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Os Bertussi:
Que linda é minha Terra

 

10/05/2007 22:21:46
O GRAXAIM E O GAMBÁ
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Graxaim


Lagarto


Gambá

 

Era uma vez o compadre Graxaim, que andava mui esfaimado, porque a cachorrada não o deixava chegar no rebanho e o tempo corria tão ruim que até as preás faziam pouco dele. Inverno brabo, de geada que branqueava. Tudo que era bicho ladrão andava com a barriga pegada no espinhaço. Até o compadre Tatu teve que mudar de toca, por causa das chuvaradas. Cobra, então, nem nada; e os quero-queros, de frio, não davam mais sinal. Compadre Graxaim, então, foi convidar o compadre Gambá, que era mui esperto, pra darem uma batida nos poleiros, ou no rebanho, a ver se pegavam algum cordeirinho recém-nascido. Mas o Gambá disse que estava muito cansado de ter ido na véspera a um galinheiro no outro lado do passo e que, mesmo numa enrascada em que andava, tinha prometido ao compadre Piloto não bater na criação da casa. O Graxaim embrabeceu, provocou o Gambá para passar-lhe o dente, e foi embora dizendo que até era melhor um bicho sem-vergonha como o Gambá não andar com ele, que era bicho de respeito. E saiu a trotezito direito à casa do compadre Lagarto. O Lagarto, qua andava enrodilhado no olho do sol, disse que não queria conversa com a cachorrada da estância, porque não podia estragar a sua roupa de inverno. Mas, como era amigo do compadre Graxaim e via que ele andava necessitado, podiam ir juntos ao mato, no outro dia, tirar mel. Vai então, no outro dia, os dois foram, ao meio-dia, em busca de mel. Trotearam, trotearam, até encontrar um camoatim, mui lindo e gordo, em cima duma pedra. Compadre Lagarto, então disse: - Compadre Graxaim, tu ficas aqui, quieto, espiando no mais a manobra que quando chegar a hora lhe digo. E foi direito à casa dos camoatins, que estava negreando de bicho. Quando chegou em cima, fincou a cabeça na pedra e lept! – um guascaço com o rabo no camoatim, e disparou para lamber o mel que ficara grudado no rabo. Quando os bichos acalmaram um pouco, veio de novo devagarzito, fincou cabeça e lept! – outro guascaço e disparou para lamber o mel. Assim fez um mundo de vezes. Os camoatins zuniam para todos os lados, mas não encontraram ninguém. Algum que pegou o Lagarto, ele nem se importou, porque no seu poncho não entra ferrão nem chuva. Depois de muito tempo, os camoatins deixaram a casa e foram embora. Mas quando o Lagarto disse: - Agora sim, compadre Graxaim, vá buscar o mel, viram o Gambá que se despencou duma árvore, gadenhou o camoatim e se foi campo fora. O Graxaim correu, mas o Gambá ia longe, e ele então ficou muito triste, muito triste, e se lamentou pro compadre Lagarto e jurou que havia de se vingar do desgraçado Gambá. Combinou um plano com o Lagarto e, no outro dia, foram pro mato onde morava o Gambá. Vai então, o Graxaim cortou uma tala de jerivá, pelou, e disse que o compadre Lagarto ficasse encondido, esperando. Quando ia chegando a hora de o Gambá vir beber água, o Graxaim começou a arrancar cipó, a arrancar cipó, como se fosse guinchar dois ranchos. Daí a pouco veio o Gambá ao tranquito, para o lado do arroio. – Bom dia, compadre Graxaim. – Bom dia, compadre Gambá. E seguiu arrancando cipó, arrancando cipó... – Pra que é tanto cipó, compadre Graxaim? – Ué! O compadre não sabe que vem aí um pé-de-vento tão grande que tudo que é bicho que não tiver atado numa árvore o vento leva? – E o compadre vai se amarrar? – E então? O compadre Corvo, que veio ontem da serra, foi quem me deu a notícia do ventarrão que vem! Disse que lá os bichos já se ataram todos! O Gambá, então, assustado, pediu ao Graxaim que o atasse também, que sempre tinham sido amigos, e tal. O Graxaim disse que não podia, que o vento não demorava e ele tinha de ir em casa atar os parentes. Mas o Gambá pediu muito, se ajoelhou, fez muita lábia, e então o Graxaim disse. – Está bem, compadre, como sempre fomos amigos, vou te fazer esse favor. E encostou o Gambá num tronco de guajuriva e passou-lhe cipó pelo corpo até que não podia mais se mexer. Aí o Graxaim chamou o Lagarto. – Compadre Lagarto, está aqui quem nos roubou o mel. E passou a mão na tala de jerivá, botou um pé adiante outro atrás, e começou a dar uma sova no Gambá. Um João-de-Barro que ia voando, vendo aquilo, lembrou-se de que o Gambá lhe comera os filhotes o ano passado, e então sentou num galho de guajuvira, bateu as asas e deu gargalhadas. O Graxaim, dê-lhe tala, dê-lhe tala no Gambá! Quando cansou, veio o Lagarto, fincou a cabeça no chão e lept! lept! lept! – até cansar. E deixaram o Gambá lanhado de tanto apanhar, e foram de novo à procura de mel. (O Graxaim e o Gambá, in LESSA, Barbosa. Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro – Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Livraria Literart, 1960. p. 257-260)

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  Autor: Estória recolhida por Barbosa Lessa
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01/08/2007 14:45:08 JUAREZ MACHADO DE FARIAS - PIRATINI / RS - Brasil
É uma honra ler tão bela estória recolhida por meu ilustre conterrâneo LUIZ CARLOS BARBOSA LESSA. Apresento de 2a à 6a feira, das 09h às 11h, e das 18h às 20h, um programa regionalista onde veiculo literatura gaúcha. Para ouvir, acessar www.radiotertulia.com. Um abraço e parabéns pela bela página.
Sítio: http://www.juarezmachadodefarias.com
11/05/2007 12:36:28 Francisco Chagas - Rio Grande / RS - Brasil
Muito boa a idéia de colocar estórias gaúchas!
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