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Noel Guarany:
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20/12/2006 08:15:50
A ORIGEM PORTUGUESA DA FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO DO RS!
 
Tradicionalismo Gaúcho Brasileiro é culto, preservação, retransmissão
e correta divulgação das Campeiras Tradições Gauchescas
e da História do Rio Grande do Sul!
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Portugal, inicialmente, desinteressou-se de ocupar a região sul do Brasil, em virtude de sua costa inóspita, da ausência de portos naturais e de suas riquezas imediatamente extrativas. Mas, aos poucos aquele país foi voltando os seus olhos para o território sulista brasileiro, devido ao esgotamento dos ciclos do pau-brasil, da cana-de-açucar e do ouro. Além disso havia a tradicional rivalidade com a Espanha, nação com visível interesse em ocupar todas as bacias do Prata, do Paraná e do Paraguai. Ademais, os jesuítas, por um lado, e Hernandárias – bandeirantes, nome originário de Hernando Árias de Saavedra – haviam lançado no território a oriente do rio Uruguai e ao norte do rio da Prata, junto à confluência do rio Negro, os cascos de um rebanho que prontamente se converteria em riqueza cobiçada pelos mercados da Europa. A Colônia de Sacramento fora fundada em 1680, quando o ponto português mais ao sul era São Vicente, na costa paulista. Dois anos mais tarde os jesuítas espanhóis voltam ao Rio Grande do Sul, reclamando propriedade sobre os ricos ervais naturais e sobre a vastíssima descendência do gado que abandonaram em sua fuga, em 1641, diante das avançadas bandeirantes. Em Laguna se estabelece o paulista Domingos de Brito Peixoto, em 1668, e a povoação que ele e seus filhos desenvolveram terá grande importância na ocupação do território Sul. Seu filho e sucessor Francisco de Brito Peixoto teve o cuidado de fazer casar suas filhas mestiças – rebentos de suas várias ligações com índias da terra – com oficiais de seu comando. Um de seus genros, João de Magalhães, comandou uma curiosa frota, por ordem do sogro, que, em 1725, veio por terra ao continente, chegando até São José do Norte, terminando por se estabelecer em Viamão, no ano de 1732. Por essa época, muitos aventureiros começaram a se estabelecer no Rio Grande, como Manoel Gonçalves Ribeiro – em Tramandaí -, Francisco Pinto Bandeira, neto de Brito Peixoto – em Gravataí -, e Sebastião Francisco Chaves – em Porto Alegre. Já então, o admirável aventureiro Cristóvão Pereira de Abreu mapeava em sua prodigiosa memória o território do Rio Grande do Sul. Uma viagem da Colônia do Sacramento a Laguna demorava 70 dias pela costa do mar. O negócio do gado vacum, cavalar e muar para São Paulo e Minas passava a render dividendos fabulosos e Cristóvão Pereira de Abreu se tornaria um homem rico e prestigiado, figura infaltável em qualquer iniciativa da Coroa portuguesa nesta região. Aos 21 anos de idade ele fora o contratador de couros da Colônia do Sacramento, tornando-se tropeiro e soldado por necessidade, sendo o principal artífice da estrada que desde Laguna demandava São Paulo através do Planalto Lajeano. É ele também quem vai abrir a estrada de Lajes a Vacaria, encurtando o caminho das tropas que iam do Rio Grande a Sorocaba. Cristóvão Pereira de Abreu, português de nascimento e gaúcho por vocação, que foi um dos homens mais ricos de seu tempo e que morreu pobre e esquecido na cidade de Rio Grande – que ele ajudara a fundar – foi a figura mais fulgurante na ocupação do território do Rio Grande do Sul. (Fonte: A ocupação do território, in Fagundes, Antonio Augusto. Cartilha de história do Rio Grande do Sul: uma nova visão da formação da terra e do povo gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro-Editor, 1986. p.15-16)

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29/08/2008 18:48:27 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezada Valéria. O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita e a comunicação postada neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Em resposta, informamos-te que é muito provável que o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul disponha de exemplares do jornal O Continentino. O endereço do AHRS é: Memorial do Rio Grande do Sul, Rua Sete de Setembro, 1020, 2º andar, Centro, Porto Alegre-RS, Cep: 90010-191; Fones: (51) 3227.0883 e 3221.0825; horários de funcionamento: 2a Feira - de 14 às 18h; 3a a 6a Feira - 10 às 18h. Assim, sugerimos-te que faças um contato telefônico com aquela instituição, para obteres maiores informações. Desde já desejamos-te sucesso na citada pesquisa genealógica e nessa busca documental-histórica. Um forte abraço a essa prezada visitante do Bombacha Larga!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
29/08/2008 14:58:37 Valéria Sayão Continentino Cesar - Rio de Janeiro / RJ - Brasil
Senhores, estou trabalhando em uma pesquisa genealógica e gostaria de ter acesso a algum exemplar, ou cópia, do jornal O Continentino. Acreditam que posso ter sucesso nesta minha busca? Onde poderei iniciá-la? Muito obrigada pela atenção.
Sítio: *****
01/05/2008 23:37:36 José Itajaú Oleques Teixeira - Brasília / DF - Brasil
Prezado Ivan. Mais uma vez agradecemos a tua importante participação neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Em resposta, esclarecemos-te que este sítio, desde o início dos nossos debates, entendeu muito bem a questão levantada por esse prezado colaborador. E sempre respeitando a tua opinião pessoal, mas não concordando com ela, respondemos-te o seguinte: 1) não consideramos Laytano ou Antonio Augusto Fagundes como “castelhanófobos”; a questão, a nosso ver, é simplória: quem formou território, povo, língua, folclore e tradições regionais de nossos irmãos platinos fora o povo espanhol, junto ao negro e ao índio local; quem formou território, povo, língua, folclore e tradições regionais do Rio Grande do Sul foram os portugueses, açorianos, luso-brasileiros, junto ao negro e ao índio local; as naturais contribuições de um e de outro para os vocabulários regionais não alteram em nada a História da origem dos gaúchos e dos “gauchos” platinos; não fosse assim, seríamos um único país, o que obviamente não se verifica, em que pese as frustradas mas persistentes tentativas de um ávido mas criminoso “mercado mercosur”, no que se refere à proposta de "integração cultural"; 2) se portugueses eram escravocratas, isso não muda a História da ocupação do território correspondente ao hoje Estado do Rio Grande do Sul, iniciada por eles com a fundação da Colônia do Sacramento, em 1680, nas terras do atual Uruguai; 3) perguntamos-te: será que só os portugueses eram escravocratas?; os padres para-militares da Companhia de Jesus, do General espanhol Inácio de Loiola, expulsos de todos os países onde atuaram - os mesmos que combateram a erva-mate dos índios nativos sul-americanos e depois a exploraram comercialmente e que apesar de condenarem (teoricamente, religiosamente) a escravidão do índio também o escravizaram e, ainda, incentivaram a escravidão do negro -, não teriam sido igualmente “escravocratas”?; espanhóis também não teriam dizimado índios em Guairá e depois na região do Tape, em busca da ampliação de territórios, com o fim de dominar a América do Sul?; e nessa região missioneira não teriam praticado um genocídio cultural ao impor horários de trabalho para os índios e alterado a sua cultura original, as suas crenças, em prol dos seus interesses essencialmente militares?; a “velha luta”, Sr. Ivan, dos “interesses econômicos e políticos” entre Portugal e Espanha, que vitimou índios e negros, não continuaria hoje, em pleno século XXI?; outras raças, outros povos, em nome de justificativas como a “democracia”, p. ex., não estariam sendo dizimados por essa mesma e “velha luta”, hoje travada entre “Norte” e “Sul”, “ricos” e “pobres” ou “pobres com riqueza” e “ricos com poder econômico-financeiro-bélico”?; e, ainda, será que parte dos nossos Senadores da República, ao contraporem-se, recentemente, à fiscalização de certas empresas do Estado do Pará, que utilizavam o trabalho escravo nas suas atividades, não representariam, ainda hoje, essa “velha luta” que portugueses e espanhóis viveram naqueles idos dos séculos XVII e XVIII?; 3) entretanto, nada disso pode alterar o fato de que escravocratas espanhóis têm influência predominante na formação do território, do povo, da língua, do folclore e da tradição regional dos “gauchos” platinos; e que escravocratas portugueses e luso-brasileiros têm influência predominante na formação do território, do povo, da língua, do folclore e da tradição regional dos gaúchos sul-rio-grandenses; qualquer coisa diversa dessa inquestionável constatação é de se ser considerada como subversão da História da Formação do Território e do Povo Sul-rio-grandense, de seu folclore e de suas tradições regionais. Saudações Tradicionalistas e um quebracostelas cinchado a esse prezado colaborador do BL!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
30/04/2008 16:14:58 Ivan - Curitiba / PR - Brasil
Talvez eu não tenha me expressado de maneira mais clara e coerente. Mas espero que agora esse sítio possa entender a questão levantada (de forma provocativa mesmo) não só por minha opinião, mas por muitos de minha geração que tiveram por anos seguidos de nossa formação escolar, a história de “conto de fadas” contada pelos livros didáticos que receberam contribuições notadas por “historiadores” mestres como Dante de Laytano e seus seguidores postulas (“castelhanófobos”) como Antonio Augusto Fagundes. Desculpem a esse colaborador, pois não quero inzonar essa matéria, mas sempre que leio texto arremetido sobre a formação genealógica, histórica, cultural e folclórica de qualquer povo (não só o povo Sul-Rio-Grandense) não posso deixar de lembrar que a história é sempre contada por vencedores e não vencidos. Texto que contam como os “Heróicos” bandeirantes, desbravaram as lonjuras enfrentando os ferozes índios e os “invasores” espanhóis. E como os filhos “numerosos” dessas bandeiras tornaram-se valorosos e justos senhores de sesmarias “herdadas” Del Rei de Portugal. É lógico que esse Sitio não reproduziu em nenhum momento essas afirmações no texto (ou em outros). Mas nestas linhas estão sublimadas os velhos ensinamentos dos livros didáticos com sua fantasia da História do Brasil e Moral e Cívica perfeitos. Quase posso ver meu professor falando com galhardia sobre os notáveis comerciantes, estancieiros e aventureiros da Coroa Portuguesa: Domingos de Brito Peixoto, Francisco Pinto Bandeira e Cristóvão Pereira de Abreu. Um bando de escravocratas, assassinos, ladrões e exterminadores de índios, que, endividados com a Coroa, não tiveram outra opção se não a de vasculhar, pilhar e invadir um território que começou a ter valor quando os jesuítas espanhóis, ali junto com os verdadeiros senhores daquelas sesmarias tinham “miles e miles” de cabeças de gado e já exportavam o que produziam nos seus ricos ervais para a “Banda Oriental”, em um comércio que já existia antes de qualquer facínora bandeirante ter invadido o Continente. A velha luta (interesses econômicos e políticos; não é Sr. José Itajaú?) entre Portugal e Espanha vitimou as mãos Indígenas, explorou as dos Negros e fez manchar-se de sangue outras que eram, assim como as do Continente de São Pedro, colônias da Europa. Obrigado a esse Sítio pela indicação, mas a vista do que sei de “Procedência” dispenso mais essa “aula” de história! Gracias a todos.
Sítio: *****
26/04/2008 23:28:02 José Itajaú Oleques Teixeira - Brasília / DF - Brasil
Prezado Ivan. O sítio Bombacha Larga, mais uma vez, agradece a tua honrosa visita, a tua importante participação e o teu comentário postado neste espaço cultural tradicionalista gaúcho. Como sempre, respeitamos o teu entendimento pessoal a respeito do tema abordado na tua missiva. Contudo, diante da nossa responsabilidade perante os demais visitantes deste sítio, somos obrigados a discordar de certas afirmações contidas na tua manifestação. Por primeiro, esclarecemos que este sítio, ao contrário do que foi afirmado por esse prezado missivista, não apresenta “tendências de imposição Luso-européias” nas suas matérias culturais nem “contextos históricos duvidosos com relação à origem da miscigenação e da Cultura do Gaúcho atual”; diversamente do que esse Vivente atribuiu a este sítio, o trabalho aqui desenvolvido revela tão-somente o que as fontes históricas e os estudos científicos cabalmente registram na vasta bibliografia pertinente ao assunto tratado no teu comentário. Por segundo, no nosso entendimento, jamais poderia esse Xiru misturar portugueses e açorianos – formadores do território, do povo gaúcho sul-rio-grandense (este entendido como o povo composto dos interioranos campeiros do Rio Grande do Sul, que originaram a Tradição Gaúcha dos Campeiros do Sul do Brasil e o Folclore Gaúcho-pastoril Sul-brasileiro – com imigrantes alemães e italianos chegados após a Terra Gaúcha Sul-brasileira já ter sido conquistada e mantida como parte do então Brasil-colônia; após ter nascido o gaúcho campeiro sul-rio-grandense, a sua Tradição Campeira Regional Sulista-brasileira e o seu Folclore Campesino. Por terceiro, dizer que “tentar impor esses povos como cerne da formação do povo e da Cultura Gaúcha é muito pretensioso”! Perguntamos-te: que povos? Os imigrantes alemães e italianos? Aonde afirmamos tal disparate? O senso crítico, assim como a ação do articulista, exige um mínimo de fundamento e de coerência, pois distorções conceituais indevidamente atribuídas a quem está sendo questionado maculam a esperada honestidade intelectual de quem deseja apontar outras determinadas e supostas incoerências. Por tudo isso é que indicamos a esse prezado colaborador e aos demais visitantes do Bombacha Larga a leitura do texto A FORMAÇÃO DO ESTADO, DO POVO E DO FOLCLORE DO RS, arquivado na Seção “Educação”, deste sítio, podendo ser acessado pelo seguinte endereço eletrônico: http://www.bombachalarga.com.br/ver_educacao.php?id=8 . Com as Saudações Tradicionalistas, segue um quebra-costelas cinchado a esse prezado colaborador!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
25/04/2008 11:52:57 Ivan - Curitiba / PR - Brasil
Saudações! Lendo o postado nessa matéria (e em muitas), não posso deixar de concordar com as observações de Webber e o escritor Carlos Zatti sobre as tendências de imposição Luso-européias que esse Sítio parece sempre destacar, com muitos contextos históricos duvidosos com relação à origem da miscigenação e da Cultura do Gaúcho atual. Não à como negar que a região que vai da Serra Gaúcha ao litoral sofreu pesada imigração Européia ( Portugueses Açorianos, Alemães e Italianos), mas tentar impor esses povos como cerne da formação do povo e da Cultura Gaúcha é muito pretensioso. Existe sim a contribuição desses povos em certos aspectos (não todos) no que tange a dança, musica e da indumentária do Gaúcho atual. Agora isso é limitado, quando se observa os costumes , lides do campo, folclore e muitas das expressões da língua ( que está muito em uso ainda nos tempos atuais) oriundas dos povos guaraníticos, escravos negros e principalmente Castelhanos( Uruguaios, Argentinos e até mesmo Chilenos). Esses sim são a base da ocupação populacional de mais de metade do território da antiga Província de São Pedro. Meu avó dizia que ; é mais fácil um Gaúcho da banda esquerda do Jacuí se identificar com o “bugre ou um oriental” do que com um “gringo ou açoriano”! Gracias.
Sítio: *****
02/04/2007 10:10:03 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezados visitantes. A título de informação, estamos indicando abaixo um endereço eletrônico onde se pode conhecer um pouco da História e verificar como se deu a colonização luso-brasileira do Rio Grande do Sul: http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp363.asp Saudações Tradicionalistas a todos!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
27/12/2006 09:29:24 Jorge Frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
Desculpem, pois m'esqueci de citar as FONTES BIBLIOGRÁFICAS: ACRI, Edson. O Gaúcho, usos e costumes. Porto Alegre: GRAFOSUL, 1985. ALBECHE, Daysi Lange. Imagens do Gaúcho. História e Mitificação. Porto Alegre: EDPUCRS, 1996. Col. História, 13. ALMEIDA, Jaime (org.). Caminhos da História da América Latina no Brasil - Tendências e contornos de um campo historiográfico. Brasilia: ANPHLAC, 1998. ASSUNÇÃO, Fernando O. Pilchas Criollas - Usos y Costumbres del Gaúcho. 2ª imp. Buenos Aires: Emecé, 1992. __________ Historia del Gaucho - El Gaucho: ser y quehacer. Buenos Aires: Claridad, 1999. AYESTARÁN, Lauro. El Folklore Musical Uruguayo. Montevideo: Arca, 1976. Col. Bolsilibros, nº 28. BORDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: DIFEL, 1989. Col. Memória e Sociedade. __________ A Economia das Trocas Simbólicas. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. Col. Estudos, 20. BOSI, Alfredo (org.). Cultura Brasileira - Temas e situações. São Paulo, Ática, 1987. Série Fundamentos, nº 18. 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Sítio: http://www.paginadogaucho.com.br/musi/chamame3.htm
26/12/2006 14:03:10 Jorge frederico Duarte Webber - Brasília / DF - Brasil
Caros amigos: A introdução tardia do bombo legüero na música regional do Rio Grande do Sul trouxe à tona uma luta subterrânea no ambiente tradicionalista: o instrumento é, até hoje, objeto de controvérsias entre castelhanófobos e pangauchistas, estes defendendo o seu emprego e aqueles acusando-o de ser fruto do contrabando cultural - importação clandestina e ilícita, ato ilegítimo, portanto, sob a sua ótica equivocada. O mesmo acontecia com dois gêneros musicais nascidos argentinos: o chamamé, que até recentemente não era aceito nos concursos da Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG) e suas entidades filiadas, e a “malfadada zamba” (o termo é de Nico Fagundes) de que trata Tau Golim no Apêndice II “Conflito entre o velho e o revolucionariamente novo” da obra A Ideologia do Gauchismo. Nesse apêndice, ele publica a polêmica entre Antônio Augusto Fagundes (poeta, jornalista, apresentador e advogado do Alegrete) e Sérgio Jacaré (músico e compositor, de Santo Ângelo). Defendendo a sua zamba, que diz, em um de seus trechos, “geografia à parte, entre irmãos de arte não há contrabando”, o segundo respondeu ao primeiro que nunca havia estado nas fronteiras do Uruguai e da Argentina com um bloco de notas na mão, dizendo quais ritmos e canções poderiam ou não entrar no Rio Grande. Não podemos deixar suas sábias palavras ao esquecimento: “há, em arte, o cruel conselheiro chamado tempo. Terror dos afoitos. Há, na arte, o universal, o voraz destruidor de fronteiras. Há, em arte, o particular, o desesperado elo entre os homens aparentemente dissociados” (Golim, 1983: 173), no caso: os castelhanos e os brasileiros. Quando o Nico Fagundes disse que não há zamba em São Borja, nem rasguido doble, “apesar desse ritmo de certa forma comum em Corrientes, do outro lado do Rio Uruguai, argumento esse que não socorre a zamba, que diz respeito a Santiago del Estero” (op. cit.: 173), ele, radialista de expressão, esqueceu-se do tremendo papel difusor do rádio, cujas ondas provenientes da Argentina, espalharam, aqui, zambas, chacareras, cuecas, escondidos e outras espécies musicais de lá, além do fato de que já havia rasguidos dobles e zambas escritas em português, por autores rio-grandenses, gravadas em disco no próprio Rio Grande do Sul, deixando de ser algo alheio aos nosso ouvidos. Hoje, ambas espécies já são bastante usadas pelos nossos músicos (sem falar no chamamé, uma das preferidas em qualquer bailongo), maiormente os nativistas. A esse respeito, chama a atenção que essa gurizada de hoje têm uma cultura musical muito vasta, tendo já conhecido o trabalho de mestres como Atahualpa Yupanqui, os Índios Tacunau, os Chalchaleros, Raulito Barboza, Teresa Parodi e outros, nos quais se espelham. Os pangauchistas defendemos que não há delito no contrabando cultural, por se tratar de trocas de bens simbólicos no interior de uma mesma área ou ambiente cultural (o mosaico pampeano - o termo é de minha lavra), na qual a cultura gaúcha é predominante; trata-se de uma prática comum entre povos aparentados e fronteiriços, em permanente situação de contato, não só fricção. Seria, com o perdão da figura de retórica, como recuperar o elo perdido na Batalha de Aljubarrota, onde, após a vitória portuguesa, o Condato Portucalense tornou-se independente do Reino de León e Castela e, a partir dali, as duas coroas ibéricas tomaram caminhos divergentes na luta imperialista pela partilha do Mar Oceano. Além disso, o contrabando ou comércio formiga, desde os primórdios da ocupação dos pampas pelas coroas ibéricas, tem sido um modus vivendi mui comum na região, com profundos reflexos na cultura do Brasil meridional e dos países de Prata, principalmente na literatura e na música regionais. Entre meus amigos músicos do Rio Grande do Sul, é raro quem não conheça a habanera “Camino de los Quileros”, do uruguaio Osiris Rodríguez Castillo, as chamarritas “Del Bagayero”, do “Gallego” Manuel Capella, e “Contrabandista de Frontera”, de Pancho Viera, imortalizada pela dupla uruguaia Los Olimareños, ou o chamamé “Pacotillero”, do argentino Antonio Tarragó Ros, que retratam essa realidade. Informa o próprio Carlos Reverbel: “sempre houve malocas de contrabando, cruzando a fronteira nos dois sentidos, como a do Jango Jorge” (Reverbel, 1986: 107), de quem João Simões Lopes Neto traça o perfil. Também os autores uruguaios Serafín J. García, em Milicos y Contrabandistas, e Javier de Viana, em Yuyos, pintam com muita maestria um quadro realista do que era o contrabando de fronteira no passado. Mas Reverbel reprova o contrabando cultural, ao dizer, de maneira irrefletida, por desconhecer o pangauchismo como sentimento, ideal e bandeira de luta: “Se o repertório musical começa a fraquejar, volta e meia tendo-se de repetir as mesmas marcas, é só atravessar a fronteira e trazer na mala de garupa, de torna-viagem, providencial reforço do folclore rio-platense. Nessa matéria, tudo é várzea, pode-se contrabandear a la farta, como se comia carne na tropeada do Tio Lautério” (Op. cit: 96). O pangauchismo não é uma tendência nova. Ela surgiu com mais força no meio nativista, desde antes da década de 80, e sofreu um impulso grande com o advento da Califórnia da Canção Nativa. Seus primeiros e maiores cultores no meio musical foram os missioneiros (qual Martín Fierro e Sargento Cruz), Noel Guarany e Cenair Maicá, ambos de saudosa memória, Pedro Ortaça e Luís Carlos Borges, nomes da maior expressão no nosso meio. Depois daquela geração, vieram Luís Marenco, Joca Martins, Jari Terres, Fabiano Bacchieri, Roberto Luçardo, César Oliveira e Rogério Melo, Xiruzinho e outros nomes que, cada dia mais, vêm assomando no cenário rio-grandense, repechando e cobrando relevo no panorama musical do nosso Estado, todos ligados à fronteira. O pangauchismo prega a fraternidade entre os gaúchos rio-grandenses e rio-platenses, porque ciente de sua identidade cultural (e de suas diferenças também!), sem, contudo, pretender que haja a unificação ou o amálgama descaracterizador das subculturas luso e hispano-pampeanas de que nos acusa a corrente contrária, os castelhanófobos (o termo é da lavra do erudito Sílvio Júlio), que insistem em uma imensa disparidade entre os gaúchos brasileiros e “castelhanos” com base em teses que não resistem a uma análise mais profunda e séria. O próprio Conde D'Eu, que não era gaúcho (e, por isso mesmo, enxergou a questão com uma lucidez que vários autores não puderam ter - cegos pela disputa entre Nativistas e Tradicionalistas, muitas vezes não viram o óbvio), muito menos pangauchista, percebeu com clareza a nossa identidade cultural, ao viajar pelo Rio Grande do Sul rumo a Uruguaiana, durante a Guerra do Paraguai. Ele registrou em sua obra Viagem Militar ao Rio Grande do Sul: “Para o gaúcho rio-grandense, (mesmo) que um homem tenha nascido à sua porta, na Provincia de Santa Catarina, quer venha da Lapônia, é sempre um baiano. E se, para ele, o gaúcho castelhano é um rival odiado, ao menos considera-o seu igual, pois sempre é gaúcho; ao passo que o baiano é um ser inferior, porque não maneja bolas nem laço, não se tem por ‘centauro’ e não entende ser desonra andar a pé” (Golin, 1983: 20). A castelhanofobia, ou aversão a tudo o que nos vem dos “castelhanos” (argentinos e uruguaios), é a tendência contraria ao pangauchismo, a qual, diferentemente desta última, não aceita a identidade cultural dos gaúchos rio-grandenses e rio-platenses. Essa posição tem sido hegemônica no meio tradicionalista e é defendida por pesquisadores de renome do Rio Grande do Sul, tais como Moysés Vellinho, Souza Doca e outros historiadores de seu tempo, e, atualmente, por Carlos Reverbel, Antônio Augusto Fagundes e outros. A rivalidade é antiga entre nós, mas nunca se negou nossa identidade cultural. Nicolau Dreys, um viajante europeu que esteve no R. G. do S. e na R. O. del U. já observava, em 1817, quando de sua passagem pelo RS: "Nascerá um sentimento de predileção que o Rio-Grandense consagra ao seu país, do contato das populações de língua espanhola que vivem em corpo de nação na sua vizinhança e da rivalidade que sempre tem subsistido entre esses povos limítrofes? A ela talvez, isto é, a essa rivalidade, entretida pelo apaixonado patriotismo dos rio-grandenses, é que se deve a conservação integral do território e de sua existência política, apesar de tantas e tão contínuas guerras que o têm assolado, e da conformidade de vida, de hábitos e de gostos que poderia operar a fusão de todos esses povos" (Dreys: 166-177 - o grifo é meu). Aqui ele atesta, tal qual o Conde D'Eu faria décadas mais tarde, a identidade cultural existente entre os habitantes das campanhas do RS e do Prata, apesar da rivalidade que ele, erroneamente, superestima como fator de conservação do território aos poucos tomado dos castelhanos, nos teatros de operações e nos tribunais arbitrais. Moysés Vellinho afirmava que a confusão sobre a origem do gaúcho brasileiro é culpa da “ligeireza com que se admite e proclama a identidade do nosso gaúcho com o platino”, pois, para ele, são duas tradições antagônicas, dada a permanente situação de fricção, pois suas “relações de vizinhança, durante todo o ciclo da nossa formação, não foram outras que não os incidentes e guerras de fronteira... os homens do Rio Grande e do Prata, já marcados por um antagonismo atávico, seriam lançados uns contra os outros numa violenta reativação de rivalidades imemoriais, herança subjacente de velhas disputas peninsulares” (Nunes, 1984: 218). Mais adiante, na página seguinte, ele afirma: “Pontos de parecença entre os tipos sociais do gaúcho rio-grandense e do gaúcho platino existem, sem dúvida, mas se restringem às peculiaridades decorrentes do mesmo sistema básico de atividade - o pastoreio - desenvolvido num cenário físico semelhante (...). Fora disso, porém, fora desses fatores circunstanciais, suscitadores de ações e reações equivalentes, tudo o mais são traços que caracterizam tipos autônomos, ativamente extremados um ao outro, e chamados a desempenhar um drama de fronteira no qual haviam que atuar como inimigos”. Moysés Vellinho valeu-se de sua grande erudição e rebuscada retórica, mas sua tese carece de mais substância, pois calcada em irrelevantes aspectos ideológicos e não culturais, resvalando ora no determinismo étnico, ora num patriotismo xenófobo lusófilo. Além disso, é falseada no exame das relações comerciais, de compadrio e de trocas de favores que sempre houve nas fronteiras, que nem sempre, ao contrário do que ele afirma, estava em pé de guerra. Desde antes da Fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento (1860), o contrabando entre os espanhóis e os portugueses do Novo Mundo já vinha acontecendo. Essa visão historiográfica de um Rio Grande do Sul acampamento militar, berço de heróis e centauros, tem seu nexo com o romantismo condoreiro e o positivismo que ainda hoje exerce fascínio no âmbito do Tradicionalismo. Carlos Reverbel afirma que são bem acentuadas as diferenças entre o gaúcho rio-grandense e o platino, pois, para ele, nas respectivas composições étnicas, aquele recebeu maior contribuição negra e o segundo indígena. Tirando esse determinismo biológico de lado, que não está de todo errado (mas é um argumento fraco, porque calcado num aspecto do stock), o autor não toca no aspecto mais importante e de maior peso nessa história toda: a cultura. Ele afirma ainda: “Não há identidade entre o gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino. Trata-se de tipos sociais diferenciados, histórica, sociológica e culturalmente” (id., ibid.: 102). O que não dá para imaginar é o que ele entende por isso, mas, certamente, não é científica essa sua idéia de identidade, além do que, toda a sua obra O Gaúcho - Aspectos de sua formação no Rio Grande e no Rio da Prata sua argumentação demonstra o contrário do que afirma a sua tese. Já Antonio Augusto Fagundes atacou o pangauchismo, não sem certa razão, dizendo que hoje “é impossível, ao simples olhar, distinguir a procedência de um conjunto, desses impropriamente chamados ‘folclóricos’. Isso porque tais conjuntos perderam as peculiaridades regionais, que eram autênticas, por um ‘americanismo’ maciço, principalmente imitações platenses, uniformizantes no pior sentido. (...) De que maneira se pode saber quando um conjunto nosso é serrano, missioneiro ou fronteirista? Ou mesmo se é brasileiro, uruguaio ou argentino? Sim, porque as ‘rastras’ (1), os ternos de jaqueta e bombachas, os ‘malambos’ (2) e os ‘bombos legüeros’ (3) aparecem ‘à outrance’ indiferente às corretas coordenadas culturais, errônea visão de pan-gauchismo, fruto de um primarismo cultural que infelizmente reveste a atuação de certos tradicionalistas entre nós” (Fagundes, 1985: 5-6). E, em parte, ele não deixa de ter razão. Mas há que se ter em conta que o traje do gaúcho atual evoluiu a la par de evolução cultural do paisano; se hoje os trajes estão acastelhanados, é sinal evidente de que a castelhanofobia está perdendo espaço, porque o gaúcho brasileiro começa a correr atrás de sua identidade com os gaúchos rio-platenses, tanto tempo negada, escondida ou escamoteada. Mais adiante, ele esbraveja: “À cintura, todos os tipos de faixas que possam encontrar: uruguaias, argentinas (correntinas, pampas, santiaguenhas), paraguaias, chilenas... menos as faixas brasileiras. E gente de municípios onde o gaúcho não usa faixa, tradicionalmente, está ‘ensinando’ o gaúcho autêntico a descaracterizar a sua indumentária. (...) As guaiacas castelhanas, recamadas de moedas e com vistosas ‘rastra’, andam aí na cintura dos líderes e professores de tradicionalismo. Esses tradicionalistas estão entregando aos castelhanos, de graça, o que seus avós defenderam durante quase duzentos anos: a nossa opção e o nosso direito de ser brasileiros. Eles, ao contrário, fazem questão de se passar por uruguaios e argentinos, abandonando aquilo que nos faz iguais a nós mesmos, e, ainda assim, dentro de nossas fronteiras, com diferenças regionais” (Fagundes, 1985: 25). Claro que há excessos, mas são compreensíveis dentro do marco dessa busca pela identidade “perdida”. O erro de Antônio Augusto Fagundes e de outros intelectuais castelhanófobos é pensar a cultura gauchesca rio-grandense como um universo paralelo às culturas gaúchas rio-platenses, sem pontos de intersecção, independentes e dissociados. É não ver que o Rio Grande do Sul é o lugar onde o Brasil (quanto mais vai chegando perto da fronteira) é um tanto Rio da Prata. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que a obra do Dr. Fagundes tem um insofismável valor heurístico, constituindo-se numa necessária, senão obrigatória, fonte de pesquisa no tocante ao item pilchas gaúchas e obra infaltável na biblioteca de todo CTG que se orgulhe de ser uma casa de cultura. Minha divergência com o renomado autor, um dos grandes baluartes do Tradicionalismo, refere-se exclusivamente à sua visão de cultura e não passa daí, pois tenho muito respeito e admiração por este amigo de meu pai (que é, como o Tio Nico, metodista e ex-aluno do IPA) e de sua irmã, a Jornalista Leila Weber. Bueno, mas voltando ao tema, cabem umas perguntas: opção de quem? Ser brasileiro ou continentino não era uma questão de opção nem de direito, isso é uma visão romantizada e ingênua de História, campo fértil para a ideologia tomar conta e criar dogmas e mitos com foros de verdade absoluta. Além disso: Que tipo de bombacha um porto-alegrense pode usar, para parecer de Porto Alegre, sabendo que não existia tal cosa no passado, nesta capital? E outra não menos importante: Quem é que estabelece as coordenadas culturais e quem tem autoridade para dizer quais são corretas e quais não o são? Fica alguém da Seção de Vigilância Cultural do IGTF no Posto Integrado de Fronteira, ou patrulhando de a cavalo as fronteiras secas & molhadas, usando a metáfora de Sérgio Jacaré, decidindo que aporte cultural vizinho pode entrar no país e qual deve levar chumbo? Não entendo o porque de gritar tanto contra o pangauchismo, depois de ter tocado bombo no conjunto “Os Teatinos” (cosa que ele lembra com orgulho em Causos de Galpão) e andar, agora, mais recentemente, com um pala e com as cores e o escudo da Argentina. Além disso, também não entendo o porque de pelear tanto contra o pangauchismo, mas deixar que em seu programa se apresentem os “garotos tchê music”, miles de vezes mais perniciosos com suas roupinhas nada criollas e suas músicas infelizes. Uma vez, lá por 1982 ou 1983, o A. A. Fagundes teve em Brasília, apresentando, de black tie, o espetáculo Rio Grande do Sul, com danças gaúchas estilizadas, que, por sinal, tinha uma mulher fantasiada de gaúcho dançando malambo, ao som de um bombo. Isso sem falar que vive elogiando seu sobrinho Ernesto Fagundes, pelo fato de ser, segundo ele, o melhor tocador bombo do RS. A verdade é que, lá no fundo, o Tio Nico é um baita pangauchista, só que não quer admitir! Senão como poderia ele ter escrito, em Com a Lua na Garupa, aquele belíssimo poema (Tú y las Danzas) sobre as danças argentinas (não é à toa que a chacarera e o gato ele baila até meio escondido!)?! Com respeito ao chiripá “pampa” ou “farroupilha” - peça tida como castelhana somente (considerada, portanto, “contrabando cultural”) -, o próprio Barbosa Lessa, que é, ao lado de Paixão Côrtes, um dos precursores do MTG e seu maior ideólogo, picado por uma grande dose de castelhanofobia, enganou-se quanto a ele, afirmando, com afoiteza, que a referida peça do nosso vestuário era uma indumentária teatral platina. E escreveu, indignado: “Praticamente um século depois de ter sido inventado para os espetáculos circenses do Prata, esse chiripá entraria nas festas tradicionalistas do Rio Grande do Sul, a cargo das chamadas ‘Invernadas Artísticas’. Inclusive nos Campos de Cima da Serra. Inclusive em cidades alemãs e italianas. Sem nenhum elo de ligação cultural com as gerações anteriores do Sul do Brasil. E que causa estranheza ao turista, e ao próprio sul-riograndense, por parecer tão em desacordo com o jeito rural de nosso país, desde o Amazonas, passando pelo Nordeste, até Minas, São Paulo, Paraná e Santa Catarina” (Lessa, 1978: 74 - o grifo é do autor). A leitura equivocada dos escritos do historiador uruguaio Fernando O. Assunção, a maior autoridade no assunto, levaram-no a esta conclusão absurda. E ele erra (de propósito?) quanto ao fato de escamotear que o jeito rural do Rio Grande do Sul ter mais a ver com el yeito (pronuncia-se “xeito”, no Uruguay - é uma apropriação oriental da palavra portuguesa, pois, em espanhol, se usa manera) rural das províncias do Prata, do que com o caipira, o sertanejo e o ribeirinho dos igarapés do Norte do Brasil. A respeito da castelhanofobia, o eminente advogado, jornalista e professor pernambucano Sílvio Júlio escrevera entre colérico e indignado: “Desenvolveu-se ultimamente, em uma banda da intelectualidade historiográfica do Rio Grande do Sul, desmedido e delirante lusitanismo continental e açórico, que seria um tanto perdoável, se não o forjicasse mentirosa e furibunda negação de outros fatores constitutivos da população do gloriosíssimo estado. Ninguém, que seja honesto, negará nunca o papel importante que tiveram portugueses e ilhéus na evolução do povo admirável daqueles rincões fortes e belos Entretanto, injusto, falso, absurdo, ridículo é pretender ocultar que, além de tão fortes influxos, a sociedade gaúcha recebeu, quando se formava, elementos já brasileiros, oriundos de São Paulo e do norte de nosso país, elementos platinos, elementos hispano-americanos, elementos amerígenas etc. Uns direta, outros indiretamente. “Da paixão cega pelo lusitanismo continental e açórico, com exclusão incompreensível das demais forças que entraram na composição da gente sul-rio-grandense, passaram uns escritores a uma espécie de ódio ao resto, sobretudo ao castelhano, ao platino e ao hispano-americano. Por quê? Fato é fato. O que aconteceu, aconteceu. Tolo despautério e vão parece esse erro de torcer e ocultar a verdade. Ela sempre triunfa.” (Nunes, 1984: 219). E esse triunfo encarna-se nessa virada de posição face ao Rio da Prata. Antes, certa historiografia nos ensinava que os castelhanos eram nossos inimigos; hoje, sentamos com eles ao derredor do mesmo fogão, sob a mesma ramada, mateando como irmãos e guitarreando juntos, cantando palavras de paz e cooperação. Sílvio Júlio disse que, a despeito das nossas lutas pela posse das terras do hodierno Rio Grande do Sul, isso não apagou os velhos influxos rio-platenses na evolução do gaúcho brasileiro, os quais se mantêm até o presente, bastante acentuados e inegáveis. “Longe de nós o absurdo de querer cortar os laços atadíssimos que prendem o Rio Grande do Sul ao resto do Brasil, graças à colonização portuguesa. Não cometeríamos nunca tamanho disparate, que testemunharia ignorância da formação étnica, cultural, política e demo-psíquica do gaúcho sul-riograndense” (Julio, 1953: 87). Para ele, é necessário levar em consideração a sui generis situação do Estado como fronteira em movimento, em seu período de formação, fato que até hoje influi em nossa cultura, sem afirmando, no entanto, que o Rio Grande do Sul fosse um todo homogêneo em toda a sua história. Em sua obra, critica, com dura veemência, Walter Spalding, a quem ele gostaria de ver condenado a cem anos de pública ignomínia, por pertencer uma dessas incatalogáveis espécies de bichos destituídos de cérebro que corvejam nas fossas dos esgotos do mundo intelectual, “sujeitos ignaros cuja boçalidade emparelha com sua desfaçatez”, chamando a atenção para o fato de que “os sonâmbulos da filologia e os funâmbulos da ciência vão confundindo tudo e, por não gostarem de espanhóis e hispano-americanos, querem ver arcaísmos lusos e açóricos em formas dos séculos XVIII e XIX que os sul-riograndenses tomaram do gaúcho platino” (op. cit.: 233), pois, segundo ele, uns quiseram aproveitar esses assuntos filológicos em discurseiras nacionalistas e outros em adulações aos governantes lusos que distribuem comendas. Para Sílvio Júlio, infelizmente “a pesquisa imparcial e científica, a comparação justa e humana, os teoremas universais da filosofia estética são desprezados entre nós, ou por ignorância e preguiça, ou por senvergonhismo dos caçadores de empregos e condecorações. “Dói confessá-lo, todavia a cruel verdade é que os pontífices da história e da crítica de nossa literatura se repetem, não melhoram e adulam a patuléia, criando mitos patriotinheiros, incentivando a mentira nacionalista, inchando lagartixas para que pareçam crocodilos” (id. ibid.: 191-192). “Alguns críticos superficiais e patrioteiros já quiseram, inútil e improfiquamente, obscurecer esta verdade. Não adianta. Fato é fato e nada tem com a ciência o bombástico, o perturbador, o aleijado nacionalismo dos cegos e espertalhões. “Os lusófilos de encomenda (e de comenda) grunhem contra a Espanha e a América Espanhola com assanhada sanha; mas erram, mas mentem, mas disparatam... porque em ciência não há sectarismos” (id. ibid.: 150). O grande Manoelito de Ornellas, em obra memorável de 1956 sobre A Gênese do Gaúcho Brasileiro (que todos deveriam ler!), nos traz dados até então pouco ou nada compulsados. “Perguntaremos nós: que foi Portugal até a madrugada sangrenta de Aljubarrota (ocorrida em 1385, entre Alcobaça e Santarém - grifo meu), quando a espada de Nun’Álvares (...) confirmou a soberania política da Dinastia de Avis? “Um condato, o Portucalense de Espanha, que, no século XII, Afonso VI concedeu com as graças e o amor de sua filha Teresa, ao Conde Enrique de Lorena, vassalo de Castilla, em reconhecimento pelo auxílio que este príncipe lhe prestara na conquista de Toledo. “Mas se a espada do Condestável Nun’Álvares cortou, no vale de Aljubarrota, as cabeças espanholas, confirmando a autonomia positiva de seu Reino, não cortou - e é plausível - os liames étnicos e históricos que ligavam ambos os povos às profundas raízes dos séculos. Rompia-se a unidade política da Hispania, mas não se rompia a unidade étnica e cultural da Península Ibérica. “(...) Nesta questão de espanhóis e portugueses, parece-nos demasiadamente estreita e pequena a preocupação de acentuar disparidades antropológicas, porque essas disparidades não existem. Oliveira Martins observou o fenômeno que também diretamente observei na Extremadura: ‘Quem trilhou Portugal e Espanha vizinha observou de certo - ou não teve olhos para ver - uma afinidade incontestável de aspecto e de caráter, um parentesco evidente, entre as populações dos dois lados do Minho, dos dois lados da raia seca do leste. Se esses homens não falassem, ninguém distinguiria duas nações’” (Ornellas, 1956: 21-23). E a nota de rodapé desse parágrafo diz: “Esta tierra lusitana se asemeja mucho a la tierra española. Es la misma raza morena y vivaz, la misma raíz idiomática, la misma formación cultural” (Leopoldo Benítez, Argonautas de la Selva). Nem é preciso dizer mais nada! Mas Ornellas faz questão de frisar que não se procura discutir se o Rio Grande era ou não português, cuja epopéia sobre-humana de conquista reconhece. Mas ele não aceita que se negue a presença de elementos culturais espanhóis na formação psicossocial do gaúcho brasileiro - reconhecimento que não prejudica a nossa integração no complexo ético-cultural português -, o que não autoriza ninguém a nos enquadrar entre os povos castelhanos, porque, segundo ele, “em última análise, a identificação não seria particularmente nossa, nas terras da América, por uma contingência de fronteiras abertas, mas dos próprios portugueses e espanhóis nas terras da Europa” (Op. cit.: 39). Flávio de Campos nos informa, em História Ibérica - Apogeu e Declínio, que a cultura espanhola irradiava-se por toda a Europa e também influenciava as elites portuguesas durante o século XVI, no qual os maiores nomes da cultura lusitana escreviam e falavam castelhano, principalemente durante a União das Coroas Ibéricas (1580 - 1640). E paralelamente à confluência política entre Portugal e Espanha, “ocorria também a integração cultural, num período em que a existência de diferentes costumes e valores não eram, necessariamente, empecilhos para o estabelecimento de potentados absolutistas. Estes formavam-se em função do controle de territórios. As identidades regionais e a língua não delimitavam suas conquistas. A dispersão geográfica combinava-se com a dispersão cultural, fazendo desses impérios verdadeiros mosaicos étnicos. (...) O nacionalismo, tal como o concebemos hoje, era estranho à racionalidade do Antigo Regime, ainda que possam ser identificadas manifestações de sentimentos separatistas e localistas” (Campos, 1997: 29). E há que se levar em conta também que a Catalunha (1640-1652) e a Andaluzia (1641) tentaram separar-se de Castela, a exemplo de Portugal! Uma outra fonte insuspeita, porque alheio à contenda, é o platinist John Charles Chasteen, professor de História da América Latina na Universidade da Carolina do Norte. Em sua obra Héroes a Caballo - Los hermanos Saravia y su frontera insurgente, ele fornece uma radiografia do que era a faixa fronteiriça entre o Brasil e o Uruguai no Séc. XIX, mostrando que o ciclo revolucionário protagonizado pelos irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva só pode ser explicado a partir de uma realidade social, política, econômica e, sobretudo, cultural, que configura o que é chamado, por antonomásia, de fronteira. Ele demonstra claramente, que não havia só rivalidade naquela faixa, havia também alianças políticas e militares, laços de compadrio, casamentos e outras formas de associação, inclusive mercantis e empresas ilícitas dedicadas ao contrabando. É interessante ver como nossos intelectuais, ainda dominados pelo temor à castelhanofobia, deixam de tratar o tema das nossas fronteiras. Como já o frisou bem Manoelito de Ornellas, não se trata de negar a lusitanidade do torrão “gauchesco e brasileiro” (como reza o Canto Alegretense, dos irmãos “Bagre” e “Nico” Fagundes) desse país-continente, que nos identifica com nossos irmãos brasileiros, mas de chamar a atenção para uma peculiaridade de nossa cultura: a de ser ponto de contato entre as culturas ibéricas, de ser o lugar onde o Brasil também é um pouco Argentina e outro pouco Uruguay, sem esquecer do Paraguay colonial das Missões, justamente por causa da parcela hispano-americana e guarani da nossa formação sócio-histórica, que nos identifica com os nossos irmãos castelhanos. Se, hoje, há excessos de “castelhanices” no meio tradicionalista, frutos de uma “errônea visão de pangauchismo ou primarismo cultural”, a culpa é dos castelhanófobos que por anos mentiram ou omitiram-nos a verdade sobre a nossa identidade cultural. O vazio intelectual, de que até hoje o MTG se ressente, é culpa da decisão de popularizar o movimento, sem transformar os CTGs em espaço de ensino e pesquisa, que critiquei em um texto meu de 1994. Mas, independente desses debates acalorados entre Castelhanófobos & Pangauchistas, Tradicionalistas & Nativistas, a identidade cultural entre os gaúchos brasileiros e castelhanos (argentinos e uruguayos) vai sendo moldada com o correr dos anos, pois a cultura não é um pântano de águas paradas, mas um manso arroio que não cessa de passar. E, hoje, com o sucesso crescente dos cantores nativistas citados no começo deste ensaio, a maior disponibilização, via internet, da literatura gauchesca rio-platense e dos temas do folklore argentino e do canto popular uruguaio, e a crescente intelectualização dos jovens gauchistas, a castelhanofobia começa a perder espaço mesmo dentro dos CTGs que não estão situados em zonas de fronteira, como reação espontânea a tantos anos de dominação castelhanófoba. Um abraço bem cinchado a todos... El Chango Duarte.
Sítio: *****
20/12/2006 22:42:44 José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF - Brasil
Prezado Zatti. Em resposta, e diante das notórias deficiências na formação tradicionalista gaúcha, pedimos vênia para discordar e melhor esclarecer aos nossos prezados visitantes, especialmente à juventude tradicionalista, sobre alguns pontos que consideramos de vital importância para um razoável entendimento da questão levantada. Primeiramente, o texto não trata especificamente da formação do gauchismo nem da cultura pampeana, mas tão-somente e apenas, de forma bem restrita, de um dos capítulos da formação do Estado do Rio Grande do Sul. Posicionamento relativo à formação do povo gaúcho já foi firmado na matéria publicada no dia 27.11.2006, sob o título de Assim se fez o Gaúcho Brasileiro, mantida nos arquivos deste espaço cultural. As informações veiculadas neste sítio são responsáveis e abalizadas em trabalhos científicos de renomados folcloristas e historiadores gaúchos, do porte de Antonio Augusto Fagundes, folclorista veterano, professor de Folclore com trabalhos premiados como poeta, compositor e ficcionista; com formação na área do Direito e das Ciências Sociais, Pós-Graduado em História do RS e Mestre em Antropologia Social pela UFRGS, e Dante de Laytano, professor na Faculdade de Filosofia da PUC-RS e na UFRGS; folclorista, pesquisador e escritor condecorado; tendo sido Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras e da Acadamia Brasileira de História, com participação em outras inúmeras instituições culturais. Portanto, o Bombacha Larga não se julga, de maneira alguma, mal acompanhado em matéria de História do Rio Grande do Sul. E, para refutar a vã tentativa de desmerecer o trabalho realizado neste sítio cultural, reafirmamos, como já ficou demonstrado na matéria anterior indicada, que a etnia espanhola não pode ser considerada como um Etnia Essencial nem na formação do Povo Gaúcho Sul-Rio-Grandense nem na de seu folclore. As Missões Jesuíticas, espanholas, não marcaram o início da ocupação do Estado, pois aquele o terriório que ocuparam era espanhol, só verdadeiramente anexado ao Brasil no ano de 1801, cujo número de Jesuítas era extremamente reduzido, comparado com os milhares de índios Donos da Terra Sul-brasileira, conquistada do Reino de Espanha e, por conseguinte, dos hispano-platinos; dessa forma, as referidas Missões Jesuíticas não integraram a formação do território sul-rio-grandense. Quem alastrou as divisas, enviou expedições, ocupou e garantiu a soberania sobre todo o território do hoje Estado do Rio Grande do Sul foram, sem sombra de dúvidas, os portugueses. Por isso o nosso folclore é, na sua grande maioria, de origem portuguesa e lusitana. O português, o índio e o negro, como já foi dito na referida matéria anterior, é que são os três "cepos da formação" do território e do folclore do povo sul-rio-grandense. Antes do espanhol, vem ainda as Etnias Diversificadas, quais sejam o Luso-açoriano - o português que foi para os Açores e veio para o Brasil - e o Luso-brasileiro, isto é, o português do Brasil miscegenado com índio e negro. Só depois é que entra o Hispano-rio-platense como uma das Etnias Secundárias. Como bem nos ensina Dante de Laytano, com relação aos espanhóis-castelhanos, no capítulo O Legado e as Etnias, da obra Folclore do Rio Grande do Sul: levantamento dos costumes e tradições gaúchas, "a influência espanhola no Rio Grande do Sul tem sido exagerada por alguns pesquisadores, principalmente alguns do princípio deste século (leia-se séc. XX) que se fixaram na idéia geográfica e na força da fronteira como veículos transmissores desse contágio. Interessante é que não ocorreu a tais autores que o sistema de fronteira viva ou a contingência geográfica seriam fatores inter-relacionados e que também do lado de cá os luso-brasileiros deitavam suas raízes sobre as pátrias vizinhas. o que de fato aconteceu". O espanhol, pelo contrário, disputava a mesma Terra e cultivava aos portugueses a mesma hostilidade dos tempos do chamado descobrimento da América. E, mesmo na vigência dos 60 anos do período felipino, de 1580 a 1640, quando uniram-se as coroas de Portugal e Espanha, essas rivalidades persistiram. Contrariamente ao que foi colocado, a ocupação do território sul-rio-grandense, já nessa época, deu-se do Leste para o Oeste, quando os bandeirantes, que tinham aproveitado a união das coroas para violar o sertão no rumo do Oeste e do Sul, alongando a área de expansão luso-brasileira quase sem oposição castelhana, orgulhando-se, depois, com a restauração da Monarquia Porguguesa, ao readquirirem as suas nacionalidades portuguesas. Durante a formação do Rio Grande mais de 50% de seus habitantes eram ou portugueses ou descendentes de portugueses, e outra grande parcela era de índios e negros. Por consequência, espanhóis-castelhanos eram de número bem reduzido. É preciso que relembremos, também, nas palavras de Salvador Lamberty, que o território do Rio Grande do Sul foi conquistado e anexado ao Brasil a cascos de cavalos, lutando justamente contra defensores e invasores castelhanos. Lembremos, ainda, que já em 19 de dezembro de 1737 era fundada a Comandância Militar de Rio Grande, por José da Silva Paes, com o fim de implementar a povoação oficial de toda a Província que surgia, para combater os missioneiros (espanhóis) e defender o território dos países do Prata. E, 15 anos depois, em 1752, o governo português enviou os açorianos, visando povoar a então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Agricultores, pescadores, inicialmente, instalaram-se no litoral sul-rio-grandense, dando início a muitos dos usos e costumes gaúchos tradicionais de hoje. Sesmarias foram doadas a militares e à muita gente da Corte. Os açorianos receberam uma colônia de 25 hectares para cada casal. Passaram a explorar a criação de gado; criaram as charqueadas no litoral, na região onde fica, hoje, Palmares do Sul, Mostardas e redondezas. Com as Missões dominadas e seus líderes mortos por forças portuguesas, Santos Pedroso e Borges do Canto, em 1801, com poucos homens, tomaram o território para os portugueses; e apesar dos esforços posteriores dos castelhanos para recuperá-las, permaneceram para sempre rio-grandenses, como bem nos mostra Nico Fagundes, na sua Cartilha da História do Rio Grande do Sul. As charqueadas já proliferavam às margens do Rio Jacuí e já se carneava muito gado e se produzia muito charque. E é nessa lida campeira que começa a fixação de usos e costumes próprios de um povo forjado no trabalho duro e nas lutas para garantir e manter o seu espaço territorial. Não reconhecer o relevante trabalho desenvolvido por renomados historiadores ou é má-fé, bairrismo ou puro desconhecimento da verdadeira História do Estado e do Povo do Rio Grande do Sul. Por isso é que damos tanta importância à aquisição do conhecimento histórico na formação do cidadão, especialmente do tradicionalista gaúcho brasileiro. Sem ele não poderá haver consciência de valorização, de preservação da cultura regional e das origens do Povo Gaucho Sul-brasileiro! Para quem interessar possa, até o último dia de existência deste espaço cultural tradicionalista gaúcho o nosso compromisso continuará sendo com a verdade "verdadeiramente" histórica, nunca com aquela que beneficia apenas índoles pessoais ou teorias tendenciosas e seus interesses escusos, mas a resultante de profundos estudos e pesquisas de quem muito contribuiu para o conhecimento cultural no Estado Sulino, como os beneméritos Dante de Laytano, Antonio Augusto Fagundes, Salvador Ferrando Lamberty e tantos outros estudiosos dos fatos históricos e sociológico-tradicionais do Estado do Rio Grande do Sul! Saudações!
Sítio: http://www.bombachalarga.com.br
20/12/2006 11:50:02 Carlos Zatti - Curitiba / PR - Brasil
O escrito tem tendência lusitaneirense e segue a historiografia de certa eleite com a intenção de reduzir, ou escamotear, o processo de formação do gauchismo, notadamente ao cultivo da cultura pampeana que, tem muita influência espanhora. Não é por nada que se diz que o RS é diferente dos demais Estados, por ter sido o único a ser colonizados do Oeste para o Leste. Ou isso não vale mais nada? - Português, índio, espanhol e africano são os quatro cepos da formação gaúcha, fora isso é alucinação sem compromisso com a verdade. Carlos Zatti Escritor
Sítio: *****
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