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Wilson Paim:
Pedaços da minha infância, de Salvador F. Lamberty
e Wilson Paim

 

08/01/2006 19:47:10
MANECO: O PIAZITO CAMPEIRO DE COXILHA BONITA!
 
Um piazito e a antiga Tradição dos Campeiros do Rio Grande!
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Maneco venceu o último repecho da estrada e começou a descer para as casas. Continuava a pensar se um dia viria a ser amigo do guri forasteiro. Lembrava-se daquele chapéu de abas viradas e daquela fivela grande, dourada, no cinto do piá. A bota, então, era pequenita se comparada com a sua. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi a calça de brim. Era mais apertada do que chinelo de gordo, como dizia seu avô Bento. Bueno! Agora era pensar em cumprir a sua obrigação diária. Tinha de dar jeito de botar as vacas, antes que o pai lhe passasse um pito, de novo. Da última vez que se atrasou nessa campeira missão levou uma ralhada daquelas, que o deixara muito encabulado. Por isso não poderia descuidar novamente dessa sua obrigação de piazito campeiro. Uma cutucada por baixo e o tobiano velho seguiu a trote largo. Em poucos minutos já estava boleando a perna em frente à porteira das casas. Dona Favorina, sua mãe, ao apanhar a mala de garupa, disse-lhe preocupada: - O que aconteceu contigo, Maneco? Tu nunca demoras tanto! Maneco respondeu-lhe que não havia acontecido nada, que o atraso se dera porque ficou conversando um pouco com um vizinho novo, um piazito que havia chegado na região e que estava morando na Estância das Corticeiras. Depois, apressado, saira dizendo que tinha de botar as vacas, pois já estava atrasado. Para sua sorte, os bichos, como que cooperando com o serviço de seu amigo guri, já se achegavam, lentamente, para perto da mangueira. Com os terneiros enchiqueirados, Maneco foi até o seu cavalo e pendurou no pescoço do animal um bornal com milho. Enquanto o tobiano velho comia, aproveitou para rachar um pouco de lenha, de machado. Em seguida, com algumas braçadas de achas encheu o caixote que ficava ao lado do fogão, na cozinha. E depois de colocar a lavagem para os porcos, atrelou a pipa no tobiano e foi buscar água na cacimba, distante há uns cem metros das casas. Ao voltar, soltou o cavalo no potreiro dos fundos e passou a encher de água as tinas da cozinha e do lavatório. Já escurecia quando o piazito foi tomar seu banho na sanga. Ali voltou a pensar no acontecido, lá no bolicho do Seu Nestor. A novidade ainda despertava o seu interesse. Nunca tinha visto antes alguém falando daquele jeito. O sotaque do piá recém-chegado era bem diferente dos demais habitantes daquela localidade. Após a janta, como de costume, Maneco foi até o galpão. Ao pé do fogo de chão, passou a prosear com seu avô. Ali, no calor do braseiro, sentado sobre um pelego, num cepo de três pernas, costumava escutar do velho Bento alguns causos de assombração, histórias de revoluções e de lidas campeiras; ouvir canções folclóricas, ao som de um antigo violão, dedilhado pelos grossos e calejados dedos do avô. Depois, já no seu quarto de dormir, ficava a imaginar aquelas proezas todas, enquanto observava, pelas frestas do telhado, a lua, as estrelas ou, simplesmente, a noite escura. Às vezes ficava a ouvir o assobio forte do Minuano, ou o desabar de estrondosas tormentas, com chuvas guasqueadas e fortes. Tinha a impressão, nesses temporais, que a força da ventania iria levantar do chão o rancho fincado naquela Coxilha, a mais bonita do lugar! Sim. Para Maneco aquele era um lindo lugar. Sempre que a via, ao voltar de Pitanga, cidade à qual pertencia o Distrito de Coxilha Bonita, Maneco comparava-a ao barranco que a erva-mate formava na cuia de chimarrão de seu Vô Bento. Era uma elevação destacada no horizonte e verde, muito verde. Quando a avistava, de longe, parava sempre o cavalo para admirá-la. Nunca vira outro lugar assim. De todas as coxilhas que conhecia, a dele era mesmo a mais bonita. Não porque ali nascera, mas porque ela encerrava tudo o que um lugar deve ter. Os campos eram de lei, com verdejantes pastos e boas aguadas para os bichos. E todos se orgulhavam muito do lugar em que moravam. Um cartão postal, uma pintura de se colocar na parede da sala, para todo mundo ver. Maneco não tinha dúvidas: Coxilha Bonita era, mesmo, um belo lugar!

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