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Bando Gaúcho:
Se preparando pra Semana Farroupilha

 

23/06/2007 23:58:59
O AMANSADOR
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À admiração que provocara a façanha do gaúcho sucedera certo menoscabo. As multidões são assim; ondas batidas por dois ventos, o entusiasmo e a inveja. – A égua já foi amansada, não tem que ver! Dizia um da roda. – Aposto que fugiu há tempos de algum pasto, acudiu outro. – Também vou para aí. A fúria não foi grande. – Decerto! Queria-se ver a força da gineta! – Assim qualquer faria. Voltou-se Manuel já de ânimo sereno, designando o animal com um aceno da mão estendida: - Pois a égua aí está, senhores. Quem quiser que a monte. Se é tão fácil! Alguns dos peões se adiantaram para outra vez tentarem cavalgar a égua, volvendo sobre as mãos de um tranco, e upando as ancas, arremessou tal cascata de coices, que afugentou os fanfarrões, obrigados a buscarem refúgio no alpendre. Então a formosa besta correu para junto do gaúcho que estava arredio, e começou a roçar por ele o pescoço como se o afagasse. Sossegou-a ele amimando-lhe o pêlo dourado; e voltando-se para os companheiros, interpelou-os com ar de mofa: - Então, não há quem queira? Nenhum respondeu: falavam entre si. – O homem tem partes com o diabo! Cruzes! – O caso é que ninguém sabe donde saiu. Entretanto Manuel tinha de novo montado, e desta vez, com toda pachorra, sem que a égua fizesse o menor movimento de impaciência. Antes mostrava ela grande contentamento de obedecer ao gesto do gaúcho. – Guarde a égua, sem medo, Manual Canho, que bem a ganhou, disse o dono da pousada. O brasileiro fez um gesto de assentimento; a aproximou-se do alpendre. – Esta é a gineta que eu uso e aprendi de meu pai. Ela faz do cavalo um amigo e não um cangueiro. Mas também, senhores, se o bicho é mau, da casta que for, de dois ou de quatro pés, fiquem certos que no continente também os sabemos ensinar. Caso haja por aí algum deste lote, minha gente, botem-no para cá e verão. Cortejou com o chapéu. Os da roda não sabiam que fazer; se deviam zangar-se ou chasquear. – Amigo Perez, disse no entretanto o gaúcho; por favor tenha mão aí nos arreios enquanto volto. – Então vai longe? – Conforme! Vou levar esta moça que está com saudades! Coitada... respondeu o gaúcho mimando o colo do animal. Passou a égua a tronqueira do pasto; foi transpô-la e desfechar em uma corrida veloz, à desfilada. Com pouco sumiu-se nos longes do horizonte. Por algum tempo ainda ouviu-se o vibrante e generoso henito que estridava nos ares, com o clangor argentino de um clarim. Simples era o segredo da proeza do gaúcho. Como todos os outros picadores ali presentes na estância, conhecera do primeiro lance de vista que a égua estava parida de próximo. Esta observação, a que não deram os mais nenhum valor, produziu nele profunda impressão. Sua alma comovida por sentimentos afetuosos pôs-se em contado com o instinto do animal; operou-se a transfusão; os íntimos impulsos da recém-mãe se refletiram no coração terno do mancebo. Compreendeu o desespero, a saudade bravia pelo filho abandonado e a cólera terrível contra aqueles que a tinham arrebatado às doçuras da amamentação. Quando nitria a égua, fitando nele os olhos ou tomando o faro da campanha, era como se lhe falasse. Desde criança lidava Manuel com animais: fora esse o ofício de seu pai; não havia em toda a campanha do Rio Grande amansador de fama que se comparasse com o João Canho. O que mais se admirava no moço gaúcho não era contudo a destreza, na qual excedia de muito ao pai; porém sim a dedicação que ele tinha à raça hípica. Havia entre o gaúcho e os cavalos verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte de sua família; outros eram seus amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou simples conhecidos. Com os irmãos e amigos vivia em perfeita intimidade; consentia que lhe roçassem a cabeça pelo ombro, ou lambessem-lhe a face. Muitas vezes comiam em sua mão; andavam constantemente soltos; não havia cabresto nem soga para eles; eram corcéis livres. Tinham esses membros da família suas vontades, que o chefe respeitava por uma justa reciprocidade. Se acontecia agastar-se algum, e a consciência de Manuel o acusava, era ele quem primeiro cedia; e assim faziam-se as pazes. Aos camaradas não consentia o gaúcho aquelas familiaridades; ao contrário, os tratava com certa reserva. Saudavam-se pela manhã ao despontar do dia; e à noite, na ocasião de recolher. Comumente se encontravam na hora da ração: comiam juntos, os brutos no embornal, o homem na palangana. Na opinião de Manuel o cavalo e o homem contraíam obrigação recíproca; o cavalo de servir e transportar o homem; o homem de nutrir e defender o cavalo. Se um dos dois faltasse ao compromisso, o outro tinha o direito de romper o vínculo. O homem devia expulsar o cavalo, o cavalo devia deixar o homem. Só em um caso o Canho castigava o ginete brioso: era quando o bruto se revoltava. Então havia luta franca e nobre; os dois contendores mediam as forças, e o mais hábil ou o mais vigoroso vencia o outro. Na sua adolescência, até aos quinze anos, fora o gaúcho batido muitas vezes; mas já ia para sete anos que tal coisa não lhe sucedia. Fora desse caso do desafio, o rebenque e as chilenas eram trastes de luxo e galanteria. Somente usava deles em circunstâncias extraordinárias, quando era obrigado a montar em algum cavalo reiúno e podão, desses que só trabalham como o escravo embrutecido à força de castigo. Tinha o gaúcho inventado uma linguagem de monossílabos e gestos, por meio da qual se fazia entender perfeitamente dos animais. Um hup gutural pungia mais seu cavalo do que a roseta das chilenas; não carecia das rédeas para estacar o ginete à disparada: bastava-lhe um psiu. Enfim o cavalo era para o gaúcho um próximo, não pela forma, mas pela magnanimidade e nobreza das paixões. Entendia ele que Deus havia feito os outros animais para vários fins recônditos em sua alta sabedoria; mas o cavalo, esse Deus o criara exclusivamente para companheiro e amigo do homem. Tinha razão. Se o homem é o rei da criação, o cavalo serve-lhe de trono. Veículo e arma ao mesmo tempo, ele nos suprime as distâncias pela rapidez, e centuplica nossas forças. Para o gaúcho, especialmente para o filho errante da campanha, esse vínculo se estreita. O peixe carece d’água, o pássaro do ambiente, para que se movam e existam. Como eles, o gaúcho tem um elemento, que é o cavalo. A pé está em seco, faltam-lhe as asas. Nele se realiza o mito da antiguidade: o homem não passa de um busto apenas; seu corpo consiste no bruto. Uni as duas naturezas incompletas: este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América. Contavam muitas coisas a respeito de Manuel Canho. Não passava ele por lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava-o, se era preciso; cauterizava-lhe as feridas; e até quando já o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha. Tinha comprado alguns cavalos que os donos arrebentavam de mau trato, unicamente para lhes dar repouso e assegurar-lhes velhice sossegada. Por causa de um destes protegidos seus, que um vizinho derreou, teve ele uma briga feia que felizmente acabou sem desgraça. O vizinho de uma satisfação completa, alforriando, a pedido do gaúcho, um reiúno que tinha feito a campanha de 1812. Não via o Canho castigarem barbaramente um animal, sem tomar o partido deste. Por isso afirmavam que era ele o gaúcho mais popular entre os quadrúpedes habitantes das verdes coxilhas banhadas pelo Uruguai e seus afluentes, o Ibicuí e o Quaraim. Em qualquer ponto onde estivesse, precisando de um cavalo, não carecia de o apanhara a laço: bastava-lhe um sinal e logo aparecia o magote alegre a festejá-lo, oferecendo-se para seu serviço. O trabalho era escolher e arredar os outros, pois todos queriam prestar-se, como seus amigos que eram, uns por gratidão, outros por simpatia. Quando partia, o acompanhavam algumas quadras, curveteando a seu lado, como demonstração de amizade. Afinal paravam para segui-lo com a vista, até que sumia-se por detrás das coxilhas. Estâncias havia em que anunciava-se a chegada de Manuel pelo relincho estridente, que é o riso viril e sonoro do cavalo. Era o gaúcho recebido e afagado na tronqueira pelos camaradas saudosos, que vinham apresentar-lhe o focinho, rifando com ciúmes uns dos outros. Se acontece passarmos à vista da casa de algum amigo, lhe dirigimos um olhar, dando-lhe mesmo de longe os bons-dias. Assim contavam que os cavalos amigos de Manuel, quando subiam o teso que ficava fronteiro à sua casa, rinchavam de prazer, abanando a cauda com alegria. Tais eram os contos que referia a gente da campanha. Verdadeiros ou não, todos neles acreditavam; e até apontavam-se pessoas que tinha sido testemunhas dos fatos. (O amansador. Alencar, José de, in O gaúcho – 2ª ed. São Paulo: África, 1982, p. 31-34)

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  Autor: José de Alencar
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