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Walther Morais:
No Arremate do Dia

 

13/12/2006 00:52:12
OS PARCEIROS DE CAMPO E DE GUERRAS DOS GAÚCHOS BRASILEIROS!
 
Os Parceiros dos Gaúchos Campeiros do Sul do Brasil!
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“Com a notícia o gaúcho deixou cair a cuia da mão. Depois da escaramuça de 23 jamais lhe soara, naquele deserto, tamanha surpresa. E de pé, olhos arregalados no espanto e no gozo, traçou o seu destino. Apresentar-se-ia também. A revolução vinha a propósito. Palavra que já sentia saudade do cheiro da pólvora e saudade ainda maior das cargas de lança nos combates de campo raso. E não perdeu tempo. Penalizou-se do tostado, mas não teve outro remédio senão lhe meter as “garras” no lombo. Feito isso, enfiou as botas, atou um velho lenço colorado ao pescoço e rumou para o povoado. A distância do seu rincão à cidade era de nove léguas puxadas. De modo algum, nem mesmo por milagre, o matungo venceria a lonjura. Mas havia de encontrar meios de trocá-lo no caminho, até sua volta à querência. Iniciada a marcha só andou quatro léguas. Magro e coberto de matas o animal, ao vencer uma trepada de coxilha pedregosa, não pode mais. Um relincho fraco, varado de dor, e ali ficou. Ficou para morrer. Já anoitava pelo escampo morto. Uma sombra de tristeza, tão forte como a que descia da noite, envolveu o coração e a alma do gaúcho. Comoveu-se com aquele transe. Ficava completamente só no mundo e ficava sem o seu companheiro de dez anos, que baleado no combate de Ibirapuitã, em 23, conseguira curá-lo, tornando-o útil ainda a sua existência de homem sem nada. O gaúcho contemplou a cena com tristeza e com remorso. Era comum, era fato frequente, de todas as horas, bem o sabia, morrer um cavalo no campo, vítima de magreza, minado pelas epizootias várias que de quando em quando devastam, como uma calamidade, os rebanhos pastoris. Mas, assim, abrindo ainda mais as chagas, era animal pra encilhar e ter ao mesmo tempo que partir, levado pelo instinto, a fim de combater na defesa de qualquer coisa, fosse lá o que fosse... Era sina. Pobre companheiro de miséria! Se ao menos já tivesse peleando e o tostado morresse varado por um lançaço ou por uma bala como morre a cavalhada das forças atacantes que avançam numa picada ou numa garganta de corredor, então, estava direito. Morria no seu posto de honra como morrem os homens valentes que não temem o perigo e que vão para frente dispostos a tudo. Mas assim... Era de agoniar de dor um coração de homem do campo, que sabe o valor e o que representa um cavalo na sua convivência leal de todos os dias. Imobilizado o animal pela morte, era mister deixá-lo. Entretanto, nem um rancho próximo para dormir, nem um cavalo perto para prosseguir viagem. E condoído do transe e para que o silêncio não se prolongasse tão fúnebre o velho Lopes deu as despedidas ao seu nobre e leal camarada de lutas: - Aí ficas para os urubus, tostado companheiro! Mas ficas também com a minha saudade. Morreste por mim, que também vou morrer pela Pátria! E dentro da noite o gaúcho continuou a pé a sua marcha, para cumprir, menos o chamado do seu ideal patriótico que as imperiosas exigências do seu destino...”. Trecho da obra Episódios da Revolução, de Roque Callage, um dos mais fecundos escritores gauchescos, compreendendo aspectos apanhados no período de 3 a 24 de outubro de 1930. Embora sua obra esteja, sem razão alguma, esquecida pelas novas gerações, não tardará o dia em que se faça justiça ao seu amor às tradições do Rio Grande, que ele as cultivou como poucos. (Fonte: O cavalo e o Gaúcho, in Laytano, Dante de. Folclore do Rio Grande do Sul: levantamento dos costumes e tradições gaúchas. Porto Alegre: Martins Livreiro Editor: 1984, p. 89)

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