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Antônio Augusto Fagundes:
Gaúcho

 

11/09/2006 06:10:36
O GAÚCHO DO RIO GRANDE NÃO MORREU!
 
O Gaúcho do Rio Grande e a sua Tradição, para sempre viverão!
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Alguns cidadãos um pouco menos jovens, como Horácio Paz e Amândio Bicca, foram atraídos para a roda da gurizada. As reuniões se realizavam numa sala emprestada pela FARSUL, ou numa outra cedida pelo ARI, ou na casa dos sócios Paixão ou Simck. Especialmente convidado, foi ter ao galpão da casa de Simck o escritor Manoelito de Ornellas, que assim deixou um registro jornalístico no Correio do Povo: “Retorno, nesta tarde de sábado, que é uma das primeiras frias do inverno, de um legítimo fogão gaúcho, improvisado em plena rua da Igreja. Encontrei, ali, um grupo de moços em torno de um braseiro autêntico, com velhas cordeonas e violas, chaleiras respirando pelo bico queimado e cuias enfeitadas de topetes verdes...; palas amplos, botas russilhonas, barbicachos de borla, chilenas choronas... Um quadro anacrônico? Não! Um protesto de jovens que vêm dos campos, contra o cosmopolitismo desfigurador da metrópole. Já disseram que o gaúcho morreu. Morreu, sim, na paisagem retovada do litoral, infestada de povos gringos, confundida, como a Babel bíblica, pelas línguas diferentes, usando todas as modas e sem moda original, um pouco sibarita e requintada, a cobrir com o pó e o rouge, que vêm de Paris, a cara rude que era, antes, bronzeada ao livre sol das coxilhas. Mas, lá, nos rincões que ainda se ocultam, com certo pudor, à desfaçatez de uma literatura de costumes que nos são hostis e despersonalizantes, e a um cinema que nos impõe a falsa compreensão de uma vida licenciosa, que vai aos poucos acabando com a tradição patriarcal dos nossos lares, o gaúcho ainda resiste na sua última cidadela, embora ainda despilchado, maltrapilho e melancólico, mas aferrado à tradição moral em que nasceu e em que viveu. Hoje, nos centros cosmopolitas, sobreleva-nos uma preocupação rastaqüera, de títulos nobiliárquicos. Novos ricos e esnobes despreocupados, produtos da aventura e do câmbio negro, querem ostentar, à força, brasões de velhas ascendências fidalgas... Esquecem que nestas terras existiu a única aristocracia que se poderia reconhecer como autêntica e que foi a aristocracia rural, que tinha brasões na honra pessoal, na decência dos atos, na limpeza de vida, na pureza dos sentimentos e na, galhardia das atitudes. Se eu tivesse o privilégio de um Simões Lopes Neto e fosse dono dos segredos da ficção juro que escreveria um livro, que seria o roteiro desses velhos caminhos riograndenses. E tomaria do vivo a figura do gaúcho, que me conduziria pelos atalhos da História e pelos rastros da vida crioula, que seria o meu Blau Nunes: sábio nos gestos, mas insuperável na grandeza do coração. Eu daria a esse gaúcho o nome de João Vicente Vergara, que eu conheci nos descampados da minha fronteira, naquelas terras que confinam no Butuí, campanha do meu Itaqui – hoje mais vivo na minha lembrança do que um decorativo mural banhado de luzes. (...) Nunca o esqueci. Um pouco da experiência do mundo e do conhecimento dos homens que tenho, dele recebi. Um dia eu o vi assumir, sem caneta e sem tinta, o aval de um compromisso; roubado na boa-fé, não discutiu: pagou; pagou porque mais do que o simples garrancho aposto numa folha de papel selado valia o fio da barba que arrancara, num gesto brusco e rude. (...) Talvez que nasça, algum dia, não o romance que eu sonhei, mas longos diálogos sobre o Rio Grande com João Vicente Vergara redivivo a retraçar, com a mão nervosa e ágil, os novos caminhos que a mocidade do Rio Grande deve recruzar para que o Rio Grande não se achique diante de outras raças e não se desfigure nas calças bambas, nas camisas xadrez, nos coturnos e nos chambergos dos povos gringos...” (do Almanaque dos Gaúchos, n. 2, organizado por Barbosa Lessa - Martins Livreiro Editor: Porto Alegre, 1998)



 

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