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Ninguém é mais que ninguém, de Baitaca

 

23/09/2007 22:58:23
A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO
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Século XVIII. Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados. Os índios Minuano, avisados pelas sentinelas, da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flechas e boleadeiras e lanças, deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas. Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo de dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente saíram descobertos pelos inimigos. Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes. Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si. Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosas saraivadas de flechas. Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem. Caído por terra acha-se um moço ferido; a seu lado, uma jovem índia minuana. Fascinara-a a coragem do estrangeiro. O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheias de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro. O prisioneiro é levado para o acampamento dos Minuanos. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, lhe dão toda a liberdade sob a vigilância das sentinelas. O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, um pau de corticeira. Cava-o, dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa, emprega o grude da parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento. A índia já lhe tem muita amizade e está sempre a seu lado nas horas de folga. Enquanto lhe vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana. Ainda não passara um alua e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício. Amarrado a um tronco está o prisioneiro. Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam sua morte. De quando em vez passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho, fabricado com o mel eiratim. Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no a sua presença. Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique: - que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Ou não nos tornem vir a nos incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus! Contudo, o chefe Minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido. Surpreende-se o branco  com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez; cantar uma balada de sua terra. É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios. Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o rito bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto. Ouvem-se com enlevo, exclamando a todo instante: - Gaú-che! Gau-che! – a significar gente que canta triste. Sensibilizados pela doce cantiga do condenado á morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado. E, assim, o brasileiro fica morando com os Minuanos. Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com o indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho! (A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO in LESSA, Barbosa. Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Livraria Literart Editora, 1960. Lenda coletada de Martha Dutra Tavares, baseada em Cezimbra Jacques e Aurélio Porto, em O Gaúcho, álbum publicado pela Transoceanic Trading Company). Nota de Barbosa Lessa: a versão gaú – cantar triste, e che – gente, é combatida por vários entendidos em questões lingüísticas, que alegam se inexata essa explicação etimológica. Outras autoridades, porém, como Batista Caetano, aceitam essa tradução, e informam que ainda hoje, no Paraguai, há a forma guahú para designar o uivo tristonho do cão e, por analogia, o canto triste que possa assemelhar-se a esse uivo; quanto a Che – expressão gaúcha tão usual na conversação comum, pode significar fulano, pessoa, e aplica-se muitas vezes quando se quer chamar a atenção de um interlocutor, cujo nome próprio se desconhece.

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  Autor: Lenda coletada por Barbosa Lessa
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11/09/2012 09:37:56 rafael - brumado / BA - Brasil
Gostei muito, pois não é pequena.
Sítio: *****
14/09/2010 21:25:56 Cinti Martins - Cachoeira do Sul / RS - Brasil
Adorei essa lenda, vou apresentar para os meus alunos!
Sítio: *****
10/10/2008 11:05:50 tais - panambi / RS - Brasil
Adorei!
Sítio: http://da paz
17/09/2008 22:29:50 Nadyne - Viamão / RS - Brasil
Muito legal este site! Especialmente porque estou pesquisando sobre lendas gaúchas. Eu amei este site! ♥♥♥
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br/ver_literatura.php?id=9
07/08/2008 21:06:42 thais lorrany - belo horizonte / MG - Brasil
Bem, gosto muito de todas as coisas que vocês poem na Internet, ainda mais agora que preciso fazer um trabalho sobre esse Estado! É muito legal! EU AMO A INTERNET!!! VOCÊS SÃO DE +++ !!!
Sítio: *****
23/06/2008 11:59:58 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezado Anderson. O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita e o importante comentário postado neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Respeitando a tua posição a respeito do tema, aproveitamos para contestar a afirmação de que o CTG cultua o gaúcho mítico. Com todo o respeito, esse é um ledo engano e um discurso que só interessa aos que pretendem acabar com o gauchismo para implantar, com fins comerciais, culturas alheias no nosso Rio Grande do Sul. Gaúcho, prenda, usos e costumes campeiros e tradicionais do Rio Grande, nada disso é símbolo, fábula ou invenção, mas uma realidade forjada no campo e nas suas lidas com o gado, o cavalo, as ovelhas e o jeito peculiar dos interioranos do Estado Garrão do Brasil. O que não é Tradição dos Gaúchos do Rio Grande é o que tentam impor como se dele fosse tradicional, como os compassos musicais criados pelos colas-finas citadinos sem qualquer vínculo com o tradicional; os rodeios texanos e suas gineteadas em bois e seus chapéus chaparral; as camisas vermelhas, pretas e de outras cores fortes; as "rastras" dos platinos e que não são dos gaúchos do Rio Grande; as cintas dos modistas, mas não dos tradicionalistas; os lencitos das griffes, mas não da história nem da tradição dos sul-rio-grandenses; enfim, isso e outras impropriedades cultural-regionalistas, sim, são fatos sociais sem base na verdadeira tradição gaúcha sul-rio-grandense e, portanto, fantasiosos; isso, sim, é puro mito; ou por acaso os jovens de 47 não nasceram e se criaram na tradição que fizeram reerguer-se diante das invações culturais do pós-segunda guerra e que está ou deveria estar dentro dos CTGs criados poe eles para esse especifico fim? Por acaso os pais deles não viviam aquelas tradições, lá na campanha? Por acaso ainda hoje não há quem viva lá fora, praticando esses usos e costumes recebidos de seus pais, que por seu lado receberam dos seus, por tradição? Quanto à formação do gaúcho (não do sul-rio-grandense) já explicitamos neste sítio que a mesma não está vinculada apenas aos bandeirantes da Capitania de São Vicente, como afirmas, mas na tríade português-açoriano, negro e índio da região, principalmente. E não esqueçamos que lenda, por ser lenda, não há que ser considerada na sua autenticide; que lendas são parte da tradição popular de um povo e por isso devem ser conhecidas, cultuadas, preservadas. A Tradição Gaúcha Brasileira é um acervo cultural regionalista do Rio Grande do Sul que contempla, também, todas as lendas do Rio Grande, como essa coletada pelo folclorista Barbosa Lessa. Portanto, quem é apenas sul-rio-grandense certamente que nenhum interesse terá em repassar aos filhos as lendas e os demais aspectos tradicionais do Rio Grande do Sul; aos gaúchos - aqueles que apreciam as tradições dos campeiros do Rio Grande - seria interessante que também preservassem a cultura regional dos sulistas brasileiros; porém, aos gaúchos tradicionalistas isso é um dever e uma obrigação, diante dos fins do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro organizado de preservar o Núcleo da Formação Gaúcha Sul-rio-grandense e a Filosofia do Movimento Tradicionalista, decorrente da Carta de Princípios desse que é um Movimento Cultural Regionalista de Culto, Preservação, Defesa, Valorização e Divulgação das autênticas Tradições do Povo Gaúcho Sul-brasileiro! Com as Saudações Tradicionalistas segue o nosso quebra-costelas cinchado a esse prezado Vivente!
Sítio: http://bombachalarga.com.br
22/06/2008 11:48:59 Anderson Amaral de Oliveira - Ijuí / RS - Brasil
Podemos visualizar através desta lenda a reprodução do gaúcho mítico, o qual cultuamos em nossos CTG's, contudo podemos visualizar um romancismo exacerbado. Não devemos nos esquecer dos bandeirantes vicentistas que repontavam o gado por essas bandas que utilizavam-se das índias como objetos, e a medida que não mais serviam, eram largadas grávidas em qualquer lugar. O fruto deste relacionamento me parece mais verossímil com a nossa origem, do gaúcho primitivo. Mas a lenda até que é bonitinha, uma boa história para contarmos aos nossos filhos enquanto pequenos. Um quabra costelas do tamanho do Rio Grande!!!
Sítio: *****
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