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Os Bertussi:
A Volta do Tropeiro

 

24/10/2011 15:23:31
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXIV – PLANTANDO O MANGO E PASSANDO
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

XXIV – PLANTANDO O MANGO E PASSANDO A GRAVATA COLORADA NOS PERRENGUES DA SANTA HELENA 

Entramos nos campos da Santa Helena, sem encontrar qualquer peão pelo caminho. E assim foi, até que o automóvel do juiz parou em frente à última porteira, já perto da casa grande, para esperar que os cavaleiros chegassem até ele. Fiz questão de apear e abrir a cancela, para que ele passasse com o carro. Quando o carro parou em frente à entrada da casa, antes que o motorista saísse para abrir a porta, ouvimos uma voz vinda da direção do galpão. 

_ Alto lá, senhores! – alguém disse. Virei a cabeça naquela direção e senti os pelos arrepiarem, quando reconheci a figura. Do galpão da estância, vinha em nossa direção o Afonso e mais cinco homens a cavalo. De certo que se preparavam para sair para o campo e foram pegos de surpresa pela visita. Olhei com atenção e não reconheci nenhum como sendo peão dos meus tempos. De modo que só podiam fazer parte dos alugados.
_ Mas, olhem só quem veio de visita! - disse ele, olhando para o João Vieira. _ Não carece nem que apeiem; diz o que tu queres aqui e te arranca! – falou, altivo.
_ Em primeiro lugar, tchê, quando tu falares comigo não diz “tu”, porque eu não sou da tua laia, me chama de senhor! Em segundo, eu faço o que quero e não tenho que te dar satisfações... - respondeu o capataz, já apeando e indo na direção do carro. 
 

Achando que podia assustar alguém, o tal Afonso sacou da arma e apontou para o João Vieira.
_ Para aí, tchê, que eu não te dei permissão pra entrar no que é meu! - falou cheio de entono.
O que ele não esperava era que aquela gauchada toda que acompanhava o capataz também tivesse sacado das armas e apontado, todos, na direção deles.
_ Tens merda na cabeça, tchê? Antes que tu penses em dar um tiro, cai morto e bem gordinho de tanta bala. Além disso, quem te disse que isso é teu?
_ Pois fique sabendo que, praticamente, já é!
_ Não sei por quê! - falou o capataz, puxando assunto.
_ Acontece que eu sou sócio do Ernesto, o filho. E se o senhor ainda não sabe, esta estância agora é dele.
_ É mesmo, tchê? Mas e a dona Helena?
_ Vão se casar pra logo, de modo que ele já é o dono. Agora, se o senhor não se importa, vai dando a volta e some daqui. Tem bastante gente no galpão, pra emparelhar essa parada. Eu morro, mas o primeiro tiro é na sua cabeça – ameaçou. Mas o João Vieira não fez causo; e seguiu com o que tinha sido combinado.
A porta do carro se abriu e o motorista desceu ao mesmo tempo em que o outro homem saía pela outra porta. Depois, o capataz foi até o outro lado e abriu a porta de trás, de onde desceu primeiro o juiz - que a julgar pela cara do tal Afonso era conhecido dele -, depois desceu Helena, ajudada por Joanita.        
Eu pensei que já tinha visto todas as caras possíveis de se fazer em todas as situações, mas a cara de susto do Afonso foi coisa de nunca se esquecer.
_ Afonso Guimarães! - gritou o juiz. _ Por acaso pretendes atirar em alguém?
_ Doutor Antônio, que bom ver o senhor. E melhor ainda é ver que a noiva do Nestinho está em sua companhia! O senhor poderia explicar pra essa gente que eles não podem invadir o que é dos outros, por favor - disse ele, mal disfarçando a tremedeira; e com a cara branca como sebo de vela.
_ Vou te falar só uma vez, Afonso, se tu e teus homens não guardarem essas armas agora eu deixo que te matem aí mesmo, em cima do cavalo - ordenou o juiz, com rispidez. No mesmo instante os homens guardaram as armas, enquanto que o Afonso apenas abaixou a dele.
_ Melhor assim, que eu não vou me prestar a conversar com alguém que aponte uma arma na direção de um amigo. Se tu não te importares, Afonso, a dona Helena vai subir para o quarto dela, pra descansar um pouco - aquele era o sinal para que Helena fosse levada para dentro de casa. Imediatamente o Gertulino amparou Helena, para que ela pudesse entrar caminhando em sua casa, seguida por Joanita. 
 

Antes de entrar, ainda me lançou um olhar carinhoso, num misto de orgulho e gratidão.
_ Doutor Antônio, será que seria pedir demais que o senhor me explicasse por que a dona Helena veio com o senhor?
_ Porque eu me ofereci para trazê-la.
_ Sim senhor. Mas o que eu quis dizer foi: o que ela estava fazendo em Dom Pedrito com o senhor? - antes que o juiz respondesse, ele emendou: _ Bom. Pra lhe ser franco, ela estava sumida há uns dias. E o Nestinho, o noivo dela, já estava quase louco de tanto procurar.
_ Não me diz uma coisa dessas! - falou o juiz, se divertindo com o embaraço do Afonso. _ Pois, então, diz pro teu amigo que ela já foi encontrada.
_ Vou agora mesmo, doutor, se o senhor me der licença, que o homem já não sabe mais o que fazer e vai ficar feliz em saber que ela tá em casa - disse o Afonso, dando volta no cavalo, na intenção de sumir dali.
_ Espera, Afonso, nossa conversa ainda não terminou. E eu tenho mais uma coisa que tu tens que dizer pro teu sócio - provocou o juiz. O outro parou e se virou devagar, pressentindo que a coisa não andava nada boa pro lado deles.
_ E qual é o recado que o senhor quer que eu leve?
_ Diz pro seu Ernesto Filho que ele é um corno daqueles das guampas bem grandes!
_ Não entendi o recado. Mas se o senhor quer que eu diga, eu digo. Mas por que razão o senhor diz isso, que mal pergunte?
_ Porque, enquanto ele quase enlouquecia de tanto procurar, a noiva dele casou com esse moço - disse o juiz, apontando na minha direção, provocando uma gargalhada geral na gauchada. _ A certidão está aqui comigo, mas eu acho que tu não vais ter a coragem de duvidar da minha palavra, não é mesmo? - completou o juiz, olhando sério na cara dele.
O Afonso ficou por um minuto em silêncio, olhando nos olhos de um por um. Dono de uma inteligência um pouco mais apurada que o Nestinho, deu-se conta de que tinham perdido a parada, a menos que tentasse alguma coisa desesperada. O problema era que ele estava só. E eu tenho certeza de que foi por isso que começou a falar sem pensar, deixando escapar toda a raiva que tinha daquela mulher - a Helena – e também do João Vieira, que já lhe tinha causado alguns dissabores.
_ Cadela ordinária... Eu disse que aquele peão de merda não ia dar conta do serviço. Antes tivesse eu mesmo dado cabo dela - comentou o Afonso, com um dos peões que estavam ao seu lado. O que ele não esperava era que eu também tivesse escutado. Aliás, que esse é um erro comum desses maulas metidos a querendões: dizem o que pensam, sem se importar com nada. Em seguida, ele emendou:
_ Não acredito que ele tenha casado com ela. Nem se conheciam!
_ Acreditar ou não é problema teu. Vai ver que foi amor à primeira vista – comentou o juiz, se divertindo. _ Além do mais, quem conhece quem, de verdade? Eu conheço teu pai há muitos anos e sei que é um homem de caráter. Mas e tu? Eu pensava que te conhecia. E olha só que merda de homem saíste. 
_ Mas doutor, como é que eu vou chegar lá com uma noticia dessas? O senhor precisa me explicar isso direito.
_ Não vou te explicar nada, que eu não te devo satisfações. Entenda-se com ele, que é o marido. Minha conversa contigo já acabou, tchê! Vou te deixar na companhia desses cavalheiros. Dê lembranças minhas ao senhor seu pai, quando o vir - disse o juiz, encerrando a conversa e saindo em direção à casa grande. Aproveitei que ele estava com a guarda abaixada e adiantei o matungo na direção a ele.
_ Chê! Desaparece daqui. Vai atrás daquele bicho que te serve de mulherzinha e diz que amanhã, bem cedo, a gente esbarra de volta na Tapera. E que eu não quero ver ninguém no que é meu. Com eles não vai ter conversinha, vai ser direto na bala, que o recado já tá dado – falei, olhando nos olhos dele.
_ Quem tu pensas que és pra me mandar sair daqui, desgraçado?
_ Minha mulher é a dona dos campos, mas eu sou o homem da casa. Quem dá as ordens por aqui, de agora em diante, sou eu. E se eu disse que é pra ti sair é porque tu vais sair, de ou jeito ou de outro.
Por alguns segundos ele não fez qualquer movimento; ficou me encarando, sem que eu, também, desviasse o olhar dele.
_ Filho de uma puta! E pensar que a tua garganta já esteve na ponta da minha adaga. Eu devia ter te matado naquela noite, em que a gente se cruzou no sobrado da Alemoa...        
O Afonso disse aquilo, de certo que pensando que eu deixaria por isso mesmo, esperando que ele fosse correndo se encontrar com o Nestinho. Mas ele já tinha falado demais pro meu gosto. O caso era que eu tinha que mostrar pr’aquela indiada quem, de fato, mandava ali. E não só para os homens que o acompanhavam, mas também pra peonada da estância, que àquela altura tinham se achegado pra dar fé no que estava acontecendo. Tinha ficado claro que os trabalhadores não quiseram se envolver naquela pendenga. Daí a necessidade de se contratar gente pro serviço. 
 

Acontece que ao verem a dona de volta, e ainda mais, acompanhada de uma autoridade e daquela indiada guerreira, a peonada tinha se dado conta de que as coisas, pelo jeito, iriam mudar de novo. Vai daí que se amontoaram na volta e ficaram por ali, como quem não quer nada, mas ouvindo tudo com atenção.         
Fui me chegando até ele num passo lento, apesar de o cavalo querer sair de uma vez pra cima dele. E quando cheguei na distância certa, levantei o papada-de-touro e larguei-lhe com toda disposição por sobre a cabeça do desaforado. Golpe lindaço uma coisa por demais, não só pelo barulho do couro contra a carne, que fez um estalo como de um tiro, mas principalmente porque derrubei o tal Afonso de cima do matungo, fazendo com que se amontoasse no chão feito um bosteado se vaca. De tão abarbarado foi o mangaço que o infeliz se assustou e deixou cair sua arma. “Bota-lhe, patrão!” – escutei, vindo não sei de onde.
_ Te mandei sair, tchê! Se for preciso te levo a mangaço pra fora dos meus campos! – falei, disposto a cumprir o que tinha dito. Mas ele não reagiu como eu esperava. Olhando pro chão, apenas balançou a cabeça, como se dissesse “sim, senhor!”.
_ Não te preocupa, guri. Deixa no más, que eu também tenho umas continhas pra acertar com ele, por causa de uma aposta de carreira... - falou o João Vieira, relembrando do acontecido anos antes. _ Pode ir cuidar das coisas na tua casa, que eu termino com isto. 
Mal o capataz terminou de falar, eu dei a volta no cavalo e comecei a me afastar em direção ao casarão da estância, para ver como Helena estava passando e dar a notícia de que ela estava em casa de novo. Quando eu estava chegando perto da varanda da casa grande, o Afonso me chamou:
_ Quando eu cortei a garganta daquele velho rengo, foi lembrando da noite em que ele não me deixou cortar a tua. Vem aqui, se tu tens coragem, e vamos acertar nossas contas à moda gaúcha! – gritou, por fim, puxando a adaga da cinta. Eu já ia voltando, quando o capataz me fez um sinal pra que eu esperasse.
_ Quer dizer, seu fresco, que tu, além de roubar o nosso gado, ainda tiveste a coragem de fazer uma coisa daquelas? Não acredito! Isso é mentira tua! Tu não passas de um maricão metido a peleador... - provocou o João Vieira.
_ Roubar? Mas como vocês são burros. O gado de vocês nunca foi roubado, só trocou de campo.
_ Como não? Então vocês não venderam o gado pra poder pagar o que faltava da compra da Tapera? - indagou o capataz.
_ E tu achas que nós somos burros que nem vocês? O seu Ernesto queria mesmo fazer isso, mas o Nestinho fez ele entender que vocês podiam pagar essa conta pra nós. Na verdade, o gado vendido pra pagar aquele restante era daqui da Santa Helena. Até porque, se a gente vendesse uma tropa daquele tamanho com a marca da Tapera todo mundo ia ficar sabendo. O que nós fizemos foi ficar com o gado de vocês, como forma de repor o que a gente gastou. 
 

Depois foi só passar uns dias trocando o gado de campo, até assinar a escritura. Quando a escritura foi assinada, nós passamos o gado de volta pros campos da Tapera. De modo que o gado que estava naqueles campos, depois de assinada a escritura, também era nosso.
_ Chê! Sendo tu filho de pai rico, que necessidade tinha de fazer uma coisa dessas? Precisava matar aquela gente, seu miserável? - Indagou o João Vieira.
_ Meu pai descobriu algumas coisas sobre mim que ele não gostou de saber. Só que, diferente do seu Ernesto, que dependia do Nestinho pra ter o que queria, meu pai já tinha tudo e não precisava de mim para nada, e me botou pra rua debaixo de tempo ruim. Mas a hora dele vem chegando...
_ E tu acreditou que o Ernesto velho ia te deixar viver em paz, aqui na Santa Helena?
_ Não. Nem eu nem o Nestinho. Mas o fim dele já tinha sido acertado...
_ Pois tu terias feito melhor se tivesse matado o teu sogro e deixado os meus amigos viverem!
_ Eu só ia, mesmo, matar aquele rengo que ajudou esse graxaim desgraçado a escapar da ponta da minha adaga, naquela noite. Eu sempre achei que um dia ele me incomodaria a vida. O caso foi que aquelas duas mulheres botaram um berreiro, que deu raiva. De modo que eu acabei também com elas: primeiro a velha, depois a índia fedorenta, que me atirou uma panela pela cabeça...         
Talvez o Afonso fosse dizer mais alguma coisa. Mas se era isso o que ele queria, não teve tempo. Saltaram na direção dele, ao mesmo tempo, o capataz e o Guarany. Os dois, de adaga em punho, dispostos a courear o jaguara. O problema foi que na ânsia de chegarem nele acabaram se esbarrando, o que deu a ele a chance de pegar a arma, que estava caída no chão e atirar na minha direção. Acontece que ele atirou em mim, mas a bala não viajou nem dois metros e encontrou o peito do índio velho, que ganhou a corrida com o capataz e, naquele mesmo instante, saltava sobre o assassino, disposto a vingar a morte da mulher. Ele ainda tentou um segundo tiro; e talvez até tivesse conseguido me acertar, não fosse pela agilidade do João Vieira, que num golpe certeiro da adaga deixou a mão do bicho pendurada só por um pedacinho de carne, e com o revólver ainda apertado entre os dedos. Com os olhos a ponto de sair da caixa, o tal Afonso olhou para a mão pendurada e descobriu, pela sangueira, que o ferimento era de morte.
_ Eu sei que vou perder sangue até morrer, velho de merda, filho de uma puta. Mas não vou morrer feito um porco, degolado como aquele rengo desgraçado, que só me atrapalhou a vida! - disse ele, de joelhos no chão, olhando para o capataz.
_ Não tenha pressa, tchê, que nisso se dá um jeito! Comentou, sem alarde, o João Vieira.
Eu já tinha ouvido falar, mas nunca tinha visto. E digo aos senhores que o índio tem que ter as frussuras em ordem, pra ver uma coisa daquelas. Devagar, como se fosse fazer um serviço à toa, achegou-se por trás dele o João Vieira. E, enfiando os dedos pelos buracos das narinas, puxou de seco a cabeça do tal Afonso para trás, deixando o pescoço bem à mostra. Depois, com calma, encostou a adaga na goela do infeliz, enquanto olhava nos olhos dele.
_ Faz muito tempo que eu não faço isto. Reza pra que eu acerte na primeira, pra modo de tu não ficar sofrendo, sentindo a garganta ser cortada, sem morrer depressa. Quando ouvi aquilo, senti um arrepio me tomando o corpo inteiro. E não pude deixar de fazer uma oração rápida, pela alma daquele infeliz. Aquele era um João Vieira que eu não conhecia e, ao mesmo tempo, não estranhava conhecer agora. A julgar pelo modo respeitoso, pelo qual era tratado, aquele João Vieira devia ser conhecido por muitos. Terminei minha prece com um “Já vai tarde! Amém!” e dei as costas pra aquela cena.           
Levaram o corpo do índio Guarany para dentro do galpão e o deitaram numa cama de pelegos, até que se decidisse o que deveria ser feito. Joanita veio, assim que escutou o tiro, pensando que poderia ter sido eu o atingido. Mas nem o choque de ver o pai baleado tirou dela a capacidade de raciocinar. Depois de limpar o ferimento, Joanita preparou uma pasta de ervas, que usou para besuntar com abundancia o lugar onde a bala tinha entrado. Depois, com um pouco mais de calma, deu ao velho uma caneca de um chá, daqueles que só ela sabia do que era feito, e que botou o índio velho pra dormir em pouco tempo. Eu vinha entrando no galpão, disposto a carregar o Guarany para o carro do juiz, que queria levar o índio até a Santa Casa de Bagé, quando esbarrei com Joanita, que saía a minha procura.
_ Graças a Deus que tu estás aqui - disse ela, com os olhos cheios d’água.
 

_ Vem, minha prenda, me ajuda a botar ele no carro, que vocês vão pra Bagé levar ele pro hospital!
_ Não vai adiantar, não tem jeito... - disse ela resignada.
_ Como não? A gente tem que tentar.
_ Não, não adianta - repetiu ela. _ A bala passou entre as costelas e saiu pelas costas; o problema foi que furou o pulmão... 
O capataz chegou logo a seguir.
_ Como é que ele tá?
_ Dormindo. Fiz uma pasta, que é pra ele não sentir dor, e dei um chá pra fazer dormir. Agora não está mais nas mãos dos homens... - respondeu ela, depois de explicar a gravidade do ferimento. Joanita tinha uma coragem que me fez sentir um fraco, diante de tanta força. O Gertulino chegou, em seguida:
_ O doutor juiz disse que esperassem por ele aqui, que ele já tá vindo. E agora, seu João, quais são as ordens?
_ Tchê, primeiro nós vamos esperar pra saber o que é que o doutor Costabrava vai dizer, depois se vê o resto.        
Quando o juiz chegou ao galpão encontrou-nos sentados, perto do catre, onde estava o Guarany. Estávamos próximos à lareira, de onde saia um calorzinho suave que emanava de um braseiro manso, fogo suficiente para preparar os chás de Joanita e aquecer água para o mate, que ela mesma tinha cevado. No outro canto, onde anos antes eu vivia a minha vida de cachorro sarnento, a peonada da tapera esperava calada, chimarreando também em silêncio. O grupo dos “alugados” também estava lá. Mas era óbvio que não se misturavam, pois tomavam seu mate em separado, sinal que não eram, mesmo, apenas mais peões, porque se fossem já teriam se irmanado. Sem perder tempo, o juiz tratou de explicar, num linguajar bem simples, tudo o que tinha acontecido. A dona Helena tinha, mesmo, se casado. E o Nestinho já não representava ela em nada. A procuração que ele tinha não valia mais. E a partir daquele momento, quem decidia as coisas na estância era eu: o marido dela e o chefe da casa. E se alguém não concordasse com isso, podia arrumar as tralhas e buscar outro lugar pra estanciar.
Quanto aos alugados, com esses não tinha nem conversa; a ordem era pra botar o pé na estrada, naquela mesma noite. Afinal, era gente empregada do Ernesto e não da estância. E se por acaso tivessem contas pra acertar com ele, então que fossem onde ele estava pra receber o deles. Já prevendo que aquela indiada pudesse vir a ser usada pelo Mão-pelada, o juiz deixou bem claro que aquela estância tinha dono. E que qualquer tentativa de tomar dos donos aqueles campos era considerada crime. E que ele mesmo comandaria a caçada a quem quer que participasse de uma coisa daquelas.
_ Recebam o que é de vocês e não se metam mais nisso. Amanhã vou mandar vir uma guarnição da Brigada, só pra conferir que todos entenderam o que eu disse. Alguém quer falar alguma coisa? - ninguém quis. _ Neste caso, vou-me embora. Moço, a casa é tua! – terminou, dizendo para mim.
 

Nos despedimos dele, eu e o capataz, com um forte abraço e um aperto de mãos. Antes, porém, o João Vieira trouxe um litro de canha e fez um brinde de agradecimento.
_ Não é tão bom quanto aquele conhaque que o senhor nos deu, mas serve.
_ Seu João - disse o juiz, com um sorriso contido -, uma ocasião dessas não poderia passar sem um trago, nem que fosse com mijo de égua! O doutor Manuel era um grande amigo; e eu senti muito o que esses cachorros fizeram com a guria dele. Amanhã mando uns brigadianos, pra ajudar no for preciso. Por hoje, não durmam sem sentinelas e não se afastem das armas.
_ Não precisa se preocupar. Deixe, no más, que a gente se vira - disse o João Vieira.
_ É uma pena o que aconteceu com o índio. Vocês tem certeza de que não querem que ele vá comigo pra Bagé?
_ Diz a guria que não tem nada que a gente possa fazer. Eu sei que ela sabe o que faz. Em todo o caso vou passar a noite junto dele, na esperança de que ela esteja errada - respondeu o João Vieira.
Depois que o doutor Costabrava se foi, o capataz disse:
_ Agora a gente precisa pensar no dia de amanhã.
_ O senhor não vai esperar pelos brigadas?
_ E dar aos dois a chance de sair sem levar uns relhaços pelo lombo? De jeito nenhum! Isto é coisa nossa e nós é que vamos resolver.
Assim que o doutor Antonio partiu, reuni a peonada da Santa Helena e tive uma conversa franca com eles. E pelo modo como me ouviram, pude perceber que não me trariam problemas. Tudo esclarecido, para eles a vida continuaria como sempre, quer dizer, um pouco melhor, já que não teriam mais que aturar o Mão-pelada.
Passamos o dia entretidos entre os cuidados com o Guarany e os planos para a manhã seguinte. Já perto do final da tarde, ainda acompanhei a saída dos alugados até a última porteira da estância. Por via das dúvidas, foram comigo o Gertulino e o Ponciano, além de outros dois que eram amigos do João Vieira. Aliás, que ao contrário do que eu esperava, seguiram no rumo da cidade ao invés de irem para a Tapera, coisa que nos deixou aliviados e satisfeitos, ao imaginar que o Mão-pelada nem sonhava com o que estava por vir.            
De volta ao galpão, me disseram que Joanita tinha ido até a casa grande levar um chá para Helena. Deixei as coisas por lá aos cuidados do capataz e fui ao encontro delas.
_ Pronto, guria, chegou o teu marido... - disse Joanita, se esforçando para fazer uma graça.
_ Como é que tu estás? – perguntei, preocupado com ela.
_ Eu me aguento. O pai vai dormir por muito tempo e eu já não posso fazer mais nada por ele. Vou até a cozinha preparar uma sopa; tô com fome. Fica um pouco com ela, até eu voltar. Parece que ela tem uns serviçinhos pra ti. Vai acostumando, vida de casado é assim - disse ela, se afastando.
_ Tá tudo bem contigo? - perguntou Helena, com a voz baixa.
_ Agora sim. Cumpri a promessa que te fiz. Já posso dizer que tu estás em casa.
_ Eu sei, posso sentir isso. Obrigada... - disse ela, deixando as lágrimas caírem devagar. _ Eu queria te pedir mais uma coisa...
_ Tu podes me pedir todas as coisas! – falei, feliz por ela.
_ A Joanita trocou as roupas de cama e também o colchão, mas o cheiro daquele homem ainda tá no ar. Tem umas roupas dele neste roupeiro e eu queria que tu pusesses fogo nelas.
_ Se todos os teus pedidos fossem assim... Queres ver a fogueira?
_ Não. Mas eu queria tomar uma taça de vinho, posso?
_ Dou um jeito – respondi, enquanto começava a revirar o guarda-roupas a que ela tinha se referido.
Fiz uma trouxa enorme e desci com aquele lixo, disposto a fazer o que Helena tinha pedido. Antes, fui ao galpão e dei ordens para dois peões juntarem à fogueira tudo o que fosse do Nestinho e do pai, desde as roupas até os arreios de montaria, sem esquecer nem mesmo o colchão onde eles dormiam; ou o mochinho, que ele usava na hora do mate. Tudo providenciado, retornei para junto de Helena com uma garrafa de vinho e duas taças, que encontrei na cristaleira da sala da casa grande. Helena quis que eu arrumasse uma cadeira para ela perto da janela, assim como tinha feito na Tapera. Como a visão através da janela não lhe permitia ver a entrada da estância, Helena me pediu que fôssemos pra a varanda. Lá, fitou o horizonte e tomou o seu vinho em silêncio. Depois me deu a sua mão e me apertou com carinho.
_ Não sei se tu vais entender o que eu quero dizer, mas tu me destes quase tudo o que eu pedi na minha vida, realizou meus desejos, me fez sentir amada, casamos e agora moramos na nossa estância. Só me faltou ter filhos, mas isso a gente pode resolver na outra vida. O que eu queria, mesmo, era te agradecer e ver só mais esse pôr-do-sol contigo.
_ Ainda vamos ver muitos outros - eu disse, sentindo que ela falava como numa despedida.
_ Não, não vamos. Eu vou na frente; preciso arrumar a casa...        
Desci as escadas, sentindo o peito apertado e a garganta seca. Na cozinha Joanita tomava um chá de camomila, com o olhar perdido, o que me fez sentir pena de toda aquela carga de coisas difíceis que ela vinha suportando em silêncio e com tanta dignidade. Eu queria falar, mas as palavras não saiam.
_ Queres me dizer alguma coisa?
_ Ela foi na frente... Disse que precisava arrumar a casa – falei, sabendo que ela compreenderia. Joanita permaneceu quieta. Nos demos as mãos, e assim ficamos por muito tempo.
 

Ao clarear do dia sepultamos Helena no lugar onde ela queria. Fiz uma longa prece, encomendando a alma dela. E depois de tudo terminado pedi que me deixassem sozinho na capelinha, por alguns minutos. Era uma sensação estranha estar ali, chorando por alguém com quem eu convivi tão pouco e que, no entanto, parecia ter passado a vida toda ao meu lado. Aproveitei a ocasião para rezar e também derramar umas lágrimas por Juliana; era impossível estar na Santa Helena e não se lembrar dela, principalmente agora que chegava a hora de acertar as contas com aquele que também a ela causou tanto sofrimento.        
Ao sair da capela, vaguei por entre as construções que formavam a Santa Helena, o mangueirão de pedras, onde eu paguei boa parte dos meus pecados, a horta onde eu roubava verduras, no tempo em que o Mão-pelada cuidava da minha dieta, o quartinho onde eu tive a minha primeira noite com Juliana, na casinha construída grudada na casa grande... O curioso era que nem mesmo no tempo em que cheguei ali, carregado de ilusões acerca do meu futuro com a herdeira daquele mundo de campos, eu jamais me vi como senhor daquele lugar. Eu pertencia ao mundo do padre Edson, ao mundo de Juliana na beira da sanga, ao mundo da Tapera, ao mundo de Joanita na imensidão do pampa, mas nunca dali. Aquele não era o meu lugar.
Joanita deixou seu posto ao lado do pai e veio ao meu encontro, assim que entrei no galpão. Ela tinha passado a noite praticamente em claro, revezando as lágrimas entre o velório de Helena e os momentos em que estava com o pai, que até então mantinha seu estado inalterado.
Os gaúchos da Tapera estavam prontos para voltar para casa e expulsar de lá os tiranos, de preferência debaixo de muito manotaço e tapa na cara, que disposição não faltava; ou mesmo à bala, se fosse preciso. Era hora de eu me apartar de Joanita. E se Deus quisesse, seria a última vez. Depois daquele dia, quando a Tapera se tornasse de uma vez por todas nossa querência, eu pretendia nunca mais me afastar dela. Uma vez livre daqueles carrapatos, que tinham cravado as garras em nossos campos, eu tinha certeza de que o Senhor da vida voltaria a ser também o Senhor daqueles pagos, e dali em diante de tudo eu faria para que Joanita nunca mais derramasse uma lágrima de tristeza.
_ Agora, nós só temos um ao outro; não vai me aprontar nenhuma surpresa... – disse ela, meio que pedindo e recomendando ao mesmo tempo.
_ Fica tranquila, minha guriazinha, já logo tô de volta com a Tapera livre. Quando der, a gente se muda de novo pra lá e vamos viver o resto das nossas vidas em paz.
_ Eu tive um sonho...
_ Mal pregaste o olho, guria!
_ Eu sei, mas... - ela ia contar, mas eu não quis saber.
_ Não me diz, deixa pra lá. Hoje, na capelinha, fiz as pazes com meu anjo da guarda; confio nele - eu disse, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. 
  

Joanita me abraçou, com os olhos tristes. E pela primeira vez confiou meu destino ao meu próprio Deus.
_ Deus te proteja – falou, meio sem jeito. Depois completou: _ Mas se ele descuidar, eu faço a minha parte... (continua...)
Autor: André Moab Garcia
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  Autor: André Moab Garcia
Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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