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Sina de Andejo, de Régis Marques

 

03/11/2007 23:40:34
AMOR DESARRANJADO!
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A Marina já não podia agüentar mais o Neco. Que homem cargoso, Deus do Céu! Depois, se ainda tivesse jeito de gente! Mas com aqueles braços caídos, aquela voz de taquara rachada e aqueles olhos de terneiro mamão... só se já estivesse desenganada da sorte! E até que o Neco seria um bom partido, se não tivesse aquele jeitão destomilhado: herdara do pai uma extensãozinha de campo, tinha uma boa plantação de milho e um parelheiro no trato, que volta e meia andava botando terra na matungada do rincão. Mas, no mais... um perrengue! E mais cargoso do que varejeira... Botara os olhos nela, desde aquele baile no Costa, e então só o que fazia era lhe incomodar com suas visitas e presentinhos. Ora, que fosse capinar! Lá um belo domingo, o Neco chegou ao rancho de dona Elvira, trazendo, como sempre, um embrulhinho na mão. Queria falar com a Marina. Daí a pouco surgia a chinoca, sempre querendona, com aquele meneio de corpo que deixava um vivente de rédea no chão. E o Neco até estranhou: ela vinha sorrindo, brincando, grudando os olhos nos olhos dele. Nunca ela o recebera assim tão alegre! Era sempre aquele jeito de indiferença, cumprimentando a visita como por obrigação... Mas naquele dia a cousa mudara por completo. E o Neco, entusiasmado, mais confiante do que nunca, desembrulhou o vidrinho de água-de-cheiro que comprara na vila. – Um presentinho, dona Marina... – Ora, vivente! – e a morena sorria, contente da vida – Não precisava se incomodar! Veja só... E sorrisos pra cá, sorrisos pra lá, a conversa foi pegando fogo. Veio mate. Ao alcançá-lo, a chinoca fazia questão de se demorar com a mão na cuia... e o Neco sentia até arrepio! Depois, o café. Bolo frito cheiroso, rapadura, mel, a boca colorada da morena... e o Neco até perdeu o apetite! Nunca fora tão bem recebido pela morena dos seus sonhos... Mas ainda não acontecera tudo: o melhor viria pela volta das quatro horas. Com uma voz que parecia escorrer do corpo dela, de tão linda e adocicada, a Marina convidou o Neco para darem um passeiozinho até a horta. – Vou colher umas laranjas... Queres ir comigo? Uma fruta aqui, outra mais adiante, - a Marina juntando no cesto e o Neco puxando os galhos – foram os dois se metendo pelo arvoredo adentro. Foi quando, parando de súbito, a morena voltou-se pra o moço e largou de sopetão, sem nem lhe preparar o coração: - Por que demoraste tanto, Neco? Quinze dias sem aparecer... Se tu soubesses como eu te esperei... e se soubesse quanto eu gosto de ti! O Neco chegou a sentir uma nuvem preteando tudo. Estaria sonhando? Seria possível o que estava ouvindo? O final da palestra, então, foi cousa que ele nunca poderia ter imaginado: - Amanhã, ao cair da tarde, direi à mamãe que tenho de lavar umas roupas e irei até o arroio. Lá estarei te esperando... Tenho uma surpresa para te dar... E depois conversaremos uma porção de cousas... só nós dois... O Neco nem piscava! – Mas ouve bem, Neco! – e a voz da chinoca tornou-se áspera, enquanto toda a sua fisionomia transmudava-se num ar imperativo. – Não há cousa que dê mais tristeza a uma mulher do que ser desprezada pelo homem de quem gosta. Se amanhã não apareceres, se faltares ao encontro, nunca mais ponhas os pés aqui! A custo, o Neco conseguiu desenrolar a língua: - Mas Marina! Como é que... como é que eu não vou aparecer! Eu... que gosto tanto de ti!... Se eu não for ao arroio amanhã podes escrever: nunca mais aparecerei em tua casa! Olhos brilhando, a morena indagou: - Palavra de um gaúcho? E o Neco, solene: - Nunca mais! Voltaram. Na varanda, cotovelo encostado à mesa e mão colada ao rosto, o Neco só pensava no encontro do dia seguinte. Imaginava cada coisa... E dizer que ele se julgava o homem mais infeliz do mundo, mais desgraçado do que potrilho nascido em sexta-feira santa! Ele, que os companheiros diziam – o Porfírio contara – que tinha mau olhado! Haveria de mostrar mau olhado àquela gente toda. Veriam quem ele era! E quanta inveja haveria de causar quando passasse de braço com a Marina, a pinguancha mais linda daquele pago! Oiga-te que a vida é buena! – Sirva-se, Neco – era a morena lhe alcançadno a cuia do chimarrão. – Cevado com todo o gosto, por mim... O Neco andava galopeando nas nuvens. E imaginava aquele esperado encontro... Sozinhos... o arroio chorando nas pedras... a sombra do arvoredo... e Marina, cabelos negros esparramados pelos ombros, olhos brilhando, chamando, tentando... Ansiado, o moço tomou só uns quatro mates e se levantou. Não podia agüentar parado ali pertinho da namorada, com aquela tropilha de pensamentos a lhe mexer com os nervos. O melhor era partir, andarenguear sem rumo até cair a noite, voltar pras casas, esperar que passasse aquela noite de uma vez, e no outro dia, feliz, chegar até o batedor de roupa, no arroio. Ao lhe alcançar o mate do estribo a morena sorriu, e cochichou, mais uma vez: - Amanhã, no arroio, Neco... Eu te espero... O gaúcho montou, estonteado por aquele sorriso. Mas o sorriso logo desaparecia: olhos sombreados, testa franzida, um jeito esquisito nos lábios, a chinoca recomendou: - E não te esqueças: amanhã ou... nunca mais! No outro dia a Sia Emerlinda – a benzedeira de mais fama do vizindário – era chamada para ver o Neco, que se contorcia num catre no galpão da Estância. Enfraquecido, arquejante, vinha correndo veado desde a madrugada, e parecia que ia purgar até o coração. A tal de diarréia, como chamam na cidade. Uma miséria! Arquejante, falando de si para si, o Neco gemia: - Eu sou mesmo mais desgraçado do que potrilho nascido em sexta-feira santa... Ter uma corredeira destas logo hoje!... Logo hoje!... Como é que vou fazer, Deus do Céu? E com raiva completava: - Se isto é doença pra homem! (O coitado do Neco não desconfiava, mas que um mate com casca de umbu é coisa muito séria, ah isso é!... Barbaridade! Deus do Céu!!!)
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  Autor: Causo colhido no município de Piratini-RS
Causo enviado Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Trecho extraído do livro "História do Chimarrão", de Barbosa Lessa, publicado em 1a. edição pelo Departamento de Cultura da Prefeitura do Município de São Paulo e editado posteriormente em 2a. edição pela Livraria Sulina. Você pode encontrar as obras de Barbosa Lessa em qualquer livraria gaúcha, mas principalmente no Martins Livreiro, na Rua Riachuelo, em Porto Alegre. Fonte: www.riogrande.com.br

 
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21/10/2015 07:43:21 4pxRire2Yj - TGUeIvHnl5b / RO - Brasil
Muito bom Beto. Sem vocea jamais teoirmas estes momentos registrados. Espero que a ABES tenha como armazenar este acervo para no futuro relembramos o nosso passado. As coisas boas que estamos fazendo Uma abrae7o, Vitorio.
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