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Os Gaudérios:
Rancho do Céu,
de Darcy da Silva Fagundes

 

27/12/2006 06:26:34
OS SAGRADOS VALORES DE UMA TRADIÇÃO!
 
Tradição: herança cultural-regionalista retransmitida de pais para filhos,
pelo tempo, de forma espontânea, preservada e contínua!
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Juvêncio vestira a sua melhor pilcha, naquele domingo de sol. Precisava cumprir sua obrigação de parente e fazer outra visita ao mais velho dos irmãos, acamado por conta daquela doença traiçoeira que, na maioria das vezes, se achega sem aviso algum, para sofrenar um vivente guapo e destemido como era seu mano Cesário. O velho Juvêncio seguia na companhia de um dos filhos menores, igualmente pilchado à maneira gaúcha sul-rio-grandense. Aristeu, entretanto, ainda um piazito, acompanhava o pai visivelmente constrangido, como se estivesse indo de a cabresto. E não era por acaso que ele se parava acabrunhado ao sair com Seu Juvêncio. Desde o primeiro dia em que chegara de muda na cidade que ouvia a discriminação daquela gurizada povoeira. Taxado de grosso, por usar bombachas como o pai, o guri passou a ter vergonha daquela calça larga que ele tanto se orgulhara de vestir lá na campanha, desde os primeiros anos de sua vida. Mas, por força das circunstâncias, agora o que sentia em relação à indumentária, sua e de seu pai, e àquele gosto do velho de tocar sua cordeona de oito baixos para todos que o visitassem, era só vergonha e acanhamento. Se pudesse já estaria vestindo pantalonas, como toda a piazada da vizinhança, e ouvindo os ritmos dos magrinhos da cidade. O tempo passou, e com ele cresceu o guri do Seu Juvêncio e o seu preconceito contra o traje típico regionalista-tradicional dos gaúchos campeiros, interioranos, do Pampa do Rio Grande do Sul. Depois, com a adolescência, chegara a rebeldia que acometia a todos os demais piás de sua idade, campeiros ou citadinos. Nada mais, então, fora capaz de sujeitar sua revolta; nada mais o fizera passear com seu velho, naqueles trajes de grosso. Sua vergonha transformara-se, com o tempo, em aversão e desprezo pela roupa típica de gaúcho sul-rio-grandense e pela figura de seu genitor. Suas transformações, próprias da passagem do estado de criança para o de mocito, não o permitiram analisar melhor a situação. Mais tarde, já moço, e mediante um grande esforço do pai Juvêncio, o jovem Aristeu formou-se e ganhou o mundo. Aproveitando a oportunidade oferecida por uma empresa multinacional, mudou-se para a Inglaterra. E alguns anos se passaram, sem que o filho de Seu Juvêncio pudesse visitar seus familiares. Um dia, porém, ao ver o Príncipe Charles em uma pomposa solenidade usando o kilt escocês - um saiote curto e xadrez -, ao som de gaitas de fole, valorizando a tradição dos antigos clãs e firmando a identidade cultural de seus ancestrais escoceses, naquele mesmo instante Aristeu entendeu as razões de o seu pai ter ostentado com orgulho a sua larga bombacha, mesmo depois de haver deixado o campo. Pialado pela saudade e preso pelo sovéu da consciência, o filho de Juvêncio ouviu, comovido, a ordem emanada de seu coração. Teria de partir o mais rapidamente possível, e ter com o seu velho pai. Com ele queria novamente poder passear pelas mesmas ruas da pequena cidade da Fronteira Gaúcha Sul-rio-grandense. Desta vez, no entanto, pretendia apresentar-se ao seu lado, pilchado de bota, bombacha, guaiaca, lenço e chapéu. Era a maneira que encontrara de pedir-lhe desculpas por não ter compreendido os motivos que o levavam a manter-se fiel às antigas tradições de seus antepassados pampeanos do Rio Grande do Sul. Por toda a viagem de volta fora relembrando sua infância feliz de piazito campeiro. Percebeu o quanto foram importantes os ensinamentos de seu velho Juvêncio, para a formação do seu caráter e da sua personalidade. Mesmo homem rude do interior, os valores que aquele campeiro gaúcho repassara aos filhos foram os mesmos que ele recebera de seu pai: dignidade e trabalho, honra e decência, honestidade e respeito. Porém, na chegada ao seu destino Aristeu soube que seu pai não mais se encontrava fisicamente neste mundo terreno. Há três dias havia partido rumo à Grande Querência do Céu, levando consigo o orgulho de gaúcho e de homem de bem, de princípios, direito. E partiu com aquela mesma indumentária que por toda a sua vida usara. Em um outro dia ensolarado, pilchado com sua bombacha, Juvêncio havia sido conduzido até a última morada de seu corpo físico. O filho, após inteirar-se do triste acontecido, trajou-se com uma das indumentárias que recebera de herança de seu velho, e percorreu, a passos lentos e com a aba do chapéu quebrada por sobre os olhos, as mesmas ruas em que nos tempos de piá acompanhara aquele que, com exemplos de pai, lhe mostrara a importância e o valor que tem a tradição para um gaúcho daquele Estado Garrão-sul do Brasil. E ali, entre recordações e remorsos, em um dia mais nublado, no tempo e na consciência, Aristeu sentira, a cada pedra e a cada esquina, os calafrios provocados por um desconfortável sentimento de culpa. Sentira que desprezara os sagrados valores de uma rica tradição e a identidade cultural regionalista de todos os Gaúchos Campeiros de seu Rio Grande do Sul; os usos e os costumes regionalista-tradicionais do velho Juvêncio: gaúcho, tradicionalista, e, agora, seu saudoso e finado pai!

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27/12/2006 09:51:22 josé valmor moura de oliveira - São Valério TO / TO - Brasil
Buenos dias, companheiros! Alegro-me muito de receber os chasques e saber que ainda existem homens que se preocupam em preservar as tradições, apesar dos exemplos não muito simpáticos que andam por aí. Mas Deus, às vezes, escolhe um caminho com um pouco mais de espinhos para nos mostrar o caminho certo. Eu moro no Tocantins, já há 25 anos. Sou gaúcho de orgulho e procuro sempre cultivar os antigos costumes de nossas tradições. Agora, recentemente, há uns dois meses atrás, eu estive viajando; fui até Montevidéo, no Uruguai, e me decepecionei muito quando passei pelo RS e não vi nenhum gaúcho de bombacha. Aliás, só vi um, em Sant'ana do Livramento, que trajava a bombacha. Até quando vi disse pros meus companheiros: ao menos um autêntico gaúcho! Usava bombacha, chinelo campeiro, boina, lenço. Mas quando chegou perto, outra decepção: estava usando brinco! Então, nós, que somos gaúchos tradicionalistas, temos que fazer alguma coisa e urgente, senão correremos o risco de vermos a Tradição de maior orgulho do País ir parar nas orelhas desses bundas-moles que usam brinco...
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