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Vilson Schmitt:
Tradicionalismo Moderno

 

01/12/2007 23:15:08
O CONTINENTE: ANA TERRA - DE ÉRICO VERÍSSIMO
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Livro do mês: O Continente

1. A fonte

Substrato histórico: os últimos anos das Missões Jesuíticas (Sete Povos).

Argumento

Uma índia grávida (estuprada por algum bandeirante) aparece nas Missões, dá a luz a um menino mestiço e morre. O garoto é batizado de Pedro e se torna protegido do padre Alonzo, um jesuíta espanhol que, mais tarde, o presenteará com um punhal de cabo e bainha de prata, punhal este que atravessará os duzentos anos de O tempo e o vento, como um símbolo da bravura de seus portadores.

Pedro, à medida que cresce, é dominado por uma visão mística da existência: fala com a Virgem Maria e profetiza que Sepé Tiaraju vai morrer. Tem grandes pendores musicais e toca flauta admiravelmente. Quando as tropas luso-espanholas, em função do Tratado de Madri, derrotam os exércitos indígenas e aproximam-se para destruir os Sete Povos, Pedro monta num cavalo baio e foge sem destino.

O que destacar em A fonte

a) A confluência da cultura mística católica e a consciência mágica dos índios na figura de Pedro, explicando a sua tendência a visões e premonições.

b) A
criação de uma origem mitológica para o estabelecimento da sociedade rio-grandense, na medida em que Pedro, mais tarde, fecundará Ana Terra, dando início - em termos simbólicos - a um tipo local, o gaúcho. É visível - neste romance de "fundação" de um mundo regional - a influência de Iracema, de José de Alencar.

 

 

 

 

 

 

2. Ana Terra

Substrato histórico: a conquista do território por famílias paulistas e a fundação dos primeiros povoados.

Duração: 1777 a 1811

Argumento

Ana Terra descobre, nas terras de seu pai, Maneco Terra, um índio ferido, de tez relativamente clara (Pedro Missioneiro). Olhado com desconfiança pelos Terra, o índio se recupera e acaba permanecendo na fazenda como uma espécie de agregado. Surpreende a todos com suas habilidades campeiras, com seu repertório de histórias e lendas e com sua capacidade de tocar flauta. Na primeira vez que Pedro executa uma música, Ana é tomada de grande emoção:

"Sentiu então uma tristeza enorme, um desejo amolecido de chorar. Ninguém ali na estância tocava nenhum instrumento. Ana não se lembrava de jamais ter ouvido música naquela casa."

A solidão de Ana Terra e o desejo que atormenta seu corpo levam-na a desenvolver uma paixão contraditória pelo estranho:

"E ali, no calor do meio-dia, ao som daquela música, voltava-lhe como nunca o desejo de homem. Pensava nas cadelas e tinha nojo de si mesma."

Até que, por fim, ela termina por se entregar ao missioneiro. Desses furtivos encontros amorosos resulta a gravidez da moça, descoberta pela mãe e também pelo pai, que, escondido, ouve a confissão da filha. Em seguida, Horácio e Antônio, irmãos de Ana, arrebatam Pedro Missioneiro e carregam-no para um ermo, a fim de assassiná-lo, confirmando a visão do próprio índio, que antevira em sonho a sua morte.

Pedrinho (Pedro Terra) nasce e, a exemplo de sua mãe, recebe total desprezo do avô, Maneco, e dos tios criminosos. Ana, por seu turno, tem o coração definitivamente seco em relação a seus familiares. A única pessoa que estima é a mãe, D. Henriqueta. E quando esta morre, Ana Terra não tem pena, porque "a mãe finalmente tinha deixado de ser escrava". Alguns anos mais tarde, o avô se reconcilia com o neto, Pedro, por ocasião do plantio do trigo, velho sonho de Maneco Terra. Sonho de que o menino compartilha emocionadamente.

Um ataque de bandidos castelhanos termina com a permanência de Ana Terra na fazenda do pai. Antes do massacre, ela esconde o filho, a cunhada, mulher de Antônio, e sua filha numa cova no meio do mato e volta para casa, onde será sucessivas vezes estuprada pelos bandoleiros.

Mortos todos os homens da casa, Ana Terra resolve partir com as duas crianças sobreviventes e a cunhada. Viajam de carreta com uma família em busca de um lugarejo (Santa Fé) que acaba de ser fundado por um "coronel", Ricardo Amaral, e constituído até então por apenas cinco ranchos. Ana constrói o seu. E com o passar do tempo - valendo-se de uma tesoura de podar - torna-se a parteira do povoado.

 

Ilustração: Herrmann Wendroth

 

Começam as guerras platinas e Pedro Terra, já um rapagão de vinte anos, é convocado para lutar. Ana chega a pedir ao coronel Amaral que não leve o filho, mas o velho estancieiro a repele. Também começa a terrível espera das mulheres, que é um dos aspectos centrais do romance de E. V.. Elas esperam pelos seus homens que estão sempre partindo para os confrontos militares que delimitam a vida na província desde suas origens até, pelo menos, o final do século XIX. O episódio finaliza com a segunda espera de Ana, já que Pedro retornara de sua primeira experiência bélica e - alguns anos depois - fora novamente convocado.

O que destacar em Ana Terra

Ana Terra é o capítulo definitivo de O tempo e o vento. Além da representatividade histórica da personagem (símbolo da mulher rio-grandense), devemos atentar para:

a) Seu erotismo, ampliado pela solidão e pela sensação de infelicidade de viver naquele mundo perdido que é a fazenda do pai. Daí a sua entrega corpórea a Pedro Missioneiro.

b) A
consciência natural (e quase a-histórica) do tempo. Este é determinado primitivamente pelo ritmo das estações, assim como os dias o são pelo nascer e pelo desaparecer do sol. Não há calendários e as referências aos anos são imprecisas. Assim, o tempo está relacionado indissoluvelmente à natureza:

"Era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava por todas as fases, as estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e nas pessoas."

c) A sua
garra, obstinação e capacidade de resistência. A forma que sobrevive interiormente à violência do estupro dos bandidos castelhanos indica não apenas resignação ao destino, mas estupenda força subjetiva e crença na vida. No limite mais dramático e profundo, estes serão os valores de todas as mulheres no romance.

d) A profissão de
parteira que Ana adota como uma metáfora da vida, enquanto a seu redor guerras e revoluções campeiam com todo um tributo à destruição e à morte. Decorre daí também o seu ardente pacifismo e seu entranhado ódio à violência em que os homens parecem se comprazer.

e) A
relação que Ana estabelece entre o vento e as coisas importantes de sua vida, a associação entre as "noites de vento, noite dos mortos" e, por fim, a própria ligação do vento com a memória feminina. Esta memória - açulada pela natureza - é ao mesmo tempo o tormento, o consolo e a arma de defesa das mulheres contra a falta de sentido da existência.

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  Autor: por *Sergius Gonzaga
  Observações: * Professor de Literatura Sul-Rio-Grandense da UFRGS.

 
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