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Os Tiranos:
Estampa da Tradição, de Luiz Claudio
e João Alberto Pretto

 

12/12/2006 04:40:38
A VERDADEIRA E REGIONAL ESTAMPA DOS GAÚCHOS BRASILEIROS!
 
A verdadeira Estampa dos Gaúchos Brasileiros:
os Herdeiros da Campeira Tradição do Pampa Sul-rio-grandense!
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Os Tradicionalistas Gaúchos Brasileiros não são Modistas Esdrúxulos, mas os preservacionistas da autêntica, antiga, regiona, campeira Tradição Gaúcha do Rio Grande do Sul. O comércio de produtos estranhos à Cultura Regionalista-tradicional Gaúcha Sul-rio-grandense é uma atividade como outra qualquer, todos sabemos disso. E quem vende é comerciante, seja sul-rio-grandense, brasileiro, gaúcho, tradicionalista ou não. Esse fato passa a ser relevante só quando se tratar de artistas gaúchos e de determinados fraudadores que se intitulam, indevidamente, de Tradicionalistas Gaúchos Brasileiros. Não se duvida que esses, ao portarem chapéus claros, countries, chaparral; bonés e boinas coloridas importadasrastras platinas, cintas urbanas e guaiacas porchetão freio de ouro; calças justas com alças no cós e bolsos traseiros; botas à meia canela; camisas pretas e de cores fortes, berrantes; coletes e lencitos texanos, dentre outros modismos comerciais em nada tradicionais dos Gaúchos Campeiros do Pampa do Rio Grande do Sul, não estão a contribuir para a preservação da Herança Cultural Regionalista-tradicional recebida pelo Estado Sulino, pelo Povo do Rio Grande do Sul, pelo Brasil e por todo o Povo Brasileiro. Da mesma forma não colaboram tais comerciantes para a valorização do Folclore Gauchesco Sul-brasileiro, quando deturpam, em benefício próprio, os ritmos, os compassos musicais tradicionais e a Pilcha Gaúcha Oficial e de Honra do Estado e do Povo Gaúcho do Rio Grande do Sul, prevista na lei estadual-RS Nr. 8.813/89. E quando peões tradicionalistas gaúchos brasileiros comparecem nos Rodeios Crioulos da Tradição Pampeana do Rio Grande, isto é, da Terra Gaúcha Sul-brasileira, com indumentárias que nunca foram dos Antepassados Gaúchos do Pampa Sul-brasileiro, e práticas de gineteadas estranhas ao Patrimônio Sociológico-tradicional Sul-rio-grandense, cuja modalidade é a em pelo e em cavalo, com encilhas sem pelegos ou com peleguitos, estribos demasiadamente curtos, caronas coloridas, pratarias, cordas de nylon e lombilhos do Texas e de outras procedências, não podem ser eles tidos como Gaúchos Brasileiros nem como Tradicionalistas Gaúchos do Brasil. Quando as chamadas Bandas Nacionais se apresentam com seus chapéus de caubói na cabeça e suas indumentárias citadinas, coloridas, pretas, vermelhas, fortes, até turistas estrangeiros sabem que aquela nunca foi, não é e nunca será a Pilcha Gaúcha típica e tradicional dos Gaúchos do Pampa do Rio Grande do Sul. Portanto, vende-se o que quer e compra-se o que quiser. Mas não é preciso dizer que os Tradicionalistas Gaúchos Brasileiros devem cultuar e preservar aquilo que é próprio de sua Cultura Regionalista-tradicional Gaúcha Sul-rio-grandense, e não o que a ela é alheio ou aquilo que é mero modismo de mercado, decorrente dos interesses comercialistas que exploram a falta de consciência cultural regionalista-tradicional de determinado número de incautos e lesados consumidores. É cediço, também, que a falta de conhecimento, gerada por outra falta, a de informação adequada -  omissão esta constatada, devido aos interesses comerciais, em grande parte das Entidades Tradicionalistas Gaúchas -, leva a toda a sorte de equivocadas interpretações. Colhemos, como exemplo, a referente ao uso do colete pelo peão gaúcho brasileiro, peça esta erroneamente considerada como de uso obrigatório, por um dos missivistas deste espaço cultural tradicionalista gaúcho brasileiro, em matéria anteriormente publicada. Entretanto, este é só mais um dos muitos equívocos resultantes do mau ou do insuficiente conhecimento cultural tradicionalista gaúcho brasileiro. Se a Tradição Gaúcha do Brasil tem por base a vivência do gaúcho interiorano do Pampa do Rio Grande do Sulcom a sua peculiar simplicidade, não é de se imaginar que aquele peão campeiro fizesse uso corriqueiro de um colete. Evidentemente que não! Apenas em situações muito formais o mesmo era usado, sempre na cor da bombacha. Ou seja, jamais um peão gaúcho do interior sul-rio-grandense passou, de pai para filho, até os dias de hoje, o uso de um colete nas lidas de campo ou nos serviços caseiros. O uso do colete com a bombacha está equiparado ao uso do colete com a fatiota, o terno, portanto, só usado em eventos de certa formalidade, nunca para pealar, laçar, ou qualquer outro serviço com o gado, as ovelhas, os cavalos. Sabe-se, igualmente, que para um Fandango Gaúcho Tradicionalista a camisa do peão deve estar, pelo menos inicialmente - pois depois, no decorrer do baile, com o calor provocado pela dança e pelo ambiente, é normal que suas mangas passem a ser arremangadas -, abotoada nos punhos, podendo ser usada com ou sem o colete, assim como com ou sem o casacoPortanto, o colete não é peça obrigatória na Pilcha Gaúcha Brasileira, mas se usado deve ser ele da mesma cor e do mesmo tecido da bombacha, podendo destoar daquela apenas por um sobretom. Em uma Domingueira Gaúcha, como a realizada no Casamento Tradicionalista da Comunidade de Santo Antônio, município de Água Doce-SC, noticiado por este sítio, o fato de um peão estar dançando sem o colete está perfeitamente de acordo com o uso adequado da indumentária tradicional, antiga e atual, dos Gaúchos do Sul do Brasil, pois um salão de baile é um dos ambientes sociais que permitem que um colete possa ou não ser usado na pilcha do peão gaúcho brasileiro. Além disso, o seu usuário poderia ter chegado de casaco e sem colete, tendo retirado aquele para o ato de dançar, o que é perfeitamente normal. Um gaúcho vestido com a tradicional bombacha (calça larga), guaiaca (cinturão com bolsas), botas de cano alto, camisa de tom claro e mangas compridas, e lenço de pescoço (no pescoço, e não por cima da gola da camisa!) nas cores e dimensões regionalista-tradicionais sul-rio-grandenses, a preceito, sempre estará melhor pilchado que aqueles que usam lenços-fita pretos, estampados, brilhantes, virados, por fora do pescoço, folclóricos, exagerados, triangulares, à meia espalda; camisas de cores fortes, berrantes; rastras platinas, guaiacas porchetão freio de ouro e cintas urbanas; botinhas à meia canela; calças justas enfiadas...; chapéus e boinas importadas à cabeça dentro dos salões dos Centros das Antigas Tradições Regionais e Campeiras do Rio Grande do Sul, até no ato de dançar. Nota-se, enfim, que há um elevado déficit de informação no Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro organizado. Razoável seria que para todos aqueles que ingressam em uma Entidade Tradicionalista houvesse um estágio básico, com o fim de levar esclarecimentos não só a respeito dos Fins Culturais do MTG Brasileiro como também a cerca das informações necessárias aos recémchegados sobre alguns aspectos tradicionalistas mínimos, como, por exemplo, os referentes ao uso correto da atual Pilcha Gaúcha Oficial Sul-rio-grandense, e, também, a respeito de outras importantes e necessárias questões culturais regionalista-tradicionais relacionadas à Antiga Tradição Gaúcha Brasileira. Com esses subsídios, os novos integrantes do Tradicionalismo passariam a ter reais condições de melhor discernir sobre o Valor e o Sentido do Tradicionalismo e de corretamente distinguir os gaúchos mercadistas dos verdadeiramente Gaúchos Tradicionalistas; os Modistas Exdrúxulos dos Tradicionalistas Gaúchos, cuja estampa nunca será confundida, estejam onde estiverem estes dignos representantes da verdadeira Tradição dos Gaúchos Campeiros do Pampa do Rio Grande do Sul!

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12/12/2007 07:38:16 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
É como diz o ditado: "Se estou de bem com a abelha mestra, não me importo que o enxame ronque". O Sacro Ofício de um Tradicionalista é estar de bem com a Filosofia que orienta as suas ações e as do Tradicionalismo Gaúcho, organizado ou não. Se o Vivente está de bem com a Carta de Princípios do grande Glaucus Saraiva, estará, também, em paz com a sua consciência, necessariamente tradicionalista! Ética é a parte da Filosofia que trata das obrigações do Homem. Qual é a obrigação de um Tradicionalista Gaúcho? A questão é de lógica formal. Preservar a Tradição do Rio Grande do Sul é um imperativo categórico do Tradicionalista Gaúcho Brasileiro. Caso contrário, tudo ele poderá ser: "modista", "mercadista", "crioulista", "nativista", "exibicionista"..., menos um Tradicionalista. O Tradicionalismo Gaúcho não é constituído pela opinião, mas pela sua própria natureza. A quem interessa a anomia, a inexistência de regras no meio tradicionalista gaúcho? Certamente que aos que o manipulam em prol de seus interesses privados; aos que pretendem enfraquecer ainda mais os padrões normais de conduta do povo gaúcho brasileiro, com fins econômico-financeiros, político-partidários ou, até mesmo, meramente anarquistas. Nada há superior à verdade. A cultura materialista há muito que se utiliza das suas costumeiras inverdades egoísticas. Ser Tradicionalista é ideal forte para quem é forte, não para os devotos desse imoralismo mercantilista que campeia, atualmente, nas Invernadas de um cada vez mais débil - para não dizer pusilânime - Movimento Tradicionalista Gaúcho Brasileiro!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
26/12/2006 14:34:33 Jorge Frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
RETIFICAÇÃO: Quero pedir, publicamente, desculpas a todos, se lhes pareci arrogante e prepotente. Não era a minha intenção, nem muito menos ofender. Não pretendo competir com o don José, mas me fiz de advogado do diabo, para que ele veja que as moedas têm duas faces e os dados, seis. Valeu o puxão de orelhas da Priscíla Barbosa Reis, de Goiânia. Talvez meus comentários devam ser deletados, mas ninguém pode dizer jamais que minhas colocações carecem de fundamentação e coerência. Boas festas a todos e feliz 2007.
Sítio: http://www.paginadogaucho.com.br/deba/cont.htm
26/12/2006 13:25:18 Jorge Frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
Prezado Amigo, don José: O nosso debate não é só ideológico, é a encarnação do achismo, da chutologia e da filodoxia querendo negar ou ter mais razão do que a ciência, insistindo, empecinada, de pura birra ou testarudez, serem superiores suas razões. Eis o porque eu defender o conhecimento de causa, a habilitação específica, para o bom debate, calcado na diferença entre a doxa e a epistéme! Disto, não arredo! Não meto o bedelho em temas de direito, porque não sou metido e não é meu chão. Concordo que “modo de viver” não é um conceito científico, mas eu falei modo de vida (modus vivendi - não confundir com modus operandi) - e esse o é! Mas a tua confusão é compreensível, uma vez que não és do metier e não dominas as regras do jogo das ciências sociais, misturando alhos e bugalhos e o joio ao trigo - o que não é demérito! Ao dizer que é “apenas significação da maneira de ser ou da forma particular de fazer as coisas, de falar, da disposição do espírito das pessoas; o jeito, a maneira de vestir; é o mesmo que jeito de viver, maneira de viver, sistema de vida”, te referes ao termo anglo-saxão life style, que é isso. Tampoco eu disse que "só pode falar de cultura quem se ampara na epistemologia, aquele que desenvolve teses científicas", como afirmaste. Se tivesses entendido, saberias que eu sustento que há uma diferença de qualidade e autoridade entre a opinião (que pertence ao domínio do senso comum) e o parecer ou juízo de valor de quem quem é devidamente habilitado (que remete à formação acadêmica). Teses e trabalhos científicos para consulta é que não falta na área da cultura gaúcha. Só a formação específica permite o estudioso saber escolher os diversos autores, pois os há de todas as correntes. Entre os nomes consagrados e profissionais renomados, há aqueles que cujas teses foram falseadas e sua escola foi ultrapassada por novos paradigmas de análise. A escolha crítica fica a critério de cada pesquisador, mas o leigo não saberia como fazê-lo sem incorrer em erro. O resto é conversa pa' boi drumir ou p' amolar o dito cujo. Tu, como causídico (não me disseste que diploma superior tens, mas, pelo visto, pela verborragia, pelo abuso da tautologia e por turro, imagino um rábula), podes usar argumentos até interessantes, mas jamais, descerás à raiz dos saberes que qualquer debate acerca da cultura requer, permanecendo sempre à superfície dos conhecimentos fragmentados e desconexos do neófito e do leigo, peritos em mesclar alhos com bugalhos. Concordo que "um gaúcho tradicionalista não necessita de qualquer formação acadêmica para honrar as suas raízes", mas o mesmo não acontece quando é para emitir um parecer (que é diferente de opinião) abalizado. Podes até opinar e emitir pretensos juízos de valor, mas eles não terão valor, justamente porque falta-les a autoridade necessária, pois, para tanto, é preciso haver passado o curso de ciências sociais papirando duro e fazendo por merecer. É como querer advogar, sem o alvará da OAB. Ou o falso médico querer clinicar e correr o risco de aleijar o paciente, no caso: a verdadeira cultura gaúcha - não essa que enxergas desde teus antolhos! Quanto à tua afirmação de que a "autoridade que autoriza a qualquer vivente falar de suas heranças culturais está assente, primeiro na sua própria consciência tradicionalista de culto, defesa e preservação do legado recebido do pai, do avô e dos mais antigos, e segundo na coerência tradicionalista do seu procedimento" não tenho problemas. Claro que é natural e, portanto, válido os seres humanos falarmos das cosas que fazem parte de nossas paixões e interesses! Mas, se te referes a emitir pareceres e criar regulamentos, considero-a perigosa, senão criminosa, pois dá margem a que qualquer bacudo bolacero, com carterinha de CTG ou MTG, venha a proclamar-se dono da verdade, bastando, para tanto, ter uma boa lábia, saber argumentar e ter o dom de convencer os afoitos e os ignorantes. E já que citaste Barbosa Lessa, figura de proa no Tradicionalismo Gaúcho, devo dizer que também ele, como todos, teve seus erros, por castelhanófobo, como o absurdo de negar, em Mão Gaúcha (V. 1. Porto Alegre: Fundação Gaúcha do Trabalho - Pallotti, 1978), que os gaúchos do RS usassem chiripá pampa (também chamado de farroupilha, por estar em voga no decênio heróico). Mas isso é desculpável pela ausência de fontes fidedignas à mão. Ele dizia, categoricamente, para não confundirmos o chiripá primitivo (também chamado de “oriental”) “com a indumentária teatral platina chamada chiripá, com formato de fralda passando entre as pernas” (p.73), pois, para ele, o único chiripá documentado no RS é uma espécie de saiote, como uma toalha de banho tapando o corpo, semelhante ao “pano de estopa que ainda hoje os estivadores e outros carregadores costumam enrolar à cintura, descendo até os joelhos” (ibid.). Mais adiante afirma: “Praticamente um século depois de ter sido inventado para espetáculos circenses do Prata, esse chiripá entraria nas festas tradicionalistas do Rio Grande do Sul, a cargo das chamadas ‘Invernadas Artísticas’” (p.47). A tecla que o autor bate equivocadamente é a de que o chiripá do ciclo farroupilha é de origem circense, por desconhecer sua origem pampeana e a dinâmica da cultura. Para nos darmos conta de seu erro, basta vermos o daguerreótipo tirado de um índio pampa em seu toldo, vestindo a peça injustamente indigitada de fantasia teatral (p.20), em Rosas y los Indios, de Irma Bernal (Concepción del Uruguay: Búsqueda Ayllú, 1997), ou as chapas batidas de dois guerreiros tehuelches com botas de potro costuradas na frente (ao invés de abertas, para usar o estribo entre o dedão do pé) - portanto isso não é invenção moderna - e vincha no cabelo (p.72), em Los Tehuelches, de Irma Bernal e Mario Sánchez Proaño (Buenos Aires: Búsqueda - Yuchán, 1988), para ficar apenas com estes dois exemplos. Também as fotos dos livros de Adolfo Bioy Casares e de Luis Figueroa, citados a seguir, e as ilustrações constantes das obras enumeradas mais abaixo não deixam dúvidas de que a prenda de vestuário em questão era de uso comum entre os gaúchos do Século XIX, não sendo, pois, mera fantasia ou adereço. E se isso não bastar, por ser material castelhano (e o gaúcho deles não tem identidade com o nosso - segundo a ótica castelanófoba) - crime de lesa pátria lançar mão dele -, o próprio Paixão Côrtes, em seu livro The Gaucho - dances, costumes, craftmanship (Porto Alegre: Garatuja, 1978), afirma que João Mendes da Silva no final de sua novela O Campeiro Rio-Grandense, descreve: “’Chiripá - pano que os gaúchos rio-grandenses, à maneira dos orientais, passam por entre as pernas e sobre as ceroulas, indo prender na cintura. É usado somente pela gente baixa, peões da estância’. Talvez este seja o primeiro momento em que um chiripá foi descrito como passando por entre as pernas” (p. 110). Mais adiante na mesma obra, ele traz interessantes aportes para a minha tese, para corroborar o que venho sustentando aqui: Romagueira Correa ao definir este chiripá, cita-o como “vocábulo da América do Sul espanhola, sendo mais usado na Argentina. Ele critica a informação deixada pelo Visconde de B. Rohan, em 1898, de que ele (o chiripá - o grifo é meu) era usado sobre as calças. Romagueira Correa afirma que foi usado para substituir as calças” (bragas), já que, “criado na região da fronteira, provavelmente, só conheceu o chiripá que passa pelo meio das pernas. Este tipo de chiripá, entretanto, nunca foi usado nos Campos de Cima da Serra, Planalto Médio e Alto Uruguai, de acordo com as nossas pesquisas” (p. 112). Eu duvido de ti quando dizes que "há muito gaúcho cearense e de outros Estados brasileiros, e até do exterior", tanto stricto como lato sensu. Eu tenho prova de que alguns haverá, se estamos nos referindo a gaúchos de CTG. Mas não sei se hai tantos ansim! É fácil fazer de um não gaúcho um gaúcho: é só pilchá-lo e doutriná-lo num CTG, de acordo com os ditames do don José itajaú e presto... Bingo! Disse Adolfo Bioy Casares, falando sobre a fecundidade da Argentina em produzir gaúchos, disse: “Essa fecundidade nacional opera também por adaptação. Abundam processos de agauchamento rápido, que se completam em um só indivíduo e se afiançam na prole. (...) Informam-me que don Vicente Rossi, em um de seus Folletos Lenguaraces (eu devo ter lido e esquecido), censura Sarmento por mencionar, em algum escrito, um grupo de gaúchos que, visto e escutado de perto, viu-se ser integrado por italianos e espanhóis. (...) Muitos dos que nos formamos na triunfal república antes do ano quarenta e três, em alguma medida compartilhamos tão altiva e cândida convicção e, não sem antes dobrar a resistência dos instintos, admitiremos que de um imigrante se pode obter um autêntico gaúcho. Não obstante, não nego que, ainda hoje, o emblema ou protótipo de gaúcho que primeiro me vem à mente é a imagem sedentária e barbada, semioculta na avermelhada obscuridade de um fogão, desaparecido há muito, de um velho de nome Panizza e que dos gaúchos mais gaúchos que conheci, gaúcho pelo aspecto, o andar, a fonética, a índole, o oficio e as habilidades, homem de cuidado pela vaquia no manejo da faca, bem como pela coragem, nobre sob uma aparência hosca de puro chimarrona, famoso domador, suavemente pícaro e estoicamente azarado, foi don Cipriano Cross, francês de nascimento e irmão, o cúmulo da anormalidade, de um hoteleiro em Mar del Plata” (Casares, 1970: 43-47). Concordo com Barbosa Lessa que ser gaúcho não é só ter nascido no Rio Grande do Sul, pois também os há argentinos e uruguaios). Aquele "que lida de sol a sol numa estância ou cabanha” é o mais gaúcho de todos, porque ele o é stricto sensu - e podem me chamar de ultrapassado por isso. Há muitos anos eu afirmo que nem todo gaúcho é rio-grandense, como nem todo rio-grandense é gaúcho! Depois que tornou-se um nome gentílico então, nem se fala. Um filho de pomeranos, nascido numa linha dos cafundós de SC, pode ser chamado de gaúcho, mesmo ele falando o português com sotaque alemão, bastando para tanto, se pilchar de acordo com as normas do MTG-RS e ser freqüentador assíduo de CTG, observando ao pé da letra a Ética e a Carta de Princípios do Tradicionalismo! Os "piazitos e as prendinhas que, embora nascidos longe do campo, honram as tradições dos gaúchos brasileiros, revelando alma, sentimento e estado de espírito de gaúcho na suas maneiras de ser", são gauchos lato sensu, como o são "os irmãos nascidos nos outros Estados da Nação que cultuam, cultivam, defendem, preservam e divulgam a Tradição Gaúcha brasileira". É mui cômodo, aliás, repetir, com Barbosa Lessa que ser gaúcho não é só aquele que “lida de sol a sol numa estância ou cabanha” e dizer que esta é uma visão demasiado "estreita, limitada, restritiva e ultrapassada", porque não leva em consideração os gaúchos lato sensu e não acomodar os gaúchos do asfalto, gauchinhos de CTG, paisanos domingueros, gaudérios denorex (parece gaúcho, se pilcha de acordo com as normas do MTG-RS, cheira a bosta de vaca e suor de cavalo, declama "Tio Anastácio" e dança chula, mas não é gaúcho - não stricto sensu). Olha quem me chamando de ultrapassado: um conservador a la Opus Dei, tradicionalista reacionário, bitolado, xenófobo e misoneísta. Como essa visão de gauchismo é cômoda, por acomodar todo mundo no Tradicionalismo, bastando, para ser gaúcho, seguir a cartilha da CBTG, ser gauchóide e castelhanófobo! Assim, sob esta ótica inclusiva, pode ser gaúcho qualquer irmão nascido num otro Estado brasilero que cultue, cultive, defenda, preserve e divulgue a Tradição Gaúcha brasileira. O deu p'o conceito, que pedia delimitação. Agora, quanto ao MERCOSUL, o futuro dirá que estamos no caminho certo! A UE tem disparidades culturais gritantes, cosa que nós, latino-americanos não conhecemos, pela nossa procedência ser a Península Ibérica, de onde vieram as nossas heranças culturais ocidentais neo-latinas e cristãs, que aqui se misturaram aos povos terstemunho originais e aos trazidos da África, transformando, mais tarde, em nosso habitat comum, a Pampa, aquilo que Darcy Ribeiro chamou de povos transplantados, com a chegada dos imigrantes centro-europeus. Quando falas em MERCOSUL não estás falando de países bem diferentes, com etnias e idiomas mui diferentes entre si, até mesmo no interior de um mesmo país. Mas, aqui a cosa não é como lá. Nossa história, desde o período colonial, nos colocou em contato permanente, não só momentos de fricção. O tropero biriva foi aprendendo a ser gaúcho com os castelhanos, para adaptar-se à Pampa. Mas a cultura não é só isso nem o gaúcho é só o do passado... a cultura é um permanente devir e os rio-grandenses, principalmente os da fronteira, continuam em contato permanente com seus irmãos do Uruguay e da Argentina, enriquecendo-se mutuamente, apesar dos teus protestos e falsos axiomas. Quando usas como exemplo o caso dos leilões de gado de Esteio, te enganas a inculpar os interesses de mercado por exporem um peão trajado com indumentária tipicamente argentina, sem qualquer identificação com a tradicional indumentária dos gaúchos brasileiros! É culpa dos excessos gerados pela reação anti-castelhanófoba! Já te passou pela cabeça que a cultura tem muito daquela antropofagia da Semana de Arte Moderna de 22? Ela devora as influências externas, deglute, rumina e defeca os escrementos, aproveitando aquilo que há de substancioso e essencial no alimento? Um dia, após a euforia, as cosas voltam ao devido lugar. Chega a ser duro para um historiador de verdade ler essa falsa historiografia que diz: "Desde a formação do Estado do Rio Grande do Sul que os não-sulistas se investem da condição de gaúchos, como os inúmeros portugueses e açorianos que incorporaram o espírito dos habitantes daquele Garrão-Sul-Brasileiro, considerando-se e sendo considerados por todos como grandes e autênticos gaúchos sul-rio-grandenses. Portanto, Gaúcho Brasileiro é aquele que possui o espírito dos campeiros sul-brasileiros". O pior que teus argumentos vêm se repetindo com outras palavras. Não cansaste ainda dessa mesma tecla sem fundamento, porque calcada no adjetivo pátrio ou nome gentílico e não na formação sócio-histórica do RS? Eu concordo contigo que aqueles que se creem ou se proclamam "os reais detentores da cultura dos gaúchos brasileiros, os cidadãos tradicionalistas, têm o direito de manter os seus valores, os seus usos, os seus antigos costumes". Não sou contra os direitos de ninguém, respeito-os como exijo que me respeitem, em contrapartida. Não obrigo a compartilharem a minha cosmovisão, só quero que me deixem com a minha weltanschauung sem me perseguirem ou dizerem que sou menos gaúcho (lato sensu) por isto! Quanto ao tema ideologia, há aqui alguns problemas: sei que ela "não está dissociada da maneira de pensar nem das pessoas nem dos grupos sociais e das instituições. É a ideologia a ciência que trata da formação abstrata das idéias". Mas também é a visão de mundo particular de uma classe ou grupo e, no sentido althusseriano, uma falsa consciência. Mas não é por isto que é natural que "a preservação da cultura gaúcha brasileira esteja vinculada a uma instituição como o Movimento Tradicionalista Gaúcho". Bueno, pa' empeçar, o MTG não é uma instituição, mas a CBTG o é. Os MTGs estaduais são Federações, apesar do nome, e estão subordinados erroneamente à Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha, como se fosse a estrutura vertical de uma empresa com várias filiais. O erro desta visão de uma estrutura vertical é que esquecer que o dono do CTG é o conjunto de seus sócios e não uma patronagem! Além disto, uma Federação ou MTG estadual existe para servir aos CTGs de uma UF ou mais. E, além disto, o fato de "se ter uma ideologia no trato da cultura popular de um povo" é demontrativo das batalhas em torno da apropriação do estereótipo do gaúcho pelo grupo hegemônioco dentro da CBTG. Ele quer impor sua visão particular (e desvirtuada, segundo penso) de gauchismo a todo o universo tradicionalista, mas pocos se dão conta. Queremos eleições diretas, com voto livre, secreto e universal, para a CBTG e os MTGs estaduais, pois só ansim estes órgãos irão refletir o pensamento da maioria dos tradicionalistas e não das panelinhas que se instalam neles, criando laços de vassalagem e servilismo, que, entre otras cosas, garantem a vitória do cavalo do comissário. A transimissão do conhecimento não é um dever, a bem da verdade, pois ela se dá naturalmente em todas as culturas, no seio das famílias. Só nas sociedades contemporâneas é dever do Estado garantir a Educação para todos - essa foi uma conquista do Estado republicano. Já num CTG, aqueles "que têm missão institucional e obrigações estatutárias a cumprir, em função de seus cargos, assumidos de forma voluntária e espontânea", têm a obrigação moral de transmitir o saber de forma a tornar o educando um cidadão livre-pensante e não um robozinho bitolado, que só sabe repetir a ideologia dominante. Quando penso em Educação, lembro-me da definição de Olivier Reboul, embora seja, como ele mesmo ressalva, criticável: “A educação é a ação que permite, a um ser humano, desenvolver suas aptidões físicas e intelectuais, assim como seus sentimentos sociais, estéticos e morais, com o fim de cumprir, tanto quanto possível, sua tarefa de homem”. Por isso, devemos ensinar o jovem tradicionalista ou nativista a ver o mundo com olhos críticos, para não cairem nas armadilhas dos conservadores e otros que não aceitam que pessoas pensem diferente! A Carta de Princípios pode ser a doutrina fundamental do Tradicionalismo, mas não ansim do Nativismo e todo o Gauchismo. Isso sem falar que ela é fruto de seu tempo ou zeitgeist e, como tal, precisa ser revista e atualizada - só os conservadores e retrógrados não pensam acham que não, que ela é eterna. Se seus princípios transformam-se em Cláusulas Pétreas, sem, portanto, possibilidade alguma de serem alterados, o que viemos fazer neste mundo, senão pudermos ajudar com o aporte do nosso pequeno e singelo grão de areia? Então é melhor explodir essas cláusulas e fazer novas, mais de acordo conosco, nosso estágio de evolução, nosso tempo e nosso mundo. Os totalitarismos nascem dessas cláusulas pétreas e êm vida efêmera, porque nascemos para ser livres e não escravos... melhor termos nascido formigas operárias então. E, daí eu pergunto, como me vens falar em "consciência tradicionalista", sabendo que a História de Rio Grande do Sul é uma história de centauros da planura, monarcas das coxilhas, homens livres e valentes que nunca dobraram a espinha aos tiranos, segundo a escola historiográfica do teu ídolo Dante de Laytano? Tu disseste: "O princípio é o que proporciona a continuidade do conhecimento, da existência, da característica essencial de qualquer doutrina fundamental e predominante em uma determinada sociedade; são os princípios superiores e orientadores das próprias regras sociais e dos procedimentos personalíssimos". Mas do que é que estamos falando aqui? De gauchismo ou de educação moral & cívica? A cultura gaúcha prescinde dessa bobajada toda, ela independe disso. Muitas vezes próprio Movimento Tradicionalista Gaúcho, que segundo tu, teria sido "criado para garantir a perpetuação do Folclore, da Tradição, da Cultura" (eu diria salvaguarda, pois a palavra perpetuação passa a idéia de algo imutável - cosa que a cultura não é), é o culpado pelos descalabros e as asneiras que soem aparecer aqui e ali. Os princípios mudam (ainda que lentamente) com o tempo, não se pode querer que permaneçam imutáveis, senão o lugar da mulher ainda seria a cozinha! Por isto, te enganas em dizer que muitos usos e costumes dos gaúchos brasileiros, que perduram até hoje graças à tradição, não poderão ser adulterados". Tu disseste, numa demonstração de ignorância de como funciona a ciência da História e de que a invasão de um terreno que não é o teu causa este tipo de deslises: "Por razões de ordem histórica e política, evidentemente que inimigos com as mesmas intenções de conquistar um mesmo território não podem ser tidos como formadores deste da forma como tentam fazer crer aos que não conhecem a verdadeira História de lutas e guerras dos sulistas pelo controle no nosso hoje Estado Brasileiro do Rio Grande do Sul". Para começar, o senhor é historiador para falar em "razões de ordem histórica"? Creio que não, pois se o fosse, não diria isso! É preciso ser historiador para saber como evitar esse tipo de armadilhas nas quais só os leigos caem. Ambos são nossos formadores culturais sim! Mesmo a fricção interétnica produz tais efeitos dialéticos. Os espanhóis participaram da formação territorial do Estado Brasileiro mais austral, como concorrentes ao fim derrotados e foi deste permanente estado de contato, que se forjou a cultura do rio-grandense e do rio-platense - ambos ibéricos - chamados a viver este drama fronteiriço. A cultura é mais forte que as "notórias razões de ordem geopolítica" que evocas - tanto é assim, que hoje, a guinada pangauchista nada mais é do que uma correção de rumos, uma volta do arroio ao leito original, após ter sido desviado artificialmente. Otra cosa: não podes evocar Pereira Coruja, a Sociedade "Partenon Literário", os fundadores da Partido Liberal Histórico, Cezimbra Jacques e o Tradicionalismo de 1947 sem contextualizar, senão cairás n'otra armadilha para leigos que se aventuram no exercício ilegal das ciências sociais! Um exemplo: Não era tradicionalista o movimento que levou à fundação da Sociedade Sul-Riograndense, em 1858, no RJ, mas um movimento progressista (subversivo à época, pois era contrário à ordem monárquica), republicano e abolicionista, com uma preocupação com o folclore gaúcho por razões óbvias, pois estava de moda na época! Dizes que não consta dos estudos e do acervo cultural levantado por Barbosa Lessa e Paixão Côrtes nenhuma "similitude com as imposições forçadas de hoje ao bravo povo gaúcho brasileiro". Bueno... pa' empeçar, que imposições? Forçadas por quem? Se é tão bravo assim, então por que deixa impor? Também dizes que "nenhuma pesquisa folclórica poderá ser considerada caduca, ultrapassada, pois ela será sempre uma riqueza cultural latente, como uma referência cultural preciosa e pronta a ser resgatada, a qualquer momento, pela vontade do próprio povo ao qual ela pertence". Ledo engano! O valor heurístico nenhuma pesquisa perde, enquanto pesquisa. Mas suas conclusões, com o tempo, podem vir a ser falseadas e substituídas por novos paradigmas de análises, como deve ser do teu conhecimento. Também se acreditava que o sol girava em torno da Terra, a qual era chata! Também tenho vergonha de ver um gaúchos estragando o patrimônio cultural de seu pago com traços culturais alienígenas e deturpando o seu ethos de gaúcho e brasileiro, seja pelo motivo que for, comercial ou não. Mas também tenho muita vergonha, ou pudor, de disparar bolaços, por meter-me em chãos que não são o meu e falar bobagens com foros de autoridade, tal como dizer que tradição "é o ato de transmissão e entrega dos usos e costumes aos filhos e netos pelos pais e avós, no decorrer dos tempos, de geração a geração, sem solução de continuidade. Qualquer coisa diferente disso, tradição é que não será, mas contra-senso, argumento falacioso". Tradição não é o passado petrificado no presente, como um fóssil, é a cultura viva em movimento, por mais imperceptível que ele seja! Tradição é bem isso: "quem conta um conto aumenta um ponto"! Se, como professor (de quê?) preferes o ilustre e catedrático Dante de Laytano, para a “irrefagrável demonstração das indiscutíveis diferenças existentes entre gaúchos e 'gauchos'", resta-me lamentar que só ensinas os teus alunos a reproduzires as estruturas de dominação, ao repetir velhos chavões, lugares comuns e estereótipos, sem a necessária crítica das fontes e de si mesmos. Saberias que não é da História que se constata que "o gaúcho rio-grandense, para ser brasileiro, teve que enfrentar o castelhano audaz e o espanhol destemido que invadiu seu território diversas vezes"... isso é ideologia, falsa consciência, versão dos vencedores. Aliás, saberias que a História, no sentido gnosiológico, (rerum gestarum) nem sempre corresponde à história no sentido ontológico (res gestae). Daí a tua predileção pelo ultrapassado Laytano, que disparou um bolaço ao dizer que a “herança que persiste no gaúcho é exclusivamente luso-brasileira (...) formação autônoma e não se deve confundi-lo com os outros gaúchos” (castelhanos), porque teve geração espontânea, diversa destes. É isso o que acontece com aqueles que pretendem ser mais realistas que o rei, achando-se em condições de competir com quem é habilitado para o trato com determinados assuntos superiores. Restringir o ensino de determinados conhecimentos a uma habilitação específica garante que tais conhecimentos serão devidamente trabalhados. Os estudantes e pesquisadores autodidatas são, no mais das vezes, vítimas das armadilhas que só quem é habilitado numa determinadada formação acadêmica sabe como evitar. Ainda que mal comparando, é como querer que um sapador, especialista em demolição, conserte o motor de um carro de combate leve M3A1 ("Perereca") se ele nunca viu sequer um motor de fuca na frente, muito menos um motor radial. Ah... me perdoa pelo gauchês fronteriço! Eu não respeito a língua culta imposta de fora, por gente que sequer conhece a minha pátria gaúcha ("brotei do ventre da pampa, que é pátria na minha terra") e nunca pediu a nossa opinião. Respeito o idioma português falado na região fronteiriça, que é o meu chão, o qual utiliza de verbetes castelhanos, que, para nós, é mais familiar do que um Collor, um Sarney, um Severino Cavalcante ou um Jader Barbalho, especialmente porque a cultura é dinâmica. Tu perguntaste: Qual o trabalho cultural efetivamente realizado pelas Sociedades Tradicionalista Gaúchas? E eu tenho um trabalho intitulado Tradições & Contradições Gaúchas, no qual discorro sobre a ausência de CTGs com um espaço de ensino e pesquisa. Aqui te aponto três textos meus que, em algo, ao menos, vão de encontro ao teu pensamento: http://www.paginadogaucho.com.br/deba/cont.htm http://www.paginadogaucho.com.br/deba/tche-music-3.htm http://www.paginadogaucho.com.br/musi/ritmo.htm Te felicito pelo privilégio de teres nascido na campanha e tido a oportunidade de uma vivência campera. Não tive a mesma bênção e o poco que sei de cavalo aprendi no CMBH, pois fui integrante da Linha de Bandeiras Históricas durante o três felizes anos em que estive interno lá (1975 a 1978). É óvio que reconheço que opinião é como aquilo que a tava deixa pa' cima quando a sorte está abaixo (cada um tem o seu) e que a liberdade de expressão é um direito, por isso fala qualquiera neste país. Mas continuo batendo na mesma tecla, sob pena de tornar-me mais xarope do que já sou normalmente: o pior cego é o que não quer ver! E já que não vamos mudar um milímetro em nossas posições, é al pedo insistirmos neste samba de uma nota só. Melhor cortá-la por aqui, antes que empecemos a lastimar-nos. O tempo é precioso para desperdiciá-lo com bobadas e temos que ocupar-nos de otros quehaceres, embora eu esteja gostando desta payada de contraponto. O que havia que dizer já foi dito, resta a quem tem pacência e consegue chegar ao fim da leitura de nossos imensos textos julgar por si própio e formar a sua própia opinião. O tempo também dará seu veredito! Charlando com o meu guri, o Gabriel de Ávila, de Jaguarão, ex 1º Peão Tropeiro da Federação Tradicionalista Gaúcha do Planalto Central (FTG-PC), ele me disse algo que eu não havia ainda pensado: a tua página, com todas as impropriedades e contradições, tem a grande virtude de ser este baluarte da Cultura Gaúcha que é, porque, justamente, dás a cara, hai que reconhecer. E, ansim, me despeço do amigo, desejando-le muitas felicidades e sucesso, não só agora nesta época de festas de fim de ano, mas por toda a vida, e reafirmando o meu apreço, respeito e admiração pelo ermão gaúcho brasilero, embora de Comunicações e colorado (sou de Cavalaria e gremista). Que Deus te bendiga! Me queira bem que não te custa nada... Um quebra-costelas bem cinchado! El Chango Duarte.
Sítio: *****
21/12/2006 22:40:24 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezado Jorge Webber. Ao travar mais esta pendenga ideológica com esse Xiru Velho, seguirei na mesma linha adotada pelo prezado comentarista, ou seja, tecendo algumas objeções, rebatendo determinadas afirmações e contra-argumentando alguns outros posicionamentos. E começamos contestando a ideia de que só pode falar de cultura quem se ampara na epistemologia, aquele que desenvolve teses científicas. Entendemos que não. Pode falar de cultura qualquer pessoa, basta para isso que tenha conhecimento de causa, mesmo que este seja empírico. Basta ter curiosidade e interesse que qualquer leigo poderá fazer uso da pesquisa e adquirir um mínimo de saber. E teses e trabalhos científicos para consulta é que não faltam na área do folclore e da cultura gaúcha. Autores têm de todas as correntes filosóficas possíveis, dentre eles nomes consagrados e profissionais renomados. A escolha crítica fica a critério de cada pesquisador. Juízos de valor a respeito de qualquer assunto não é uma concessão do Estado Democrático de Direito, mas uma garantia constitucional assegurada a qualquer cidadão pelo ordenamento jurídico brasileiro, alicerçada nas liberdades de opinião e de expressão do pensamento. E assim como o causídico refuta os argumentos da parte contrária em uma demanda judicial ou extrajudicial, defendendo os interesses de seu cliente, o cidadão tradicionalista tem o direito de, igualmente, refutar as argumentações consideradas incompatíveis com o seu propósito de defesa e preservação do patrimônio cultural, da autenticidade dos usos e costumes da tradição regional herdada de seus antepassados, frente aos desarrazoados que por ventura venham a desvirtuar, depreciar, desnaturar ou corromper a essência dos axiomas, dos princípios culturais já sedimentados, enraizados no modo de vida local. Um gaúcho tradicionalista não necessita de qualquer formação acadêmica para honrar suas raízes, suas tradições recebidas dos pais, avós e demais antepassados. Muitos peões sem qualquer formação podem ser considerados muito mais tradicionalistas que muitos “letrados”, por demonstrarem mais coerência no seu modo de agir regionalista-tradicional. A autoridade que autoriza a qualquer vivente falar de suas heranças culturais está assente, primeiro na sua própria consciência tradicionalista de culto, defesa e preservação do legado recebido dos pais, dos avós e dos mais antigos, e segundo na coerência tradicionalista do seu procedimento prático. Se ausente qualquer desses requisitos tradicionalistas nem autoridade nem a existência de tradicionalista gaúcho haverá. Para embasar qualquer opinião referente à cultura gaúcha, o que não falta a qualquer articulista são trabalhos científicos. Estes, no entanto, de nada valerão se viciados pela falácia ou repudiados, ignorados, desprezados e levianamente desmerecidos nos seus científicos conteúdos por questões pessoais e sem fundamentação científica alguma. Para conhecimento, este gaúcho se criou na campanha e montava a cavalo já aos quatro anos de idade, ao lado do pai, para ir à cidade ou para ajudar nas lidas com o gado, cumprindo a sua missão diária de dar milho pra porco e acompanhando o pai nos trabalhos da lavoura, dentre outros afazeres caseiros. E discordando, mais uma vez, reafirmo-te que há muito gaúcho cearense e de outros Estados brasileiros, e também do exterior, que por uma questão de espírito, de identificação com a cultura gaúcha brasileira, é muito mais gaúcho do que aqueles milhões de sul-rio-grandenses que sentem vergonha de suas origens e de sua cultura regional, mas que em momento algum relutam em copiar, imitar e absorver costumes alienígenas e os usos que lhes vendem os modistas do mercado, deslustrando a autenticidade cultural de seu povo e comprometendo a identidade cultural regionalista-tradicional daquele Estado Sulista Brasileiro. Com total razão Barbosa Lessa. Ser gaúcho não é ter nascido no Rio Grande do Sul ou só aquele que “lida de sol a sol numa estância ou cabanha”. Esta, sem dúvida, é visão estreita, limitada, restritiva, ultrapassada. Não seriam gaúchos os piazitos e as prendinhas que, embora nascidos longe do campo, honram as tradições dos gaúchos brasileiros, revelando alma, sentimento e estado de espírito de gaúcho sul-rio-grandense na suas maneiras de ser? Não seriam gaúchos brasileiros os irmãos nascidos nos outros Estados da Nação que cultuam, cultivam, defendem, preservam e corretamente divulgam a Tradição Gaúcha Brasileira? Desde a formação do Estado do Rio Grande do Sul que os não sulistas se investem da condição de gaúchos, como os inúmeros portugueses, açorianos e luso-brasileiros, os quais incorporaram o espírito e ajudaram a construir a cultura regional dos habitantes daquele Garrão-Sul-Brasileiro, considerando-se e sendo considerados por todos como grandes e autênticos gaúchos sul-rio-grandenses. Portanto, Gaúcho Brasileiro é aquele que possui o espírito dos campeiros do Pampa Sul-brasileiro. E, ainda, se o vivente passou a ter a alma gaúcha é porque, naturalmente, se identificou com o sistema de vida daquela região e com o jeito gaúcho de viver dos pampeanos; com as tradições e as características culturais daquele povo gaúcho sul-brasileiro. Assim, não há que se falar em uma classificação de gaúchos brasileiros; ou se tem ou não se tem identificação cultural regionalista-tradicional, o estado de espírito pertinente à condição de gaúcho sul-rio-grandense; ou se é ou não se é gaúcho - de nascimento ou de espírito - brasileiro. Diferentemente do tradicionalista gaúcho, o qual poderá ser classificado conforme a graduação de seu conhecimento e de sua prática cultural, e, por consequência, da sua consciência e da sua coerência tradicional sul-rio-grandense. E quem não se sente um gaúcho brasileiro não poderá se investir dessa denominação de gaúcho sul-rio-grandense, por ausência de ânimo, de sentimento telúrico, de crença, do “estado de espírito”, próprios de todos os gaúchos do Sul do Brasil. Com relação ao Mercosul, deixo o exemplo da União Européia. O ato de os países integrantes terem formado um bloco econômico, com moeda comum, não faz com que o folclore ou as tradições regionais de um deles seja contaminado pela cultura regionalista-tradicional dos demais e vice-versa. Cada um continua valorizando o que é seu e disso não abrem mão. Sabe-se, no entanto, que para o Mercado Comum do Sul sempre será interessante fomentar o comércio geral sem preocupações com as naturais diversidades regionalistas. Afinal, para os atores envolvidos nesse mercado comum certamente que não há qualquer outra preocupação senão a de vender tudo a todos, independentemente dos estragos, dos prejuízos culturais que disso resultará. É óbvio, também, que se na carteira de exportação do Mercosul chegar um tradicionalista gaúcho, ali mesmo este morrerá soterrado por todos os imensos interesses econômicos envolvidos. Apenas para exemplificar, relembramos o caso dos atuais leilões de gado brasileiros, aonde os interesses de mercado expõem, e não por acaso, um peão trajado com indumentária tipicamente platina-texana, sem qualquer identificação com a tradicional indumentária dos gaúchos brasileiros. Com certeza os comerciantes ganham muito com isso, mas a cultura gaúcha brasileira nada tem a comemorar com essa invasão, essa "integração" promovida pelos vendedores de todo o tipo de artigos não representativos das usanças sul-rio-grandenses e destruidores do antigo Patrimônio Sociológico-tradicional do RS. Diante desse quadro, os reais detentores da cultura dos gaúchos brasileiros, dentre estes os cidadãos tradicionalistas, têm o direito de manter seus valores, seus usos, seus antigos costumes herdados dos antepassados gaúchos do Pampa Sul-brasileiro. A visível desnaturação que se encontra estampada nas capas dos trabalhos artísticos dos falsos gaúchos financiados por empresas e grifes sem fronteiras, a alimentar até uma mídia que se diz pública e que, por este fato, não poderia fazer o jogo sujo do mercado, já que possui o financiamento estatal e, por isso mesmo, deveria respeitar o Patrimônio Cultural e Histórico da Sociedade que lhe assegura, por meio de pesados impostos, a sua manutenção. A conivência com esses verdadeiros crimes de lesa-pátria não pode partir de quem se diz um Tradicionalista Gaúcho, por representarem essas atrocidades culturais um assalto ao patrimônio cultural pertencente e característico do Povo Gaúcho do Sul do Brasil, e não de qualquer explorador de cultura que pretenda auferir lucro em cima de um patrimônio forjado por uma plêiade de heróicos e bravos gaúchos brasileiros do passado. Ideologia não está dissociada da maneira de pensar nem das pessoas nem dos grupos sociais e das instituições. É a ideologia a ciência que trata da formação abstrata das idéias. Portanto, é natural que o culto e a preservação da cultura gaúcha brasileira esteja vinculada a uma instituição como o Movimento Tradicionalista Gaúcho do Brasil. Por isso, não há confusão alguma em se ter uma ideologia no trato da cultura popular de um povo. Sentimento de apego ao Torrão Natal é próprio e natural de todos os povos comprometidos com sua História e sua origem cultural. Transmitir conhecimento é um dever de todo o cidadão e, principalmente, daqueles que têm missão institucional e obrigações estatutárias a cumprir, em função de seus cargos tradicionalistas assumidos de forma voluntária e "espontânea". Há pátrias líricas, poéticas, políticas, e Pátrias de fato e de direito. A Carta de Princípios é a doutrina fundamental. O princípio é o que proporciona a continuidade do conhecimento, da existência, da característica essencial de qualquer doutrina fundamental e predominante em uma determinada sociedade; são os princípios superiores e orientadores das próprias regras sociais e dos procedimentos personalíssimos. Modo de viver não é conceito científico, mas apenas significação da maneira de ser ou da forma particular de fazer as coisas, de falar, da disposição do espírito das pessoas; o jeito, a maneira de vestir; é o mesmo que jeito de viver, maneira de viver, sistema de vida. Para o registro das origens de um povo, de suma importância são os levantamentos da História e da cultura folclórica, realizado desde os seus mais remotos tempos. Povo que não conhece o seu passado não merece o presente que vive e perdido viverá no futuro! Bons exemplos, nesse sentido, é que não faltam. Um deles vem do francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), que em uma das suas viagens registrou, no período de 1815 a 1817, na obra Viagem ao Rio Grande do Sul, dados importantes referentes ao modo de vida dos habitantes da então Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. No seu trabalho relatou, já naquela época, muitos usos e costumes dos gaúchos brasileiros que perduram até hoje graças à tradição, preservada e retransmitida de pai para filho, ao longo de tantas gerações, por todo o povo do Pampa Sul-brasileiro. Estes não poderão ser adulterados, "integrados", corrompidos, agora, por meros interesses de uns e com graves prejuízos a uma cultura centenária e bravamente preservada como uma verdadeira riqueza que identifica o Povo Gaúcho Brasileiro em qualquer parte do mundo. Nos registros de Sant-Hilaire fica demonstrada, cabalmente, como prova contundente, que naqueles idos de 1815 persistia a continuidade da eterna disputa e da ferrenha rivalidade entre portugueses e espanhóis, e o profundo ódio nutrido pelos espanhóis aos portugueses, o que serve para desmistificar a alegada e inexistente relevância atribuída à participação dos espanhóis na formação territorial e do povo do Estado do Rio Grande do Sul. Por razões de ordem histórica e política, evidentemente que inimigos com as mesmas intenções de conquistar um mesmo território não podem ser tidos como formadores do Rio Grande ou do povo sul-brasileiro, da forma como tentam fazer crer aos que não conhecem a verdadeira História de lutas e guerras dos sulistas brasileiros pelo controle no nosso hoje Estado do Rio Grande do Sul. Diante de tantas evidências e dos interesses antagônicos empreendidos por gaúchos brasileiros e “gauchos” platinos, no extremo-sul do Brasil, não há como sustentar a afirmação de que espanhóis tenham participação na formação territorial daquele Estado Sulista Brasileiro, por notórias razões de ordem geopolítica. Outro exemplo que pode ser citado é o de Antônio Pereira Coruja e dos demais intelectuais fundadores do Movimento Tradicionalista que ensejou na fundação da Sociedade Sul-Riograndense, em 1858, na cidade do Rio de Janeiro, desde o início trazendo a preocupação com o folclore gaúcho sul-brasileiro, preocupação esta que persiste até os dias de hoje. Da mesma forma Gaspar Silveira Martins, Antônio Gomes Pinheiro Machado, Osorio e Félix da Cunha, os fundadores da Partido Liberal Histórico, em 1860, e precursores do Movimento Tradicionalista no Rio Grande do Sul, onde a tradição dos gaúchos brasileiros era cultuada, enaltecida, vivenciada. Na mesma esteira os jovens estudantes que resolveram organizar o Movimento Tradicionalista, em 1868, com a criação da Sociedade Partenon Literário, na liderança de Apolinário Porto Alegre. Este, aos seus 24 anos de idade, no seu romance O Vaqueiro, de 1872, já defendia a identidade cultural do Povo Gaúcho do Sul do Brasil e plantava a semente da literatura regional sul-brasileira. Assim Caldre Fião – o Patriarca das Letras Gaúchas -, com as obras A Divina Pastora, e O Corsário, esta, de 1851, com abordagem da Revolução Farroupilha. Organizar biblioteca, ministrar aulas gratuitas, levantar as lendas gaúchas brasileiras, incentivar as comemorações de datas históricas do país e combater alguns dos preconceitos à mulher eram algumas das atividades realizadas concretamente pelo Partenon Literário. Diante disso, é de se perguntar: qual o trabalho cultural efetivamente realizado pelas Sociedades Tradicionalista Gaúchas, além daquele churrasco mensal com intuito meramente arrecadador, de alguns bailes esporádicos e repletos de atentados contra as caras e antigas tradições do RS, e da preparação daqueles que irão participar de Rodeios e Festivais em busca das indevidas e cada vez mais altas premiações em dinheiro? Será que os CTGs têm desempenhado o papel de Sociedades Culturais Gaúchas Brasileiras e levado aos seus integrantes o conhecimento mínimo necessário e compatível com os seus verdadeiros desígnios? Ou estão atendendo aos interesses dos mercados, tocando música sertaneja, maxixe, forró, “Tchê Music” e o seu compasso “olodum”, nos seus salões de culto, zelo, defesa, preservação e adequada divulgação da antiga, regional e campeira Tradição Gaúcha do Rio Grande do Sul? Ou incentivando a dança de peões com coberturas à cabeça e o famigerado rebolado dos “Tchezinhos” nos seus Fandangos “Gaúchos Tradicionalistas”? Qual a orientação dos dirigentes “tradicionalistas gaúchos” aos jovens e aos novos integrantes do MTG, com relação a estas e outras questões que atentam contra os reais Fins Culturais do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro? Ou nada disso acontece em prol da capitalização dos votos para políticos financiados por aqueles mercados? Um outro exemplo, que deveria ser seguido por todos os tradicionalistas, é o de João Cezimbra Jacques, o Patrono do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro e fundador do Grêmio Gaúcho de Porto Alegre, em 1898. Seus Ensaios sobre os costumes do Rio Grande do Sul buscaram sempre a valorização do Gauchismo Brasileiro, e não o da Argentina ou o do Uruguai; da cultura de sua região, de sua Terra Santa Maria, de seu Estado Sul-brasileiro do Rio Grande do Sul, de sua Pátria Brasileira. Assim Glaucus Saraiva, com a sua Carta de Princípios, a principal base filosófica do Movimento Tradicionalista Gaúcho do Brasil. Assim Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, nas suas andanças pelo interior do Rio Grande do Sul, recolhendo e resgatando inúmeros aspectos folclóricos e culturais próprios e específicos do Pago Sulino brasileiro. E não consta daqueles estudos e do acervo cultural levantado nenhuma similitude com as imposições forçadas de hoje ao povo gaúcho do Brasil. Informamos que, em respeito ao idioma português, falado em nosso país, evitamos a utilização de verbetes estrangeiros, especialmente quando seus significados são encontrados no léxico de nossa língua pátria. E, mesmo não vindo a ser considerado um profissional do ofício, um folclorista, um antropólogo, nada me impede de buscar conhecimento nos vastos estudos realizados ou até mesmo de estudar o folclore gaúcho sul-rio-grandense, tarefas estas esquecidas por Entidades Tradicionalistas com previsão estatutária nesse sentido. A pesquisa folclórica não se dá apenas na teoria ou somente no conhecimento especulativo, mas se concretiza, basicamente, no levantamento prático dos costumes tradicionais, das crenças, das superstições, dos cantos, das festas, das indumentárias regionais, das lendas, das artes, no caso do Folclore Gaúcho do RS, da região do Pampa Sul-brasileiro, o qual não deve, ou não deveria, ser confundido com o Folclore Sul-rio-grandense, mais amplo, abrangendo todo o Estado. O Folclore Gaúcho do RS é a "cultura do geral no homem, da tradição e do milênio na atualidade, do heroico no cotidiano", como nos ensina Câmara Cascudo, isto é, ele é necessariamente antigo e nele está a Tradição dos Gaúchos Pampeiros do Rio Grande, igualmente antiga por definição. Portanto, nenhuma pesquisa folclórica séria (pois prolifera hoje a ciência corrompida pelos gigantescos interesses comerciais!) poderá ser considerada caduca, ultrapassada, pois ela será sempre uma riqueza cultural latente, como uma referência cultural preciosa e pronta a ser resgatada, a qualquer momento, pela vontade do próprio povo ao qual ela pertence. É certo que aos importadores do "Halloween", do “Rodeo Country”, do comercial Freio de Ouro e de outros estilos alienígenas, melhor seria enterrar de vez o patrimônio cultural tupiniquim. Mas, enquanto houver Tradicionalista Gaúcho que valorize suas heranças culturais, o direito de resistência será devidamente exercido. Tenho, realmente, uma grande vergonha quando vejo sul-rio-grandenses ou gaúchos do Rio Grande do Sul ou do Brasil dilapidando sua própria identidade cultural de gaúcho brasileiro para atender aos persistentes apelos comerciais dos modismos de mercado. Até mesmo uma criança, ao consultar a nossa farta literatura e os registros fotográficos históricos, terá todas as condições de verificar o tamanho dos despropósitos que assolam a nossa cultura gaúcha brasileira nos dias de hoje, e constatar as discrepâncias entre o que é nosso por tradicional, e portanto antigo, e aquilo que tentam nos vender como se fosse nosso, de nossa Terra, do nosso Pago Sulino Brasileiro! Tradição é o ato de retransmissão e de entrega preservada dos usos e costumes regionais antigos aos filhos e netos por intermédio de pais e avós, no decorrer dos tempos, de geração em geração, sem solução de continuidade. Qualquer coisa diferente disso, tradição é que não será, mas contrassenso, argumento falacioso. Como professor, confesso que prefiro o ilustre e catedrático Dante de Laytano, para a irrefagrável demonstração das indiscutíveis diferenças existentes entre gaúchos e “gauchos”. Origens diferentes, interesses opostos e conflitos bélicos durante todo o período da formação do território e do povo do Rio Grande do Sul. Da História se constata que o gaúcho rio-grandense, para ser brasileiro, teve que enfrentar o castelhano audaz e o espanhol destemido que era dono daquelas terras e que invadiu seu território conquistado diversas vezes. Nosso brasileirismo se fez de constância, amor e devoção. A herança, que é legado, ampara-se por completo nos povoadores e suas procedências. Um é formado por portugueses, índios e negros. O outro por espanhóis e índios, basicamente. Histórias diferentes, símbolos de guerras distintos, folclore e muitos usos e costumes tradicionais desiguais. Justificar o contrário é fazer o jogo de quem quer ganhar algo com tais impropriedades. Origem e procedência são, sim, sinônimos; ambos os vocábulos significam primeira causa determinante; começo; princípio; ponto de partida. Prefiro, novamente, o ensinamento de Laytano, que nos ensina a todos que “A herança que persiste no gaúcho é exclusivamente luso-brasileira. O gaúcho-brasileiro, para distinguir do gaúcho-argentino, uruguaio, paraguaio, é de formação autônoma e não se deve confundi-lo com os outros gaúchos”. Considero um erro crasso restringir-se a aquisição do conhecimento a uma habilitação específica. Fosse assim, o que seria dos estudantes e dos pesquisadores autodidatas? A origem dos gaúchos sul-americanos não se dá pelo exercício da mesma atividade pastoril nem pela geografia, mas pela herança e procedência de seus formadores: os colonizadores das suas respectivas regiões. O conceito de gaúcho não está atrelado à raça, e alemães e italianos são considerados pertencentes à Etnia Atual, por terem sido trazidos os primeiros para o Brasil somente a partir de 1824. Portanto, não podem ser considerados formadores do gaúcho sul-rio-grandense; são, na verdade, assimiladores da cultura gaúcha e contribuidores do Folclore Sul-rio-grandense, o qual é amplo, geral, em aspectos relativos à culinária, à religião e a outros mais. Da mesma forma as Etnias menores, como poloneses, japoneses, libaneses, sírios, árabes, holandeses, chineses, franceses, ucranianos, russos, letonianos, assim como as populações que ocuparam o Rio Grande mais recentemente, como uruguaios, argentinos e espanhóis, dentre outros. Para fazer tradição não há a necessidade de estudos científicos, basta o ato de recebê-la e repassá-la às novas e futuras gerações tal qual fora ela recebida, ou seja, de forma preservada. Basta o senso comum para se saber o que é e o que nunca foi, não é e nunca será parte da tradição de um povo. Bombacha, em qualquer dicionário, sempre será definida como a calça larga, em respeito à própria etimologia do termo. As grifes, para me fazer entender melhor, são as que firmam contratos com músicos "gaúchos", "comercial-nativistas", "crioulista-mercosuristas", "tchesista-urbanos", "country-texa-sertanejos" e suas gravadoras, no velho sistema “democrático” patrocinado pelo mercado do “ou usa ou vai gravar e distribuir por conta própria!”. Em resumo, grife é o nome que o fabricante dá ao seu produto, tornando esta a sua marca característica como, p. ex., vestuários COMBATE, de algumas "Bandas Tchês"; chapéus importados R. Oliver, de certas duplas "gaúchas" e outros "Tchês", bombachitas (calças justas, com alças no cós e bolsos traseiros) fabricadas na Argentina e exportadas pelo Mercado Comum do Sul para o nosso país com a bandeira do Brasil pregada no bolso lateral. Só se justificam essas alterações provocadas nos últimos tempos no modo de vestir dos gaúchos brasileiros pelos imensos interesses de mercado surgidos especialmente a partir de 1993, com as importações texanas de provas "campeiras" - esbarradas, paleteadas - e vestimentas estranhas ao Regionalismo Gaúcho Brasileiro - bolinas coloridas, calças justas, bonés, coletes texanos, cores fortes, cintas, etc. E como resultado, já em 2004 estava para fechar a centenária fábrica de lenços colorados de 60, 80 e 100 cm, por conta dos modismos impostos, pelas notas verdes dos exploradores, na tradição gaúcha brasileira. Enquanto isso, os incautos consumidores empregam trabalhadores de outros pagos e deixam nossos pais de famílias sem emprego e sem condições de manter suas famílias. O uso de trajes históricos é restrito aos eventos artísticos e demonstrativos, por uma questão de coerência histórica. Um tradicionalista consciente deve sempre honrar a antiga e tradicional indumentária da sua região de origem, sob pena de ser considerado um devastador da identidade de seu povo. Os costumes regionais devem ser respeitados, por significarem uma riqueza produzida e mantida ao longo do tempo por seus detentores, mas só será Tradição Gaúcha do RS a advinda dos antigos Campeiros do Pampa Sul-rio-grandense. É a coerência regional essencial na preservação dessa identidade cultural popular. A Constituição Tradicionalista Gaúcha – a Carta de Princípios do MTG Brasileiro – é fundamental nessa preservação da identidade característica do Povo Gaúcho Brasileiro, por conter as bases que norteiam as ações individuais desprovidas do devido cuidado que se deve dispensar à cultura de todo um povo e para controlar justamente os ataques de outras culturas invasoras a esse patrimônio gaúcho sul-brasileiro. Por isso, quem se julga um tradicionalista não pode ignorá-la, já que representa, legitimamente, a filosofia principal de todo o Tradicionalismo, vez que aprovada em Congresso Tradicionalista Gaúcho, órgão soberano para decidir - desde que observada a Carta de Princípios - sobre os rumos do Tradicionalismo, constituindo-se, ainda, os seus princípios em verdadeiras Cláusulas Pétreas, não havendo, portanto, possibilidade alguma de os mesmos virem a ser alterados. A consciência tradicionalista só será desenvolvida no recém chegado ao Tradicionalismo se ele tiver acesso à informação cultural adequada, por meio de uma necessária formação tradicionalista, como, por exemplo, no que se refere à imprescindível submissão dos interesses e preferências pessoais ao respeito e à preservação do Patrimônio Tradicional a ser cultuado. A pergunta que fazemos é esta: isso interessa aos dirigentes de Entidades Tradicionalistas que não são nem gaúchos nem tradicionalistas e que defendem, ainda, os interesses dos mercados e de seus financiados políticos? Certamente que não! Por isso é que, de longa data, não se desenvolvem atividades culturais voltadas para a formação tradicionalista nos CTGs e nas demais entidades congêneres do Tradicionalismo. Respeitar a cultura regionalista-tradicional de cada povo é um dever de todos os demais povos. Tradição é continuidade, não a constante e intensa modificação implementada nos usos e costumes tradicionais, antigos, de uma sociedade, por quem só deseja lucrar e, por isso mesmo, trabalha para tornar mais vulnerável, ainda, uma riqueza que é pública, do povo, e não particular, disponível, pessoal. Cidadão Tradicionalista é aquele que exerce o seu direito de protestar contra as deturpações criminosas implementadas na cultura gauchesca do RS, sob o manto protetor do mercado e de seus velados colaboradores. Como quem cala consente, e tendo sido o Movimento Tradicionalista Gaúcho Brasileiro criado para garantir a perpetuação do Folclore, da Tradição, da Cultura correspondente à região do Pampa do Estado do Rio Grande do Sul, um Tradicionalista Gaúcho Brasileiro não deve assistir passivamente a esses descalabros, mas, sim, defender sua herança cultural, um patrimônio do RS, dos Sul-rio-grandenses, do Brasil e de todo o Povo Brasileiro, lutando pela preservação de sua rica cultura regionalista-tradicional sul-rio-grandense e da identidade do Povo Gaúcho Sul-brasileiro! Saudações a esse prezado missivista!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
21/12/2006 22:18:26 Priscíla Barbosa Reis - Goiania / DF - Brasil
Caro senhor Webber. Na minha opinião, o seu comentário deveria ser deletado daqui. Ignorei todas as suas colocações, que na minha opinião não tiveram nenhuma fundamentação coerente e nem me valeram de nada. Para mim, o que escreveste foi extremamente arrogante, prepotente e estúpido. O senhor demonstra querer competir em graduação e conhecimentos com o senhor Oleques. Não entendi o porque de tantos termos em latim. A única coisa que parece é o senhor querendo aparecer!! Não conheço o senhor Oleques, mas por este trabalho que exerce, e que alguém jamais se propôs a fazer, a ele dou os meus PARABÉNS!!! Este senhor eu admiro pela iniciativa de criar este sítio (o que não deve ter sido fácil), pela coragem que tem de aqui escrever e a hombridade de expor o seu nome para o mundo, pela dedicação que tem de escrever aqui todos os dias, pelo respeito às opiniões alheias e, sobretudo, pela paciência que tem para aguentar certos chatos que aqui deixam os seus comentários insanos! Sei que a luta diária não deve ser fácil e que certamente alguém que aqui dedica a sua vida deve ter estudado muito para chegar a esse grau de informações que o senhor Oleques chegou. O fato de ter nascido fora do Rio Grande do Sul me faz ser mais Gaúcha do que qualquer ``gauchinho`` de Santana do Livramento!! Meu espírito se eleva e unifíca-se junto à Tradição Gaúcha... Sou gaúcha e é o que me basta para ser feliz neste mundo!!!
Sítio: *****
20/12/2006 10:15:14 Jorge Frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
Don José: Concordo contigo que o "debate democrático é salutar justamente pelo fato de permitir a todos o confronto de idéias", principalmente em política, pois a democracia é um apanágio da cidadania. Mas discordo que o mesmo se refira tal e qual à cultura, cujo acesso à mesma requer formação e expertise para tanto, dada a profundidade dos seus temas! No campo cultural, há que se dar mais valor ao handicap, ao mérito, ao saber reconhecido. Respeito a alteridade e as opiniões contrárias, como respeito a pessoa seja ela qual for. Mas não assim as manifestações acerca de um determinado assunto, vindas de pessoas sem o requerido background para emitir juízos de valor sobre esse mesmo tema. Não me envergonho de admitir que não tenho luzes ou elementos de convicção suficientes para emitir meu parecer em determinados assuntos que fogem à minha alçada (nec me pudet fatieri quod nesciam, dizia Cícero) e não costumo meter o bedelho em temas que ignoro. Mas, quando me dizes que, em relação a determinados pontos da minha exposição, "somos obrigados a refutar as argumentações utilizadas, com o fim de melhor esclarecer aos demais visitantes o nosso posicionamento a respeito do tema". Refutar como? A partir de quais pressupostos teórico-metodológicos e gnosiológicos? Qual a sua formação acadêmica e a autoridade ex-cathedra para fazê-lo? Um coisa é o debate de idéias e outra é a troca de opiniões, porque a primeira remete às ciências (epistéme) e a outra ao senso comum (doxa). O senhor ter um posicionamento é uma cosa, o senhor ter autoridade intelectual para refutar alguém sobre determinado tema pertencente ao campo das ciências sociais é outra bem diferente – senão pertence ao morbo da megalomania. Uma vez mais o recorrente trabalho de separar o joio do trigo e desfazer as misturas de alhos com bugalhos. Só mesmo os defensores da castelhanofobia para repetirem à verborragia a tese de sociólogos, antropólogos, folcloristas e historiadores de escolas erguidas sobre teorias ultrapassadas de que o gaúcho rioplatense é mui diferente do gaúcho riograndense! Sem falar nos psicologismos tão ao gosto dos positivistas que costumavam falar de "sensação psíquica" e "estado de espírito gaúcho". É prova cabal de falta de formação acadêmica adequada para o trato com os temas de cultura dizer que um "gaúcho pode se vestir conforme os costumes de regiões estranhas a sua, desrespeitando aos usos locais recebidos de seus antepassados, de seus familiares antigos, de sua gente, seja por razões de modismo ou não. Mas, dessa forma, comprometido estaria o seu 'estado de espírito', pela ausência de uma outra condição básica, contida implicitamente na referida definição de 'gaúcho': a autenticidade" (os grifos são meus). Isso delata a sua falta de conhecimento abalizado dos complexos liames e intrincadas tramas que conformam os nexos da cultura, pois só quem a vê como um pântano de águas paradas e chocas, e não como um arroio profundo que flui sem cessar, pode pensar assim, pois desconhece que sua vitalidade está no permanente vir-a-ser e não na estagnação. Os modismos interferem, sim, nas escolhas porque eles existem na nossa cultura; alguns deles, inclusive, tornam-se parte das tradições! É intrínseco à essencia humana uma certa dose de narcisismo e, muitas vezes o apelo à elementos estranhos ao seu stock é um recurso ou opção, sem nada de anormal nisto. Quando o Sr. diz "o verdadeiro gaúcho, aquele que honra, cultua, defende, preserva e divulga as autênticas tradições de sua 'aldeia', de sua região, de seu Estado, de seu País; a sua cultura, herdada dos habitantes do Rio Grande do Sul dedicados à vida pastoril, os gaúchos conhecedores e praticantes das lides campeiras", de que gaúcho me estás falando? Do real ou do mito? O verdadeiro gaúcho (stricto sensu), para mim, é aquele que lida de sol a sol numa estância ou cabanha, lá nas campanhas da pampa. Nós – eu e tu – somos gaúchos lato sensu, paisanos domingueiros, no dizer do uruguaio Alberto Zum Felde. Conheço muitos gaúchos verdadeiros e gauchinhos de CTG demais para saber a diferença! Podes pegar um ex-magrinho de Porto Alegre, convertê-lo à tua Igreja Tradicionalista e, através das lavagens cerebrais contínuas com os dogmas do MTG-RS/CBTG, tirar daí um "verdadeiro gaúcho", segundo as tuas palavras, pois alguém, "para ser gaúcho, tem que ter o 'estado de espírito', traduzido no sentimento de apreço e identificação cultural, na coerência regional tradicionalista e na autenticidade, requisitos estes revelados psicologicamente e, também, quando da ocorrência de ações práticas, fáticas, efetivas. Essa é uma construção relativamente recente, oriunda da evolução do Tradicionalismo organizado". Mas eu tenho em minha família, gaúchos de verdade (segundo a minha ótica) de Cruz Alta, Pelotas, Jaguarão, Herval e Melo (Cerro Largo/Uruguay), sem falar do meu dindo, um alegretense criado na campanha, para saber a diferença entre um e outro. O fato de eu ser pangauchista e defender o MERCOSUL (para o qual trabalho, porque sempre sonhei com a união fraterna da América Latina) não quer dizer que eu não seja patriota! O fato de termos identidade cultural maior com os gaúchos castelhanos do que com o resto dos tipos regionais do Brasil não quer dizer que sejamos menos brasileiros do que estes, que esperança! Só quer dizer que temos orgulho da nossa formação diferenciada! O fato de eu ser ou não separatista nada tem que ver com isto! Então, pelo que dizes, sou esse tipo de "'gaúcho por extensão', aquele sul-rio-grandense sem 'estado de espírito' algum para com a cultura do Povo Gaúcho, com O Jeito Gaúcho de Viver, expressão que visa sintetizar os valores sociais e morais dos gaúchos brasileiros, entre eles a simplicidade da vida interiorana, o apreço pela liberdade, o valor dispensado à dignidade pessoal, o amor ao Torrão Natal e à Pátria, o apego à palavra empenhada e à convivência hospitaleira, e os sentimentos de preservação e de culto aos usos e costumes tradicionais da sua região de origem". Engraçado como estes valores são idênticos aos do Prata (que conheço pessoalmente)! Mas o fato é que o senhor confunde demais cultura com ideologia, no sentido althusseriano de falsa consciência, graças àquilo que canso de dizer: o exercício ilegal das ciências sociais, culpado de tanto disparate. E aqueles que somos verdeiramente patriotas, sabemos que o "ventre da pampa é pátria, na minha terra", como dizia o saudoso "Boca", Marco Aurélio Campos, em Eis o Homem! E, que eu saiba, existem vários jeitos gaúchos de viver, mas são fruto de endoculturação e de escolhas pessoais e não de imposição de um pretenso órgão superior do Tradicionalismo ou de uma ultrapassada Carta de Princípios. Yeito de viver é uma cosa, modo de vida (modus vivendi), que é um conceito científico, é otra cosa! Outro ponto onde se nota que o senhor carece de formação específica, pois saberia que muitas teorias antropológicas (o folclore e a etnologia são seus subcampos) do passado caducaram e foram ultrapassadas, é quando o diz: Esse modo de vida foi facilmente identificado nas várias pesquisas científicas desenvolvidas por renomados folcloristas em diferentes épocas históricas. Nem mesmo isso, pois épocas históricas remete à Colônia, Império e República e as preocupações com o Folclore e a Cultura são relativamente recentes, datam do Séc. XIX e, de lá para cá, esses campos científicos foram aprofundando-se e alargando-se, e foram sucedendo-se os paradigmas de análise. Se o senhor fosse do metier saberia. Mas que fique bem claro, de uma vez por todas, o senhor não deve envergonhar-se de não ser antropólogo, sociólogo, historiador ou cosa parecida. Que isto fique registrado: não é vergonha ignorar algum tema que não seja da sua alçada! Vergonha é meter-se a gran sabedor e ser um empulhador, como hai muitos por aí – não me refiro ao senhor. A bem da verdade, respeito e louvo o seu amor pelas tradições gaúchas, apesar de achar (e aqui é opinião pessoal, portanto questionável por outrem) que o senhor perde tempo defendendo uma postura bitolada e uma visão equivocada de Tradicionalismo. O senhor diz que "ao contrário do afirmado, em momento algum negamos a natural e recíproca influência existente entre brasileiros, argentinos e uruguaios nas respectivas regiões fronteiriças", mas nega que gaúcho e "gáutcho" sejam a mesma coisa, como cerveja e cerveza o são, apesar das diferenças entre a Quilmes Imperial, a Zillertal, a Norteña, a Pilsen, a Patricia, a Doble, a Brahma etc. Talvez eu seja um péssimo professor, por não conseguir fazer o senhor ver a verdade que está bem diante dos seus olhos. Ou será que o senhor é do tipo "pior cego": aquele que não quer ver?! O senhor afirma: "Também nunca negamos as semelhanças culturais existentes entre gaúchos e 'gauchos'". Mas também... se negasse, teria assinado uma confissão de burrice. E isso eu sei que o senhor não é, apesar de turro e porfiado. O certo é que o senhor conhece mui superficialmente (se tanto) a formação cultural dos povos argentinos e uruguayos e isso influencia negativamente no seu julgamento! E logo enseguida, (para dar provas de não ser do metier) completa: "assim como não esquecemos que ambos têm origem diferente e, portanto, cada um tem o seu jeito particular, peculiar, de viver, com usos e costumes bem característicos, seja no folclore, na música, na indumentária, na encilha, na culinária e em outros aspectos singulares de suas culturas". Aqui o senhor confunde origem com procedência. A origem do gaúcho está no complexo cultural (se o senhor tivesse habilitação específica saberia!) formado basicamente pela confluência das atividades de pecuária com o meio ambiente pampeano (bioma pampa), com a expansão do modo de produção capitalista e o expansionismo das coroas ibéricas. Tanto não tem que ver com o conceito em desuso de "raça", porque havia gaúchos índios, negros e ibéricos... mas tarde, até alemães, italianos, poloneses e outras etnias foram apaisanadas. O senhor diz, a propósito, que seu "posicionamento não está desprovido do conhecimento empírico, prático, pois temos origem na região da Campanha, além de termos fixado residência na Fronteira Gaúcha no período compreendido entre 1982 a 1986. Portanto, conhecemos e bem o que aqui falamos". Eu duvido. Se soubesse mesmo, não negaria o óbvio. Deve estar cego pela castelhanofobia – uma antiga doença ainda endêmica no RS; ataca muito os pobres de espírito que confundem patriotismo com xenofobia e também atinge pessoas de poca luz. O seu posicionamento pode ter base no seu berço (qual cidade e saiu de lá com que idade?) e no seu contato com a fronteira, mas é só empírico e não científico. Mas parece que o senhor esqueceu-se ou teve apenas um superficial contato com o mundo fronteiriço; quatro anos é pouco, ainda mais se levarmos em conta que não houve resultou em nenhum levantamento ou catalogação de dados e nenhuma pesquisa científica. E, o que é pior, não conhece os gaúchos castelhanos o suficiente para julgá-los, dando, por isso, ouvido a pesquisadores de poucas luzes – e, assim procedendo, comete uma leviandade! O senhor disse: "Naqueles tempos, ainda não havia acontecido a derrocada econômica da Argentina, por ter rezado na cartilha do FMI; nem existia, ainda, a pretendida globalização cultural, na verdade estimulada para atender aos interesses do comércio 'country' e a vizinhos fragilizados economicamente, abrindo mercado para os seus estoques acumulados. Não foi só a Argentina que passou por isso. Mutatis mutandis, todo o Terceiro Mundo passou por isso, atrelado à dependência econômica do Big Brother, Uncle Sam! Também de História lhe faltam mais conhecimentos! E só quem não conhece bem a fundo a história cai nas armadilhas da teoria dependentismo. Ou o senhor esquece que é longa a história de vassalagem do Brasil ao FMI. "Lá a bombacha era bombacha, não a calça que nos impõem as grifes, por meio de artistas e as suas gravadoras multinacionais" Lá onde? E lá quando? E o que é a bombacha, senão uma calça? Fábricas e grifes são cosas diferentes e o senhor bem o sabe. Confundi-las a propósito sim é que é desonesto! Só o que eu vejo é a repetição de uma mentira (do MTG-RS) à exaustão. Mas se a bombacha estreita era usada no lado brasileiro da fronteira, então não há como negar-lhe a cidadania riograndense, ou seja, dos gaúchos brasileiros! Ou será que Jaguarão não pertence ao RS e seus habitantes não são cidadãos do Brasil? Além do que, na Argentina e no Uruguay, também se usava e usa bombacha larga! E também é desonesto (é, no mínimo, tautologia) dizer que o "lenço gaúcho era o mesmo e tradicional lenço usado pelos nossos avós e pais, não esses que em nada representam a nossa História e a nossa cultura gaúcha brasileira", se em referência aos lenços curtos estampados, pois os mesmos têm a mesma fonte: o exterior! Os tecidos que abasteciam os nossos mercados (a partir da Revolução Industrial acelerou-se o processo), nos eram trazidos da Inglaterra, da França, da Índia e da China. A abertura dos portos às nações amigas matou a manufatura local. Concordo plenamente quanto ao chapéu australiano ou de cowboy! O senhor diz: "lá o chapéu era o autêntico aba larga tapeado da Fronteira, não os 'R. Oliver' de abas laterais viradas que tentam disseminar até no Dia Maior do Gaúcho, em pleno Desfile Farroupilha na Capital de Todos os Gaúchos". Mas novamente eu pergunto: lá onde? E, por acaso, o gaúcho usou, em sua longa História, diversos tipos de chapéus, boinas, bonés (do tipo Kangol) e, até, gorro de manga. Só que o aba larga tapeado não era só da fronteira; em muitas partes do Estado, usava-se o indefectível aba dez. E tem mais: na época da braga e dos chiripás, o aba larga não existia (senão em sua forma de palha), ele entrou bem mais tarde, já no Séc. XX, predominando os chambergos, os de palha e os pança de burro, todos de aba curta e copa alta ou larga conforme o gosto do freguês. E erra também quando diz que "lá o gaúcho se pilchava com a guaiaca, constituída das tradicionais bolsas para os ‘cobres’, o relógio, o fumo, a munição, o coldre para o revólver, como sempre foi costume no Sul do Brasil, e não com os cintos e as rastras importadas de hoje", pois ignora que essa guaiaca não é só brasileira, mas argentina e uruguaya também! Comprovei com meus próprios olhos, em uma das várias viagens que fiz pela Argentina, sua difusão pelo interior da província mesopotâmica de Entre Ríos. Como também a rastra não é exclusiva dos castelhanos, pois elas foram adotadas aqui, adquirindo carta de cidadania brasileira, apesar dos cegos que não querem ver (o pior cego!). A mesma carta de cidadania recentemente concedida ao chamamé e ao bumbo legüero! Será que a Tradição Gaúcha morreu no passado e foi exumada depois de fossilizada, ou ela é algo vivo e dinâmico? Quem é habilitado a lidar com a Antropologia Social, a Sociologia da Cultura e a História Cultural sabe-o mui bem! O senhor afirma, sem checar suas fontes, que: "lá a cor preta, conforme a antiga e peculiar tradição dos gaúchos brasileiros, não era usada, por simbolizar o luto". Quem disse esta asneira? Não sei de que fonte o senhor tirou esta inverdade! Basta voltar atrás, nos próprios trajes típicos ainda hoje usados em Portugal e na Espanha, para ver que esta informação carece de veracidade, pois a cor preta está em muitos trajes de muitas regiões da Península Ibérica, que vieram influenciar-nos sobremaneira desde os primórdios da nossa colonização. O senhor afirma: "o Jeito Gaúcho de Viver tinha, ainda, diferenças consideráveis em comparação com o Jeito 'Gaucho' de Viver dos platinos. Estes, ao contrário, sempre usaram cores pretas nas suas indumentárias; os lenços estampados e diminutos; em alguns lugares, o chapéu de copa alta; cintos ou rastras com pratarias; camisas xadrez, quadriculadas, sem restrição às cores vibrantes, fortes, berrantes; a cuia de chimarrão de tamanho reduzido, sem abas, adornadas com prataria; barbicachos metálicos; boinas da Cataluña, importadas recentmente; cola do cavalo aparada acima dos machinhos; pelegos curtíssimos ou ausentes na encilha. Esse Jeito 'Gaucho' de Viver é também encontrado na região fronteiriça do Rio Grande do Sul, mas não de forma acentuada, por razões óbvias de proximidade territorial e cultural. Mas não seria razoável nem coerente que alguém vivenciasse o mesmo jeito argentino de viver, por exemplo, na região gaúcha dos Campos de Cima da Serra, no Litoral, na Campanha, no Planalto ou nas Missões" (os grifos são meus). Eu acho que cada um é dono de si e faz o que quer dentro dos limites da honra, da decência, da honestidade, da retidão de caráter, até mesmo usar pilchas a lo argentino em Vacaria, Erexim, São Francisco de Paula, Lages, São Joaquim ou Frederico Westphalen, desde que as use com orgulho, porque adora usar, e não para ofender, sacanear ou provocar dirigentes do MTG. Mas há erros novamente: uma cosa são as camisas xadrez, que são antigas (quem disse que elas não entraram no RS mentiu ou não tinha como sabê-lo), e otra as de cores fortes, que são tema atual. Nem os castelhanos gostavam de cores berrantes, preferindo os tons pastéis e escuros, mesmo porque imperava o gosto e o recato da Era Vitoriana em todas as latitudes civilizadas, inclusive no Brasil. Também atuais são os barbicachos metálicos, portanto a otro patamar pertence tal discussão. Pelogos curtos ou grandes, coloridos ou não, há na Argentina, no Uruguay e no Brasil, isso é do gosto de cada um e não da cultura, muito menos de regulamentos mal feitos. Mas pelegos ausentes na encilha, só vi nas gineteadas em basto aberto, como também os exagerados estribos de sola chamados sureros! Quando o senhor diz que somos chamados de "macaquitos", pela tendência de copiarmos o que é dos outros e deixarmos de valorizar o que é nosso para enaltecermos culturas alienígenas", dispara mais otro bolaço. Fomos chamados de caí (macaco, em guarani), por causa do imenso contingente de afro-brasileiros nas tropas do EB na Guerra do Paraguay. Os argentinos copiaram a pecha como categoria de acusação, desde aqueles tempos, para fomentar o seu preconceito contra nós, mantendo acesa, assim, a antiga rivalidade herdada das lutas coloniais – do lado de cá, fazia-se o mesmo e era natural, em se tratando da disputa entre duas potências pela hegemonia continental, cosa que ao Tio Sam muito agradava, pois fazia pender a balança para o seu lado, como potência hemisférica e mundial. E o fato de copiarmos as culturas tidas como superiores ou mais fortes é fruto da difusão cultural, que sempre se deu a partir dos grandes centros difusores, exportadores de cultura e lançadores de modas, como Paris, Madrid, Milano etc. Essas cópias são típicas dos modos como opera a cultura, não é só típico de sociedades terceiromundistas. O senhor me chamou de desonesto, quando disse: "Portanto, não é honesto dizer-se que o Jeito Gaúcho de Viver orindo da 'América Portuguesa' é idêntico ao dos 'gauchos' da 'América Espanhola'". Não sou desonesto! Não sou adepto do exercício ilegal das ciências sociais, pois tenho habilitação para fazê-lo. Além disso, no seio da minha família, recebi educação e princípios suficientes como para não precisar andar espelhando-me numa Carta de Princípios caduca e ultrapassada. O senhor não pode julgar-me, se nem ao menos conhece o significado do termo identidade cultural, consagrado pela Antropologia! Sou Licenciado e Bacharel em História pela Universidade de Brasília, com Especialização (pós-graduação) na área de Imaginário, Cotidiano e Discurso, pelo PPGHIS/UnB, filiado à Associação Nacional dos Pesquisadores de História da América Latina e Caribe (ANPHLAC) e à Associação Nacional de História/Associação Nacional dos Professores Universitário de História (ANPUH), respeitado no âmbito acadêmico e citado por estudiosos em suas obras sobre Cultura Gaúcha, Analista de Informações e Chefe de Gabinete da Coordenação Nacional da Saúde no MERCOSUL/GM/MS. O senhor meça as suas palavras quando tiver a pretensão de julgar alguém que tem mais de um quarto de século servindo (desde o começo de 1981) ao gauchismo em Brasília, tendo fundado já dois CTGs nesta cidade! Mas não virei gaúcho aqui, como muitos que posam de tradicionalistas por aí, mas só vieram conhecer bombacha aqui no exílio. Ainda em 1970, em Porto Alegre, ingressei no Grupo de Danças Gaúchas "Quero-Quero", do Bairro Ipanema, ao mesmo tempo em que começava meus estudos no “Casarão da Várzea” (CMPA). "Pela histórica diferença de origem, não há entre eles nem identidade folclórica nem igualdade de tradições, apenas semelhanças no tocante a alguns aspectos culturais como aquelas resultantes da mesma vivência campeira desenvolvida nas atividades rurais. Está relacionada é com os hábeis cavaleiros herdeiros da cultura campeira vivida por nossos antepassados e mantida, ainda hoje, no interior do Pampa Gaúcho Brasileiro". Isso sim poderia ser considerado desonesto, caso o senhor fosse habilitado em ciências sociais – mas há imprecisões conceituais demais para sê-lo. Ninguém jamais afirmou que para se ter identidade cultural precisa ser gêmeo idêntico. Só quem não conhece antropologia social não sabe disto! Os gaúchos riograndenses e rioplatenses formam aquilo que denominei mosaico cultural pampeano ou gaúcho, ou simplesmente, mosaico pampeano. Por que digo mosaico? Porque não é um todo harmônico, parelho, igual, mas é formado por elementos diversos conformando uma unidade! Assim como, por exemplo, há diferenças entre o gaúcho do Norte e do Este do Uruguay, como entre os do chaco saltenho e os vallistos de Salta, haverá sempre traços diferenciados entre os gaúchos missioneiros do RS e os do Planalto Médio! Os brasileiros mesmo, apesar de sua cultura branca ser originária da Península Ibérica, não têm uma identidade cultural, mas várias! "É certo que no sistema capitalista, especialmente o 'selvagem', os comerciantes continuarão a vender e a buscar o lucro a qualquer preço, sem qualquer preocupação cultural". E nisso tem a sua parcela de culpa o próprio MTG, que ao invés de ensinar os tradicionalistas a se picharem corretamente, prefere lançar mão de regras estapafúrdias, feitas por quem tem apenas um superficial, fragmentado e desconexo conhecimento da realidade, que, no mais das vezes, acabam por lançar o desorientado associado de um CTG nas mãos dos inescrupulosos. Precisamos corrigir isto, nativistas e tradicionalistas! E expulsar os vendilhões do templo! Talvez pudéssemos instituir um selo em cada loja dizendo, ao comprador, se ela tem ou não o aval do MTG, mas desde que sejam contemplados os trajes nativistas também, não só os tradicionalistas. Estou totalmente com o senhor quando repudia estas porcarias do tipo "Festchê na Capital dos Gaúchos com bailarinas vestidas como espanholas, com saias curtas, mostrando seus decotes exagerados e suas pernas em cima de um palco, acompanhadas de peões trajando indumentárias estranhas, douradas, prateadas, e dançando uma dança típica da região do Texas", porque estão mentindo descaradamente a quem assiste a esses tristes shows, que não passam de deturpações da cultura gaúcha, vendendo ao turista um folclore de fantasia, de impostura! Isso sim configura um legítimo atentado contra o patrimônio cultural gaúcho, um crime hediondo, tanto para tradicionalistas quanto para nativistas. Qual a punição? Devemos ignorá-los. Que morreram à míngua! Vamos prestigiar aqueles que não se prostituíram. Não há jamais como discordar do senhor quando diz que ninguém tem direito algum de emporcalhar o patrimônio cultural gaúcho "com o fim de auferir vantagens pessoais. (...) Mas a eles está garantido, como a qualquer tradicionalista, o exercício do livre arbítrio, a critério pessoal de cada um, para serem gaúchos decentes ou gaúchos calaveras". Mas achamos que a Ética Tradicionalista representa um retrocesso, porque baseada em proibições e não em valores positivos. A cidadania tradicionalista não deve partir de uma postura totalitarista; deve sim deixar que todo o gaúcho observe os seus deveres e exerça os seus direitos por adesão aos ideais da causa e não por imposição! Cobrar de outrem posturas adequadas é meter-se na vida alheia, porque, afinal, quem define o que é adequada e a partir de quê? Existem otras formas não invasivas do direito universal de fazer com que todos atinjam o patamar ideal: o diálogo! Se ele não funcionar, aí sim (e só ai), deve-se apelar para as proibições. Mas o senhor se ilude quando afirma que o MTG/RS tem, como fontes, "diversos trabalhos de pesquisas e estudos de renomados folcloristas nacionais e de estudiosos estrangeiros, como já foi salientado acima". Vi citadas algumas pocas fontes no seu regulamento das pilchas e todas elas passíveis de críticas, porque têm, como o senhor, uma idéia equivocada da identidade cultural dos gaúchos rio-grandenses e rio-platenses. Além do fato de faltar-lhes massa crítica para um estudo mais aprofundado, uma vez que não dispõem de pessoal qualificado ou habilitado, mas daquele tipo de gente que se diz perito, mas não tem habilitação alguma, sendo expert em meias verdades apenas. Discordo do senhor, quando diz: "E apesar da insistência de algumas correntes filosóficas que pregam o Fim da História, o Pensamento Único e outros 'consensos' interesseiros, jamais poderá haver a pleiteada 'globalização cultural' (...). Mas não se duvida que esses conhecidos mercados pretensamente tidos como hegemônicos não cedem nem um milímetro diante de propostas semelhantes de modificação, adulteração e corrupção de suas próprias culturas". Há correntes historiográficas ultrapassadas e as há delirantes também. Mas a mundialização da cultura, como a antropologia e as otras ciências entendem o conceito, já começou – é fato insofismável. Basta acessar a intenet, para tomarmos conhecimento de cosas que aconteceram longe no tempo e no espaço. E mesmo os mercados dominantes sofrem mudanças culturais em contato com otras culturas sim, pois, em cultura, se pode perfeitamente aplicar a Teoria Física (hidráulica) dos Vasos Comunicantes. Há um equívoco quando o senhor pergunta: "Ou alguém acredita na possibilidade de virem um dia os texanos norte-americanos adotarem indumentárias alheias, substituindo o seu tradicional modo de vestir ou o seu Jeito Texano de Viver, em atendimento a interesses de mercado? Poder-se-ia imaginar os 'gauchos' argentinos aceitando o modo de vida dos gaúchos brasileiros por meros motivos de mercado, sem qualquer tipo de reação? Naturalmente que não". Isto é um falso dilema. O gaúcho argentino faz parte daquilo que denomino mosaico pampeano, já o texano faz parte de outro microcosmos cultural e, portanto, não há outro ponto de contato entre eles, senão o de serem culturas eqüestres, como também o são os cossacos, os huasos chilenos, os llaneros venezolanos, os charros mexicanos, os índios da pradaria dos EUA etc. Tenho certeza que, se os gaúchos brasileiros tivessem, por exemplo, ponchos tão belos e baratos quanto os deles, era os argentinos que viriam para cá, abastecerem-se em nossas lojas! Concordo que a diversidade cultural deve ser respeitada, preservada e não corrompida pelos interesses do capital. "Quem assim age é 'explorador de cultura' e 'assassino cultural'". Mas também um Movimento fundamentado em regulamentos equivocados e mal feitos, é um assassino cultural. E, para enxergar esta verdade, "é preciso que deixemos de hipocrisia e passemos a valorizar o que é nosso", sem precisarmos deixar que um órgão dito superior faça isso por nós. Concordo que as normas sejam necessárias, "principalmente para servir de orientação aos que se interessam pelo Movimento Tradicionalismo Gaúcho", mas é preciso que elas não sejam proibitivas e adotadas por adesão, além de serem feitas por quem entende realmente de cultura gaúcha e não por uns pseudointelectuais bitolados, sem formação acadêmica para o trato com tão importantes assuntos! Discordo que as regras "todas, presentes e futuras, devem estar em perfeita sintonia com a Filosofia Tradicionalista, expressa na Carta de Princípios e nos demais postulados básicos da ideologia tradicionalista gaúcha", pois elas estarão plasmando apenas o imobilismo, o conservadorismo e a reação, pois é assim que entendo um Movimento sem autocrítica e sem revisão periódica de sua normativa, pois, como dizia Nélson Rodrígues, toda unanimidade é burra! É uma Carta ultrapassada exigindo adequações de ordens diversas. Noto algum fanatismo nesta afirmação: "Os seus descumprimentos (...) devem ser objeto da ação da cidadania tradicionalista por parte de cada um dos tradicionalistas gaúchos no sentido de cobrar ações ativas dos responsáveis e denunciar essas e outras violações estatutárias e regimentais cometidas por essas sociedades criadas para serem Palanques, Baluartes, Palcos Sagrados da Tradição, mas que estão servindo tão-somente a interesses pessoais, grupais e a interesses econômico-financeiros escusos". Só espero que não haja nesta ação da “cidadania tradicionalista” algo como as SS e a GESTAPO! Aliás entendo a cidadania como um apanágio da democracia e não vejo isto no Movimento Tradicionalista, pois as decisões são tomadas verticalmente, de cima para baixo, sem consulta à ampla maioria dos sócios de um CTG, as bases. Exemplo disto são as eleições indiretas para os MTGs estaduais e a CBTG, que não passa pelo direito ao voto universal direto do universo dos tradicionalistas. Não duvido que "o BL tem contribuído para a Causa Tradicionalista Gaúcha: lutando pela preservação das autênticas Tradições do Povo Gaúcho Brasileiro" (autênticas, é claro, do seu ponto de vista). Só lamento que esteja se prestando para divulgar o fanatismo facistóide e o conservadorismo reacinário vinculado ao grupo hegemônico no MTG-RS e na CBTG, que comunga um positivismo tardio (que cheira a Opus Dei, TFP, Maçonaria ou que sei eu), o qual se julga no direito de falar em nome de todos os gaúchos de todas as querências. Um quebra-costelas bem cinchado.
Sítio: *****
16/12/2006 22:25:39 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezado Jorge Webber. O sítio Bombacha Larga agradece a tua participação neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Independentemente da ocorrência ou não de divergências de opinião, a tua colaboração sempre será bem aproveitada por todos aqueles que nos honram com suas visitas. O debate democrático é salutar justamente pelo fato de permitir a todos o confronto de ideias. E o fato de alguém ter um pensamento diferente e expô-lo não quer dizer que não esteja respeitando a eventuais opiniões contrárias. Portanto, respeitamos as tuas manifestações a respeito do artigo acima publicado. Contudo, em relação a determinados pontos da tua exposição somos obrigados a refutar as argumentações utilizadas, com o fim de melhor esclarecer aos demais visitantes o nosso posicionamento com relação ao tema. Continuamos adeptos da tese de Barbosa Lessa: gaúcho é quem possui o “estado de espírito” voltado para o sistema de vida dos campeiros sulistas brasileiros. Por consequência, os “gauchos” são aqueles que detém o “espírito” dos campeiros platinos. Ter o “espírito de gaúcho brasileiro” exige, necessariamente, a consciência de preservação das tradições locais, oriundas do Pampa Sul-brasileiro, e a exteriorização de ações regionalistas e culturais coerentes com esse chamado “estado de espírito” de campeiro do Rio Grande do Sul. E este sentimento pode existir apenas internalizado. No entanto, se o mesmo for externado para o mundo deve estar acompanhado de atos coerentes com aquela sensação psíquica, aquela identificação cultural, aquele gosto pela cultura gaúcha sul-brasileira. Exemplificando: um gaúcho pode vestir-se conforme os costumes de regiões estranhas à sua, desrespeitando usos e costumes locais recebidos de seus antepassados, de seus familiares antigos, de sua gente, seja por razões de modismo ou não; mas, dessa forma, comprometido estaria o seu “estado de espírito”, pela ausência de uma outra condição básica, contida implicitamente na referida definição de “gaúcho brasileiro”: a da autenticidade regionalista-tradicional. O gaúcho tem que ter o seu “estado de espírito” traduzido no sentimento de apreço e identificação cultural, na coerência regionalista-tradicional e na autenticidade local, requisitos estes revelados psicologicamente e, também, quando da ocorrência de ações práticas, fáticas, efetivas. Essa é uma construção relativamente recente, oriunda da evolução do Tradicionalismo organizado. Bento Manuel, se portador do citado “estado de espírito”, embora mercenário e traidor, seria, sim, um gaúcho. Chimangos ou maragatos, igualmente. Mas não podemos confundir o “gaúcho por extensão”, aquele sul-rio-grandense sem “estado de espírito” algum para com a cultura regionalista-tradicional do Povo Gaúcho e Campeiro do Pampa Sul-rio-grandense, com o verdadeiro gaúcho, aquele que honra, cultua, defende, preserva e corretamente divulga as autênticas tradições de sua “aldeia”, de sua região, de seu Pago, de seu Estado e de seu País; a sua cultura, herdada dos habitantes pampeanos do Rio Grande do Sul, dedicados à vida pastoril, os gaúchos conhecedores e praticantes das lides campeiras como o gado, os cavalos e as ovelhas. O Jeito Gaúcho de Viver é expressão que visa sintetizar os valores sociais e morais dos gaúchos sul-brasileiros, dentre eles a simplicidade da vida interiorana, o apreço pela liberdade, o valor dispensado à dignidade pessoal, o amor ao Torrão Natal e à Pátria, o apego à palavra empenhada e à convivência hospitaleira, e os sentimentos de preservação e de culto aos usos e costumes tradicionais da sua região de origem. Esse modo de vida foi facilmente identificado nas várias pesquisas científicas desenvolvidas por renomados folcloristas em diferentes épocas históricas. E, ao contrário do afirmado, em momento algum negamos a natural e recíproca influência existente entre brasileiros, argentinos e uruguaios nas respectivas regiões fronteiriças. Também nunca negamos as semelhanças culturais existentes entre gaúchos e “gauchos”, assim como não esquecemos que ambos têm origem diferente e, portanto, cada um tem o seu jeito particular, peculiar, de viver, com usos e costumes bem característicos, seja no folclore em geral, na música, na indumentária, na encilha, na culinária e em outros aspectos singulares de suas culturas. E a propósito, informamos que o nosso posicionamento não está desprovido do conhecimento empírico, prático, pois temos origem na região da Campanha Sul-rio-grandense, além de termos fixado residência na Fronteira Gaúcha no período compreendido entre 1982 a 1986. Portanto, conhecemos e bem o que aqui falamos. Naqueles tempos, ainda não havia acontecido a derrocada econômica da Argentina, por ter rezado na cartilha do FMI; nem existia, ainda, a pretendida globalização cultural, na verdade estimulada para atender aos interesses do comércio "country" a vizinhos fragilizados economicamente, abrindo mercado para seus estoques acumulados. Não! Lá a bombacha era bombacha, não a calça justa imposta pelas grifes por meio de artistas "gaúchos" e suas gravadoras multinacionais; lenço gaúcho era o mesmo e tradicional lenço usado pelos nossos avós e pais, não esses que em nada representam a nossa História e a nossa cultura gaúcha brasileira; lá o chapéu era o autêntico aba larga tapeado e escuro da Fronteira, não os “R. Oliver” de abas laterais viradas e claros, que tentam disseminar até no Dia Maior do Gaúcho Brasileiro, em pleno Desfile Farroupilha, na Capital de Todos os Gaúchos do Brasil; lá o gaúcho se pilchava com a guaiaca, constituída das tradicionais bolsas para os “cobres”, o relógio, o fumo, a munição, o coldre para o revólver, como sempre foi costume no Sul do Brasil, e não com os cintos urbanos e as "rastras" platinas importadas de hoje; lá a cor preta, conforme a antiga e peculiar tradição dos gaúchos brasileiros, não era usada, por simbolizar o sentimento de luto. Lá o Jeito Gaúcho de Viver tinha, ainda, diferenças consideráveis em comparação com o Jeito “Gaucho” de Viver dos platinos. Estes, ao contrário, sempre usaram cores pretas nas suas indumentárias; os lenços estampados e diminutos; em alguns lugares, o chapéu de copa alta; cintos ou rastras com pratarias; camisa xadrez, quadriculada, sem restrição às cores vibrantes, fortes, berrantes; a cuia de chimarrão de tamanho reduzido, sem abas, adornadas com prataria; barbicachos metálicos; boinas da Cataluña, de importação recente pelos comerciantes de cavalos; a cola do beiçudo aparada acima dos machinhos; pelegos curtíssimos ou ausentes na encilha. Esse Jeito “Gaucho” de Viver é também encontrado na região fronteiriça do Rio Grande do Sul, mas não de forma acentuada, por meras e óbvias razões de proximidade territorial e cultural. Mas não seria razoável nem coerente que alguém vivenciasse o mesmo jeito argentino de viver, por exemplo, na região gaúcha dos Campos de Cima da Serra, no Litoral, na Campanha, no Planalto ou nas Missões, sob pena de sermos novamente chamados de “macaquitos”, pela tendência de copiarmos o que é dos outros e deixarmos de valorizar o que é nosso para enaltecermos culturas alienígenas. Portanto, não é honesto dizer-se que o Jeito Gaúcho de Viver oriundo da “América Portuguesa” é idêntico ao dos “gauchos” da “América Espanhola”. Pela histórica diferença de origem, não há entre eles nem identidade folclórica nem igualdade de tradições, apenas semelhanças no tocante a alguns aspectos culturais como aquelas resultantes da mesma vivência campeira desenvolvida nas atividades rurais. Campeiros do Brasil, naturalmente, não é expressão que abranja os "gauchos" do Uruguai nem da Argentina nem de qualquer outro Estado Brasileiro que não os da região do Pampa Sul-rio-grandense. A referida expressão está relacionada é com os hábeis cavaleiros herdeiros da cultura campeira vivida por nossos antepassados e mantida, ainda hoje, no interior pampeano do Rio Grande do Sul. É certo que no sistema capitalista, especialmente o “selvagem”, os comerciantes sem fronteiras continuarão a vender tudo a todos e a buscar o lucro a qualquer preço, sem qualquer preocupação cultural. Mas convenhamos: organizar, por exemplo, um Festchê na Capital dos Gaúchos com bailarinas vestidas como espanholas, com saias curtas, mostrando decotes exagerados e suas pernas em cima de um palco, acompanhadas de peões trajando indumentárias folclóricas e estranhas, douradas, prateadas, dançando uma dança típica da região do Texas, não é vender nenhum bem simbólico a quem assiste a essas tristes deturpações da cultura gaúcha brasileira, pois seus organizadores estão a vender, isso sim, uma cultura que nunca foi, não é, e se depender dos verdadeiros gaúchos tradicionalistas brasileiros, jamais virá a ser tida como a autêntica tradição gaúcha sul-rio-grandense! A questão cultural não se confunde com a política-partidária ou a preferência individual de cada um. Se existir o “estado de espírito” de gaúcho sul-rio-grandense no vivente e se o mesmo não for comprometido por suas ações práticas, ele poderá ser traidor, mercenário e até comerciante, mas continuará sendo um gaúcho, na mais pura acepção da palavra, mesmo na ausência de certos princípios morais e éticos de ordem pessoal. Mas se, contrariamente, a sua identificação com a cultura gaúcha for de alguma forma maculada por seus interesses pessoais, econômico-financeiros ou não, como, por exemplo, no ato de se vestir em desconformidade com a tradicional Pilcha Gaúcha Oficial do RS, com o fim de vender em todas as regiões do globo terrestre o seu trabalho artístico, ai, sim, por esse atentado cultural cometido o protagonista desse feito não poderá mais ser considerado um gaúcho brasileiro, pois estará traindo o seu antigo “estado de espírito” para adulterar uma cultura popular, pública, de todo um povo. E não sendo essa cultura de sua propriedade particular, direito algum o teria de modificá-la com o fim de auferir vantagens pessoais. Se desses havia no passado, hoje abundam no presente. Mas a eles está garantido, como a qualquer "tradicionalista", o exercício do livre arbítrio, a critério pessoal de cada um, para serem gaúchos decentes ou gaúchos calaveiras. O que recomenda a Ética e a Cidadania Tradicionalistas é que todo o gaúcho brasileiro observe seus deveres e exerça seus direitos de cidadão, cobrando posturas adequadas daqueles que deveriam dar o exemplo, exigindo o respeito aos reais Fins Culturais do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro, sua Filosofia de Atuação Cultural, sua ideologia, sua doutrina institucional. O MTG/RS não deve estar comprometido com a cultura alheia, mas fielmente vinculado aos usos e costumes regionalista-tradicionais dos antigos Gaúchos Campeiros do Pampa do Rio Grande do Sul, identificados e demonstrados em diversos trabalhos de pesquisas e estudos de renomados folcloristas nacionais e de estudiosos estrangeiros, como já foi acima salientado. E apesar da insistência de algumas correntes filosóficas que pregam o Fim da História, o Pensamento Único e outros “consensos” interesseiros, jamais poderá haver a pleiteada “globalização cultural” e sua "integração", tão apregoada por quem deseja ampliar o comércio a todos os povos, independentemente de suas diversidades culturais regionalista-tradicionais. Mas não se duvida que esses conhecidos mercados, pretensamente tidos como hegemônicos, não cedem nem um milímetro diante de propostas semelhantes de modificação, adulteração e corrupção de suas próprias culturas. Ou alguém acredita na possibilidade de virem um dia os texanos norte-americanos adotarem indumentárias alheias, substituindo o seu tradicional modo de vestir ou o seu Jeito Texano de Viver, em atendimento aos interesses de outros mercados? Poder-se-ia imaginar os “gauchos” argentinos aceitando o modo de vida dos gaúchos brasileiros por meros motivos de mercado, sem qualquer tipo de reação? Naturalmente que não! As diversidades culturais devem ser respeitadas, não corrompidas por interesses do capital. Quem assim age é “explorador de culturas” e “assassino cultural”. Assim, é preciso que deixemos de hipocrisia e passemos a valorizar o que é nosso, da mesma forma como os outros povos valorizam o que é seu. As normas regulamentares existentes são necessárias, principalmente para servir de orientação aos que se interessam pelo Movimento Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro. Mas todas, presentes e futuras, devem estar em perfeita sintonia com a Filosofia Tradicionalista, expressada na Carta de Princípios e nos demais postulados básicos da ideologia tradicionalista gaúcha do Brasil. Os seus descumprimentos, como é o caso da omissão na formação tradicionalista, verificada em muitas Entidades Tradicionalistas do MTG Brasileiro "organizado", devem ser objeto da ação da Cidadania Tradicionalista por parte de cada um dos tradicionalistas gaúchos no sentido de cobrar ações ativas dos responsáveis e denunciar essas e outras violações estatutárias e regimentais cometidas por essas sociedades criadas para serem Palanques, Baluartes, Palcos Sagrados da antiga Tradição Regional do RS, mas que estão servindo tão-somente a interesses pessoais, eleitoreiros, comerciais e econômico-financeiros escusos. E é esse o trabalho desenvolvido por este espaço cultural tradicionalista gaúcho: elogiar e divulgar bons trabalhos tradicionalistas, levar informação ao público em geral e proporcionar o necessário debate referente às questões relevantes e até imprescindíveis para o aperfeiçoamento do Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro, e para o culto da Tradição Gaúcha do RS no âmbito pessoal ou de grupos culturais sem qualquer vinculação com aquele Movimento. Assim o BL tem contribuído para a Causa Tradicionalista Gaúcha Brasileira: lutando pela preservação das autênticas e antigas Tradições Regionais do Povo Gaúcho Sul-brasileiro! Saudações Tradicionalistas e um quebracostelas cinchado a esse prezado Vivente!
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15/12/2006 13:50:26 Jorge Frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
Tu disseste: “Quem vende a alma, por meras questões econômico-financeiras, ostentando artigos não representativos do uso popular e tradicional dos gaúchos, como o fazem alguns artistas sulistas, poderá ser considerado comerciante, vendedor, mas não gaúcho, pois o seu estado de espírito não mais está vinculado ao culto e à preservação das boas coisas do passado, ao Jeito Gaúcho de Viver dos Campeiros do Brasil”. Vejo neste parágrafo alguns erros. Primeiro: ostentar artigos não representativos da usança gaúcha, como o fazem alguns tradicionalistas e artistas sulinos, não quer dizer que um tipo tenha traído a cultura gaúcha, ao se prostituir e se vender ao mercado corruptor, a troco do aplauso imerecido, do dinheiro fácil e do sucesso momentâneo, pode ser apenas ignorante ou ter um saber superficial, desconexo e parcial da cultura gaúcha. Muitas vezes, são gauchinhos de CTG que nunca receberam orientações corretas senão aqueles equívocos convertidos, pelo MTG-RS, em regulamentos que a CBTG adota cegamente, transformando burrice em norma! Segundo: Quem se vende também pode ser, sim, considerado gaúcho. Quantos gaúchos se venderam e se corromperam na História do Brasil, da Argentina e do Uruguay? Quantas vezes Bento Manuel trocou de lado e nem por isso deixou de ser um gaúcho? E os gaúchos que ficaram do lado dos ditadores chimangos Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros deixaram de ser paisanos? O Martín Fierro e o Viejo Viscacha são as duas faces da mesma moeda, coexistem dentro da nossa formação sócio-histórica. Terceiro: Nem todo gaúcho tem o estado de espírito vinculado ao culto e à preservação das boas coisas do passado. Conheço muito gaúcho (falo aqui de gaúchos stricto sensu, peões de estância, gente nascida e criada na campanha, onde vive até hoje) que não é conservador, nem retrógrado e muito menos sente saudades do passado, que, cá para nós, só era bueno para quem era mui rico, tinha estância e fortuna. O pobre não quer voltar à vida dura e cheia de privações, tomar água da cacimba, ler à luz de candieiro, dividir o bucólico rancho de pau a pique barreado com os barbeiros etc. Aliás, quem é que define as “coisas boas do passado”? A Opus Dei? A maçonaria? A TFP? A UDR? O RDE? Quarto: O tal “Jeito Gaúcho de Viver dos Campeiros do Brasil” é uma ficção criada pelo MTG. Não existe um só jeito de ser gaúcho brasileiro, existem vários: o vacariano, o samborjense, o passofundense etc. e todos mui parecidos. Quinto: O jeito dos gaúchos fronteriços é mui parecido com o yeito dos gaúchos castelhanos – mais até que com o jeito dos gaúchos serranos –, por mais que tu negues esta verdade insofismável e insoslaiável. E basta, para comprovar com o próprios olhos, ir lá, andar por Jaguarão, Herval, Aceguá, Bagé, Dom Pedrito, Quaraí, Uruguaiana, Itaquí e alhures. Sexto: O que chamas de “Jeito Gaúcho de Viver” refere-se à idiossincrasia e ao ethos e é óbvio que os criollos do Brasil, da Argentina e do Uruguay comungam deste mesmo modus vivendi, não sendo, pois, apanágio dos campeiros do RS e outros Estados onde há gente agauchada. Sétimo: Também são campeiros do Brasil o vaqueiro nordestino, o peão boiadeiro paulista, o pantaneiro sul-matogrossense e nem por isso tem um jeito gaúcho de viver, cosa que os gaúchos castelhanos têm! E digo gaúcho ao referir-me aos castelhanos, porque estou escrevendo em português, além do que o ente é o mesmo. Seria como dizer cerveja e cerveza, geladeira e heladera. Também é preciso ter em mente que ninguém vende a cultura, vende-se sim bens simbólicos, os chamados “artigos culturais” entre outros, tais como peças de artesanato, livros, discos, trajes típicos etc., ou a sua força de trabalho (expertise) com a cultura, a pesquisa, o ensino de, por exemplo, músicas e danças típicas. Concordo que há negociantes desonestos e há os mal informados, ambos, a seu modo, contribuem para a desfiguração das autênticas manifestações artísticas populares e os traços caracrterísticos do nosso folclore. Mas só os primeiros devem receber a pecha de “corruptores de culturas” como dizes, não pelo simples fato de venderem chapéus, indumentárias e encilhas que jamais foram do uso dos gaúchos brasileiros, mas por fazê-lo conscientemente! Todos querem é lucro e acho isso saudável, pois vivemos num sociedade capitalista! O que temos sim é que dizer aos sócios de nossos CTGs que comprem na tienda do comerciante honesto (sera que hai algum?) e não na loja do cara dura. Dar-lhe um selo de qualidade deve garantir os negócios deste comerciante que não inunda o mercado com porcarias alienígenas e garante também que o associado não será ludibriado. Pois disseste mui bem que, “apesar de estar convivendo diariamente com os nefastos interesses de mercado desses assassinos culturais, o Povo Sulista Brasileiro saberá reagir, defender e preservar a sua verdadeira cultura, as suas genuínas tradições: o autêntico Folclore Sul-brasileiro”. E é o povo que irá escolher freqüentar um o estabelecimento do negociante afinado com o CTG de uma determinada comunidade e auferir-lhe lucros, deixando, assim, a loja do inescrupuloso entregue às moscas. Concordo contigo quando disseste que tens visto “toda a sorte de equivocadas interpretações”. Isso acontece muito por culpa de regulamentos errôneos, feitos por pessoas que não possuem a devida competência, como no caso das normas que regem o uso das pilchas. Mas disparaste um tremendo bolaço quando disseste que um “gaúcho trajado com a tradicional bombacha, guaica, camisa de tom claro e de mangas compridas, e lenço a preceito, sempre estará melhor pilchado que aqueles que usam lenços-fitas pretos ou estampados, camisas de cores berrantes, rastras ou cintas e bombachitas enfiadas”, demonstrando grande ignorância sobre a identidade cultural entre os gaúchos brasileiros da fronteira com os da Banda Oriental e das províncias da Mesopotâmia Argentina: Entre Ríos, Corrientes e Misiones. Passas a impressão de que acreditas cegamente nas mentiras que o MTG-RS nos impõe, qual dogmas, e que desconheces a vida fronteiriça. Apenas um dado veraz e confiável: a guaiaca não é só nossa, como a rastra não é só deles! Para terminar, concordo plenamente contigo quando dizes que “há um elevado déficit de informação no âmbito do Tradicionalismo organizado”. Há uma década eu venho alertando isso! Não seria razoável que se fizesse um estágio básico para ingressar num CTG, o qual tem a obrigação de ter em sua Invernada Cultural um programa de educação contínua “com o fim de levar esclarecimentos não só dos objetivos e dos fins do Movimento Tradicionalista Gaúcho como também as informações necessárias aos recém-chegados sobre aspectos tradicionalistas mínimos, como os pertinentes ao uso correto da indumentária e a cerca de outras diversas, importantes e necessárias questões”. Até mesmo para mostrar a seu novo integrante o quanto a CBTG e o MTG-RS são nocivos ao verdadeiro tradicionalismo, com a sua visão distorcida da Cultura Gaúcha e sua mentalidade conservadora e ditatorial. Mas não sei se, com esses subsídios que o senhor propõe, os novos associados “passariam a ter condições reais de melhor discernir sobre o valor e o sentido do Tradicionalismo e de distinguir os gaúchos de mercado dos verdadeiramente Gaúchos e Tradicionalistas, cuja estampa nunca será confundida, estejam onde estiverem os Centauros das Coxilhas”. O que a maioria dos CTGs oferece hoje é um imenso vazio intelectual, pois muitos não dispõem de uma Invernada Cultural que seja um verdadeiro locus de ensino & pesquisa. E, além disso, poucos CTGs são contra-hegemônicos, ou seja, só se prestam à reprodução do pensamento do grupo reacionário que hoje controla a CBTG e os MTGs estaduais. Ninguém fala em socializar o saber e democratizar as eleições para a CBTG e os MTGs estaduais.
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