Usuário:
 
  Senha:
 
 

Os Bertussi:
Que linda é minha Terra

 

27/05/2007 19:50:46
NEGRINHO DO PASTOREIO
............................................................................

 

É a mais encantadora lenda do Rio Grande. Está associada ao ciclo do cavalo e quase todos os escritores regionalistas a trataram de uma maneira ou doutra, mas a versão realmente bela é a de Simões Lopes Neto, no seu livro Contos Gauchescos e Lendas do Sul. “Era uma vez um estancieiro muito rico, entretanto sovina a mais não poder, tendo mesmo se celebrizado como o maior unha de fome da terra. Os campos do Rio Grande, naquele tempo, eram ainda abertos. Não havia, entre eles, nem divisas nem cercas, e a gadaria andava chucra. Só para três viventes o miserável olhava nos olhos: para o filho – um menino feio e mau -, para um baio cabos-negros – seu parelheiro de confiança – e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão, a quem todos chamavam somente Negrinho. A este não deu padrinho nem nome. Por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem Maria, Senhora Nossa, que é madrinha de quem não a tem. O Negrinho, todas as manhãzinhas, cedo, galopava o parelheiro baio, depois cuidadas as coisas do patrão e, à tarde, o menino sempre judiava dele. Um dia, depois de acaloradas discussões, o estancieiro forreta atou uma carreira com um seu vizinho. As peripécias sem fim, o ridículo que fez antes e depois, e finalmente a cena humilhante na hora de perder, foram medonhas, uma vez que o Negrinho, servindo de jóquei no baio do estancieiro podre de rico, não ganhou a carreira. Não venceu. Ficou sem as mil onças do jogo. E o estancieiro, então, imaginou terrível vingança contra o Negrinho, que montara o cavalo. Apenas chegou em casa, mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos num palanque, dar-lhe uma enorme surra de relho. E na madrugada saiu com ele; o soltou no alto da coxilha, dizendo-lhe que trinta quadras tinha a cancha da carreira, assim o Negrinho ficaria trinta dias pastoreando sua tropilha de trinta tordilhos negros. E o baio de piquete na soga; e o Negrinho na estaca. As torturas, o sono, as aves agoureiras, as estrelas do céu e o escuro da noite envolveram o negrinho, que teve que se haver, também, com outros bichos, sombras, vento e tudo que era ruim. O baio e a tropilha desapareceram. O Negrinho perdeu o pastoreio e o menino horroroso foi lá ver, voltou e contou para o pai que os cavalos não estavam. O Negrinho recebeu outra vez os castigos de apanhar de relho, ser amarrado. E, durante a noite fechada, que campeasse o perdido. O Negrinho pensou na Nossa Senhora. Foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo. Percorrendo todos os lados da enorme fazenda, por onde passava o Negrinho a vela benta ia pingando cera no chão. E de cada pingo nascia uma nova luz. Então clareou. O Negrinho montou o baio, reuniu a tropilha de cavalos na coxilha, que lhe mandara o patrão. E assim achou o pastoreio, o que deixou o Negrinho muito satisfeito; e adormeceu, encostado num cupim. O menino rico veio e esparramou o rebanho; foi para a estância e disse ao pai que os cavalos não estavam lá. De novo repetiram-se as maldades contra o negrinho. Pareceu, então, que ele tinha morrido. Mas já era noite e, para não se gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho numa panela de um formigueiro, tendo, antes, o cuidado de mandar também assanhar bem os bichinhos. E a morte incrível do negrinho na panela do formigueiro logo se espalhou. Contudo, o estancieiro teve, nas três noites seguidas, uns sonhos terríveis e esquisitos. Sempre com cerração, a peonada, por mais que procurasse, não encontrou num rastro da tropilha. O senhor foi ao formigueiro e aí sua surpresa o assombrou: o Negrinho estava vivo; sacudira as formigas. Ficara com o baio perto, a tropilha de trinta tordilhos, toda junta e ao lado da Virgem Nossa Senhora. O estancieiro caiu de joelhos diante do escravo e o Negrinho, sarado e risonho, pulando em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope. E assim o Negrinho, pela última vez, achou o pastoreio. E não chorou e nem se riu. A história do milagre logo correu mundo e, daí por diante, quando qualquer cristão que perdia uma coisa, o que fosse, pela noite velha, o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela a Nossa Senhora. Desde então o Negrinho cruza campos e cidades, sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos quando estes acendem um coto de vela e vão lhe dizendo foi por aí que eu perdi. Se ele não achar... ninguém mais!”. (* A figura do Negrinho é um símbolo escravocrata dos maus tratos, castigos e infelicidades em pleno decantado ciclo pastoril de amenidades e bondades, que pelo que se vê completamente marginais. in LAYTANO, Dante de. Folclore do Rio Grande do Sul: levantamento dos costumes e tradições gaúchas. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor, 1984, p. 232-233)

............................................................................
  Autor: versão de J. Simões Lopes Neto
  Observações:

 
Nome:
Cidade:
Estado:
País:
E-mail:
(O E-mail não é Publicado no Comentário)
Sítio:
Comentário:
   
 
Untitled Document