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Jayme Caetano Braun:
Negrinho do Pastoreio

 

01/05/2008 21:05:56
POESIA GAUCHESCA: INSTRUÇÕES PARA DECLAMADORES!
 
Declamação Gauchesca: a Poesia Crioula do Rio Grande do Sul!
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Encontro de Artes e Tradição Gaúcha do MTG-RS

 

POESIA GAUCHESCA

INSTRUÇÕES PARA DECLAMADORES TRADICIONALISTAS


1. A declamação é uma arte, mas o tradicionalista não precisa ser um artista para declamar;


2. a declamação, para o tradicionalista, serve como um recurso para expressar-se através do verso decorado, em ocasiões em que tenha necessidade de falar sobre tradição e gauchismo;


3. deve, no entanto, o tradicionalista adquirir certos conhecimentos necessários para não ridicularizar a poesia, ridicularizando-se a si mesmo e à própria tradição;

 

4. assim sendo, os primeiros cuidados que deve ter aquele que queira usar a poesia como comunicação, são: - decorar bem a letra da poesia; - declamar com firmeza; - declamar sempre em ocasiões próprias; - não exagerar nas gesticulações;


5. todos os tradicionalistas devem decorar poesias e declamá-las quando quiserem ou tiverem vontade. Os CTGs, entretanto, deverão ter declamadores selecionados nas suas Invernadas Artísticas para que intérpretes sem prática, sem instrução ou mesmo sem certo talento, não venham a deslustrar uma apresentação da entidade, desprestigiando o próprio Movimento.

 

Emanoel Cherer Contri


A INTERPETAÇÃO


1. o declamador deve estudar a poesia que for interpretar, procurando analisar o verdadeiro sentido da composição, para não estar dizendo apenas uma letra decorada, sem recolher as emoções ao seu próprio conhecimento, ao seu próprio coração, que o autor procurou gravar, podendo assim transmitir essa emoção ao público, aos seus ouvintes;


2. deve selecionar para o seu repertório os temas que ele próprio experimente toda a emotividade possível, ao dizê-lo;


3. nesse seu repertório deverá ter os mais variados temas, desde o verso de exaltação até os poemas humorísticos, pois um bom declamador tem que ter recursos para todas as ocasiões, não vindo a declamar temas sem um sentido ocasional em momentos vários, que ocorrem nas manifestações tradicionalistas; por exemplo: - declamar uma poesia de expressões rudes ou contar causos passionais numa festa de crianças; - declamar um poema de sentido "sexo" quando vai homenagear uma moça;


4. É bom lembrar os princípios tradicionais de respeito e moral, que o homem gaúcho, apesar da consideração que muitos lhe dão de bruto, sempre teve pelos seus maiores e principalmente pela mulher gaúcha;


5. declamar uma poesia humorística num momento solene, até provocando um duplo sentido de ofensa nas ocasiões em que o homenageado seja uma autoridade;

 

Carlos Eduardo Bueno Junior

 

A SELEÇÃO DE POESIAS


1. Também a seleção de poesias para cada idade ou sexo é muito importante;


2. assim, torna-se chocante ver-se: - um rapaz declamar poesias onde fala a mulher; - uma mulher declamando poesias de expressões abagualadas ou com farto uso do vocabulário campeiro;


3. a mulher gaúcha nunca teve gestos de "machorra" e é bom lembrar às nossas prendas que a mulher da campanha é tímida, meiga e até mesmo o cumprimento tradicional do cruzamento dos braços, que tantas moças usam, é natural somente entre os homens e nunca entre as mulheres;


4. já se viu moças declamando poesias que falam em castração; rapazes dizendo versos próprios para mulheres; e até crianças declamando poemas de conquistas amorosas;


5. a criança, principalmente, deve ser orientada com muito cuidado;


6. os pais não devem obrigar aos seus filhos a dizerem versos a toda hora e em qualquer momento, acabando por criar nos piás uma profunda aversão pela poesia;


7. devem os pais ensinar os filhos a gostarem da poesia e deixá-los à vontade, nunca os obrigando a declamar apenas para mostrar aos presentes que o guri ou a guria são "tradicionalistas";


8. já se conheceu crianças que mostravam tendência a serem bons declamadores, mas que forçados pelos pais a declamar a todo instante acabaram por tomar tal abusão pela "maldita" poesia gauchesca que, quando mocinhos, nunca mais quiseram saber de CTG ou de Tradicionalismo Gaúcho;


9. também há crianças que empurradas pelo fanatismo do pai tradicionalista, às vezes aprendem atitudes por demais avançadas para a própria idade e se apresentam sob os olhares severos do "taita", com gestos do tipo fanfarrão, que ao invés de conquistar a simpatia, a emoção, que a ternura da infância merece, despertam até um mal-estar, uma certa pena de quem assiste;


10. é preciso lembrar que a criança não deve ser preparada para representar "um gaúcho em miniatura", mas, sim, deve ser educada na alma e no coração para ser no presente um pequeno rio-grandense e, no futuro, um grande gaúcho;


11. também é erro grave soltar-se uma criança numa homenagem solene, com poesias cheias de expressões grosseiras. Muitas crianças aprendem uma única poesia e com essa representam o pai (mandadas por este) em qualquer ocasião, ocorrendo que, sem ter ainda a capacidade de discernimento, o inocente acaba cometendo um disparate perante uma autoridade. Isto porque o "velho" achou que porque ela disse aquela poesia em certa ocasião e foi "muito aplaudido" poderá dizê-la em todas as demais ocasiões.

 

Antonio Francisco de Paula

 

CUIDADO COM O SENTIDO QUE, ÀS VEZES, O VERSO PODE TOMAR QUANDO A EXPRESSÃO NÃO FOI ORIENTADA!


Fato que é motivo humorístico, mas que causa dó e horror é aquele que se conta dum menino, filho de um tradicionalista fanático que, mandado pelo pai, foi homenagear uma alta autoridade. Largado no salão, como um potrilho chucro, ornamentado de apetrechos campeiros, o pobre inocente se foi de dedo em riste no nariz do homenageado, largando estes versos: "- Cusco véio, já sarnoso, e de rabo revirado...". Imaginem o horror dessa ilustre personalidade, que por sinal já era bem idoso, e o sentido que essa atitude deve ter marcado como deslustramento da educação e da cultura do Tradicionalista!

 

Adenir Paz da Silva

 

IMPROPRIEDADES


1. A poesia deve de ser sempre encarada com muito respeito;


2. poesia é a manifestação da alma e acima de tudo é uma demonstração de educação e cultura;


3. é certo que em algumas ocasiões, numa roda íntima, a gente pode dizer poesias até por brincadeira, usando o verso como desabafo; mas quando se tratar de uma apresentação em público, sempre usar a poesia como uma expressão educativa e de fundo moral;


4. isto porque ocorre, às vezes, que a criatura toma uns tragos de cachaça e vai para o meio do salão, largando versos cheios de disparates, se desrecalcando com assuntos particulares, o que causa antipatia não só do próprio, mas do ouvinte pela própria poesia;


5. também, fato importante, promover-se momentos de declamações no auge do entusiasmo de um baile, principalmente se a copa ou o bolicho fica no salão e a barulheira dos gaúchos, já "meio no trago", não permite aos que querem apreciar nem ouvir concentrados ao pobre declamador que rasga a güela, força as inflexões, perde os impulsos de arte, quando não termina aniquilado e desmoralizado pelos "cistes" que a lo largo se ouve dos que não estão nada interessados em poesia, mas sim no copo ou na dança, na folia;


6. isso tudo desestimula ao declamador e foge ao significado do ambiente;


7. a poesia ou a declamação deve merecer uma promoção especial, um público seleto, porque é arte;


8. é comum, por ocasião dos bailes ou fandangos, lá pelas tantas vir alguém pedir para que pare a gaita a fim de que alguém declame uma poesia;


9. ainda na hora artística, que às vezes ocorre, em que se apresentam danças ou canções, se inclua a declamação, porque nesse momento o público fica motivado. Mas, depois de serrar o baile uma declamação, quando muito, obtém a atenção de um terço dos presente.

 

Edson Flores

 

A ESCOLHA DA POESIA


1. O declamador deve tomar as seguintes precauções, ao preparar o seu repertório:

 

a) escolher poesias que se adaptem ao gosto e temperamento, quer no estilo quer no tema;

 

b) deve ler e decorar muito bem a poesia e se atrever a apresentá-la em público depois que estiver certo que a decorou totalmente, sem riscos de esquecimento. Fato que humilha ao intérprete e constrange ao ouvinte é a pessoa esquecer a letra da poesia e tem que interrompê-la na metade;

 

c) o declamador deve aprender perfeitamente os termos empregados pelo poeta e, quando tiver dúvidas procurar o vocabulário a fim de verificar se aquela palavra está certa ou então perguntar a quem saiba se tal termo é pronunciado assim mesmo. Às vezes é um erro de impressão do livro de onde a retirou;


2. muitas vezes já se ouviu declamadores dizendo relamboría quando o certo é relambória; tempéra quando é têmpera; beberragem quando é beberagem e outras coisas piores, pois o vocabulário crioulo é pouco estudado ou conhecido. 

 

Viviane Brandalise Ramos

 

EXAGEROS E OSTENTAÇÃO

 

1. O exagero na interpretação é um defeito bem comum, justamente por falta de instrução;

2. existem bons declamadores, até no que diz respeito às inflexões, a voz, mas por falta de orientação cometem verdadeiros desatinos nos gestos;


3. um bom declamador deve evitar esses exageros, quer na voz quer nos gestos, para não acabar se tornando ridículo;


4. uma vez, por exemplo, uma moça foi prestar uma homenagem com uma poesia da marca do homenageado e acabou quase o agredindo com socos nos peitos, tentando a coitada dar força ao sentido do que dizia a poesia, que por sinal era aquela: "eu sou têmpera da forja, das peleias farroupilhas...". Ela começou dizendo: "eu sou tempêro da raça..."; outra ocasião um moço berrando tanto ao declamar que até alguns vizinhos ficaram alarmados e foram saber se havia alguma briga na casa em que ele estava;


5. isto são fatos que se dá como um exemplo, mas que realmente aconteceram e acontecem ainda;


6. por isso se recomenda aos declamadores: - sobriedade nos gestos e na força da voz; - inflexões seguras e bem projetadas, quando se tratar de platéias grandes, mas nunca exageros e gritos;


7. declamar não é gritar; é transmitir, numa afinação teatral, as expressões do verso, sem, contudo, fugir ao sentimento, ao sentido humano do tema;


8. é certo que isto, às vezes, ocorre justamente pelo fato que apontamos ainda a algumas linhas atrás: vícios adquiridos naquelas ocasiões em que se obrigam a declamar no auge de um fandango, entre o barulho e a falta de atenção do galpão repleto de moços, muitas vezes por demais "encachaçados";


9. quando se tratar de uma apresentação num salão grande, sem recursos de microfone, se precisa saber um pouco ou algumas instruções de projeção de voz. No teatro a gente aprende isto. O ator precisa colocar a sua voz numa altura precisa para ser ouvido, mas nunca desafinando, porque no próprio teatro o importante é o que se chama "afinação";


10. assim, quem for declamar, por acaso, o massacrado, mas preferido do autor, "Negrinho Benedito" não precisa gritar de tal maneira como se tentasse alcançar os próprios olhos do negrinho no céu;


11. prudência, amigos declamadores! Talento, recolhimento, arte, a poesia é uma canção sem partitura musical, mas é música também, na sonoridade da métrica, na harmonização do verso.

 

Marcos Paulo Sulczinscki

 

OSTENTAÇÃO


1. Parece ou poderá parecer que se está querendo criticar a todo mundo, como se o próprio autor não merecesse um dia ser criticado;


2. tudo o que se aponta, todos os defeitos, ela também já teve, já cometeu e ainda comete alguns; mas ela foi a lo largo, como diz o gaúcho, apontando, sentindo, observando, senso este trabalho fruto de uma experiência longa, enfrentando platéias, na querência e fora dela, ouvindo declamadores famosos, observando recitadores, estudando-se a si próprio, procurando aperfeiçoar-se nas suas interpretações;


3. mas um ponto que deve ser orientado é esse que se chama de ostentação;


4. ostentação, no pensar do autor, é aquela mania, pode-se dizer assim, que muitos declamadores têm de acompanharem suas declamações com figurações de objetos ou até mesmo de máscaras, para reforçarem as suas interpretações;


5. por exemplo: - o declamador, porque vai declamar uma poesia que fala em guerra não precisa trazer um canhão à meia espalda; não precisa entrar a cavalo, no salão, para declamar uma poesia sobre o pingo; as moças, principalmente, não devem exagerar nas suas declamações, assim como: - esparramar-se pelo chão, que nem avestruz desasada; - correr e sapatear para expressar o que diz a poesia;


6. muitas vezes já se viu um declamador apresentar uma poesia trágica, vibrante, mas tão repleta de exageros que acaba despertando o riso do público;


7. as crianças, também, para declamarem, não precisam estar fantasiadas ou mascaradas; as professoras de certas escolas, muitas vezes, costumam pintar bigodes nos meninos, pintar os lábios das meninas quando não colocam o tradicional chapeuzinho de palha do caipira nos seus alunos para fazê-los declamar ou dizerem uma poesia;


8. lembremos mais uma vez: - não se trata de fazer da criança uma miniatura fantasiada de gaúcho ou de campeiro; - precisamos é incutir nas alminhas em formação o respeito, o amor pela tradição, ensinando-lhes a sentirem no coração a poesia, o próprio Rio Grande;


9. é claro que quando se tratar de uma encenação teatral, aí se possa pintar nas crianças a figura de adulto; mas se tratando de uma apresentação cívica, educativa, deve-se fazê-las viver o que o poeta escreveu, porque assim guardarão no sentimento, na sua própria educação, o verdadeiro sentido do verso;


10. o declamador ou declamadora deve procurar transmitir, através de sua emotividade, todo o sentimento da poesia, mas sem forçar! Se a poesia expressa tristeza é preciso ter a sensibilidade, a capacidade de comunicar esse sentido, sem precisar de exageros;


11. não precisa, se a poesia for dramática, soluçar em altos brados, escabelar-se, mas sim recolher-se ao coração a alma e pode chegar até às lágrimas ou, então, só no próprio sentimento da voz fazer o ouvinte, por sua vez, chegar ao máximo de emoção;


12. se a poesia for divertida, humorística, dizer com graça, mas sem risadas ridículas; e, se tiver que rir ou gargalhar, concluir por sua própria autocrítica, se realmente sabe rir ou gargalhar;


13. enfim, com a observância de algumas das regras acima expostas, a poesia será capaz de transmitir, de comunicar fraternidade, espírito e, acima de tudo, com a poesia podemos colaborar com o alto sentido de integração, porque com o verso se pode falar direto ao coração de qualquer vivente e em qualquer ocasião, sem maiores aparatos sonantes;


14. pois não há quem não escute e que não sinta com o coração uns versos ditos em um momento ocasional, especialmente se esses foram escolhidos com sabedoria e recitados com entonação incisiva e no momento exato, na hora precisa;

15. e, para ilustrar o encerramento desta compilação, citamos, da autoria do próprio Dimas Costa, os versos que se seguem:


O verso é adaga que fere.

o fundo do coração.

Não mata, sangra, judia,

tortura a alma da gente!

É veneno que aos poucos

vai consumindo o vivente.

Se ele é incrédulo,

ou descrente,

se é impuro, material,

há sempre um tema no verso,

que há de feri-lo

e arrancar-lhe

uma gota pura de pranto,

embora só saiba sorrir!

 

Fonte: Costa, Dimas. Poesia gauchesca para moças e crianças, com instruções para declamadores tradicionalistas. 3.ed. Porto Alegre: Martins Livreiro-Editor, 1983.

 

Maria Beatriz Magalhães dos Santos

 

DICAS PARA DECORAR E DECLAMAR POESIAS


1. Escolher um poema significativo e pequeno para começar;

 

2. escrever ou copiar os versos em folhas separadas (dos livros), para facilitar o manuseio;

 

3. dar um número a cada verso e a cada folha, para reforço da memória visual;

 

4. procurar no dicionário o significado de cada palavra desconhecida;

 

5. procurar entender a mensagem global do autor;

 

6. começar com os primeiros versos com o uso da "ladainha", ou repetição;

 

7. para cada verso associar imagens mentais correspondentes, como se estivesse lembrando de um cenário;

 

8. começar a declamar os versos de maneira repetitiva e em voz alta, dando ênfase à declamação ou emocionalizando os versos;

 

9. manter sempre a folha com os versos que estão sendo trabalhados, usando qualquer oportunidade para reforçar a memória, (nos meios de transporte público, no banheiro, nos momentos de lazer, etc.);

 

10. o uso conjugado de todas as memórias (verbal, auditiva, visual, emocional, sinestésica) vai consolidando a reminiscência, pela qual os versos se tornam a cada dia mais claros e vividos na memória;

 

11. em geral, nós promovemos um encadeamento da memória em que cada última estrofe declamada nos traz à superfície a primeira estrofe do próximo verso;

 

12. com o uso das páginas e versos numerados podemos atrair para a superfície partes determinadas dos poemas;

 

13. a partir da primeira declamação em público, bem sucedida, temos um reforço extraordinário da auto-estima, pela via do reconhecimento;

 

14. este prazer nos leva a buscar novas oportunidades de declamar (que nunca faltam), aumentando a cada dia a nossa auto-confiança;

 

15. a partir deste ponto podemos manter apenas o trabalho de manutenção de poemas já dominados e exercitarmos novos poemas, com nossos instrumentos de memória já melhor qualificados;

 

Fonte: do colaborador João Drummond (material encaminhado ao sítio Bombacha Larga em 11.02.2007)

 

José Itajaú Oleques Teixeira

BOMBACHA LARGA: na luta pela preservação das autênticas Tradições do Povo Gaúcho Sul-brasileiro!

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