditaria.

_ Sim, senhor - eu disse. Mas vá que não fosse bem assim e o senhor desse fim em alguém, que não merecia morrer?

Na primeira oportunidade que tive, depois que a gauchada se acalmou um pouco, usando como desculpa procurar um lugarzinho onde pudesse estender meu poncho pra passar a noite, saí e esbarrei no Sabiá.

_ Chê! Passarinho! Tu tens alguma coisa pra beber?

_ Mas bá, tchê! Não acredito que tu não tenhas trazido nada de Bagé! - respondeu ele, meio que surpreso.

_ O juiz nos deu um litrão de um conhaque especial de primeira, mas o João Vieira disse que só vai deixar a gente tomar uns goles amanhã, antes de sair pra Santa Helena – respondi, resignado.

_ Não sei o que seria de ti sem mim - comentou ele, já tirando uma guampa bem cheinha da mala-de-garupa.

_ É com o quê? – indaguei, sem imaginar a mistura que teria ali.

_ Com nada. É pura, mesmo.

_ Chê! Passarinho! Será que a preguiça não te deixou nem arrancar uma ervinha do chão, só pra dar um gostito?

_ Não vem com as tuas frescuras, Graxaim. Se te agrada, boto um pouco de bosta de vaca, que isso não falta por aqui, seu mal agradecido! - reclamou ele. Que jeito?  

Atraquei-me num golão abagualado, de fazer saltar faísca dos olhos. E em menos de uma hora, acabamos com a canha.

_ Tem mais? – perguntei, ainda sentindo que tinha espaço.

_ Nem pra remédio. E o pior é que nem sono eu tenho - disse ele, demonstrando que estava tão ansioso quanto eu. Nisso, o seu Alírio aproximou-se procurando por nós.

_ E, então, gurizada? Sem sono? - indagou ele, já sabendo a resposta.

_ E quem vai conseguir dormir, seu Alírio? - eu disse, inquieto.

_ Eu acho que só vocês dois não conseguem, porque o resto dorme sem dificuldade. É questão de costume. Da primeira vez é assim mesmo.

_ Primeira vez do quê, pai, se a gente já se meteu em cada uma... - disse o Sabiá.

_ Eu sei, meu filho. Mas antes era pela farra. Amanhã... Bueno! Não tem porque ficarem assim. Se não pregarem o olho, amanhã vão estar mais cansados do que deviam. Tomem - disse ele, puxando não sei de onde uma outra guampa.

Acordei com o barulho do movimento à nossa volta. O dia ainda não tinha clareado. Mas a gauchada já estava de pé, pra começar a madrugada. O que me deu um pouco mais de ânimo. Mal tomei o primeiro mate, oferecido pelo Ponciano, e senti o triperio se desdomando num repuxo abarbarado.

_ Chê! Vai tomando com o Sabiá, que eu agora não posso mais... - terminei de falar, já buscando um lugar onde pudesse aliviar as frissuras. Quarenta minutos depois voltei, me sentindo leve.

_ Pensei que tu fosse te esvair em bosta, tchê! - disse o Sabiá, num riso debochado, quando me viu voltando meio amarelado. Mas deixa que quem mija contra o vento, mija a própria cara. Foi só ele terminar de falar, pediu licença e saiu apurado com a mão na barriga, como se pudesse segurar o que estava por vir. Toma, linguarudo! 

Pouco tempo depois de o sol mostrar a cara, ouvimos o barulho de um automóvel se aproximando. De certo que só podia ser o doutor Antônio com as gurias. Carro, naquele tempo, era coisa mui difícil de se ver. E só gente muito rica ou importante podia ter um. (continua...) 

Autor: André Moab Garcia
E-mail: andremoabgarcia@hotmail.com

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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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