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Mano Lima e seu filho
Pedro Vargas de Lima
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Quando eu crescer

 

12/01/2008 13:41:53
O CONTINENTE: A TEINIAGUÁ - DE ÉRICO VERÍSSIMO
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Livro do Mês - O continente

4. A teiniaguá

Substrato histórico: a consolidação da vida urbana no RS.

Duração: 1850-1855

Argumento

Em 1850, Santa Fé já possui sessenta e oito casas e trinta ranchos. Chama a atenção o magnífico sobrado construído por um nortista de origem misteriosa, Aguinaldo Silva. Dele também é a melhor fazenda da região, a do Angico. Porém a sua principal atividade econômica é a agiotagem e muitas terras, inclusive a pequena propriedade de Pedro Terra tinham passado para suas mãos.

                                                  

                                                             Ilustração: Herrmann Wendroth

Aguinaldo tem uma neta adotiva, Luzia, de esplêndida beleza e "modos de cidade": veste-se bem, é culta e toca cítara. Desperta paixões, especialmente entre os dois primos, Bolívar e Florêncio (filho de Juvenal Terra) que a disputam. Luzia termina optando por Bolívar, filho do Capitão e de Bibiana, herói juvenil na guerra contra o tirano argentino, Rosas.

Bolívar está completamente enfeitiçado por Luzia. Atendendo a uma determinação da própria jovem (que tem dezenove anos) marca-se o noivado para a mesma hora em que um escravo, suspeito de crime hediondo, vai ser enforcado. Os sinais de estranha doença começam a aparecer na moça que veio do Norte.

Também surge neste episódio um dos protagonistas mais importantes de O continente, o Dr. Carl Winter, médico alemão, culto, solitário, extremamente observador e um pouco bizarro, e que havia fugido da Alemanha por razões sentimentais e políticas. Ele será uma espécie de "comentarista" da vida cotidiana e dos costumes, tanto de Santa Fé quanto da província de São Pedro. Não é errado considerá-lo como um "alter-ego"(um "outro eu") de E. V.. Fascinado por Luzia (uma mescla de curiosidade e desejo), ele a compara à lenda local da teiniaguá, a princesa moura transformada pelo diabo numa lagartixa, cuja cabeça consiste numa pedra preciosa de brilho ofuscante que atrai e cega os homens.

É o Dr. Winter o primeiro a perceber a doença da alma que corrói a bela Luzia: a moça tem prazer com o sofrimento alheio. Na hora do enforcamento do escravo, ela corre para a janela a fim de se deliciar com o espetáculo:

"Primeiro o rosto dela se contorceu num puxão nervoso, como se tivesse sentido uma súbita dor aguda. Depois se fixou numa expressão de profundo interesse que aos poucos foi se transformando numa máscara de gozo que pareceu chegar ao orgasmo."

Por isso, casando-se com Bolívar, uma mente singela, ela se aproveitará para atormentá-lo. No entanto, contraditoriamente, Luzia tem momentos de ternura e alegria para com o marido, estraçalhando, pouco a pouco, os seus nervos de homem enfeitiçado. Esta alternância de loucura e fascinação, revela uma Luzia não apenas sádica, mas também masoquista, porque há passagens em que ela parece se comprazer com o próprio sofrimento. Bibiana, a sogra, também percebe o que o Dr. Winter já enxergara e passa a odiar a nora.

Em 1853, Aguinaldo Silva cai do cavalo e fratura o crânio, sobrevivendo ainda três dias. A neta acompanha-o, minuto após minuto, comprazendo-se com o sofrimento do avô. Seu sado-masoquismo é visível. O nascimento de Licurgo Cambará, o filho do casal, atenua brevemente a situação. Em seguida, deixando o nenê nas mãos de Bibiana, Bolívar e Luzia partem, numa viagem recreativa, para Porto Alegre.

Na capital da província uma epidemia de cólera dizima a população. Em vez de retornar, o casal permanece no centro da grande epidemia. E. V. não narra os acontecimentos na capital, mas meses depois, quando os dois voltam, Bolívar está tão destruído psicologicamente que o Dr. Winter e Bibiana intuem o que havia ocorrido: a euforia e o gozo de Luzia, vendo o terror de todos diante da peste, deliciando-se com o desespero das pessoas que caíam nas ruas, agonizantes.

Ao tentar rever o filho, Licurgo, a teiniaguá é impedida por Bibiana e tem um ataque de fúria, chamando a sogra de "cadela". Bolívar então espanca a esposa e sai da sala, cada vez mais arrasado interiormente. O Coronel Bento Amaral, aproveita-se do contexto para vingar-se dos Cambarás, decretando a quarentena do sobrado. Isto é, durante quarenta dias ninguém, a não ser o dr. Winter, poderia entrar ou sair do casarão. Capangas dos Amarais cercam então o local para que a ordem do caudilho fosse cumprida. Bolívar - exasperado pelas circunstâncias - não suporta a prepotência de Bento Amaral e com uma pistola na mão sai de casa, tentando romper a quarentena. Há um tiroteio e quando o dr. Winter chega à janela vê Bolívar "caído de borco, no meio da rua, com a cara metida numa poça de sangue."

O que destacar em A teiniaguá

a) O caráter doentio de Luzia, indicando, de certa forma, que todas as mulheres que ousassem quebrar o silêncio e a aceitação resignada da dominação masculina, teriam um preço muito alto a pagar por sua autonomia.

b) A identificação - feita pelo Dr. Winter - entre Luzia e a lenda da teiniaguá - a princesa moura transformada em lagartixa e que leva os homens à perdição.

c) A quebra da hegemonia masculina nas relações afetivas e sexuais. Bolívar é um escravo de Luzia, em proporção semelhante à prisão amorosa e social de que Bibiana e as demais mulheres sofriam em seus relacionamentos com os homens.

d) A personalidade complexa do Dr. Winter, que, além de suas penetrantes análises da vida provinciana, revela forte ambigüidade diante do universo local. O que um europeu educado e sensível faz naquela sociedade "tosca e carnívora, que cheirava a sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha"? Ao mesmo tempo, aquele mundo primitivo o prende com o fascínio de sua selvageria, com a beleza de suas paisagens e com a disposição hercúlea de seus homens e mulheres que iniciam uma nova sociedade.

e) De alguma maneira, o Dr. Winter é a expressão da acentuada curiosidade européia pela vida nas regiões remotas, traduzida, por exemplo, em centenas (ou talvez milhares) de viajantes cultos que estiveram no Brasil, no século XIX, e que sobre suas viagens deixaram uma significativa quantidade de belos relatos.

Repare numa dessas fascinantes observações do Dr. Winter sobre a vida em Santa Fé, dirigidas ao intelectual alemão Carlos von Koseritz:

"Mein lieber Baron. Faz hoje quatro anos que estou em Santa Fé. Já não uso mais chapéu alto, minhas roupas européias se acabam e eu desgraçadamente me vou adaptando. Sinto que aos poucos, como um pobre camaleão, vou tomando a cor do lugar onde me encontro. Já aprendi a tomar chimarrão, apesar de continuar detestando essa amarga beberagem. (...) Estes invernos rigorosos de Santa Fé, em que às vezes sentimos mais frio dentro das casas que fora delas, me ensinaram a beber uma mistura deliciosa. É cachaça com mel e suco de limão. Positivamente divino! Se te contarem, Carlos, que morri embriagado numa sarjeta em Santa Fé, podes acreditar na história, apenas com uma restrição: é que em Santa Fé não tem sarjetas pela simples razão que não tem calçadas, como também não tem lampiões nas ruas e como, em última análise, não tem nada. Talvez seja essa carência de tudo que me fascina e me prende."

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  Autor: por *Sergius Gonzaga
  Observações: * Professor de Literatura Sul-Rio-Grandense da UFRGS.

 
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25/08/2009 13:29:10 Geisa - Canguçu / RS - Brasil
Excelente análise e comparação com a Teiniaguá.
Sítio: http://*****
10/06/2008 19:15:57 Ewerthon - Santa Maria / RS - Brasil
Booooom... Bem resumido, mas não deixa de ser bom, porque destaca os pontos principais da obra...
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