Usuário:
 
  Senha:
 
 

Mano Lima e seu filho
Pedro Vargas de Lima
:
Quando eu crescer

 

03/11/2007 22:48:58
VAI ESQUENTAR ESSA ÁGUA!
............................................................................

Oiga-le velho bem ranzinza! E quem mais padecia com suas rabujices era o Juca, negrinho de doze anos – flaquito e quietarrão – criado pela falecida e que agora, ao botar corpo de gente, era uma espécie de ordenança do patrão. Por sinal, parece que o velho ainda piorara mais da cabeça dês-que a falecida batera as botas, há cousa de três anos. Cuêpucha! Era grito e mais grito todo o dia, trazendo o pessoal da estância da porta pra cozinha. A comida sempre estava atrasada... a carne dura... o rodeio mal parado... o terreiro sujo... A peonada, então, nem merecia o feijão com que enchia o pandulho, de tão preguiçosa! Tudo às avessas! Mas o pior acontecia com o mate, que o Juca preparava todas as manhãs e ao cair da tarde. Sempre tinha de estar mal cevado: um dia porque a erva era mui grossa; outro dia porque a bomba entupira; e pra completar a água sempre estava fria. O Juca chegava, enchia a cuia, alcançava ao patrão, mas nem largava a chaleira, já esperando a trovejada: - Vai esquentar essa água, desgraçado! E lá voltava o Juca à cozinha, deixando a água pular mais meia hora no fogão, até que o velho se agradasse da quentura. Entrava dia, saía dia, e a gritaria de sempre: - Vai esquentar essa água, desgraçado! Um dia o Juca levantou de corno azedo – que negro também tem direito de se apotrar com a vida. Tudo por causa do capataz, com aquele jeito de quem tem o rei na barriga. Que o patrão berrasse, xingasse, e até desse coice – tudo se desculpava, pois todo o mundo sabia que o velho era meio balanceado dos cascos. E mesmo, nada daquilo o Juca podia levar em conta, quando devia tanto favor aos donos da casa, principalmente à finada dona Engrácia, que Deus a tivesse no céu! Mas só porque era negro – e negro enjeitado, sem saber como viera ao mundo – ninguém tinha o direito de levá-lo aos gritos!... E muito menos o capataz, sujeito ruim como carne de pá, lambendo espora na frente do patrão pra depois ir botar peleia no galpão – e sempre refugar parada quando alguém não agüentava carona dura, como acontecera com o Jango Torto. Levantou de corno azedo e passou o dia pelos cantos, resmungando, com a imagem do capataz palanqueada na cachola. Ah! Se fosse grande.... haveriam de ver!... Tudo por causa dum xergão que não valia nada,, uma imundícia!... No mate da manhã, o velho até que não gritara muito. E o negrinho ficou pensando: Nosso Senhor até parece que estuda pra fazer as cousas! Porque... le digo... se o seu Silvino me sai atravessado hoje, eu sou capaz de perder a estribeira. Não há ninguém mais manso do que eu... mas me deixem em paz quando o dia me sai de culo. Ah-bom-ah-bom! Entonado, o crioulo! Mas se tudo correra bem pela manhã, ao descambar do sol o Juca notou que o patrão estava de novo com os burros amarrados. À sombra do cinamomo, escarrapachado na cadeira de cortiça e rodeado pela cachorrada – parecia que gostava mais dos alimales que dos homens! – batia, nervoso, com o bico da bota no barril d’água. Era assim que ele pedia mate quando estava de lua... Nunca o crioulo cevou um amargo com tanto cuidado. Bateu bem a erva, cuspiu todo o pó que pode, deixou um topete mais lindo que anca de viúva e – o principal – fez a água ferver como quem péla porco. Naquele dia, não queria saber de gritos! E se tocou. Alcançou a cuia ao patrão, sestroso, e ficou encostado ao tronco do cinamomo, esperando o que desse e viesse. E veio! - Vai esquentar essa água, desgraçado!
............................................................................
  Autor: Causo colhido no município de São Jerônimo-RS
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre. Fonte: www.riogrande.com.br

 
Nome:
Cidade:
Estado:
 
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
Untitled Document