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Jayme Caetano Braun:
Negrinho do Pastoreio

 

31/12/2011 22:03:55
O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXV – O MILAGRE E OS MANGAÇOS...
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O RINCÃO DOS ESQUECIDOS
de André Moab Garcia

O RINCÃO DOS ESQUECIDOS: XXV – O MILAGRE E OS MANGAÇOS NA RECONQUISTA DA TAPERA! 

Deixamos o galpão da Santa Helena e fomos para a estrada. Concordamos que a volta pra casa se daria pela entrada da estância, e não cortando os campos. Até porque a ideia era devolver aquilo pro Mão-pelada da mesma forma como ele tinha feito conosco. Desde a tarde do dia anterior que eu vinha sentindo uma mudança no vento. E percebi, sem surpresa, que os anos de aprendizado campeiro tinham valido a pena. Na direção da fronteira sul o céu escurecia rapidamente. 

_ Sempre que o tempo se fecha na banda oriental, vem chuva grossa pro meu lado! - falei para o João Vieira, que montava seu zaino perto de mim. Ao lado dele, o seu Alírio troteava num colorado lustroso.

_ Não faz causo, guri. De qualquer jeito o tempo ia ficar feio mesmo - respondeu ele, sem se importar.

_ Vai um trago? - ofereceu seu Alírio.

_ Agora, não. Gracias! Onde é que se meteu o Sabiá? – indaguei, sentindo falta dele.

_ Lá atrás, conversando com o Olegário - disse o seu Alírio.

Fui à procura dele, para tomar um gole de canha. O Leite-de-onça tinha se afastado; e agora conversava baixinho com o Ponciano.

_ O que se passa contigo, chê Passarinho? Te escondendo de mim?

_ Nem que eu quisesse me esconder de ti, de um jeito ou de outro tu sempre me encontra – respondeu, em tom de brincadeira.

_ O que é que tu queres, Graxaim? Se for canha nem me pede, que eu não tenho...

_ Mas, chê, tu só pensa nisso? Não vê que eu vim comentar contigo que na pressa da saída acabei esquecendo meu mango velho. Uma pena. O João Vieira tinha prendido nele umas ponteiras que só ele sabia fazer; e que eram de arrancar pedaço, numa botada bem dada. O Mão-pelada nem imagina do que se livrou...

_ Sei... - comentou o Passarinho, desconfiado.

_ Fazer o quê? O remédio agora é tomar um trago; me passa logo essa guampa, que eu sei que tu preparaste uma especial!

_ Quem te disse?

_ Teu pai... – respondi, jogando verde.

_ Mas que cousa, chê! Será que tu nunca vais trazer a tua canha?

_ E deixar de beber com o meu amigo, companheiro de tantas andanças? Ainda mais numa empreitada como a de hoje... 

_ Toma, tchê! Mata a tua sede, que nisso tu tens razão. Não tem outra pessoa neste mundo com quem eu dividiria minha guampa hoje. Saúde, irmão!

_ Saúde... E pé na bunda daqueles filhos da puta! – respondi, sentindo-me seguro com a presença dele ao meu lado.

_ Vai chover de fazer boi beber água de pé! - disse ele, com firmeza. 

_ É a minha sina: se tenho encontro com o Ernesto velho, chove – falei, procurando não pensar muito nos encontros anteriores.

_ Bueno! De qualquer modo, logo ele vai estar na chuva; e a gente em volta do fogo, no galpão.

_ Que assim seja!

_ Vai ser. Quem ficou cuidando da tua guria?

_ O João Vieira deixou um desses amigos dele, só pro causo de o Mão-pelada pensar em aparecer por lá...

_ Eu acho que nem precisava. No que depender de mim ele vai levar uma sumanta de pau, daquelas de se arrebentar de uma vez por todas. Depois dessa, nunca mais vai incomodar ninguém!         

Mal o Sabia terminou de falar e uma trovoada explodiu nos campos, à nossa frente. Logo me veio a lembrança daquela tarde na beira da sanga com Juliana; e de tudo o que eu passei naquele temporal. Não é preciso que eu diga que minha barriga também lembrou, o que me fez tremer as tripas como há muito não acontecia.

Cruzamos o primeiro potreiro, já nos campos da Tapera, sem ter visto ninguém. E, como aconteceu no dia em que saímos, um bando de quero-queros levantou voo fazendo alarido. Uma ventania forte varria os campos.  

E os raios e trovoadas pareciam vir de todos os lados. Como sempre acontece, o dia começou a escurecer; e nós sabíamos que não tardaria a cair chuva da grossa.

_ Uma vez travamos uma batalha contra as tropas do governo debaixo de um tempo desses - disse o capataz, puxando um assunto do qual ele raramente falava. Naquela altura estávamos os quatro juntos, como de costume.

_ Só imagino a anarquia... - comentou o seu Alírio.

_ Pois, tchê! Se eu te disser talvez tu nem acredite, mas morreu mais gente por causa dos raios do que pela peleia!

_ Que barbaridade! - exclamou o seu Alírio.

_ Teve um índio na minha frente que foi partido ao meio, com cavalo e tudo!

Era o último potreiro e já se via bem o galpão, quando um homem a cavalo saiu de lá vindo em nossa direção.

_ Seu João! - gritou um dos amigos do capataz, chamando a atenção.

_ Deixe que se venha, companheiro - disse o João Vieira, com calma. Continuamos avançando, até que ele chegou.

_ Quem vem lá? - gritou ele, sem reconhecer ninguém, por causa dos ponchos e chapéus enterrados nas cabeças. Eu reconheci, de pronto, o vivente: o adulão do Chico Piolho; o mesmo que em se tratando de causos com gente da Tapera nunca levou muita sorte. Não era difícil imaginar o que ele andava fazendo por ali. De certo que o Mão-pelada mandou que alguém viesse dar fé de quem eram aquele bando de estranhos, que se chegavam num dia como aquele. E como decerto ninguém quis se aventurar a levar um raio pelo meio do lombo, o Chico Piolho se ofereceu pro serviço. 

_ Sou eu! - respondeu o capataz, continuando e indo ao encontro dele.

_ Eu quem, animal! Onde já se viu fazer graça, com um tempo desses? - reclamou ele, estaqueado, esperando pela nossa aproximação.

Quando chegou ao lado dele, colando um cavalo no outro, o capataz levantou o chapéu e olhou direto nos olhos.

_ Sou eu, imbecil! - disse o João Vieira, vendo que o outro já tremia de fazer o cavalo tremer junto.

_ E o que é que o senhor faz aqui? Não vai me dizer que veio pedir pouso, por conta da chuva! 

Uma botada de jeito, dada pelo capataz, era um negócio de deixar o índio desnorteado por uns quantos dias. E no caso do mal afortunado do Chico Piolho, o estrago não foi menor. Do lombilho para o chão não levou nem dois segundos. E quando conseguiu levantar a cabeça, foi só pra cuspir uns cacos de dentes que tinham esfarelado.

_ Já não te lembras mais de mim, tchê? – perguntou, quando o pobre pareceu que tinha tomado ciência da situação.

Eu sempre fui de coração mole; e não nego que quase senti vontade de ter pena do infeliz. Cambaleando de um lado para o outro, se esforçando para conseguir ficar de pé e babando sangue, misturado a uma gosma verde, o Chico Piolho olhou para o João Vieira, como se dissesse: “qual é a ordem, senhor meu dono?”.

_ Vai lá dentro e diz pro teu patrão que eu vim acertar as contas com ele. Diz que eu vou esperar aqui pelo tempo de fumar um cigarro. Se ele não vier falar comigo, eu vou lá dentro buscar. Tu entendeste? - perguntou o capataz. O Chico Piolho fez que sim, com a cabeça.

Se o capataz não tivesse exagerado no manotaço, era capaz que o Chico Piolho tivesse chegado ao galpão bem mais depressa. Mas, por conta da dificuldade de andar na direção do nariz, acabou levando mais que o dobro do tempo.

_ O que o senhor acha que ele vai fazer? - perguntei.

_ Nem imagino. Mas se eu fosse ele não arredava o pé de lá.

_ Nem eu - concordou o seu Alírio, explicando o porquê em seguida. _ Ele tá no seco, bem abrigado, e pode atirar de lá sem mostrar a cara.

_ Bueno! Nesse caso a gente faz o quê, aqui no meio do campo? - eu quis saber

_ Vamos esperar um pouco - disse o João Vieira. _ Gente como o Ernesto costuma ser mais braba do que inteligente. E é possível que ele não resista à provocação. Se ele não desentocar nós vamos pra casa grande, que deve estar vazia. Depois se vê o que vai fazer.

Acontece que o capataz sabia mesmo do que falava. E não demorou para que viesse de lá outro peão, dessa vez um dos contratados. E como esse fosse daqueles que aprendem rápido com o exemplo dos outros, só por precaução, parou o troteado bem longe do João Vieira. Em seguida disse que vinha com ordens de nos mandar ir embora antes que a bala comesse, porque ao que parecia seu patrão não andava de muito bom humor.

_ Eu vou repetir o que disse pro teu irmão - respondeu o João Vieira. _ Diz pra aquele animal que a Santa Helena não é mais dele nem do filho e nem de ninguém que ele gostaria que fosse. E que se ele for homem, que venha até aqui conversar comigo.

Montando um tordilho negro, ruim de trote e pescoceiro, vestindo um poncho, conforme pedia a ocasião, e de cara mui amarada, veio de lá o Nestinho, num troteado nervoso, dar fé do que se passava.

_ Era só o que faltava! Tu manda vir um homem e ele te manda esse fresco - comentou o seu Alírio.

O filho do Mão-pelada chegou decidido a se impor.

_ Seu João, o senhor de novo? - foi dizendo, antes mesmo de frear o animal. _ Meu pai não lhe disse que aqui não tem mais lugar para o senhor?

_ Grande bosta! Quem foi que te disse que eu vim aqui pedir qualquer coisa?

_ Nesse caso, diga logo a que veio. Não vê que estou ocupado?

_ Não, tchê, não te vejo ocupado com coisa alguma... - disse o capataz, só de implicância.

_ E quem foi que te disse que eu vim aqui te pedir pouso, bobalhão?

_ Se não foi por isso então nem perde teu tempo, que eu não vim aqui pra te fazer favores.

_ Mas que falta de modos, tchê! E teu pai ainda diz que tu tens educação de doutor. Pois saiba o senhor, seu Ernesto filho do Ernesto, que eu vim aqui debaixo desse tempo só pra te trazer notícia da tua noiva... - disse o capataz, cheio de paciência.

Aquilo foi o mesmo que dar uma botada na orelha do guaxo. O Nestinho até já ia dando a volta no matungo. Mas quando ouviu falar da noiva, freou o bicho de soco.

_ Que bom! Quer dizer, então, que ela já voltou da viagem?

_ Voltou. Mas já partiu de novo.

_ Não estou lhe entendendo...

_ Tchê! Tu podes até pensar que eu sou burro. Mas vamos falar das coisas certas, que eu não tô aqui pra conversa à toa. O caso é que tu sabes que ela nunca viajou. Pensou que ela tivesse morrido, mas quem morreu foi o homem que tu contratou pro serviço - disse o capataz, enquanto enrolava um cigarro. _ Vai daí que, pra teu azar ela veio dar com os costados aqui na Tapera. E como ela e o guri já tinham um cambicho de antes, não demorou pra que se acertassem.

_ E daí? - foi só o que ele conseguiu dizer.

_ Bueno! O caso é que ela mandou um recado pra ti, mas eu só posso dizer quando o teu pai também estiver aqui... – disse, rindo, o capataz.

_ O senhor é que sabe, seu João. Mas eu acho que vocês vão se molhar, porque meu pai não vem até o senhor por nada. E não adianta querer ir lá porque a ordem é pra atirar, caso o senhor e esses homens tomem o rumo do galpão. Acho melhor que o senhor me diga qual é o recado. Se o senhor não quiser dizer, pra mim tanto faz; amanhã vou até a Santa Helena e falo com ela - disse o Nestinho, tentando parecer tranquilo.

_ Sim, senhor! Logo se vê que o doutorzinho é brabo igual ao pai, mas eu não acho que seja tão burro...

_ Não entendi o que o senhor quis dizer.

_ Tchê! Mas tu, também, não entendes nada do que eu digo. Me dá aqui, guri! – chamou-me o capataz, pedindo que eu entregasse a certidão pra ele, do mesmo jeito que tinha feito antes o Mão-pelada.

_ Eu sei que tu sabes ler bem melhor que o teu pai, mesmo porque ele nem sabe ler. De modo que eu vou te dar uma amostra do problema - disse o João Vieira, passando a certidão pra ele. 

De fato, o filhote de cruzeira era bem mais esperto do que o pai. E nem precisou terminar a leitura pra branquear a cara e começar uma tremedeira sem poder se controlar.

_ Como eu ia te dizendo - continuou o capataz, entre uma baforada e outra -, não demorou pra que eles se casassem. De modo que agora este é o novo patrão da Santa Helena. E como vocês fizeram o favor de comprar a Tapera em nome da Santa Helena, então ele também é o dono daqui. Deu pra entender, tchê?

_ Sim senhor. E qual foi o recado que ela me mandou? - disse o Nestinho, com cara de bobo que não sabe o que fazer.

_ Bueno! Era pra dizer só na frente do teu pai. Mas acho que tu mereces saber disso. A dona Helena mandou dizer que tu, além de fresco, também é muito corno! - disse o João Vieira se desmanchando numa risada, que foi acompanhada por todos e ecoou até no galpão. Pelo menos foi isso que se percebeu, porque em seguida apareceu um lote de cabeças curiosas olhando em nossa direção.

_ E tem mais uma coisinha, se naquele dia que vocês chegaram aqui tivessem dado aquela olhadinha para ver quem era a mulher que tinha gritado na carroça, de certo que a história agora seria outra.

_ Será que a gente pode conversar, seu João? - perguntou ele, percebendo que a situação era muito ruim.

_ Eu vim aqui pra isso.

_ Eu sabia que o senhor era um homem bom. Sempre achei que foi uma judiaria o que meu pai fez com o senhor. O senhor volte pra Santa Helena, que amanhã bem cedo eu chego por lá pra acertar esse probleminha; falo com a Helena e chego num acordo com ela.

_ Tchê! Eu não quero que tu fiques triste com a notícia, mas a tua ex-noiva morreu! - falou o capataz, sem se alterar. Ao ouvir isso o Nestinho teve um ataque de frescura, se tremendo todo. E eu fiquei esperando que ele caísse do cavalo, só pra lhe sentar na orelha um relho que arrumei emprestado.

Sem outra saída, o Nestinho ainda tentou negociar:

_ Mas, seu João, isso que o senhor veio me pedir, pra gente sair daqui assim no más, o senhor tem que me dar um tempo.

_ De jeito nenhum, tchê! Primeiro porque eu não vim te pedir merda nenhuma, eu vim mandar que vocês procurassem um outro lugar pra pedir pouso; não foi o que me dissestes há pouco? Além disso, pelo que tu podes ver, não demora a chover. E eu acho bom que tu resolvas logo isso, porque eu pretendo entrar naquele galpão antes de cair o primeiro pingo.

_ Seu João, tenha paciência. O senhor conhece bem o pai. Eu preciso de um tempo para explicar isso pra ele. Deixa pelo menos eu  falar com o Afonso antes; o pai dele tem estância grande e deve arrumar um pedaço de campo pra gente. Se ele não concordar, o Afonso vende o que tem de boi por lá e a gente some daqui. Eu lhe prometo!        

_ Tchê! Hoje não é mesmo o teu dia. Não vê que o teu marido também morreu...        

_ Não acredito...        

­_ Pois creia! Parece que andou se engasgando com uma faca na garganta...

O Nestinho olhou sério para o João Vieira, reconhecendo que aquilo vindo do capataz só podia ser verdade; uma fama dessas ninguém esquece e nem duvida.

_ Tenha paciência, seu João, eu não sei o que fazer.

_ Problema teu... Corre, que eu já vou na tua cola - falou o capataz, dando com a espora na virilha do zaino, só pra assustar o fresco, sujeitando o animal em seguida. 

_ Um minuto, seu João, me dê só um minuto pra eu inventar qualquer coisa - disse o Nestinho, apavorado, quase chorando.

_ Quer um conselho? Se eu fosse tu passava a faca na garganta do teu pai.

_ O senhor tá louco? – disse o Nestinho, com voz fina.

_ Pensa bem, tchê! Ele não gosta de ti e nem tu dele. E quando souber do que aconteceu, vai acabar contigo de qualquer jeito. Aliás, que tu só faz cagada mesmo!

_ O senhor é um bandido! - gritou o Ernesto Filho, deixando sair de uma vez todo seu modo afrescalhado, chorando com o rosto entre as mãos, feito uma moça. 

Como o Nestinho não saísse do lugar, o João Vieira achegou-se junto dele e, com a maior calma do mundo, largou-lhe um monotaço no meio da orelha que foi coisa de quase dar pena.

_ Deixa de frescura e vai fazer o que te mandei. Este tapa foi só pra fazer barulho. Mas se tu for esperar o próximo, vai apanhar até se mijar, se é que já não estás todo mijado!

Nisso o Seu Alírio chegou por trás e baixou o relho sobre a anca do tordilho,                                       que já se mostrava impaciente, fazendo o animal saltar, num repente, derrubando o Nestinho de todo lombo. O matungo, mui sem confiança, saiu velhaqueando, de volta, na direção do galpão, enquanto o Nestinho saia apurado no rastro dele. 

Antes que o Nestinho tivesse chegado lá, o Mão-pelada já esperava por ele na entrada e de relho na mão. Assim que o pobre ficou ao alcance, percebeu que o relhaço vinha na direção da cabeça e que não teria como escapar do castigo. Bem que ele tentou se proteger, levantando as mãos, mas o Mão-pelada era bom na arte de ser ruim. E sem muito esforço acertou o golpe por entre os braços, bem em cima do focinho. Eu mesmo já tinha dado uns mangaços daqueles em um que outro mais entonado, que de vez em quando cismava de se meter onde não era chamado, e sabia bem o efeito que aquilo fazia no coração do homem. Uma botada daquelas em cima do nariz era coisa de deixar o peão entristecido por um lote de dias; de modo que o índio se quedava quieto num cantinho, só se levantando pra se aliviar, vez que outra, e nem comer comia...        

Contrariado como patrão que vê a filha de namoro com pobre, saiu o Mão-pelada arrastando o filho pela orelha pra dentro do galpão. E por lá ficaram.

Aproveitando o momento, o João Vieira resolveu organizar nossa tropa.

_ Tchê! Tu vai lá pra trás, com o guri do Alírio, e fica junto do Ponciano e do Gertulino. O Mão-pelada sabe que a coisa tá feia pro lado dele. E mesmo a gente não sabendo o que o Mãozinha vai inventar, o certo é que ele vem pra nos botar pra correr. O mais importante pra ele é derrubar a gente; se ele conseguir acaba a guerra. Mas enquanto um de nós estiver vivo, ele não vai desistir. 

O João Vieira foi dando as ordens de cada um com a experiência de quem já tinha mesmo guerreado bastante. A gauchada fez um círculo em redor dele para ouvir melhor, só ficando de fora um que ficou de olho no movimento do lado de lá. Enquanto o capataz falava, uma última trovoada deu o sinal de que já não faltava quase nada pra começar o temporal. E antes que a confusão se estabelecesse de vez, ele confirmou a recomendação que já tinha feito antes.

_ Tentem derrubar o Mão-pelada de uma vez. Matando ele a indiada não vai continuar peleando por nada. E logo a gente vai estar naquele galpão tomando canha e comendo carne gorda, que isso é que interessa.

_ Bueno, senhores! Acho que a diversão vai começar! - gritou o que estava de sentinela, ao ver que o movimento tinha começado pras bandas de lá. 

Confesso que senti as pernas tremendo. E, enquanto emendava uma reza na outra, lembrei de pedir também para que um anjo me ajudasse a segurar as tripas. Pode parecer coisa de louco, mas o que eu mais pensava era no fiasco de um gaúcho peleando todo cagado!        

Eu já tinha ficado debaixo de muita chuva braba, temporais de fazer o índio rezar até em latim, mesmo sem nem saber o que dizia. Chuvaradas de fazer um homem se sentir pequeno diante da força da natureza. E tempestades que faziam caber um rebanho inteiro debaixo de um capãozinho de mato, onde normalmente não caberia mais do que meia-dúzia de reses. Até aquele dia minha vida tinha sido marcada por duas tormentas, que viviam me assombrando os pensamentos. Uma delas foi quando nós encontramos Helena na mata. A outra e a pior de todas foi a da beira da sanga na Santa Helena, no dia em que perdi Juliana. Por conta dessas coincidências, acabei ligando mau tempo a coisas ruins. Mas como naquele dia minhas companhias eram outras, respirei um pouco mais aliviado, sabendo que Joanita estava segura. “Chova o quanto quiser, que hoje aguaceiro não me assusta!” – pensei, num repente.

É difícil a gente recordar tudo, conforme se passou naquele dia, o qual virou noite quando o céu se desmanchou em água, raio e pedra de gelo, ainda que a dor de ver um amigo morto seja uma coisa difícil de esquecer. O primeiro que eu encontrei morto, quando a coisa se acalmou um pouco por falta de mais gente para morrer, foi o Leite-de-onça. Em seguida me deparei com o Gertulino, caído com um lote de furos de bala. Alguém de certo que passou trabalho e gastou um bocado de tiros pra derrubar o grandalhão. O Ponciano estava deitado perto do amigo, com um buraco de bala no meio da testa. E continuava agarrado a um índio que segurava o revólver, mesmo depois de morto com um talho na garganta feito pelo próprio Ponciano. Disso eu não tive dúvidas, porque a faca continuava atravessada no pescoço do bicho.

O Sabiá, quando viu o pai caído daquele jeito, largou o corpo do Nestinho e correu para ele. Percebi que alguma coisa estava mesmo errada quando vi o João Vieira deixar o corpo do amigo de tantos anos aos cuidados do filho e caminhar de adaga em punho em direção a um vulto de arma na mão, que fazia força para se sentar.

Calou-se, para sempre, o Sabiá cantor da Tapera!        

Despertei sentindo que alguém me chutava as costelas. A chuva não dava trégua e a água parecia bem mais gelada do que antes, o que me fez pensar que meu corpo tinha esfriado e que eu tinha ficado desacordado por um bom tempo. Tentei abrir os olhos, que pareciam ter sido pregados, e só depois de muito esforço foi que consegui. Mas não pude enxergar muita coisa, porque o clarão do raio tinha me deixado meio cego, e só o que eu conseguia enxergar eram vultos. Eu sabia que aquilo iria passar. Era só uma questão de tempo. O problema era que tempo era uma coisa que eu não tinha; pelo menos até que aquele animal parasse de me machucar. Fiquei quieto, tentando fazer com que ele visse que eu não conseguia reagir. Mas o chutar de costelas continuava. Eu desejava era que aquela pata não fosse de quem eu pensava.

_ Acorda, filho de uma puta!

_ Levanta e olha o estrago que tu provocaste! - disse ele, me deixando atordoado com tanto coice, não só nas costelas, mas também na cabeça.

_ Eu vi quando tu enfiou a faca na garganta do meu filho. Eu tava bem pertinho e tu não me viste. Azar o teu. Mas tem uma coisa de bom. Agora tu vais poder me ve,r enquanto eu te rasgo a barriga. É pena que o João Vieira tenha caído, logo por conta de um mandado. Onde já se viu morrer desse jeito! Sorte minha eu ter ficado deitado. O chato é que agora ele não vai poder te salvar. Fazer o quê...? 

Aquelas palavras me fizeram lembrar do que tinha acontecido antes que eu desmaiasse. O João Vieira envolto por uma luz branca azulada, seguida de um barulho ensurdecedor. Não, eu não tinha perdido o João Vieira. Ele foi arrebatado! – pensei, como consolo. Um homem daqueles não morria, simplesmente.

_ Ernesto Mão-pelada! - consegui dizer a custo, depois de lembrar o que eu fazia ali. _ Viu que eu tinha teu filho na ponta da minha faca e não fez nada?

_ Lembraste de mim, sorrinho desgraçado. O que tu querias que eu fizesse? Se ele não morresse pela tua mão, morreria pela minha. Eu já tenho muito pecado pra pagar. Esse fica pra ti - disse ele, sem mostrar nenhum sentimento pela perda do filho. _ Além do mais criei o filho errado. Eu devia ter criado o Chico Piolho, que também era filho meu. O caso foi que o Chico era nascido de uma mulher da vida, enquanto o Nestinho vinha de uma mulher um pouco mais decente, embora puta também. E eu achei que ele daria coisa melhor... Azar! Só sinto pena porque o Chico sabia que era meu filho e, por conta disso, vivia me adulando. Ele pelo menos era homem. E se eu tivesse feito por ele, talvez a situação fosse outra. Mas, agora é tarde. Tá lá, partido em dois pedaços por causa de um raio – lamentou-se, antes de um acesso de tosse. Depois de tomar fôlego, continuou:

_ O que importa agora é que até que enfim vou poder te courear. Depois, vou estaquear o teu couro e pendurar na parede da minha estância. Quando eu tomar meu mate, vou ficar feliz de ficar olhando o teu pedaço!

_ O que foi que eu te fiz pra que tenhas tanta raiva de mim? 

_ Tu ainda não te deste conta? Não que tu mereças, mas já que vais morrer, mesmo, eu vou te dizer. Antes da tua chegada eu vinha roubando uma ou outra rês do João Vieira, de vez em quando. Tinha gado demais naqueles campos. E como o dono deles não se importava com aquele monte de bicho, eu não vi mal nenhum em tirar uns... – disse, parando logo em seguida para tomar ar. Isso já bastou para que eu me enchesse de ânimo, pois os barulhos que ele fazia me diziam que ele também tinha se pisado bastante. Depois de tossir um pouco, continuou:

_ Eu precisava daquele gadinho, pra poder comprar um pedaço de campo pra mim. Um homem não pode ser peão a vida toda, só engordando o bolso e o bucho do patrão, assim como fazia o João Vieira. E, por isso, ele bem que merecia que eu roubasse os bichos debaixo do nariz dele... 

Eu sempre quis entender o que se passava na cabeça do Mão-pelada, porque eu achava que ninguém era ruim só por ser ruim. Acontece que naquela hora, mais do que me dar uma explicação, ele estava me dando uma coisa bem mais preciosa: tempo. Por causa disso, eu tratei de aproveitar a chance e descansar, enquanto a voz irritante e doente dele me enchia a cabeça, misturando-se aos sinos que ainda pareciam tocar, embora mais distante.

_ ... Eu já tinha um bom dinheiro e procurava uma estanciazinha que estivesse à venda, quando fiquei sabendo que o doutor Manuel não andava muito bem de saúde. E que, conforme ele mesmo dizia, achava que não durava muito. Daí eu pensei: por que não casar o meu guri com a filha dele? Mandei que a minha mulher escrevesse uma carta pro doutor Manuel, dando a ideia de que era melhor deixar a guria já encaminhada; e dizendo que o Nestinho não ia demorar pra ser doutor e que ele ainda era afilhado, essas frescuras todas... - quando ouvi aquilo, lembrei do que tinha dito o capataz sobre a importância de ser afilhado de estancieiro: “o que era o mesmo que nada!”.

_ Um dia chegou a resposta do patrão, dizendo que ele tinha gostado muito da minha ideia, mas que a pedido de um amigo (o padre) e da filha, precisava dar uma chance pra um outro pretendente provar que poderia cuidar do que seria dela. Eu fiz de tudo pra que ele mudasse de ideia, mas era um pedido da filha e não tinha quem fizesse o velho não atender.

_ Tu mesmo. De saída até que eu não me preocupei muito, porque tu eras uma coisinha à toa; e eu não ia ter muito trabalho pra me livrar de ti. E a coisa até que se encaminhou bem pra isso. Não fosse o João Vieira ter aparecido naquela tarde, na beira da sanga, a gente já teria resolvido o problema há muito tempo. Depois, eu consegui convencer o velho que tu tinhas feito mal pra minha filha e fugido com ela. O resto veio fácil, já que ele não andava batendo, mesmo, muito bem da cabeça.

_ Mas o Nestinho não quis a guria... – comentei, meio que falando comigo mesmo.

_ Pois é... Eu sempre achei que aquele guri era meio fresco! Foi por isso que eu queria que ele estudasse pra doutor, quando saísse do colégio dos padres. Sendo doutor, aqueles modos dele não chamariam tanto a atenção. Mas aconteceu que pegaram ele de namoro com um outro aluno e correram com ele de lá. Isso me contou o diretor. E ia acabar eu mesmo tendo que dar um fim nele! Eu não sei como, mas ele ficou sabendo da venda da Tapera. E me deu a idéia da compra, antes que eu tivesse tido tempo de dar um jeito nele. De modo que eu achei que ele merecia uma chance de se endireitar. Eu tive uma conversa séria com ele. E o imbecil me prometeu que ia se ajeitar com a guria. Eu não acreditei muito. Mas até que ele tava se saindo mais ou menos... E, depois, se ele não quisesse se deitar com ela, nisso eu mesmo daria um jeito. Tu sabes que eu não refugo uma carnezinha de primeira viajem. O que me importava era que casassem, porque isso me garantia a posse da estância.

_ Até que ela descobriu tudo dele.

_ Num banho de sanga. Eu sempre soube que aquela sociedade com aquele Afonso não ia dar em coisa boa. Mas eu não quis acreditar que eles... Que barbaridade! - disse ele, inconformado - Eu devia ter matado os dois!       

_ Eu acho que o senhor acabou matando todo mundo.

_ Não, ainda não! Falta um sorrinho que rondou meus campos e me roubou tudo o que eu tinha. Mas agora eu vou resolver isso. Levanta! - gritou ele, me chutando as costelas e me pegando desprevenido.

O tempo que ele tinha me dado teria sido o suficiente para que eu conseguisse me por de pé. Mas a visão ainda não era das melhores; e eu precisava dela, pra encontrar uma saída. Fiz de conta que tentava levantar e deixei o corpo cair, outra vez.

_ Levanta, animal! - disse ele, me chutando de novo. Agora, a situação parecia mesmo sem remédio. Ou eu levantava, só pra que ele tivesse o prazer de me matar de pé, ou eu morreria deitado, com todas as costelas quebradas, o que só não aconteceu porque ele já quase não tinha forças ao me chutar. 

_ Quer uma ajudinha?  - senti a mão dele me erguendo pelos cabelos. _ Faz uma forcinha, que eu te ajudo a levantar.

É claro que eu não fiz força alguma. E isso ele percebeu, de pronto. Mas como eu já disse, muitas vezes o Mão-pelada era muito bom em se tratando de ser ruim. De modo que, só como incentivo, me acertou um pataço no pé do ouvido que fez começar a tocar uma orquestra, onde antes só tocava um sino!

Que jeito! Levantei, mui devagarzito, não só pela má vontade, que pra morrer ninguém tem pressa, mas também porque o coice me pegou de mau jeito, me deixando num estado em que eu não atinava coisa com coisa. Puxando pelos cabelos, ele conseguiu com que eu ficasse razoavelmente em pé, o que já era o suficiente para o que ele queria. Senti a lâmina gelada de uma adaga comprida apoiando o meu queixo e me fazendo levantar a cabeça, até que eu ficasse com os olhos para o céu e deixasse o pescoço todo à mostra, conforme era o desejo dele - do Mão-pelada, não do meu pescoço, que isso fique bem claro!

_ Não eras tu um filhote de padre? Aproveita que a posição te favorece e pede pra que mandem alguém pra te ajudar. Só não te anima muito, porque o João Vieira, que te salvou da última vez, já não salva mais ninguém! - disse rindo, de modo assustador. 

Eu não estava em posição de discutir. E como ele mandou que eu rezasse, achei que o certo era obedecer. Vai daí que saí rezando uma misturama de rezas, que eu nem lembrava mais de saber. E até eu me assustei, ao me dar conta que estava rezando em latim!

_ Mas, que barbaridade! - disse ele, estranhando o meu linguajar. _ Vejam só o que faz o medo! Não é que o sorrinho tá latindo em língua de padre! - comentou pra si mesmo, enquanto começava a empurrar a adaga, devagar, me obrigando a caminhar para trás.

A chuva, que até então tinha diminuído, apesar de mais gelada, voltou a cair com toda a força, escurecendo de novo. O que me permitia enxergar melhor o vulto dele, já que a claridade me deixava pior. Eu não tinha escutado nenhuma trovoada, mas podia sentir que o chão tremia levemente.

_ Até o tempo é igual. Sinal de que eu tenho, mesmo, que acabar com o que eu comecei naquele dia. Pode parar com essa reza que tu já vais te encontrar com a tua cadelinha, seja lá onde ela esteja... Eu disse que tu não podias comigo! - gritou ele, numa despedida.

Naquela tarde na Santa Helena eu sentia como se o meu coração batesse dentro da minha cabeça num tum-tum, tum-tum, tum-tum. Essa é a hora em que a gente se despede do mundo e passa a não sentir mais o que se passa ao redor, nem dor nem frio; nem medo nem coragem, nada. Como que por um milagre minha visão voltou ao normal, quando as primeiras lágrimas começaram a cair, não de medo, mas num tipo de tristeza que eu não conseguia entender. A lâmina aumentou a pressão no meu pescoço, ao mesmo tempo em que o barulho surdo aumentou em minha cabeça; não como um coração, era um barulho diferente aquele, parecia familiar, como se fosse... pata de cavalo!         

Como uma aparição, que surge de repente sem que a gente saiba como, se veio o cavaleiro empurrando o animal na direção do Mão-pelada, que num movimento rápido do corpo deu um salto para trás e evitou ser pisoteado. Tinhoso como nenhum outro conseguia ser, tão logo recuperou o equilíbrio encontrou um jeito de se livrar daquela nova ameaça. Assim que o cavaleiro deu volta, quando se preparava para uma nova investida, o Mão-pelada atirou-lhe a adaga.

Mas nem mesmo ele podia imaginar o que tinha feito!

Procurando, desesperado, por alguma arma caída, o Mão-pelada parecia não acreditar no que tinha acontecido, assim como eu. E como não encontrasse nada que lhe servisse, resolveu que teria que me matar com as próprias mãos. O campo a nossa volta estava limpo, porque sem me dar conta eu tinha caminhado uma boa distância, enquanto ele me empurrava para trás com a faca na minha garganta.

_ Não acabou, tchê! Vou te esgoelar até ter certeza de que tu não me incomodará mais - disse ele, já se vindo em minha direção.

Enquanto eu me aproximava o cavaleiro apeou e se agachou, com dificuldade, para pegar alguma coisa do chão. Em seguida se levantou e olhou em minha direção, tirando o chapéu. Eu reconheceria aquele rosto, mesmo que estivesse a uma légua de distância.

_ Pelo amor de Deus, o que é que tu estás fazendo aqui, guria? – gritei, correndo ao encontro dela.   

Joanita me abraçou, com os olhos cheios d’água.

_ Eu sonhei que estava na casa com as gurias e tu chegavas com a garganta cortada. E eu não queria que, quando te vissem chegar, fosse daquele jeito: um degolado.

_ Que história é essa de sonho, que casa? – perguntei, sem me dar conta do que ela tentava me dizer.

_ Tu sabes... Quando eu sonho... Tu ias morrer!

_ Deus do céu! Por que fizeste isso, minha indiazinha? Deixa eu ver como é que tu estás... - Joanita não deixou que eu levantasse o poncho que ela usava. Senti um vento frio me invadindo todo o corpo.

_ Não - disse ela, com calma. Olhei para o poncho, procurando pela marca da faca ou alguma mancha de sangue, mas não encontrei nada.

_ Também foi assim com ela, não foi? Com a Juliana?

_ Não, meu amor, contigo isso não vai acontecer – falei, sabendo que no fundo seria em vão.

_ Ela veio no meu sonho... - a voz dela começava a falhar. _ ... Disse que a Helena estava morando na casa com ela e que estão nos esperando. Mas eu preciso ir primeiro, tu sabes... Pra arrumar a casa - disse ela, com um sorriso nos lábios, repetindo o que Helena tinha dito.

_ Não, minha guria, tu não podes me deixar aqui sozinho... Por favor.

_ Toma, a Juliana disse que tu irias precisar disso. Termina o que tu tens que fazer – disse, me abraçando ao me entregar o mango papada-de-touro.

_ Não, meu amor, eu vou ficar aqui contigo e vou cuidar de ti.

Ficamos abraçados, até que senti seu corpo sem movimento. Com carinho deitei-a no chão encharcado, prometendo que logo estaria de volta para cuidar dela. Enxuguei as lágrimas com a manga da camisa e segui na direção do cavalo que ela montava. Um baio ruano, cavalo inteiro como era de seu gosto, mas que apesar de bagual era manso pra quem sabia lidar com ele, como ela mesma tinha me ensinado. Depois de montar corri os olhos, procurando por ele. E não me surpreendi com o que via. Um pouco ao longe Ernesto Mão-pelada me esperava de pé, com uma faca na mão. Já não era preciso que se dissesse mais nada um para o outro. No entanto, eu achava que ele também merecia uma explicação. Apontei o baio na direção dele e dei de rédeas. Na primeira passada o golpe dele passeou no ar, enquanto o mango lhe atingia o rosto de um todo, arrancando um pedaço da carne, da boca até a orelha esquerda.

_ Esse foi por Juliana! – gritei, depois do berro de dor que ele deu.

O baio trocava pisadas com as patas da frente, ansioso por outra viagem. E eu não lhe neguei os anseios. Na segunda passada, ele sacudiu a faca com raiva na minha direção e golpeou, outra vez, o vazio. Quando o mango descolou trouxe grudado outro pedaço de carne igual ao primeiro, mas dessa vez do lado contrário.

_ Esse foi pela Helena! - gritei de novo, vendo ele se retorcer de dor.

No terceiro mangaço vieram os beiços e a metade do nariz, deixando o Mão-pelada com a cabeça desfigurada como a de um animal carneado pela metade.

_ Esse foi por Joanita! – gritei, sabendo que o trabalho estava no fim.  

Voltei o cavalo na direção dele e apressei o passo, para chegar antes que ele caísse. Desci e fiquei de frente, olhando nos olhos dele. Que tipo de força mantinha aquele monstro de pé eu não podia imaginar. Mas, decerto que não era uma coisa deste mundo. De qualquer jeito, o duelo daquelas duas forças terminava ali. Soltei-lhe o braço num último mangaço, que fez com que ele caísse estirado sem nem mesmo dar um grito de adeus. Aproveitei que ele ainda respirava e, me abaixando ao seu lado, disse, olhando em seu rosto descarnado - de onde seu olho de vidro tinha saltado fora, deixando só o buraco:

_ E este foi pelos meus amigos! (continua...)

Autor: André Moab Garcia
E-mail:
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Causo enviado Por: André Moab Garcia - Barra de Santo Antônio / AL
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